Natal — poema de Sabino de Campos

5 12 2012

Sagrada Família

Il Pesarese, Simone Cantarini (Itália, 1612-1648)

óleo sobre tela, 72 x 55 cm

Museu do Prado, Madri

Natal

Sabino de Campos

Natal.  É noite silente.

Numa pobre manjedoura,

Maria, divinamente,

No venttre um Deus entesoura.

José murmura, almo e crente,

Uma prece.  Do Alto, loura

Réstia de luz, docemente,

A face calma lhe doura.

Para reger o destino

Do mundo, nasce o Menino

Entre glórias na amplidão.

Os galos cantam nos prados

E seus clarins reiterados

Ecoam na solidão!

(Versos da meninice)

Cachoeira, Ba

Em: Natureza, Sabino de Campos, Rio de Janeiro, Pongetti, 1960





Quadrinha do diploma

4 12 2012

formatura, R. John Holmgren (1897-1963)

Formatura, ilustração de R. John Holmgren (1897-1963).

Qual imagem, na redoma,

que sem a fé jamais cura,

de nada vale um diploma

sem o primor da cultura.

(Alberto Fernando Bastos)





Trova da vida

3 12 2012

barco no rio, blanche wright
Todos no rio, ilustração de Blanche Fisher Wright.

 

 

A vida é barco sem remos

em mar sombrio a vagar.

Vamos nele e não sabemos

a que porto vamos dar.

(Álvaro Faria)





Natal — poema de Olavo Bilac

3 12 2012

Adoração ao Menino Jesus, 1500

Ambrigui Bergognone (Itália, 1453-1523)

Natal

Olavo Bilac

Jesus nasceu. Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria…


Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
No berço humilde em que nasceu Jesus…
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.


Sobre a palha, risonho, e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino-Jesus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.


Não nasceu entre pompas reluzentes;
Na humildade e na paz deste lugar,
Assim que abriu os olhos inocentes
Foi para os pobres seu primeiro olhar.


No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vem cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.


Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo,
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!


Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia…
Salve Deus da Humildade e da Pobreza
Nascido numa pobre estrebaria.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano — pequena antologia sobre a terra, o homem e a cultura do estado de São Paulo, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954

Vocabulário:

abóbada — teto arqueado

infinita — sem fim

oferendas — presentes

palpita — agita-se

pompa — luxo, riqueza

reluzente — brilhante

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Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos.  Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo.  Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome.  Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.  Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro.

Obras:

Poesias (1888 )

Crônicas e novelas (1894)

Crítica e fantasia (1904)

Conferências literárias (1906)

Dicionário de rimas (1913)

Tratado de versificação (1910)

Ironia e piedade, crônicas (1916)

Tarde (1919); poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957) e obras didáticas





Quadrinha do suspiro

2 12 2012

pensando3

Dona Marocas suspira, ilustração de Maurício de Sousa.

O suspiro é na verdade

um mensageiro cansado

que vai cheio de saudade

correndo atrás do passado.

(Antônio Bittencourt)





Crônica de Natal, Marques Rebelo, extraído do romance A mudança

2 12 2012

Cartão de Natal, 1990s.

24 de dezembro [1941]

A árvore, embora atarracada, não ocupa muito espaço – um canto de sala, o canto menos acessível, do qual foi removido o musgoso vaso com espadas-de-são-jorge, que alem de decorativas, segundo Felicidade, nos protegem do mau-olhado. O chacareiro queria um dinheirão por um pinheirinho de seis palmos, Luísa descalçou a bota na loja de novidades. Trouxe-a embrulhada em papel pardo como volumosa sombrinha, e armá-la foi uma operação fácil e divertida.

— Veja! – e Luísa exibiu-a, eriçada como um imenso paliteiro.

Meus olhos se anuviaram – as invenções deviam ter limites. A imitação infunde desprezo, mudo desprezo, a quem amou as árvores do Trapicheiro, ardentemente esperou por elas e substituiu o amor e a espera pela saudade. É duma substância assim como o celulóide, lustrosa como escama de cobra, dum verde horripilante, com frutinhos vermelhos, na ponta dos galhos, que lembravam os olhinhos dos ratos-brancos, que Pinga-Fogo criava e trazia ao ombro, sob o nojo e a reprovação de Mariquinhas, tão artificial quanto o mito que propaga.

Não pus na sua ornamentação, bastante carregada, com um odioso cometa no cimo, os meus dedos descrentes, tão hábeis para respingar pela ramaria antiga as velinhas multicores, as lanterninhas, o algodão como se fosse neve. Deixei a tarefa para as mãos de Luísa e das crianças, neófitas aranhas, que alegremente se emaranhavam na teia de fios prateados que espalhavam pela galharia dura e simétrica.

Quando ficou pronta, e ao pé dela as crianças plantavam os ávidos sapatinhos, Luísa perguntou radiante:

— Não ficou linda?

(Não destruamos as ilusões dos amadores. Pelo menos algumas. Que culpa têm de que o tempo prático e mercantil ofereça um material tão reles e sem seiva?):

— Sim, está muito bonita.

— E serve para muito tempo!

(Ó desalentadora durabilidade!):

— É ótimo.

E a sensação me invade, não sei se de tédio ou de derrota”.

***

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





Quadrinha da liberdade

1 12 2012

passaros, soltando,  J. Stanley, AmericanGirl1935-02

Soltando pombas, ilustração de J. Stanley, para capa da revista American Girl de fevereiro de 1935.

Liberdade é conviver

com sua própria razão,

sem a ninguém ofender,

nem magoar o coração.

(Durval Lobo)





Quadrinha do beijo

30 11 2012

beijo Harrison Fisher (1875 - 1934)

Beijo, ilustração de Harrison Fisher (EUA, 1875-1934)

Meu beijo é bem diferente

dos beijos que os outros dão:

eles beijam, simplesmente,

eu… beijo, com o coração.

(Rômulo Cavalcante Mota)





O Natal em poucas palavras — Marques Rebelo

29 11 2012
Cartão de Natal,  década de 1970 – A cidade de Belém com a estrela guia.

“24 de dezembro

“A estrela da tarde está subindo no céu com o seu brilho mais puro. Um momento de tréguas na crueza de nossas vidas!”

Marques Rebelo

[O trapicheiro, primeiro tomo de O Espelho Partido], São Paulo, Martins: 1959, primeira edição.





O álbum, poesia de Almeida Garrett

28 11 2012

Opalescência, s/d

Lynn Renée Sanguedolce (EUA, 1959)

óleo sobre tela, 100 x 75cm

www.lynnrenee.com

O álbum

Almeida Garret

Minha Júlia, um conselho de amigo;

Deixa em branco este livro gentil:

Uma só das memórias da vida

Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada

Pelas mãos do mistério há-de ser;

Que não tem língua humana palavras,

Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja

De uma vida o tecido matiz ,

Um só fio da tela bordada,

Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,

Brilho falso que um tempo seduz,

Que se apaga, que morre, que é nada

Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos

Dos enganos que a esp’rança forjou?

Vãos reflexos de um sol que tardava

Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida

Eu co’a minha ventura sonhei;

E uma só, dentre tantas, o juro,

Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,

Tão segura por dentro a fechou,

Que o passado fugiu da memória,

Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:

Deixa em branco este livro gentil,

Que as memórias da vida são nada,

E uma só se conserva entre mil.

Em: Folhas Caídas, Almeida Garrett, Porto, Editorial Domingos Barreira: s/d