O canal do YouTube Leitura com Chocolate, elegeu À meia voz como o melhor livro de poesias lido em 2024. Muitíssimo obrigada!
Prêmio Leitura com Chocolate: Melhor de poesias do ano 2024!
2 01 2025Comentários : Leave a Comment »
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Resenha: Kentukis, de Samanta Schweblin
11 12 2024Brinquedos de férias
Valentina Valevskaya (Ucrânia, contemporânea)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
Cheguei à escritora argentina Samanta Schweblin por Kentukis, tradução de Guilherme Pires, [ed. Fósforo] por este livro ter sido incluído na primeira seleção de finalistas do Booker Internacional, em 2020. Mais tarde descobri que a obra também havia sido nomeada como melhor ficção científica de 2020, por diversos críticos internacionais, como relata o início da sinopse da Amazon: A Guardian & Observer Best Fiction Book of 2020 * A Sunday Times Best Science Fiction Book of the Year * The Times Best Science Fiction Books of the Year * NPR Best Books of the Year. Com toda essa retumbante aprovação, muitos diriam que eu estava pronta para ser desapontada. Não exatamente. Mas tenho alguns problemas com a narrativa. A proposta é astuta, o tema é interessante e do momento. Combina avanços tecnológicos em robótica com o uso das redes sociais. E em sua narrativa retrata o imediatismo e falta de continuidade a que nos habituamos com os clipes nos diversos portais de interação pessoal.
A história gira em torno de robôs comandados à distância, disfarçados de animaizinhos de pelúcia que se tornam companheiros de quem os compra. Seus olhos são câmeras e por intermédio de pessoas que os dirigem, a milhares de quilômetros de distância, como se dirige um drone, eles podem se relacionar com seus mestres (donos). Podem servir de companheiros, semelhantes a um animal de estimação. mas que precisam de recarga na bateria. Eles podem causar problemas inesperados também aos seus donos. Chamados kentukis, ele são vendidos como companheiros-brinquedos e rapidamente fazem sucesso no mundo inteiro.
“Agora existiam aqueles aparelhos por todos os lados, tantos que até seu pai parecia começar a entender do que se tratava. Estavam frequentemente no noticiário, retratados em reportagens de comportamento ou em histórias de fraudes, roubos e extorsões. Os usuários compartilhavam vídeos em todas as redes sociais, com suas invenções caseiras de kentukis presos a drones, montados em patinetes ou passando o aspirador pela casa. Tutoriais decorativos, conselhos pessoais, milagres de sobrevivência diante de acidentes insólitos. Um kentuki panda assustando um gato e fazendo-o saltar pelo ar. Um kentuki coruja com gorro natalino batendo em sete taças com a ponta do nariz e fazendo soar uma canção de Natal.”
O projeto de Samanta Schweblin é ambicioso. Em sua narrativa seguimos diversos kentukis, comprados com diferentes propósitos, vivendo em várias partes do mundo, dirigidos por pouquíssimas pessoas. Para nos dar a ideia desta imensa variedade de experiências dos kentukis e da profusão de personalidades de seus donos, a sequência narrativa é picada, em stacatto, não tem continuidade. Temos uma colcha de retalhos, flashes de vidas cujos personagens não conhecemos e só iremos conhecer aos poucos. São pequenos contos inacabados, que mais tarde, ao acaso, voltamos a visitar. Essa técnica engenhosa nos ajuda na compreensão da multiplicidade de aventuras dos robô-drones e no entendimento da variada localização desses brinquedos – da Alemanha à Amazonia, por exemplo. Mas torna difícil para o leitor seguir as ‘aventuras’ sem ter que voltar atrás algumas páginas para se conectar uma vez mais com os personagens: daquela casa, daquela cidade, daquele país. Esses relatos das vidas dos kentukis e a sequência de aventuras independentes espelha os pequenos vídeos, pedaços das vidas de pessoas que não conhecemos, em situações que podem ou não ser comprometedoras, que podem ou não ser agradáveis, qua aparecem em um feed de qualquer das populares redes sociais.
Além de retratar a multiplicidade de realidades encontradas pelos kentukis, Samanta Schweblin insere observações de alerta sobre o perigo de abrirmos nossas vidas a esses dispositivos de conexão social. Logo no início um dos personagens reflete: “Não se podia contar com o bom senso das pessoas, e ter um kentuki circulando por aí era a mesma coisa que dar as chaves da sua casa a um desconhecido.” E sobre a necessidade de haver alguma regulamentação das novas engenhocas que vieram fazer parte do nosso cotidiano.
Samanta Schweblin
Por se tratar de literatura, sinto que a interação dos personagens com os kentukis poderia ser um tantinho mais desenvolvida. Mas, no todo, o livro cobre a vida das pessoas comuns e a imensa necessidade humana de companheirismo. Esses personagens que observamos pelos olhos dos kentukis são solitários: mal conhecem seus amantes, amigos ou familiares. Isso não escapa ao leitor. Acompanhamos, as preocupações da autora quando percebemos que vivemos num período de transição entre uma vida com privacidade e a, atual, quase sem ela, onde podemos ser reconhecidos por câmeras de segurança nas ruas de qualquer região urbana, identificados entrando e saindo de aeroportos, edifícios, estacionamentos, shoppings, calçadas movimentadas, elevadores comerciais, transportes coletivos. E mais, o livro aborda a imensa curiosidade humana sobe a vida alheia, que sempre existiu, mas que hoje tem a aprovação de todos. Essa história aborda também necessidade de muitos de exibirem aquilo que os rodeia ou faz parte de suas vidas. Essa aceitação à vigilância sobre o outro, que tomou conta das televisões abertas no mundo inteiro, desde a virada do século vinte e um, é a essência dessa obra. Atrás de cada kentuki há um ser humano atraído por alguém, qualquer alguém, porque ele não escolhe quem o compra, que então observa, sem a expectativa de interferir naquela realidade. Isso nem sempre acontece, mas quando acontece os resultados são imprevistos. Kentukis é um livro que retrata exatamente essa “descoberta” do século: a sedução que temos pela vida alheia:”O que era aquela estúpida ideia dos kentukis? O que fazia toda aquela gente circulando por pisos de casas alheias, olhando como a outra metade da humanidade escovava os dentes?” A descoberta de que a vida cotidiana, sem nada extraordinário, banal é chocante: “Por que as histórias eram tão pequenas, tão minuciosamente íntimas, mesquinhas e previsíveis? Tão desesperadamente humanas.“
Kentukis coloca esse espelho à nossa frente para vermos o que como sociedade estamos desenvolvendo, as regras que deixamos para trás e permitimos o novo, sem regulamentação. O mundo anda depressa. Será que sabemos nos comportar quando há tanta coisa nova? Há um personagem nessa história que diz: “ou você se moderniza ou a vida te atropela”. É um bom sumário do espírito dos tempos.
Se você gosta de ficção científica com crítica social, na tradição de Huxley ou Orwell, bem leve, este livro lhe agradará. Recomendo.
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O Quebra-nozes, texto de Amor Towles
7 12 2024Ilustração, desconheço a autoria, balé Quebra-nozes.
“Costuma-se dizer que os Ingleses são quem melhor sabe comemorar o Advento, mas, com o devido respeito, para testemunharmos a essência da alegria do inverno temos de nos aventurar mais a norte do que Londres. Temos de nos aventurar acima do quinquagésimo paralelo, até onde o curso do Sol é mais elíptico e a força do vento mais inclemente. Escura, fria e coberta de neve, a Rússia tem o tipo de clima em que o espírito do Natal mais brilha. E é por isso que Tchaikovsky parece ter captado melhor do que ninguém o som desse espírito. Todas as crianças europeias do século XX não só conhecerão as melodias do Quebra-nozes , mas também imaginaram o seu Natal como ele é retratado no bailado.”
Em: Um cavalheiro em Moscou, Amor Towles, Rio de Janeiro, Intrínseca: 2018
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Resenha: Ojiichan, de Oscar Nakasato
2 12 2024Interior, 1947
Yoshiya Takaoka (Japão-Brasil, 1909-1978)
óleo sobre tela, 50 x 40 cm
Ojiichan é um pequeno livro de grande impacto, repleto de entrelinhas que contam. É o segundo livro do escritor Oscar Nakasato que leio. Meu primeiro, Nihonjin, foi o que o levou ao Prêmio Jabuti, de ficção em 2012, um dos mais importantes prêmios literários do país. Reconhecimento merecido. O novo livro foi escolhido para discussão em novembro, pelo meu grupo de leitura, e teve, coisa rara, 100% de aprovação. Todos os membros ficaram encantados. Ojiichan, que em japonês quer dizer avô, abre a narrativa no dia 8 de julho de 2014, onde coisas importantes acontecem na vida de Satoshi, o brasileiro morador do Paraná, que completa setenta anos naquele dia. Por isso mesmo, ele se despede da escola onde passou as últimas décadas como professor, vítima das regras da aposentadoria compulsória pela idade. Sente-se ainda cheio de vida, com muito a dar, apto a continuar ensinando. Mas não consegue nenhum jeitinho de permanecer na ativa. Nesse mesmo dia ele tem outra surpresa. Tampouco boa. Não costumava apostar em futebol, mas antes da final da Copa do Mundo, induzido pelo constrangimento de ter dito que achava que a Alemanha poderia ganhar o campeonato, acaba fazendo a aposta contrária e vê, com surpresa, o resultado do jogo Brasil-Alemanha, confirmando sua suspeita, quando o time da casa perde de goleada. É o reflexo perfeito do que Satoshi sente dentro de si. Ainda nos momentos iniciais do livro acompanhamos sua viagem, de retorno da cidade de São Paulo, uma viagem de pêsames à irmã, viúva recente. Mas ao chegar em casa descobre que a jabuticabeira que havia plantado no jardim, há mais de trinta anos, havia sido derrubada, a mando de Cecilia, sua filha. Estranha o jardim sem a árvore, sem o aconchego e o prazer que ela lhe dava. Assim é, então, o marcante começo de uma nova etapa na vida do professor. A frase que abre o livro é sucinta, mas nos dá o conteúdo inteiro do que presenciamos. Ela introduz de maneira direta e simples o dilema de Satoshi: “Um homem está velho quando não consideram mais a sua opinião.”
As perdas de Satoshi não se limitam aos acontecimentos narrados acima. Sua mulher, companheira de vida, sofre, há tempos, de demência, perdendo significativamente a memória. Com esse vácuo, vão-se os momentos de companheirismo do casal, as referências mais íntimas. E ainda, mais adiante, Satoshi perde inesperadamente a filha, Cecília, que havia se dedicado a cuidar da mãe doente. Essa é a perda que o faz forçosamente reestruturar a vida. Novos rumos, inesperados, o levam a sair de casa e mudar-se para um apartamento, o primeiro de sua vida, um lugar apertado, para onde não consegue levar nem mesmo seu cachorrinho Peri. Em um pequeno espaço de tempo, tudo que conheceu, tudo para o qual trabalhou, se desfaz. Uma nova vida, nascida a fórceps, com diferentes estruturas, surge. Satoshi aprende à medida que ela se desencadeia.
Apesar da série de reveses que poderiam contribuir para tornar a velhice, suas perdas naturais ou acidentais em um texto pesado ou melancólico, temos, em seu lugar, uma narrativa meditativa, delicada, tão contida quanto seu personagem principal e pontuada por realizações bem elaboradas que leitores leem mais de uma vez e sublinham e marcam: “o tempo trapaceia, encolhendo-se ou se dilatando sem a permissão do homem.” [61] ou “a sexta-feira vale, principalmente, pela expectativa que se cria com relação ao sábado.” [140]. Oscar Nakasato presenteia o leitor com um livro, de meras cento e sessenta e oito páginas, repleto de ponderações perspicazes ao nos mostrar a paulatina adaptação de Satoshi à nova vida, descobrindo a pluralidade das maneiras de viver que percebe à sua volta. Ele consegue preservar a seriedade e dignidade que lhes eram naturais, ainda que surpreenda o leitor a cada virada da nova vida, tomando caminhos nem sempre esperados. Há neste homem um delicioso assombro ao se deparar com pessoas distintas e verdadeiro desejo, ainda que sutil, de se adaptar a circunstâncias que não imaginara ao talhar sua existência. A chegada ao condomínio, onde dois terços do livro se passa, é marcada por esse momento em que ao abrir a janela ele se depara com a vida de outros, de vizinhos que se ocupam de maneira variada e ainda assim familiar ao que o rodeia. “Satoshi foi à janela aproveitar a última claridade do dia e observar mais uma vez o condomínio. Sentia-se um pouco constrangido em adentrar os apartamentos da torre Flamboyant através das janelas e das cortinas descerradas” [73] E por vezes, em sua demência, Kimiko, a esposa que parece não ter um pé na realidade, ecoa de maneira direta aquilo que Satoshi, não chega a expressar, mas que sabemos ser próximo do que sente, como quando ela pergunta: “Onde é aqui?” [73], logo após o casal se mudar.
Para os que estão familiarizados com a literatura brasileira, este é um livro repleto de menções abertas e discretos acenos literários. Alguns autores são citados claramente, às vezes acompanhados pelos títulos de suas obras: José de Alencar, Machado de Assis, Milton Hatoum, Raduan Nassar foram semeados através da narrativa. Ocasionalmente referências vêm indiretamente como nos nomes daqueles que rodeiam Satoshi: a filha Cecília e o cachorrinho Peri, saídos diretamente de O Guarani de Alencar. Aurélia outra heroína do mesmo autor, do livro Senhora é mencionada abertamente. Outras alusões são bem mais discretas quando, por exemplo, parafraseia o poeta Ferreira Gullar: “…e fantasiava a vida porque a realidade não lhe bastava.” [159]. Essa riqueza de texto aparece também em ligeiras sugestões culturais, como na cena em que Suzana sai do banho enrolada numa toalha, na ocasião em que Satoshi aparece para uma de suas visitas regulares. Essa é uma referência indireta a passagem bíblica do Livro de Daniel, comumente conhecida comp “Suzana e os anciãos’, cena fartamente retratada na arte ocidental por Tintoretto, Rembrandt, Rubens e outros. Essas menções culturais, brasileiras ou universais, enraízam a obra no seu meio cultural, dando riqueza ao texto e prazer a quem o lê. Esses detalhes, essas insinuações, andam ausentes na literatura contemporânea das listas dos mais vendidos, mas são um bálsamo que regala a leitura cuidadosa, traz sorrisos de reconhecimento aos lábios do leitor, comunhão com o escritor e ainda alerta para a conexão das coisas, para o elo invisível que delineia o perfil da cultura retratada.
Oscar Nakasato
É difícil dar ideia da enormidade de temas, descrições, ponderações que esta leitora sublinhou, marcou, escreveu, anotou. De muitas, deixo aqui a deliciosa descrição que Altair, um vizinho de Satoshi, faz sobre o jogo de xadrez: “O peão precisa ter uma paciência maior que os outros, dizia meu pai. Ele poderia, um dia, mudar sua condição humilde, mas deveria dar seus passos com muito cuidado. E todos tinham regras a cumprir. Não se via no tabuleiro uma torre traçando a sua vida por um caminho diagonal, nem um cavalo seguindo em linha reta. A rainha era poderosa, seus privilégios não eram contestados.” [103]. E dessa maneira, com amigos que nunca pensou fazer, mesmo mantendo parte de seus hábitos e rituais, como continuar a jogar gateball com antigos amigos aposentados, Satoshi renasce, adaptado às novas circunstâncias. É uma nova vida. Ele passa a observar com maior cuidado o seu redor, aqueles e aquilo que o rodeia e pondera: “Mas não é assim o amor, uma reinvenção a cada abraço?” [94] A velhice para Satoshi trouxe limitações inesperadas, mas o mundo também se ampliou, e há luz naquele horizonte descoberto. Esse é um livro que nos deixa esperançosos. Que nos tira dúvidas, eleva pensamentos, satisfaz. Leia. É ótima literatura. Literatura com letra maiúscula.
Recomendo sem restrições.
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Refeições literárias: Marcel Proust
28 11 2024Mesa de jantar, 1897
Henri Matisse (França, 1869-1954)
óleo sobre tela, 100 x 131 cm
Coleção Particular
Mas (sobretudo a partir do instante em que o bom tempo se instalava em Combray) muito depois que a hora altiva do meio-dia, descida da torre de Santo Hilário que ela armoriava com os doces florões momentâneos de sua coroa sonora, vibrava em torno de nossa mesa, junto ao pão bento, também chegado familiarmente da igreja, nós ainda nos deixávamos ficar sentados diante dos pratos das Mil e Uma Noites, adormentados pelo calor e principalmente pela refeição. Pois, ao fundo permanente de ovos, de costeletas, de batatas, de compotas, de biscoitos, que nem sequer nos anunciava mais, Françoise acrescentava — de acordo com os trabalhos dos campos e pomares, o fruto da pesca, as surpresas do comércio, as amabilidades dos vizinhos e seu próprio gênio inventivo, e de tal forma que nosso cardápio, como essas quatro-folhas que esculpiam no século XIII à entrada das catedrais, refletia de certo modo o ritmo das estações e os episódios da vida — um rodovalho, porque a peixeira lhe garantira que estava fresco, um peru, porque descobrira um esplêndido no mercado de Roussainville-le-Pin, alcachofras com tutano, porque ainda não as preparara dessa maneira, uma perna de carneiro assada, porque o ar livre dá apetite e teria tempo de “baixar” dentro de sete horas, espinafres para variar, damascos, porque constituíam ainda uma raridade, groselhas, porque dali a quinze dias não haveria mais, framboesas, porque o sr. Swann as trouxera expressamente, cerejas, por serem as primeiras que dava a cerejeira do quintal depois de dois anos de esterilidade, o requeijão de que eu tanto gostava outrora, um doce de amêndoas, porque o encomendara na véspera, um brioche, porque era nossa vez de “oferecê-lo”. Depois de tudo, feito expressamente para nós, mas dedicado em particular a meu pai, era-nos oferecido um creme de chocolate, inspiração e atenção pessoal de Françoise, fugaz e leve como uma obra de circunstância onde ela pusera todo o seu talento. Aquele que se recusasse a provar, dizendo: “Já terminei, não tenho mais fome”, ter-se-ia imediatamente rebaixado ao nível desses grosseiros que, até no presente que lhe faz um artista de uma obra sua, examinam o peso e o material, quando o que vale é a intenção e a assinatura. Deixar no prato uma gota que fosse, denotaria a mesma impolidez que se levantar a gente diante do próprio compositor, antes de terminada a audição.”
Em: No caminho de Swann, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana.
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“Desenho de caminhão”, poesia infantil de Antonieta Dias de Moraes
27 11 2024Ilustração de Rosa Petherick
Desenho de Caminhão
Antonieta Dias de Moraes
Lápis, papel, num minuto
ele faz seu avião,
fez um navio minúsculo,
fez também um caminhão.
O navio foi ao fundo,
caiu longe do avião.
O menino deu um pulo,
entrou no seu caminhão.
Quem tem um lápis tem tudo,
alegrias da invenção,
tem à frente o vasto mundo,
estradas pro caminhão.
O menino já tem rumo,
tem caminhos, condução;
agora, vai num segundo
dar partida ao caminhão.
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Tags: Antonieta Dias de Moraes, Literatura Brasileira, poesia infantil, Rosa Petherick
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Flash!
21 11 2024Comentários : Leave a Comment »
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“Dona Santa” poesia de Olavo Nunes
11 11 2024Ilustração de Frederick Richardson, 1975
Dona Santa
Olavo Nunes (1871-1942)
Quando ela passa, risonha e pura,
De arzinho honesto, cheia de graça…
Todos murmuram: Que formosura!…
Quando ela passa…
Flores rebentam pelo caminho
Sob os pezinhos que a bota enlaça;
Beijos se escutam de ninho a ninho,
Quando ela passa…
Seguem-na olhares cheios de gula
Como os da fera fitando a caça,
Olhares meigos que amor açula,
Quando ela passa…
Boca vermelha que o riso enflora
Cintura fina que um dedo abraça,
Parece ver-se Nossa Senhora,
Quando ela passa…
À luz dos olhos dessa menina
Deserta o pranto, foge a desgraça;
Com grande afeto tudo se inclina,
Quando ela passa…
Sombrero alegre, cheio de fita,
Vestido leve de fina cassa,
Gosto de vê-la assim tão bonita,
Quando ela passa…
Trinulam aves pelas umbrosas
Ramas que o vento no alto entrelaça,
E abelhas d’oiro desfolham rosas,
Quando ela passa…
Quando ela passa, risonha e pura,
De arzinho honesto, cheia de graça…
Todos murmuram: Que formosura!…
Quando ela passa…
Em: Coelho Netto e a Mina Literária, Imprensa de Alfredo Silva, Pará: 1899, pp 34-36
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Dia de Finados: 2 de novembro
2 11 2024O enterro de Atala, 1808
Anne-Louis Girodet (França, 1767-1824)
óleo sobre tela, 207 x 267 cm
Louvre
Dia de Finados
Juvenal Galeno
Hoje, Dia de Finados,
Às campas os vivos vão
Aos mortos render menagem;
Mas, com certa ostentação…
E eu visito um cemitério
Dentro do meu coração.
Ai, nele, quantos sepulcros,
Quantas cruzes no seu chão:
Amores da primavera,
Amores do meu verão,
Que em meu outono revejo
Dentro do meu coração.
Quantas florinhas fanadas,
Ai, murchas ‘inda em botão;
Quanta esperança perdida,
Ai, quanta morta ilusão…
Aqui todas sepultadas
Dentro do meu coração.
E quantas cruzes de amigos,
Lembrando dedicação;
De amigos que me deixaram
Chorando na solidão,
Neste triste cemitério,
Dentro do meu coração.
Onde cultivo flores,
Eis minha consolação;
A saudade, a sempre-viva,
Perpétua recordação,
Para enfeitar suas campas,
Dentro do meu coração.
E minh’alma ajoelhada
Nesta santa região,
Entoa sentidas preces
Da mais pura devoção,
Entre ciprestes e cruzes,
Dentro do meu coração.
— Ceará, 2 de novembro de 1904 —
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