Amigos, poesia de Yde Blumenschein

3 06 2012

Ostende, s/d

Jean Jacques René (França, 1943)

óleo sobre tela, 65 x 81 cm

Coleção Particular

Aos meus amigos

Ide Blumenschein

Não sei como expressar o sentimento

De gratidão imensa que me invade…

Parece até um dos sonhos que eu invento

Essas provas de afeto e de amizade,

Que de Vocês recebo. É um monumento

A sua indiscutível lealdade:

Na jornada que há tanto tempo enfrento,

Não pode haver maior felicidade.

Que essa de ter amigos como os tenho,

E que, de conservar, tanto me empenho,

Feliz, agradecida, emocionada.

Não sei como dizer … Mas, essas provas

De bem querer são esperanças novas,

Semeando roserais em minha estrada.

Yde Schloenbach Blumenschein [ pseudônimos: Colombina e Paula Brasil] nasceu em São Paulo em 1882. Fez seus estudos tanto no Brasil como na Alemanha. Falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano. Poeta, cronista teve seus poemas publicados em A Tribuna, de Santos. Colaborou em revistas e jornais como O Malho, Fon-Fon, Careta e Jornal das Moças. Faleceu em 1963.

Obras:

Sândalo, poesia, 1941

Distância, poesia, 1947

Versos em lá menor, poesia, 1949

Lampeão de gás, poesia, 1950

Gratidão, poesia, 1954

Manto de Arlequim,poesia, 1956

Inverno em flor, poesia, 1959





Fábula: A rã e o boi, texto de Monteiro Lobato

2 06 2012

A rã e o boi, ilustração de Bernard Salomon, 1547

A rã e o boi

Monteiro Lobato

Tomavam sol à beira dum brejo uma rã e uma saracura.  Nisto chegou um boi, que vinha para o bebedouro.

— Quer ver — disse a rã — como fico do tamanho deste animal?

— Impossível, rãzinha. Cada qual como Deus o fez.

— Pois olha lá! — retorquiu a rã estufando-se toda. Não estou “quase” igual a ele?

— Capaz!  Falta muito amiga.

A rã estufou-se mais um bocado.

— E agora?

— Longe ainda!…

A rã faz novo esforço.

— E agora?

— Que esperança!…

A rã, concentrando todas as forças, engoliu mais ar e foi-se estufando, estufando, até que PLAF! Rebentou como um balãozinho de elástico.

O boi que tinha acabado de beber lançou um olhar de filósofo sobre a rã moribunda e disse:

Quem nasce para dez réis não chega a vintém.

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

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Bernard Salomon — Foi um pintor, desenhista e gravador francês.  Nasceu  por volta de 1508 em Lyon e faleceu próximo a 1561. Foi um grande ilustrador, seus trabalho ulusttrando  Fábulas de Esopo, em 1551; Histórias ilustradas da Bíblia, em 1553, 1555;  Ilustrações do Novo Testamento, em 1556;  Metamorfose de Ovídio, em 1557, tornaram-se padrões para ilustrações posteriores não só na França mas em toda a Europa.





Quadrinha dos bons amigos

2 06 2012

Bons amigos, ilustração de Ann Anderson.

Amigo, bênção divina…

Mão que alivia e afaga,

voz que critica e ensina,

chama que nunca se apaga.

(Carvalho Branco)





Quadrinha da árvore

1 06 2012

Ilustração anônima.

Sem cobrar qualquer metragem,

pela sombra ou pelos ninhos,

a árvore dá hospedagem

aos homens e aos passarinhos…

(Ademar Macedo)





Quadrinha da minha infância

31 05 2012

Brincadeiras de criança, ilustração Anton Pieck.

Dos meus tempos mais risonhos

descubro, agora, os segredos:

– cabia um mundo de sonhos

no meu mundo de brinquedos!

(João Freire Filho)





Quadrinha da paz interior

30 05 2012

Até logo, ilustração de Marcel Marlier de 1953.

Caminhei por longa estrada

em busca de um pouso amigo.

Descobri na caminhada:

descanso é ter paz consigo.

(Miguel J. Malty)





Quadrinha do destino humano

29 05 2012

Tio Patinhas está apaixonado, ilustração Walt Disney.

Há nos destinos humanos
diferenças capitais.
Se muito sofre quem ama
quem não ama sofre mais.


(Osório Dutra)





Berço, poesia de Bernardino Lopes

29 05 2012

O tropeiro na escadinha de São Chico de Baixo, década de 1980

Alberto Braga (Brasil, ?-?)

óleo sobre tela, 50 x 40 cm

Berço

B. Lopes

Recordo: um lago verde e uma igrejinha,

Um sino, um rio, um pontilhão, e um carro

De três juntas bovinas que ia e vinha

Rinchando alegre, carregando barro.

Havia a escola, que era azul e tinha

Um mestre mau, de assustador pigarro…

(Meu Deus! que é isto? que emoção a minha

Quando essas cousas tão singelas narro?)

Seu Alexandre um bom velhinho rico

Que hospedara a Princesa; o tico-tico

Que me acordava de manhã, e a serra…

Com o seu nome de amor Boa Esperança,

Eis tudo quanto guardo na lembrança

Da minha pobre e pequenina terra!

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968.

Bernardino da Costa Lopes, pseudônimo B. Lopes (Rio Bonito, RJ, 1859 — RJ,1916) foi um poeta brasileiro de diferentes tendências literárias na passagem do século XIX ao XX.  Nasceu em Boa Esperança, município de Rio Bonito, na província do Rio de Janeiro a 19 de janeiro de 1859. Vindo de família pobre, iniciou sua vida como caixeiro e após muitos sacrifícios conseguiu estudar no campo das humanidades.  No Rio de Janeiro tomou a profissão de jornalista. Foi funcionário do Correio Geral.  Membro da boemia intelectual carioca foi um poeta de transição do fim do romantismo.  Ficou muito conhecido pelos seus sonetos parnasianos.  Tem grande afinidade com os simbolistas.

Obras:

Cromos (1881) – 2ª Edição 1896

Pizzicatos – “Comédia Elegante” (1886)

D. Carmen, (1894)

Brasões (1895)

Sinhá Flor (1899)

Val de Lírios (1900)

Helenos (1901)

Plumário (1905)

Poesias Completas (1945)





Quadrinha dos erros de português

28 05 2012

Pato Donald lê carta, ilustração Walt Disney.

As suas cartas, Senhora,

releio-as de quando em vez,

mas nelas só vejo agora

os erros de português…

(Paulo Emílio Pinto)





Uma encontro com Chaia Zisman

28 05 2012

Hilary at Kalkan, 2010

Austen Pinkerton (Inglaterra, contemporâneo)

Acrílica sobre tela, 30 x 40 cm

Em um apartamento do Rio de Janeiro com vista para um dos pontos mais conhecidos pelos turistas, a Praça General Osório em Ipanema, a escritora Chaia Zisman recebeu o nosso grupo de leitura [Papa-livros] para um bate-papo numa tarde ensolarada de maio.  Esta foi uma ocasião especial.  Não é sempre que temos a oportunidade de nos encontrar, face a face, pergunta a pergunta, com alguém cujo livro lemos e discutimos nos nossos encontros.  O Espelho de Chaia Zisman havia sido a nossa leitura de abril deste ano, e por causa do contexto histórico esse romance  havia atiçado a nossa curiosidade sobre a pesquisa feita pela escritora. A parte passada no primeiro século depois do descobrimento havia nos levado a uma longa conversa sobre a escassez de informações sobre a época e queríamos conhecer mais da escritora que nos familiarizara com os primórdios da nossa história.

A medida que conversamos com  a escritora  descobrimos que sua habilidade literária corre paralela à expressão artística através das artes plásticas.  Em ambas sua sensibilidade é notável.  Formada em Direito pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro, Chaia Zisman depois de anos de prática desistiu da carreira de advogada em parte porque sua veia artística não podia mais ser calada, não podia mais ser contida.  Dedicou-se às artes tendo frequentado o Instituto de Artes Visuais do Parque Lage,  aqui no Rio de Janeiro.  Seus quadros a óleo na sala de estar do apartamento dão testemunho à habilidade da pintora de veia expressionista, senhora de uma palheta vibrante e alegre.  Mas, surpreendentes foram suas xilogravuras policromadas que alargam, dão espaço, empurram os limites da gravura em madeira, frequentemente caracterizados por tonalidades de grande contraste.  As gravuras de Chaia Zisman  têm nuances de cor e de traçado, de grande sofisticação e beleza.

No entanto, a vida interferiu.  Chaia precisou se desfazer do espaço que dedicara ao seu ateliê, enquanto demandas familiares requisitaram sua total atenção por um longo período.   Como passatempo, nessa época, resolveu escrever alguns causos de família, agrupados numa publicação privada para dar de presente a todos.  Foram 100 cópias.  Só.  Mas uma acabou nas mãos de um editor, que reconhecendo o valor de uma narrativa bem feita, tornou esse passatempo no primeiro livro da escritora. Lá se foram mais 3.000 cópias.  Iniciava-se assim, auspiciosamente, a escritora de O Espelho.

A saga da família do judeu português Emanuel Oliveira ,que começa na Europa antes do Brasil ser descoberto, mas continua aqui no Brasil pelas  gerações seguintes até o século XX, é narrada com riqueza de detalhes e  grande dinâmica.  O romance, publicado em 2006, foi até o momento, a última aventura literária da escritora carioca, que consultou de tudo um pouco, de publicações estrangeiras a teses de doutoramento para poder situar o mais corretamente possível seus personagens em situações verossímeis sem trair os fatos históricos. O fio condutor dessa  aventura, que compreende cinco séculos, são os espelhos ricamente adornados, verdadeiras joias trabalhadas com pedras preciosas que Emanuel dá às suas três filhas.  Acompanhamos os destinos desses espelhos e quando chegamos à costa brasileira, começarmos a refletir sobre as fortes raízes de origem cristã-nova e judaica da cultura brasileira.

Chaia Zisman

Quando perguntada sobre seu próximo romance, Chaia Zisman nos disse que “ele está pronto, no computador, mas ainda não sei se irei publicá-lo”.  O segredo é a alma do negócio em qualquer lugar do mundo, por isso esperamos que o novo romance chegue às livrarias em breve.  Fãs da ficção de Chaia Zisman aqui no Brasil e no exterior nós sabemos que existem às centenas.  A própria autora se surpreendeu com a boa recepção que teve nas universidades americanas.  Agora só nos resta esperar.  Enquanto o fazemos podemos nos entreter e aprender muito também com seus outros romances históricos: Além do Tempo de 1997 ou Estórias que fazem história, de 1993, que como sua mais recente obra também vêm repletos de vinhetas retratando não só o comportamento social de uma época como verdadeiros sketches psicológicos de personagens, ricos o suficiente para dar asas à imaginação de quem os lê, como se fossem sementes de futuros contos ou histórias.

A gentileza e tranquilidade com que Chaia Zisman nos recebeu, acompanhada de sua cadelinha Vida,  nos deixou gratos.  E a maneira singela como nos contou de sua vida como artista plástica e escritora serviram para mostrar que de fato a escritora demonstra no seus dia a dia as raízes profundas da tradição oral de contar histórias da qual a cultura judaica tanto precisou se valer para manter a identidade cultural através dos séculos.  Essa habilidade com a palavra continua viva, com passagens bastante interessantes.  Lembram-nos que é sempre um prazer conversar com pessoa tão versada.  Na saída desejamos que esse tenha sido apenas um até logo, e não um adeus; que voltaremos em breve para conversar sobre seu novo romance.