10 de junho, Dia de Camões

10 06 2010

Aniversário, 1915

Marc Chagall ( Bielorrússia 1887 — França 1985)

óleo sobre tela 81 x 100 cm

MOMA ( Museu de Arte Moderna) , N ova York

Para comemorar o Dia de Camões escolhi postar um dos mais belos sonetos em língua portuguêsa.  Pelo tema, começo também a celebrar o Dia dos Namorados que aqui no Brasil se comemora no dia 12 de junho.  Este é bem conhecido, muitos de nós até sabemos partes sem saber que são versos de Camões.  Pois aqui está:

Amor é fogo que arde sem se ver

 

                                                                             Luís de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?





Conselhos a um escritor de ficção, várias opiniões — II

25 05 2010

 

Professor Pardal lê ficção científica, ilustração Walt Disney.

AL Kennedy

 

Alison Louise Kennedy , nasceu em 1965 em Dundee na Escócia.  Comediante e escritora de ficção, contos e também não-ficção.  Combina realismo e fantasia.  É colunista para diversos jornais na Grã-Bretanha e na Comunidade Européia. 

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1 – Tenha humildade.  Escritores mais velhos, com maior experiência, mais convincentes podem dar todo tipo de conselho.  Considere bem o que dizem.  Mas, não lhes dê automaticamente controle sobre o ser cérebro,  — eles podem estar amargos, cansados, podem ser manipuladores ou não gostar de você.

2 — Tenha mais humildade.  Lembre-se que você não conhece os limites da sua habilidade.  Com sucesso ou não, se você sempre tentar ultrapassar os seus próprios limites, você se enriquecerá – e talvez até agradar a  algumas pessoas.

3 – Defenda os outros.  Você pode, é claro, roubar histórias e detalhes da sua família e de seus amigos, preencher as fichas de pesquisa depois de uma noite de amor etc.  Talvez seja melhor celebrar aqueles a quem você ama – e também o próprio amor – escrevendo de tal maneira que todo mundo possa manter sua privacidade e dignidades intactas.

4 – Defenda o seu trabalho.  Organizações, instituições e indivíduos frequentemente acham que conhecem mais sobre o seu trabalho – principalmente se eles estão lhe pagando.   Quando você achar – realmente – que as decisões deles irão causar danos ao seu trabalho – despeça-se, vá embora.  Corra.  O dinheiro não vale isso tudo.

5 – Defenda-se.  Descubra o que o faz feliz, motivado e criativo.

6 – Escreva.  Não há autopunição, estado alterado da mente, suéteres negras ou atitude pública anti-social que irá ajudar a você ser um escritor.  Escritores escrevem.  Faça-o.

7 – Leia.  Tanto quanto puder.  Tão profundamente, tão abrangente, tão famintamente e irritantemente quanto você puder.  E as coisas boas se farão lembrar, de modo que você não precisará tomar notas.

8 – Seja destemido.  É impossível, mas deixe que os pequenos medos lhe direcionem quando r for re-escrever, passar a limpo e deixe de lado os grandes medos – até que eles se comportem – aí então use-os, talvez até escreva sobre eles.  Medo demais e tudo o que você consegue é silêncio.

9 – Lembre-se de que você adora escrever.  Não valeria a pena se você não gostasse disso.  Se a paixão diminuir, faça o que for necessário para tê-la de volta.

10 – Lembre-se de que a escrita não te ama.  Ela não tem sentimentos.  Não obstante ela pode se comportar de maneira bastante generosa.  Fale bem da escrita, encoraje outros,  passe-a adiante.

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Hilary Mantel

 

Hilary Mary Mantel CBE nasceu em Derbyshire, 1952.  Ela é uma escritora e crítica literária britânica. O seu trabalho versa desde a memória pessoal à ficção histórica, tendo várias obras finalistas em prêmios literários. Em 2009 foi premiada com o Prêmio Man Booker pela sua novela Wolf Hall.

1 – Você está pensando nisso seriamente?  Então ache um contador.

2 – Leia Becoming a Writer de Dorothea Brande.  Aí faça o que ela diz, inclusive as tarefas que você acha impossíveis.   Você provavelmente vai detestar o conselho de escrever assim que acordar, mas conseguirá fazê-lo, talvez até seja a melhor coisa que você venha a fazer para você mesmo.   Esse livro é sobre tornar-se um escritor de dentro para fora.  Muitos dos manuais com conselhos sobre o assunto derivam deste.  Você realmente não precisará de nenhum outro deles, mas se você quiser aumentar a sua auto-confiança, manuais de auto –ajuda raramente fazem mal.  Você pode começar um livro inteiro com um pequeno exercício de escrever. 

3 – Escreva um livro que você gostaria de ler.  Se você não o fosse ler, por que alguma outra pessoa iria fazer isso?  Não escreva para uma audiência ou um mercado determinado.  É possível que eles já não existam mais quando você acabar o livro.

4 – Se você tem uma boa história,  não assuma que precise ter uma narrativa em forma de prosa.  Talvez funcione melhor como uma peça de teatro, de cinema ou um poema.  Seja flexível.

5 – Lembre-se de que qualquer coisa que venha a aparecer antes do “Capítulo Um” pode ser pulado.  Não coloque nesse local sua chave do mistério.

6 – O primeiro parágrafo pode frequentemente ser um tiro no escuro.  Você está dançando a haka [NT: uma dança Maori] ou simplesmente mexendo com os pés?

7 —  Concentre a sua energia narrativa no momento da mudança.  Isso é muito importante principalmente para a ficção histórica.  Quando o seu personagem está num lugar novo, ou quando as coisas mudam à sua volta, é aí que você deve se afastar e preencher os detalhes de seu mundo.  As pessoas não observam os seu ambiente ou sua rotina diária a toda hora, então quando o escritor os descreve pode parecer como se ele estivesse dando instrução ao leitor.

8 – Descrições precisam funcionar para o lugar.  Não podem ser simplesmente ornamentais.  Em geral elas funcionam melhor se tiverem um elemento humano; é melhor quando são feitas com uma visão subjetiva ao invés de uma visão pelos olhos de Deus.  Se as descrições mostram a visão do personagem que está observando, ela se transforma em uma parte a definição do personagem, outra na ação do personagem.  

9 – Se você tiver um bloqueio, saia da sua mesa de trabalho.  Vá dar um passeio a pé, tome um banho,  vá dormir,  faça uma torta, desenhe, ouça música, medite, se exercite;  o que quer que seja que você venha a fazer, não fique sentado por ali, olhando para o problema.  Mas, não dê telefonemas, não vá a uma festa; se você for, as palavras de outras pessoas entrarão no texto no lugar das suas palavras perdidas.   Abra um espaço para elas.  Seja paciente.

10 – Esteja pronto para qualquer coisa.  Cada história tem requerimentos próprios e talvez haja razões para quebrar estas ou quaisquer outras regras.  Exceto regra número um:  você não pode se dar de corpo e alma à literatura se você está pensando no seu imposto de renda. 

Chico Bento escreve à noite, ilustração Maurício de Sousa.

Michael Moorcock

 

Michael Moorcock,  nascido em Londres em 1939, é um escritor britânico de ficção científica e fantasia e também autor de diversos romances literários.

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1 – Minha primeira regra me foi dada por TH White, autor de The Sword in the Stone e outras fantasias do Rei Artur: Leia.  Leia tudo o que cair nas suas mãos.   Sempre aconselho a quem quer escrever em fantasia ou ficção científica ou romance que pare de ler tudo nesses gêneros e comece a ler todo o resto de Bunyan a Byatt.

2 – Escolha um autor a quem você admire ( no meu caso foi Conrad) e copie suas tramas e personagens para fazer sua própria história, da mesma maneira que as pessoas aprendem a desenhar e pintar copiando os velhos mestres da pintura.

3 – Apresente seus principais personagens e temas no primeiro terço do romance.

4 – Se você está escrevendo em um gênero que é desenvolvido pela trama, não deixe de apresentar todos os temas e elementos da trama no primeiro terço do livro: a introdução.

5 — Desenvolva seus temas e personagens no segundo terço: o desenvolvimento.

6 – Ache a resolução dos seus temas, mistérios e tudo o mais no último terço: a solução.

7 – Para um bom melodrama estude o famoso Lester Dent master plot formula que você encontra na internet.  Foi escrito para mostrar como você escreve um conto para publicações populares mas que pode ser adaptado com sucesso para qualquer história de qualquer tamanho ou gênero.

8 – Se possível ponha alguma ação enquanto seus personagens estão fazendo uma exposição ou filosofando.  Isso ajuda a manter a tensão dramática.

9 – Manter atração:  faça seus personagens serem perseguidos ( por uma obsessão ou por um vilão) e eles mesmos perseguindo (uma idéia, um objeto, um pessoa ou um mistério).

10 – ignore todas as regras e crie suas próprias regras, para que se adquem ao que você tem a dizer.

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 Michael Morpurgo

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Michael Andrew Bridge Morpurgo, OBE FKC AKC , nasceu em 1943 na Inglaterra.  Ele é um romancista, poeta, dramaturgo, libretista ( autor de librettos de ópera e outros musicais), e mais conhecido ainda por seus livros infanto-juvenis. 

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1 – Meu pré-requisito é manter meu poço de idéias cheio.  Isso quer dizer viver uma vida cheia, com bastante variedade e ter minhas antenas ligadas o tempo todo.

2 – Ted Hughes me deu este conselho e funciona as mil maravilhas:  anote momentos, impressões passageiras, diálogos ouvidos, sua própria tristeza, encantamento e alegrias.

3 — Para mim a idéia de uma história é a confluência de eventos reais, talvez históricos ou da minha própria memória para criar um fusão excitante.

4  — O que conta é o periodo de gestação.

5 —  Com o esqueleto da história completo começo a falar sobre ele, principalmente para Clare, minha esposa, fazendo o teste com ela.

6 – Quando chega a hora de eu me senta e encarar a página em branco eu pronto para a partida.  Eu conto a história como se eu a tivesse contando para o meu melhor amigo, ou para um de meus netos.

7 – Com um capítulo escrito no primeiro rascunho/esboço  – escrevo com letra bem miúda para que eu não tenha que mudar de página  e ter que olhar para uma próxima página em branco – Clare digita no computador, imprime, às vezes adicionando seus comentários.

8 – Quando estou muito envolvido com uma história – vivendo-a à medida que escrevo – sinceramente não sei o que irá acontecer. Eu tento não direcioná-la, não ter o papel de Deus.

9 – Quando o livro está acabado, no seu primeiro rascunho, eu o leio em voz alta para mim mesmo.  Como ele soa aos meus ouvidos é tremendamente importante.

10 – Com a edição, não importa quão delicada – e eu tenho tido muita sorte aqui – não reajo muito bem no início, mas aí eu me acalmo e mando a bola para frente, e um ano mais tarde tenho o livro em minhas mãos.  

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Mercador oferece manuscrito para Margarida,  ilustração Walt Disney.

Andrew Motion

 

Sir Andrew Motion, FRSL, nasceu em 1952 na Inglaterra: poeta, romancista e biógrafo.  Foi   Poet Laureate  na Grã- Bretanha de 1999 a 2009.

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1 – Decida quando no dia ou na noite é a melhor hora para você escrever e organize a sua vida de acordo com essa decisão.

2 – Pense com os seus sentidos além do seu cérebro.

3 – Honre o milagroso no comum.

4 —  Tranque personagens/ elementos diferentes numa sala e diga a eles para se comunicarem.

5 – Lembre-se de que não há essa coisa que se chama de nonsense.

6 – Lembre-se da expressão de Oscar Wilde “ só o que é  medíocre se desenvolve – e faça disso seu desafio.

7 – Dê um tempo ao seu trabalho antes de decidir se vale ele vale a pena ou não.

8 – Pense grande, mas atento aos detalhes.

9 – Escreva para o amanhã, não para o dia de hoje.

10 – Trabalhe muito.

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Joyce Carol Oates

 

Joyce Carol Oates, também conhecida como “JCO”, nascida em 1938, é uma escritora americana, autora de romances de importância da atualidade americana.  Detentora dos prêmios norte-americanos National Book Award e o The Pen/Malamud Award for Excelllence in Short Fiction.

1 – Não tente antecipar o seu “leitor ideal” – talvez haja um, mas ele ou ela estão lendo um outro autor.

2 – Não tente antecipar o seu “leitor ideal” – exceto por você mesmo, talvez, em algum ponto do futuro.

3 – Seja seu próprio critico/editor.  Leia com simpatia, mas sem piedade.

 4 – A não ser que você esteja escrevendo uma coisa muito avant-guarde – rosnados, resmungos, tudo obscuro – lembre-se da possibilidade de usar parágrafos.

5 —  A não ser que você esteja escrevendo alguma coisa muito pós-moderno – muito auto consciente, auto-reflexivo, e “provocador” – lembre-se  de usar palavras comuns, familiares a todos, ao invés das “grandes” palavras, polissilábicas.

6 – Lembre-se de Oscar Wilde:  “ um pouco de sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade   é completamente fatal”.

7 – Mantenha um coração leve e esperançoso.  Mas, — espere pelo pior.

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Pato Donald, o jornalista de A PATADA, anota suas observações,  Ilustração Walt Disney.

Annie Proulx

Edna Annie Proulx, nascida em Connecticut nos EUA, em 1935 é uma escritora e jornalista norte-americana, de origem franco-canadense.  

1 – Proceda com vagar e cuidadosamente.

2 — Para ter certeza de que você trabalha devagar, escreva à mão.

3 – Escreva devagar e à mão só os assuntos que são do seu interesse.

4 – Desenvolva a arte de escrever através de anos de leitura variada.

5 – Re-escreva e faça a edição até que você consiga a melhor frase, sentença, parágrafo, página, história, capítulo.

Philip Pullman

Philip Pullman nascido nma Inglaterra em 1946 é um escritor de renome internacional, conhecido primeiramente pela trilogia Fronteiras do Universo (A Bússola de Ouro, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar). A série já ganhou vários prêmios de literatura no mundo.

A minha regra é não dizer nada sobre coisas como essa, que me tentam a deixar o meu trabalho de lado.

Ian Rankin

 Ian Rankin nasceu em 1960 em Fife na Escócia.  Psudônimo:  Jack Harvey.  Romancista e escritor de mistérios, autor da série do Inspetor Rebus.  Escreve também crítica literária.

 1 – Leia muito.

2 – Escreva muito.

3 – Aprenda a se auto-criticar.

4 – Aprenda a que críticas aceitar.

5 – Tenha persistência.

6 —  tenha uma história que valha a pena contar.

7 – Não desista.

8 – Conheça o mercado.

9 – Tenha sorte.

10 – Mantenha-se sortudo.

 

Amadeu escrevendo seu romance é interrompido por Pateta, ilustração Walt Disney.

Will Self

William Woodard “Will” Self nascido em 1961 é um romancista ingles, critico literário,  e colunista para jornais.  Conhecido principalmente por seus romances e contos  fantásticos e satíricos.

1 – Não olhe para trás até que você tenha escrito o primeiro rascunho, total.  Comece cada dia com a última sentença que escrevei no dia anterior.  Isso previne que você tenha sentimentos críticos e também faz com que você tenha um número substantivo de páginas para trabalhar quando o verdadeiro trabalho começa que é….

2 – Editar.

3 –  Sempre leve consigo um caderno de notas.  E isso quer dizer sempre.  A memória retém informação só por três minutos; a não ser que esteja gravada no papel, você poderá perder uma idéia para sempre. 

4 –  Pare de ler ficção – é mesmo tudo mentira, não lhe dirá nada que você não saiba (assumindo é claro que você já tenha lido muito de ficção no passado;  se você não leu, você não tem nada que estar pensando em se tornar um romancista).

5 – Conhece aquela sensação de doentia de se sentir inadequado, de se export demais que se tem ao ler a nossa prosa?  Relaxe sabendo que essa sensação jamais o deixará, independente do seu grau de sucesso e de aprovação publica.  É uma sensação intrínseca do negócio de escrever e deve ser apreciada.

6 –  Viva a vida e escreva sobre a vida.  O processo de fazer um livro é infinito, mas há mais do que o suficiente de livros sobre livros.

7 – Do mesmo modo, lembre-se de quanto tempo as pessoas passam vendo tv.  Se você está escrevendo um romance situado no mundo contemporâneo, há de haver longas passagens em que nada acontece exceto ver televisão:  “Mais tarde, George assistiu ao Grand Designs enquanto petiscava HobNobs.  Mas tarde ainda ele viu o canal de vendas por algum tempo…”

8 – A vida do escritor é essencialmente uma vida de prisão solitária – se você naão gosta disso  não precisa se candidatar.

9 – Ah, e não esqueça de uma surra vez por outra admnistrada pelos sádicos guardas  da imaginação. 

10 —  Considere-se como uma pequena empresa.  Deixe de lado exercícios de grupo (longos passeios a pé).  Faça uma festa de Natal todos os anos em que você fica num canto do seu escritório,  gritando em voz alta para si mesmo enquanto bebe um garrafa de vinho branco.  Depois, masturbe-se embaixo da mesa de trabalho.  No dia seguinte você se terá uma profunda e coerente sensação de embaraço.

Helen Simpson

 

Helen Simpson é uma escritora inglesa nascida em Bristol em 1959.  Trabalho na revista Vogue por cinco anos antes de se lançar como escritora de romances e contos. 

O que tenho de mais próximo de regras é uma notinha colada na parede na frente da minha escrivaninha que diz: “Faire et se taire” ( Flaubert), que eu traduziria para” Cale-se e faça”.

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Zadie Smith

 

Zadie Smith , nascida em 1975 em  Londres. É uma escritora inglesa.  Tem três romances publicados e inúmeros contos, pelos quais já foi considerada uma das mais importantes escritoras inglesas da atualidade.

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1 – Em criança, leia muitos livros.  Faça mais isso do que qualquer outra coisa.

2 —  Como adulto, tente ler seus próprios livros como se fosse uma pessoa estranha, ou melhor ainda, como um inimigo os leria. 

3 – Não faça um romance da sua vocação.  Ou você sabe escrever boas frases, ou não sabe.  Não há “estilo de vida de escritor”.  O mais importante é o que você deixa na página.

4 – Evite os seus pontos fracos.  Mas faça-o sem dizer para  si mesmo que o que você não sabe fazer não vale a pena ser feito.  Não mascare a sua insegurança com desdém.

5  — Dê um bom tempo entre escrever o texto e editá-lo.

6 – Evite, grupos, grupinhos, gangues.  A presença de um grupo não fará o seu texto melhor do que é.

7 – Trabalhe num computador que esteja sem conexão de internet.

8 – Proteja a hora e o espaço em que você escreve.  Mantenha todo mundo longe, até mesmo as pessoas mais importantes para você.

9 – Não confunda homenagens com realizações.

10 – Diga a verdade através de qualquer ângulo que lhe apareça, mas diga-a.  Resigne-se à tristeza de uma  vida inteira em que não se está nunca satisfeito.

Ilustração, Luluzinha escreve cartas, 1987.

Colm Tóibín

 

Colm Tóibín, é um escritor irlandês, nascido em 1955 que trabalha como romancista,  jornalista e crítico literário.

1 – Acabe tudo o que começar.

2 – Siga em frente.

3 – Fique com seu pajama mental o dia inteiro.

4 – Pare de se sentir um pobre coitado.

5  — Nem álcool, nem sexo, nem drogas enquanto escreve.

6 —  Trabalhe de manhã, faça uma pequena pausa para o almoço, trabalhe à tarde e aí veja as notícias das 18:00 horas e depois volte a trabalhar até a hora de dormir.  Antes de dormir, ouça Schubert, algumas canções.

7 – Se você tiver que ler, para se alegrar, leia biografias de escritores que ficaram loucos.

8 – Aos sábados, você pode ver um filme antigo de Bergman, de preferência Persona ou Sonata de outono

9 – Nenhuma viagem a Londres.

10 – Nenhuma viagem a qualquer outro lugar.–

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Rose Tremain

 

Rose Tremain é uma escritora inglesa, nascida em Londres em 1943;  conhecida por seus romances, contos e sua dramaturgia. Vive em Norfolk, Londres, no Reino Unido.

1 – Esqueça a máxima antiga “escreva sobre o que conhece”.  Ao invés, procure pelo desconhecido e ainda pelo conhecimento da experiência que vai aumentar o seu entendimento do mundo e do que você escreve.

2 – Não obstante, lembre-se de que é na particularidade da sua própria vida que se encontra a semente que irá alimentar o seu trabalho imaginativo.  De modo que não jogue tudo na sua autobiografia.  (Ainda mais que já há bastante autobiografias de escritores).

3 —  Nunca se satisfaça com o primeiro rascunho, na verdade não se satisfaça nunca com o seu texto, até que você esteja convencido de que está tão bom quanto o poder finito que você tem de  deixá-lo melhor. 

4 – Ouça a crítica e as preferências dos seus confiáveis  “primeiros leitores”.

5 – Quando uma ideia lhe vier à mente, passe algum tempo com ela, em silencio.  Lembre-se da idéia de Keats da capacidade negativa e do conselho de Kipling  de “ vagar, esperar e obedecer”.  Junto com a pesquisa de dados permita-se sonhar a sua idéia fazendo-a real.

6 – No planejamento de um livro, não planeje o fim.  Ele precisa se desenvolver por tudo o que veio antes.

7 – Respeite a maneira como os personagens podem mudar depois que você estivar com umas 50 páginas escritas.   Reveja o seu plano original nessa hora e veja se alguma coisa não precisa ser alterada para que  essas mudanças se desenvolvam.

8 – Se você está escrevendo ficção histórica,  não tenha personagens conhecidos, reais, como seus protagonistas.  Isso só irá trazer dificuldades biográficas aos lietores e mandá-los de volta aos livros de história.  Se você precisa escrever sobre gente real,  então faça alguma coisa pós-moderna e criativa com eles.

9 – Aprenda com o cinema.  Seja econômico nas suas descrições.  Separe os detalhes significativos dos que não tem vida própria.  Escreva um dialogo que as pessoas falariam. 

10 – Nunca comece um livro quando você quer começá-lo, mas espere um pouco mais de tempo. 

Margarida prepara a máquina de escrever, ilustração Walt Disney.

Sarah Waters

 

Sarah Waters  nasceu em Pembrokeshire, País de Gales, em 1966.  Ela é uma escritora britânica, conhecida principalmente por seus romances históricos baseados na época da rainha Vitória.  Mora em Londres.  

1 – Leia como um louco.  Mas tente fazê-lo de maneira analítica – o que pode ser muito difícil porque quanto melhor e fascinante um romance é, menos você reconhecerá suas ferramentas.  Mas vale a pena tentar descobri-los porque podem vir a ser de uso para o seu próprio trabalho.  Também acho assistir a filmes muito instrutivo.  Quase todos os filmes de sucesso de bilheteria de Hollywood são longos e pesados.  Tente visualizar como os filmes seriam bem melhores se fossem submetidos s cortes radicais.  Este é um bom exercício na arte de contar histórias.  O que me leva a ….

2 – Corte como um louco.  Quanto menos, melhor.  Frequentemente leio manuscritos – inclusive os meus – que quando chego ao capítulo dois, penso:  “Era aqui que este romance deveria ter começado”.  Uma quantidade enorme sobre o personagem e seu passado podem ser transmitidos através de pequenos detalhes.    A ligação emocional que você tem com uma cena ou um capítulo perde a cor a medida que você entra em outras histórias.  Seja bastante frio a respeito.  Na verdade…

3 – Trate a escrita como um negócio.    Tenha disciplina.  Muitos escritores  chegam a ficar obsessivos- compulsivos a este respeito.  Graham Greene ficou famoso por escrever 500 palavras por dia.  Jean Plaidy conseguia 5.000  antes do almoço, e depois passava a tarde respondendo às cartas de seus fãs.   Meu mínimo é 1.000 palavras por dia – o que às vezes é fácil de atingir, e às vezes, francamente, é difícil, but eu me forço a ficar na minha escrivaninha até chegar lá, porque eu sei que fazendo isso estou empurrando milimetricamente o livro à frente.   Aquelas 1.000 palavras podem vir a ser lixo – e o são muitas vezes.  Mas  então, é sempre mais fácil, mais tarde, voltar ao lixo e transformá-lo em algo melhor.

4 – Escrever ficção não é auto-espressão ou terapia.  Romances são feitos para leitores, e escrevê-los significa uma construção de efeitos feita com altruísmo, paciência e arte.  Imagino os meus romances como aqueles brinquedos num parque de diversões:  minha tarefa é amarrar o leitor naquele carrinho, no início do primeiro capítulo, então dirigir e deslizá-lo através das cenas e surpresas, num passeio cuidadosamente planejado, e num ritmo afiado.

5 – Respeite os seus personagens, mesmo os de menos importância.   Na arte, assim como na vida, cada qual é o herói de sua própria história; é importante pensar sobre as histórias de seus personagens menos importantes, mesmo que eles não cruzem muito com seu protagonista.    Mas por isso mesmo…

6 – Não encha de personagens demais sua narrativa.  Personagens devem ser individualizados, mas ficcionais – como figuras num quadro.  Pense em no quadro Jerônimo Bosch A coroação de espinhos, em que um Jesus paciente e sofredor está cercado de quatro homens ameaçadores.   Cada um desses personagens é único, e ,no entanto, cada qual representa um tipo; e coletivamente eles formam uma narrativa que é ainda de maior impacto por estarem tão juntas e construídas tão economicamente.  Num tema semelhante….

7 – Não escreva demais.  Evite frases redundantes, adjetivo que distraiam, e advérbios desnecessários.  Iniciantes, principalmente, parecem acreditar que escrever ficção requer uma prosa rebuscada, completamente diferente de qualquer tipo de linguagem que uma pessoa possa encontrar no dia a dia.  Isto é um conceito errôneo sobre efeitos produzidos pela ficção, e podem desaparecer se observarmos a regra número um.   Ler alguns textos de Colm Tóibín ou Cormac McCarthy, por exemplo, é descobrir como um vocabulário deliberadamente restrito pode produzir um impacto emocional surpreendente.

8 – Ritmo é crucial.  Boa prosa não é suficiente.  Estudantes são capazes de criar uma única página de prosa muito bem trabalhada;  o que eles às vezes deixam a desejar é na habilidade de levar o leitor na jornada, com todas as mudanças de terreno, velocidade e atmosfera que aparecem em uma longa viagem.   De novo, acho que a ajuda pode vir do cinema.   A maioria dos romances tem uma maneira de se mover mais perto, de se estender,  de ir para trás, ir à  frente, de maneira bastante cinematográfica.  

9 – Não entre em pânico.  No meio do caminho de um romance, eu já sofri momentos de grande ansiedade, quando contemplava  a tela à minha frente e via além, numa sucessão, as críticas negativas,  o embaraço dos amigos, a carreira dando para trás,  o dinheiro diminuindo, a casa hipotecada, o divórcio…  Trabalhar obstinadamente através de crises como estas, no entanto, sempre me levou ao final.  Deixar a sua mesa de trabalho por um tempo pode ajudar. Conversar sobre o problema pode me lembrar de onde eu queria chegar antes de parar.   Dar uma longa volta a pé quase sempre me ajuda a pensar sobre o meu manuscrito de uma maneira diferente.  E se tudo isso não der certo, há sempre a oração.  São Francisco de Sales, o patrono dos escritores, tem me ajudado nos momentos de crise.  Se você quiser algo ainda mais geral, pode pedir a Calíope, a musa da poesia épica. 

10 – O talento vence sempre.  Se você é um grande escritor, nenhuma dessas regras serão necessárias.  Se James Baldwin tivesse achado que era necessário abreviar o ritmo um pouco, talvez ele não tivesse chegado a intensidade lírica de Giovanni’s Room.  Sem a prosa “trabalhada”  não teríamos tido a exuberância lingüística de Dickens ou de Angela Carter.  Se todo mundo fosse econômico com seus personagens, não haveria Wolf Hall…  Mas, para nós, os outros, as regras são necessárias.  E, especialmente, só entendendo porque elas existem e como elas funcionam você pode experimentar e quem sabe quebrá-las.

Jeanette Winterson

 

Jeanette Winterson, nasceu em Manchester, na Inglaterra em 1959.   Escritora de romances, contos, colunista para diversos jornais britânicos e dramaturga.

1 – Trabalhe diariamente.  A disciplina permite a liberdade criativa.   Nenhuma disciplina é igual à liberdade.

2 – Nunca pare quando você tem um bloqueio.  Talvez você não resolva o problema, mas  puxe-o de lado e escreva alguma outra coisa.  Não pare de vez.

3 – Ame o que você faz.

4 – Seja honesto com você mesmo.  Se você não for tão bom, aceite esse fato.  Se o trabalho que você está fazendo não é tão bom, aceite esse fato.

5 –  Não insista num trabalho pobre.  Se já era ruim quando foi para a gaveta, continuará a ser ruim quando sair dela.

6 – Não preste atenção a quem você não respeita.

7 – Não preste atenção a ninguém que tenha uma agenda de gênero.  Muitos homens ainda acham que mulheres não tem uma imaginação fogosa.

8 – Seja ambicioso pelo trabalho e não pela recompensa.

9 – Confie na sua criatividade. 

10 – Aprecie o seu trabalho.





Conselhos a um escritor de ficção, várias opiniões — I

22 05 2010

 

Ilustração, Snoopy escreve seu romance, Charles M. Schulz.

No ano passado, foi lançado nos Estados Unidos um livro que se tornou líder de vendas:  10 rules of good writing [10 regras da boa escrita].  Recentemente , o autor deste sucesso  Elmore Leonard, foi lembrado pelo jornal The Guardian da Inglaterra, que repetiu um sumário dessas regras e pediu também a outros autores que listassem suas recomendações para a boa escrita.

Traduzo livremente o artigo.

Elmore Leonard

 

10 regras para se escrever bem:

1 –  Não comece o texto com o tempo.  Se for para criar uma atmosfera, e não uma reação do personagem ao tempo, você não deve se prolongar.  O leitor tenderá a ir em frente procurando por gente.  Há exceções.   Se você for Barry Lopez, que tem mais maneiras de descrever gelo e neve do que um esquimó, como no seu livro Artic Dreams [Sonhos do Ártico], você poderá fazer qualquer descrição de tempo que queira.  

2 – Nenhum extra: prólogo, introdução, prefácio.  Evite os prólogos: eles podem ser cansativos, especialmente se for um prólogo após uma introdução que vem depois de um prefácio.  Mas estes, em geral, só são encontrados em trabalhos de não-ficção.  O prólogo num romance é a história anterior e você pode inseri-la quando quiser.  Há um prólogo no livro de John Steinbeck Sweet Thursday, mas tudo bem, porque o personagem do livro justifica o que as minhas regras expõem.   Ele diz: “Gosto de muito diálogo num livro e não gosto de ter alguém me contando sobre a aparência do cara que está falando.  Eu quero imaginar a cara dele a partir da maneira como ele fala.”

3 – …disse.  [é o bastante!].  Use sempre o verbo “disse” para indicar o diálogo.  A sentença do diálogo pertence ao personagem; o verbo é uma interferência do escritor.  Mas “disse” é muito menos manipulador do que “murmurou”, “mentiu”, “aconselhou”, “suspirou”.  Lembro-me de uma vez em que Mary McCarthy acabou um diálogo com “ela asseverou” e tive que parar de ler para ir ao dicionário. 

4 –  Fora com os advérbios.   Nunca use um advérbio para modificar o verbo “disse”… ele sobriamente advertiu.  Para usar o advérbio dessa maneira ( ou em quase todas as maneiras) é um pecado mortal.  O escritor  se expõe ao usar uma palavra que distrai a atenção e que pode interromper o ritmo da troca de idéias.  Tenho um personagem em um de meus livros que explica como ela escrevia romances históricos; “cheios de estupros e advérbios”.

5 –  Pouquíssimos pontos de exclamação! Mantenha o número dos pontos de exclamação sob controle.   Só é permitido usar dois ou três por cada 100.000 palavras de prosa.  Se você tem  a habilidade de exclamações como a do escritor Tom Wolfe, você pode colocar muito mais.

6 – Corte os: de repente ou equivalentes de “tudo foi para as cucuias”.  Nunca use as expressões “De repente” ou “ e tudo foi para o brejo”.   Essa regra não precisa de explicações.  Já notei que escritores que usam “de repente” raramente têm controle sobre os pontos de exclamação.

7 – Evite dialetos regionais.  Use raramente dialetos regionais.  Quando você começar a escrever palavras foneticamente em um diálogo e encher as páginas com apóstrofes, você não vai conseguir parar.  Preste atenção, por exemplo, na maneira como Annie Proulx captura o sabor das vozes de Wyoming no seu livro de contos Close Range.

8 – Não detalhe os personagens. Evite as  descrições detalhadas dos personagens, Steinbeck notou isso.  No livro de Ernest Hemingway Hills Like White Elephants, como era a aparência da americana com ele?  “ Ela tinha tirado o chapéu e o pousara sobre a mesa. “   Este é o único traço de uma descrição física na história.

9 – Não perca tempo com paisagens.  Não descreva coisas e paisagens com  muitos detalhes, a não ser que você seja uma Maragaret Atwood e consiga pintar cenas com linguagem.  Você não deve interromper uma cena de ação, o movimento da história, não deve pará-la.

10 – Não escreva o que você não leria.  Tente deixar de lado as partes que os leitores pularão.  Pense no que você pula quando lê um romance: longos parágrafos de prosa que você vê que têm palavras demais no seu conteúdo. 

A regra mais importante, que contém todas as outras 10:  se soa como prosa, re-escreva.

Mas quem é Elmore Leonard para dar conselhos?

Ele é um escritor que começou sua carreira escrevendo faroeste.  Depois voltou sua atenção para a ficção detetivesca: crime e mistério.   Ele é um escritor dos mais prolíficos.   Já escreveu mais de 30 romances, a maioria deles grandes sucessos de vendas.  É um escritor que é levado a sério  pelo mundo literário.  Elmore Leonard nasceu em Nova Orleans, Louisiana (EUA), em 1925.  Muitos de seus romances foram adaptados para o cinema.  Também é roteirista e redator de publicidade. Tornou-se conhecido a partir dos anos 80, quando chamou a atenção da crítica e do público. Sua obra recebeu diversas premiações, entre elas o Grand Master Award da associação Mystery Writers, concedido apenas aos autores cujo conjunto de suas publicações deu contribuição significativa para o desenvolvimento do gênero. Ele tem seis livros publicados pela Rocco, entre eles Ponche de rum, que inspirou ao cineasta Quentin Tarantino o filme Jackie Brown. Os outros são: Maximum Bob, Pronto, Cárcere privado, Irresistível paixão e Cuba Libre.

Pascoal, sobrinho do Professor Pardal, escrevendo uma carta, ilustração Walt Disney. 

Diana Athill

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Nascida em 1917, Diana foi funcionária da BBC na Segunda Guerra. Em sua longa carreira de editora trabalhou com autores do calibre de Elias Canetti, Philip Roth e John Updike, ajudando André Deutsch a consolidar a empresa que levava seu nome, uma das mais prestigiosas casas editoriais de seu país.

1 – Leia em voz alta para você mesmo.  Esta é a única maneira de saber se o ritmo das frases está certo.

2 – Corte ( talvez isso devesse ser CORTE):  só as palavras essenciais contam.

3 –  Você não precisa acabar com as suas frases favoritas, mas aquelas que lhe são muito caras, aquelas das quais você está orgulhoso, volte a lê-las.  Invariavelmente seu texto ficará melhor sem elas.

Margaret Atwood

 

Margaret Atwood é canadense.  Publicou seu primeiro livro aos 22 anos. Hoje, sua extensa e diversificada bibliografia conta com mais de 30 títulos, entre romances, coletâneas de contos, poesias, livros infantis e textos não-ficcionais. Sua vasta experiência inclui também roteiros para rádio e televisão. Traduzida para dezenas de idiomas, sua obra já lhe rendeu prêmios como o Booker Prize, recebido no ano 2000 pelo romance O assassino cego. A autora ostenta títulos honorários de mais de dez universidades e já teve um livro adaptado para o cinema.

1 – Para escrever num avião leve um lápis.  Canetas vasam.  Mas se o lápis quebra, você não pode apontá-lo, porque não pode levar o apontador dentro do avião.  Então, leve dois lápis.

2 – Se ambos os lápis quebrarem, você poderá afiar  a ponta, numa emergência,  com uma lixa de unhas.

3 – Leve algum material em que escrever.  Papel seria bom.  Numa emergência pedaços de madeira ou seu próprio braço servem.

4 – Se você usa um computador, sempre proteja o seu novo texto com um pen drive.

5 – Faça exercícios para as costas.  Dores tiram a atenção.

6 – Mantenha a atenção do leitor.  (Isso fluirá melhor se você conseguir manter a sua própria atenção).  Mas você não conhece o leitor, então é como caçar com uma única bala no escuro.  O que fascina A certamente aborrecerá B.

7 – Provavelmente você precisará de um bom dicionário, de uma gramática elementar e de uma boa dose de realidade.  Isso quer dizer:  nada é de graça.  Escrever é trabalho duro.  Também é uma aposta.  Você não tem plano de aposentadoria.  Outras pessoas podem lhe ajudar um pouco, mas – basicamente você estará sozinho, por si só.  Ninguém o está forçando a fazer isso:  é sua escolha, não reclame.

8 – Você jamais poderá ler seu próprio livro com a ingênua antecipação com que lê a primeira página de um novo livro, porque você o escreveu.  Você conhece os bastidores; viu como os coelhos foram escondidos dentro do chapéu.   Então, peça a um ou dois amigos para lerem o texto antes que você o envie para uma editora.  Esse amigo não deve ser alguém com quem você mantém um relacionamento amoroso, a não ser que vocês queiram se separar.  

9 – Não se sente no meio da floresta.  Se você se perder no enredo ou se tiver um bloqueio, volte nos seus passos at onde você se perdeu.  Aí, pegue a  outra estrada.  E/ou mude de personagem.  Mude o tempo verbal.  Mude a primeira página.

10 – Uma oração pode funcionar.  Ou ler uma outra coisa.  Ou visualizar ininterruptamente o Santo Graal que é o final, a versão publicada e esplendorosa do seu livro.

Ilustração Pato Donald escritor,  Walt Disney.

Roddy Doyle

 

Roddy Doyle nasceu em Dublin, Irlanda, em 1958. Escreveu diversos romances, muitos  adaptados para o cinema. Também foi ganhador do Man-Booker Prize, em 1993. O autor também escreve roteiros e scripts para o cinema. Mora em Dublin.

1 – Não coloque a foto de seu escritor favorito na sua mesa de trabalho, principalmente se ele for um daqueles famosos que se suicidou.

2 – Seja generoso consigo mesmo.  Preencha páginas o mais rápido possível; espaço duplo, ou escreva pulando uma linha.  Veja cada nova página como um pequeno triunfo.

3 – Até que você chegue à página 50.  Aí acalme-se, e comece a se preocupar com a qualidade.  Sinta a ansiedade, ela faz parte do trabalho.

4 – Dê um nome ao seu livro o mais rápido possível.  Tome posse dele, visualize-o.  Dickens sabia que Bleak House se chamaria assim antes de começar a escrevê-lo.  O resto deve ter sido mais fácil. 

5 – Restrinja suas visitas a uns poucos portais na internet, por dia.  Não procure por livros na rede, a não ser que seja para pesquisa.

6 – Mantenha próximo um dicionário, mas guarde-o no junto coma as ferramentas do jardim ou atrás da geladeira, em algum lugar que você precise fazer um esforço para consultá-lo.  Provavelmente as palavras que lhe vêem à cabeça serão adequadas, como “cavalo”, “correr”, “disse”.

7 – Vez por outra seja seduzido.  Lave o chão da cozinha, pendure as roupas lavadas.  É pesquisa.

8 – Mude de idéia.  Boas idéias em geral são assassinadas por melhores idéias.  Eu estva escrevendo um romance sobre um grupo chamado  The Partitions.  Aí decidi chamá-los The Commitments. [NT: Ele se refere ao seu grande sucesso nas telas do cinema, ao filme que, no Brasil, levou o título Loucos pela Fama.]

9 –  Não procure pelo livro que você ainda não escreveu na Amazon.com.

10 – Gaste alguns minutos por dia trabalhando no blog do seu livro, mas depois volte ao trabalho.

Helen Dunmore

 

Helen Dunmore é uma poetisa inglesa, romancista e escritora de livros infanto-juvenis.  Ganhou já diversos prêmios de ficção entre eles o Orange Prize.  Alguns de seus livros infanto-juvenis são hoje em dia adotados nas escolas britânicas.  Ela mora em Bristol.

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1 – Acabe cada dia de escrita enquanto você ainda quer continuar a escrever.

2 – Ouça o que você escreveu.  Um erro no ritmo de um diálogo pode mostrar que você ainda não entende seus personagens tão bem quanto o necessário para transcrever suas vozes.

3 – Leia as cartas de Keats.

4 – Releia, re-escreva, releia, re-escreva.  Se o texto ainda não estiver certo jogue-o fora.  Vai se sentir bem, e você não quer ficar cheio de poemas mortos e histórias que tem tudo neles menos a vida de que precisam.

5 – Memorize seus poemas.

6 – Torne-se membro das organizações profissionais que contribuem para os direitos dos autores.

7 —  Um problema de texto com freqüência é resolvido se você sai para uma longa caminhada.

8 —  Se você acha que tomar conta das crianças e da casa vão estragar a sua escrita lembre-se do escritor J.G. Ballard.

9 – Não se preocupe com a posteridade. Como Larkin observou “ o que sobreviverá de nós é o amor”.

Ilustração Walt Disney, Nestor e Peninha conversam sobre um livro.

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Geoff Dyer

 

Geoff Dyer nasceu em Cheltenham, Inglaterra, em 1958, e estudou em Oxford. É autor de três romances, de diversos livros de não-ficção, e escreve artigos para publicações como The Guardian, The Independent, New Statesman e Esquire.

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1 – Nunca se preocupe com as possibilidades comerciais do seu projeto.  Isso é ou não preocupação  para os agentes e editores.   Conversa com meu agente americano.  Eu: “ Estou escrevendo um livro tão chato, com possibilidades comerciais tão pequenas, que se você publicá-lo provavelmente vai perder o seu emprego.”  Agente:  “É exatamente isso que me faz querer manter o meu emprego.”

2 – Não escreva em lugares públicos.  No início dos anos 90 fui morar em Paris.  Pelas razões conhecidas pelos escritores:  naquela época se você fosse apanhado escrevendo num bar na Inglaterra, você poderia ter apanhado, enquanto em Paris, nos cafés…  desde então tenho aversão a escrever em público.  Hoje acredito que deva ser feito só em casa, como qualquer outra atividade de limpeza.

3 – Não se torne um daqueles escritoires que se limitam a passer a vida inteira bajulando Nabokov.

4 – Se você usa um computador, faça melhorias, estabeleça novos parâmetros nas correções automáticas.  A única razão de permanecer file ao meu pobre computador é que eu já investi tanta imaginação nele, construindo uma das melhores pastas de auto-correção da história literária.   Palavras perfeitamente soletradas aparecem com apenas algumas poucas teclas:  “Niet” se transforma em “Nietzsche”, “phoy” se torna “photography”  e assim por diante.  Genial!

5  — Mantenha um diário.  Um dos meus maiores arrependimentos é de nunca ter mantido um diário.

6 – Tenha alguns arrependimentos.  Eles são energia.  Na página eles se transformam em desejos.

7 – Trabalhe mais de uma idéia ao mesmo tempo.  Se tiver que fazer uma escolha entre escrever um livro e não fazer nada eu sempre escolherei a última opção.  Só se eu tenho uma idéia para dois livros é que eu escolho trabalhar num ao invés do outro.  Tenho sempre que me sentir como escapando de algum projeto.

8 – Tome cuidado com os clichês.  Não só os clichês com que Martin Amis está sempre brigando.  Há respostas que são clichés, assim como expressões.  Há clichês de observação e de pensamento – até mesmo de conceito.   Muitos romances, até mesmo alguns razoavelmente bem escritos, têm clichês no formato assim como clichês nas expectativas.

9 – Escreva todos os dias.  Crie o hábito de colocar suas observações em palavras e gradualmente isso se tornará instintivo.  Essa é a regras mais importante de todas e eu, naturalmente, não a sigo.

10 – Nunca ande numa bicicleta sem freios.  Se alguma coisa se mostra muito difícil, desista e faça alguma outra coisa.  Tente viver sem ter que se submeter à perseverança.  Mas para escrever tudo é perseverança.  Você tem que insistir.  Quando eu estava com uns 30 anos eu ia malhar, apesar de detestar fazer isso.  A intenção era pospor o dia em que eu iria parar de ir.  É isso o que escrever é para mim:  uma maneira de pospor o dia em que eu não o farei mais, o dia em eu entrarei numa depressão tão profunda que será indistinguível da felicidade total.

Anne Enright

 

Anne Enright (1962, Dublin, Irlanda) arrematou o Man Booker Prize de 2007 com o romance O Encontro, um mergulho no passado de uma família disfuncional. Atualmente é crítica de Literatura do Guardian.  Teve seus textos publicados nas revistas New Yorker, Granta e London Review of Books. Os recônditos da vida familiar, tema central de suas obras, são explorados em linguagem inventiva.

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1 – Os primeiros 12 anos são os piores.

2 – A maneira de escrever um livro é na verdade escrever um livro.  Uma caneta é útil, bater à máquina também.   Esteja sempre colocando palavras na página.

3 – Só os escritores ruins pensam que seu trabalho é realmente bom.

4 – Descrições são difíceis.  Lembre-se de que toda descrição é uma opinião sobre o mundo.  Acha o seu ponto de vista.

5 – Escreva o que quiser.  Ficção é feita de palavras numa página; realidade é feita de outra coisa.  Não importa o quão a sua história é “real”, ou quanto é “inventada”:  o que importa é a sua necessidade.

6 – Tente ser preciso sobre as coisas.

7 – Imagine-se morrendo.  Se você tivesse uma doença incurável você acabaria o seu livro?  Por que não?  O que aborrece nesta vida de 10 semanas de sobrevivência é o que está errado como seu livro.   Mude.  Pare de argumentar com você mesmo.   Mude. Vê?  É fácil.  E ninguém precisou  morrer.    

8 – Você também pode fazer tudo isso com uísque.

9 – Divirta-se.

10 – Lembre-se, se você se sentar  à sua mesa de trabalho por 15 ou 20 anos, todos os dias, sem contar os fins de semana, isso mudará algo em você.  Simplesmente acontece.  Pode mudar a sua disposição, mas consolida outra coisa.  Faz você ficar mais livre.

Ilustração: Margarida escreve em seu diário, Walt Disney.

Richard Ford

 

Richard Ford é um escritor americano, romancista e contista, vencedor do Pulitzer Prize.  Alguns de seus livros já foram passados para o cinema com grande sucesso.

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1 – Case-se com alguém que você ame e que ache que você ser escritor é uma idéia maravilhosa. 

2 – Não tenha filhos.

3 – Não leia críticas.

4 – Não escreva críticas ( seu julgamento é sempre preconceituoso).

5 – Não tenha discussões com sua mulher de manhã ou tarde da noite.

6 – Não beba e escreva ao mesmo tempo.

7 – Não escreva cartas para o editor ( ninguém está interessado).

8 – Não deseje mal aos seus colegas.

9 – Pense que a sorte dos outros é um bom encorajamento para você.

10 – Se possível, não deixe ninguém lhe encher o saco.

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Jonathan Franzen

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Nasceu em Western Springs, Illinois, em 1959.  Colabora com as revistas The New Yorker e Harper’s. Foi eleito pela revista literária Granta um dos vinte melhores jovens romancistas americanos. Polêmico, recusou-se a ir ao talk show de Oprah Winfrey, um dos programas de TV de maior audiência dos Estados Unidos, para divulgar o romance As correções.

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1 – O leitor é um amigo, não é um adversário, nem um espectador.

2 —  Ficção que não é a aventura pessoal de um autor num mundo desconhecido ou perigoso não vale a pena ser escrita, só vale a pena ser escrita por dinheiro.

3 – Nunca use a palavra “então” como conjunção – temos “e” para essa função.  Substituir “então” é uma maneira preguiçosa, para um autor sem ouvido, para o problema de “e” demais numa página.

4 – Escreva na Terceira pessoa a não ser que você tenha um primeira voz muito distinta e que se ofereça sedutoramente.

5 —  Quando uma informação se torna gratuita e accessível universalmente, a pesquisa volumosa para um romance se torna tão sem valor quanto a informação.

6 – A mais pura ficção autobiográfica requer pura invenção.  Ninguém escreveu uma história mais autobiográfica do que “ A Metamorfose”.

7 – Você vê mais se sentando imóvel do que indo atrás.

8 –  É duvidoso que qualquer pessoa com uma conexão à internet na sua área de trabalho esteja escrevendo boa ficção.

9 – Verbos interessantes raramente são muito interessantes.

10 – Você precisa amar antes de ser implacável.

Ilustração: Mickey tenta escrever, Walt Disney.

Esther Freud

 

Nasceu em Londres em 1963, filha do pintor Lucien Freud e bisneta de Sigmund Freud.  Foi atriz antes de se dedicar à literatura.

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1 – Corte as metáforas e símiles.  No meu primeiro livro prometi a mim mesma que não iria usar qualquer uma delas – mas eu me quebrei a promessa – durante um por de sol no capítulo 11.  Ainda enrubesço quando leio essa passagem.

2 – Uma história precisa de ritmo.  Leia em voz alta para você mesmo, se não parece mágico há algo que está faltando.

3 – Editar é tudo.  Corte até que você não possa cortar mais.  O que resta em geral ganha vida.

4 – Ache a melhor hora do dia para escrever e escreva.  Não deixe qualquer outra coisa interferir.  Depois não fará a menor diferença se a sua cozinha está bagunçada. 

5 – Não espere pela inspiração.  Disciplina é o segredo.

6 – Confie no seu leitor.  Não precisa explicar tudo.  Se você sabe alguma coisa e se colocou vida nisso, os leitores também saberão.

7 – Não se esqueça até mesmo suas regras foram feitas para serem quebradas.

Neil Gaiman

 

Neil Gaiman é um autor inglês, de romances e quadrinhos que escolheu viver nos Estados Unidos, em Minneapolis.  É internacionalmente conhecido como roteirista por seu trabalho na série Sandman.  Gaiman não se fixou nos quadrinhos, também escreve roteiros para séries televisivas e atualmente vem se dedicando à carreira literária. 

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1 – Escreva.

2 –  Coloque uma palavra atrás da outra.  Ache a palavra certa, escreva-a.

3 —  Acabe o que você está escrevendo.  Não importa o que seja necessário, chegue ao fim.

4 – Ponha o que escreveu de lado.  Leia como se não tivesse nunca lido antes.  Mostre aos amigos cujas opiniões você respeita e que gostam do tipo de ficção que você escreve.

5 – Lembre-se:  quando alguém diz que há alguma coisa errada ou que não se entusiamaram, eles estão quase sempre certos.  Quando eles dizem a você exatamente o que está errado e mostram como consertar, eles estão quase sempre errados.

6 – Conserte o texto.  Lembre-se de que, mais cedo ou mais tarde, antes de chegar à perfeição, você terá que deixar o texto ir embora e continuar a sua vida, começar a escrever seu próximo texto.  Perfeição é como querer caçar o horizonte.   Vá em frente.

7 – Ria-se de suas próprias piadas.

8 – A principal regra da escrita é que se você faz isso com bastante segurança e confiança, você tem permissão de fazer o que quiser.  (Esta talvez seja uma regra para vida assim como para a escrita.  Mas é verdadeira para a escrita).  Então, escreva sua história como ela precisa ser escrita.  Escreva com honestidade e conte-a da melhor forma possível.  Não sei se há qualquer outra regra.  Nenhuma que seja importante.

Ilustração, Chico Bento estuda ao som de música, Maurício de Sousa.

David Hare

 

Dramaturgo e argumentista inglês, nascido em 1947, em St. Leonards, no Sussex.

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1 – Escreva só quando tiver alguma coisa para dizer.

2 – Nunca siga os conselhos de pessoas para quem o resultado não tem importância.

3 – Estilo é a arte de sair do caminho e não de se colocar nele.

4 – Se ninguém encenar a sua peça, encene você mesmo.  

5 – Piadas são como os pés e as mãos de um pintor.  Talvez não seja o que você pretenda fazer, mas você tem que saber fazê-las no caminho.

6 – O teatro pertence primeiramente ao jovem.

7 – Ninguém chega a consitencia sendo um dramaturgo.

8 —  Nunca vá a um festival de pessoas da TV com pretensões de festival literário.

9 – Nunca reclame de não ser compreendido.  Você escolhe se quer ser compreendido ou não.

10 – As duas palavras mais deprimentes na língua inglesa são: “ficção literária”.

PD James

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Phyllis Dorothy James, OBE, nasceu em Oxford, Inglaterra.  É a Baronesa James de Holland Park, membro da House of Lords (Câmara dos Lordes) e uma escritora britânica de ficção policial que usa o nome P. D. James ao assinar as suas obras.   É reconhecida como uma das escritoras que mais influenciaram o género literário do romance de mistério, sendo especialmente notável a forma como caracteriza as suas personagens e a sua habilidade em construir atmosferas cheias de detalhes.

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1 – Aumente o seu poder com as palavras.  Palavras  são a matéria prima da sua arte.  Quanto maior o seu vocabulário mais efetiva a sua escrita. 

2 – Leia amplamente e com discriminação.   Má escrita é contagiante.

3 – Não só planeje escrever – escreva!  É só escrevendo, e não sonhando a respeito, que você poderá desenvolver o seu próprio estilo.

4 – Escreva aquilo que você precisa escrever, e não o que está na moda no momento, ou  o que você acha que será vendável.

5 – Abra a sua mente para novas experiências, particularmente para o estudo das pessoas.  Nada que acontece com um escritor – feliz ou trágico – é desperdiçado.

FIM DA PRIMEIRA POSTAGEM — PRÓXIMA POSTAGEM CONTINUAÇÃO COM OUTROS AUTORES.





Os sapos, poema de Manuel Bandeira

19 05 2010

Os sapos

                                                                      Manuel Bandeira

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os delumbra.

Em ronco que a terra,

Berra o sapo-boi:

— “Meu pai foi à guerra!”

— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”

O sapo-tanoeiro

Parnasiano aguado,

Diz: — ” Meu cancioneiro

É bem martelado.

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte!  E nunca rimo

Os termos cognatos.

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A formas a forma.

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas…”

Urra o sapo-boi:

— “Meu pai foi rei” — “Foi!”

— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”

Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

— “A grande arte é como

Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatutário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo.”

Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas:

–“Sei!” — “Não sabe!” — “Sabe!”

Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é

Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo-cururu

Da beira do rio…

                                                                           1918

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Manuel Bandeira (Recife PE, 1884 – Rio de Janeiro RJ, 1968) foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Teve seu primeiro poema publicado aos 8 anos de idade, um soneto em alexandrinos, na primeira página do Correio da Manhã, em 1902, no Rio de Janeiro. Cursou Arquitetura, na Escola Politécnica, e Desenho de Ornato, no Liceu de Artes e Ofícios, entre 1903 e 1904; precisou abandonar os cursos, no entanto, devido à tuberculose. Nos anos seguintes, passou longos períodos em estações climáticas, no Brasil e na Europa.

Obras:

Poesia 

A cinza das horas, 1917

Carnaval, 1919

O ritmo dissoluto, 1924

Libertinagem, 1930

Estrela da manhã, 1936

Lira dos cinquent’anos, 1940

Belo, belo, 1948

Mafuá do malungo, 1948

Opus 10, 1952

Estrela da tarde, 1960

Estrela da vida inteira, 1966

Prosa 

Crônicas da Província do Brasil – Rio de Janeiro, 1936

Guia de Ouro Preto, Rio de Janeiro, 1938

Noções de História das Literaturas – Rio de Janeiro, 1940

Autoria das Cartas Chilenas – Rio de Janeiro, 1940

Apresentação da Poesia Brasileira – Rio de Janeiro, 1946

Literatura Hispano-Americana – Rio de Janeiro, 1949

Gonçalves Dias, Biografia – Rio de Janeiro, 1952

Itinerário de Pasárgada – Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 1954

De Poetas e de Poesia – Rio de Janeiro, 1954

A Flauta de Papel – Rio de Janeiro, 1957

Itinerário de Pasárgada – Livraria São José – Rio de Janeiro, 1957

Andorinha, Andorinha – José Olympio – Rio de Janeiro, 1966

Itinerário de Pasárgada – Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1966

Colóquio Unilateralmente Sentimental – Editora Record – RJ, 1968

Seleta de Prosa – Nova Fronteira – RJ

Berimbau e Outros Poemas – Nova Fronteira – RJ

 





Onde estão os críticos e teoristas da literatura?

9 05 2010
Ilustração: Donald e Margarida numa galeria de arte, Walt Disney.

Há duas semanas uma grande controvérsia foi iniciada na página literária Prosa e Verso do jornal O Globo, quando Flora Süssekind, em 24 de abril de 2010, escreveu um artigo de duas páginas “A crítica como papel de bala” fazendo observações não muito generosas ao pensamento crítico literário cá pelas nossas bandas.  Como sou nova no pedaço,  tenho me distraído muito com as diversas reações ao artigo, que aparentemente se dividem ao longo de diferentes correntes da crítica.  Em qualquer campo de trabalho há sempre líderes e seguidores.  E aqueles que se dividem de acordo com seus interesses mais próximos.  Mas confesso que há poucas áreas tão férteis para desavenças imateriais quanto as humanidades.  Às vezes chego a me encabular com a mesquinharia de muitos.   Meu marido, que como eu, sempre trabalhou no campo humanístico, repete ocasionalmente um provérbio que se tornou auto-explicativo, que corria na faculdade em que ele ensinava literatura: “quanto menor o valor do que está sendo discutido, maiores as paixões”.

Não tenho preparo, conhecimento, nem interesse de entrar nessa briga de “cachorros grandes”,  de críticos, resenhistas, pesquisadores e pensadores brasileiros.  Achei, no entanto, muito interessante – para a gente ver como é Zeitgeist – o espírito do tempo – que dois dias depois [26/04/2010], saísse publicado no The Chronicle of Higher Education, um artigo Onde estão os críticos/teoristas da literatura? com a intenção de escarafunchar ainda mais um outro aspecto da crítica literária, dessa vez considerando o que acontece nos EUA.

Traduzo livremente do artigo na internet:

Onde estão os críticos/teoristas da literatura?

Mark Bauerlein

Os cursos superiores de literatura fazem a maior parte das humanidades, mas quando se fala de pesquisa nas humanidades, os pensadores literários e teoristas e críticos e pesquisadores são sistematicamente deixados de lado, e são considerados  pensadores de outras áreas  — filosofia, lingüística, psicologia, antropologia.

 

Esta conclusão pode ser feita através da lista compilada pela ISI Rede de Ciência e publicada no Suplemento do Times Higher Education.  Nela, autores são listados de acordo com o número de citações que seus livros receberam nas pesquisas , das humanidades, durante o ano de 2007.  (Nota: há uma certa ambigüidade entre o título e a descrição na listagem, e não fica claro se esta lista se aplica somente às humanidades ou não.  Cada um dos nomes foi citado pelo menos 500 vezes.

 

Abaixo vemos a lista dos autores que conseguiram mais de 1000 citações:

 

Michel Foucault (1926-1984) Filosofia, sociologia, crítica        2,521      

Pierre Bourdieu (1930-2002) Sociologia       2,465     

Jacques Derrida (1930-2004) Filosofia       1,874   

Albert Bandura (1925- ) Psicologia        1,536      

Anthony Giddens (1938- ) Sociologia       1,303    

Erving Goffman (1922-1982) Sociologia      1,066     

Jurgen Habermas (1929- ) Filosofia, sociologia        1,049

 

Nenhum critico literário no grupo.  Na verdade, a lista inteira, que contem 37 pessoas, cujos últimos nomes são os de Marx e Nietzeche, tem só um crítico literário/pesquisador/teorista, Edward Said.  Isso não teria acontecido há 50 anos, quando, imagino T.S. Elliot, I.A. Richards, Rene Wellek, Lionel Trilling e alguns outros críticos literários estariam na lista.

 

Não é simplesmente o fato da crítica literária ter-se tornado teoria literária.  Teoristas literários mais recentes tais como Paul de Man, Harold Bloom e Sandra Gilbert não são tampouco mencionados.   Ao invés disso, temos pesquisadores de literatura procurando em outros cantos por direção e inspiração.    É claro que todos esses citados na lista têm implicações de peso no estudo da literatura, mas a ausência quase total daqueles que foram treinados nas escolas superiores em literatura e que vivem nelas é impressionante.

[Mark Bauerlin é um professor de Língua Inglesa na Universidade Emory].

 

Não obstante a diferença de teorias, de maneiras de se estudar a literatura existente entre os EUA e o Brasil, o fato é que a crítica literária cá e lá foi sempre muito mais conservadora do que seu próprio tempo.  Este é um dos parâmetros da crítica.  Não cabe a ela, abrir novos horizontes nas artes, na literatura.  Ela está por definição sempre mais atrás.  Observando o que se passa, o que foi feito.  Por isso mesmo não me surpreendo com os resultados numéricos encontrados pela ISI Rede de Ciência: pesquisadores americanos são em geral muito mais conservadores do que seus equivalentes fora do país, refletindo em muito a postura daquela sociedade, que não é feita de extremos.  Mesmo nos campos intelectuais é uma sociedade que tende ao consenso, à média democrática e também aceitar o pensamento estrangeiro com certa desconfiança, não só porque é um país de proporções continentais, mas, sobretudo porque acredita no valor de seu próprio ensino e de seus conceitos [e preconceitos].   E todos esses aspectos levam a um maior conservadorismo de citações, de engajamento no que há de mais moderno na crítica literária ou de outros campos.  Lá constrói-se tijolo por tijolo, pacientemente, há modismos mas  em menor escala.  Os americanos em geral não são tão ansiosos por parecerem “modernos” quanto nós. 





Mariette em êxtase, de Ron Hansen

2 05 2010

 

 

Santa Teresa em êxtase, 1645-1652       [DETALHE]

Gian Lorenzo Bernini ( Itália, 1598-1680)

Escultura em mármore

Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma.

Não sei exatamente porque escolhi recentemente a leitura  de Mariette em êxtase, [Editora Objetiva: 1996] romance do escritor americano Ron Hansen, um livro que já fazia moradia na minha estante há alguns anos.  Não sei tampouco como esse livro  “apareceu aqui em casa” tendo um perfil tão diferente do que costumo comprar.  Mas estou grata às circunstâncias que me levaram a ele, pois essa foi uma leitura cativante, rica e inesperadamente marcante.

A história se passa no início do século XX, no convento das  freiras Irmãs da Crucificação, no interior do estado de Nova York.  Mariette, uma bela jovem de dezessete anos, filha de um médico local, decide entrar para esse convento, o mesmo escolhido anos antes por sua irmã mais velha, também chamada para a vida monástica.  Mariette é uma jovem devota, extremamente espiritual, dada a sonhos e transes, que se realiza na vida doméstica e regrada das religiosas.  Com essa abertura, seria difícil imaginar que o cotidiano de um convento, com rotinas de orações, horas para meditação, jantares em silêncio seria evocado de tal maneira que ler o texto até o final poderia tornar-se uma obsessão tão aguda quanto se essa história fosse um conto de espionagem.

E é.  Foi assim que me senti.  Acho que esta é de fato uma história de quase espionagem, uma história de mistério.  Não da espionagem como a entendemos entre nações rivais, companhias multinacionais roubando novas idéias umas das outras.  Nem mesmo uma história de mistério com algum crime por resolver.  Mas há  semelhanças com a espionagem porque depois de seis meses de vida conventual Mariette recebe sinais de que suas preces e sua devoção são respondidas.  Sua fé talvez esteja sendo agraciada por poderes espirituais desconhecidos por meros mortais.   Agraciada por quem?  Como ela conseguiu esse canal de comunicação com o mundo espiritual?  Porque não qualquer outra freira do convento?  Fervorosa nas suas orações, zelosa ao manter suas penitências, obstinadamente dedicada à sua crença, Mariette é arrebatada por eventos fora de seu controle:  estigmas que aparecem em suas mãos, sangue que jorra de feridas no seu corpo.   Esse é o mistério que a abraça, que a faz diferente das outras irmãs. 

 

A natureza da diferença de Mariette em  relação às suas companheiras é o fator de divisão nessa pequena comunidade.  Devemos acreditar ou não nos sinais de fé da Mariette?  São verdadeiros ou forjados?   Logo, logo o convento se divide.  O mistério invocado pelos estigmas é onipresente,  devastador.  Nesse aspecto, o romance chegou a me lembrar do filme O anjo exterminador de Luís Buñuel (1962).  Não que haja perigo de morte para os habitantes do convento, mas a presença do mistério, do indescritível poder de uma força diferente, exterior, alienígena leva a revelações íntimas sobre as próprias freiras.  As conseqüências são as dúvidas sobre o próprio mistério, são a inveja, são as inseguranças de cada membro afloradas.  Tudo isso me lembrou forçosamente da parede invisível que condena os convidados de um jantar a uma clausura indefinível do filme mexicano.

O sucesso dessa narrativa deve-se principalmente à magnífica prosa de Ron Hansen, — em grande parte deixada intacta pela excelente tradução de Marcos Santarrita —  que não usa uma palavra a mais do que o necessário; que mantém até o final o enigma dos mistérios testemunhados pelos personagens e pelo leitor.  O ritmo da narrativa é fundamental nesse romance.  Determinado a não se acomodar a soluções fáceis e a dar ao leitor a opção de solucionar o que se passa por si mesmo, Ron Hansen consegue produzir uma pequena obra prima que nos leva a considerar a natureza da fé e do milagroso.  Esse é um livro fascinante.  De leitura rápida e bem ritmada, sua história fica na nossa imaginação sendo revivida de diversas formas, sendo aludida com freqüência.  Uma ótima leitura.

Ron Hansen





As 10 melhores histórias de amor, lista da escritora Esther Freud

28 04 2010
 Ilustração Bob Jones

O jornal britânico The Guardian publicou recentemente a lista das dez melhores histórias de amor compiladas pela escritora britânica Esther Freud, que, em 1993,  foi considerada uma das 20 melhores escritoras britânicas pela revista Granta.  Sua obra não está publicada no Brasil e em português só encontrei o romance Um verão em Siena, publicado em Portugal pela editora ASA.

A autora de romances recheados de boas histórias de amor justifica suas escolhas da seguinte maneira:  “ As histórias de amor que permaneceram na minha imaginação foram as que quebraram o meu coração.  Romances que criaram um desejo, uma nostalgia, uma saudade entre duas pessoas; além de verdadeiros conflitos, desencantamentos e desesperança quando o amor não chega a se concretizar”.

 

Aqui está sua lista:

E o vento levou… de Margaret Mitchell

Este foi o primeiro livro que eu li e que me levou numa viagem espiritual.  A dedicação contida e sistemática de Rhett Butler à Scarlett pela maior parte do romance, o momento horrível em que ele deixa de amá-la, e ela finalmente admite que o ama, me fizeram querer mudar o destino ou que Margaret Mitchell  interviesse.  O meu volume estava ensebado e molhado de lágrimas quando acabei de lê-lo.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Margaret Mitchell, E o Vento levou, em sua 43ª edição.  Editora Villa Rica.  São 968 páginas.]

Jane Eyre  de Charlotte Brontë

Jane Eyre foi responsável por minha crença no poder dos romances, algo que me perturbou durante os meus anos de adolescência.  A suposição de que você poderia se reclinar à janela e sussurrar o nome de seu amado, e que ele poderia de fato lhe ouvir, era por demais sedutora para mim.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Charlotte Brontë, Jane Eyre, Editora Itatiaia:2008, 285 páginas.]

Tess  de Thomas Hardy

 

Quem consegue se esquecer do momento em que Tess não acha a carta que foi enfiada por debaixo de sua porta?  Esta cena está cravada nos milhões de corações dos leitores do romance no mundo inteiro.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Thomas Hardy, Tess, Editora Itatiaia:442 páginas.]

Anna Kariênina de Liev Tolstoy

Provavelmente o melhor romance já escrito.  Tolstoi retrata os altos e baixos da paixão de Anna por Vronsky, e nos mostra a impossibilidade de seu amor poder ser equivalente ao que ela perde.  As cenas entre ela e seu filhinho – a quem precisa abandonar – são de cortar o coração por seu controle, e são desses momentos que nos lembramos, quando o ardor de Vronsky começa a esvanecer.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Liev Tolstoy, Anna Kariênina, Editora Cosac Naify: 816 páginas.]

Doutor Jivago de Boris Pasternak

É difícil superar uma história de amor russa, especialmente este romance épico, com a guerra como pano de fundo, mas a história de amor de Jivago por Lara e o momento inesperado que eles têm de reavivar sua paixão quando o destino os junta de novo no exílio, é difícil de resistir.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Boris Pasternak, Doutor Jivago, Editora Record: 630 páginas.]

A procura do amor de Nancy Mitford

 

É como consumir um delicioso quitute.  Um romance muito engraçado do ponto de vista de Fanny, cuja mãe “A fugitiva”, a deixou para trás para ser educada por uma tia.  Ela passa a maior parte do tempo com seus primos, os excêntricos e glamorosos Radletts, e é Linda Ratlett – um composto de Mitford e suas irmãs – procurando  pelo companheiro perfeito, que é a figura  central  deste romance.

[Não encontrei nenhuma tradução do livro: The pursuit of love, de Nancy Mitford, no Brasil.  Há uma edição portuguesa]

O tempo nas ruas de Rosamond Lehmann

 

Publicado originalmente em 1936, este livro estava muito avançado para o seu tempo na descrição de um caso de uma jovem mulher com um homem casado.  Lehmann nos leva com ela – na espera, nos momentos brilhantes de esperança – sem que percamos a simpatia por qualquer um dos personagens.  Cheio de paixão e de uma honestidade brutal ao retratar como o amor pode tomar conta de toda uma vida. 

I

Ilustração, Bob Jones

Terra descansada de Jhumpa Lahiri

 

Nessa coleção de contos, Lahiri nos dá três histórias conectadas.  Hema e Kaushik são dois Americanos de origem indiana cujos pais eram amigos quando eles eram jovens e que se encontram por acaso em Roma.  Eles são irresistivelmente atraídos um pelo outro, mesmo Hema estando de casamento marcado.  A medida que seus sentimentos se intensificam, nós ficamos absorvidos com o desejo que sentem e a vontade de que eles tenham coragem para alterar o curso de suas vidas.  Mas aí o destino – ou a natureza – intervém, e a dor no final me deixou doída fisicamente.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Jhumpa Lahiri, Terra descansada, Cia das Letras:2009, 384 páginas.]

 A história do amor de Nicole Krauss

Uma história de muitas facetas sobre a solidão e oportunidades perdidas.  Alma, uma menina de 15 anos, tenta ver o sentido da vida, depois que seu pai morre, ao se concentrar na trama do romance que sua mãe está traduzindo.  A bela, engraçada e misteriosa história junta seus  personagens de uma maneira completamente inesperada mas bem-vinda.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Nicole Krauss, A história do amor, Cia das Letras:2006, 320 páginas.]

Um dia de David Nicholls

Seguimos a vida de Emma e Dexter por 20 anos de amizade, fascinação, oportunidades perdidas, casamentos mal feitos e eventual união eles;  este é um romance com uma estrutura brilhante, engraçado e fundamentalmente agonizante.

[Não encontramos tradução deste romance para o português.]

*****

Fonte: The Guardian, 27/04/2010





Este lago sereno — poesia de Ladyce West

5 04 2010

 

Fantasia tropical —  Foto: Ladyce West, Jardim Botânico,  Rio de Janeiro.

Este lago sereno

 

                                                                                        Ladyce West 

Este lago sereno exerce uma atração,

Uma obsessão misteriosa,

Alucinante em mim.

Um desejo de mergulhar na sua profundeza,

De me perder em seu mistério,

De desaparecer na paisagem tranqüila,

Pintada em suas águas sombrias,

Sossegadas, calmas e imóveis.  

Seu silêncio me hipnotiza e seduz.

Este lago manso me mesmeriza

No tratar invertido da natureza:

A dupla imagem, a ambigüidade.

Céu e água. Água e céu.

O reflexo do vôo de um pássaro no ar…

Um  peixe fugidio a nadar?

Verso e reverso.  Corpo e alma.

Inferno e paraíso.

Meu mundo unido num só horizonte.

 —

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro — Em: À meia voz.





Bolinhas de gude, poema infantil de Maria Eugênia Celso

29 03 2010
 Ilustração Maurício de Sousa.

Bolinhas de gude

                                               Maria Eugênia Celso

Brancas, verdes, rajadinhas,

                               Amarelas,

                As bolinhas

                Vão rolando,

                Vão dançando

                Seja liso ou seja rude

                O chão onde vão rolando

                Lá vão elas, lá vão elas…

                               As bolinhas de gude.

Brincam os meninos com elas,

                               Estão jogando

                No jardim ou nas calçadas,

                As bolinhas vão correndo

                Azuis pardas, amarelas,

                               Rajadinhas,

E tão vivas, tão ligeira, tão alegres e estouvadas

                Que até fica parecendo

                               Que são elas

                                               As bolinhas

Que com eles estão brincando.

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

Maria Eugênia Celso

Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (São João Del Rey, Minas Gerais, 1886 – 1963), usou também o pseudônimo Baby-flirt.  Jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista.  Funcionária de carreira do Ministério da Educação e Cultura.  Veio de Minas Gerais para Petrópolis, ainda criança,  onde cursou o Colégio Sion.  Em 1920 começou sua carreira jornalística no Jornal do Brasil.  Participou ativamente do “Movimento Feminista”, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se ao assistencialismo junto às “Damas da Cruz Verde”, aparecendo como uma das lideranças que criaram a maternidade “Pro-Matre” do Rio de Janeiro.  Batalhou pelo direito das mulheres ao voto. Faleceu em 1963.

Obra:

Em Pleno Sonho, poesia, 1920

Vicentinho, 1925

Fantasias e Matutadas, poesia, 1925

Desdobramento, poesia, 1926

Alma Vária, poesia

Jeunesse, poesia

O Solar Perdido, poesia, 1945

Poemas Completos, 1955

Diário de Ana Lúcia, prosa,

De Relance, crônicas

Ruflos de Asas, teatro

Síntese Biográfica da Princesa Isabel, biografia





Papa-livros: Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum, resenha

24 01 2010

Manaus, foto antiga, coleção Allen Morrison.

Se eu tivesse que expressar visualmente a minha impressão do livro de Milton Hatoum, Relato de um certo oriente, teria que dizer que como leitora, fui habilmente seduzida por um texto cuja história se mostra tímida, escondida nas entrelinhas, e que vai se revelando, a contragosto, com algumas contorções, com gestos delicados e incompreensíveis,  com mudanças de ritmo e de perspectiva.  Foi como se eu tivesse sido vítima de magia, encantada por uma Salomé, por uma dançarina oriental, debaixo de sete véus.  Infelizmente, Milton Hatoum não me deu, como leitora, a oportunidade de descobrir a total beleza da mulher que se desnuda à minha frente.  O último véu, aquele que encobria o rosto, aquele que só me  permitia, até o último momento, ver só os olhos pelos quais me aproximei da história, esse véu não caiu.  A última barreira para a identidade da narradora dessa trama,  para o seu nome, fica presa naquela película translúcida através da qual sinto a presença da face.   Gostaria de que esse véu tivesse também caído, para saber ao certo, sem quaisquer dúvidas,  a identidade dessa personagem, filha adotiva,  sem-nome, que volta à casa da infância e se lembra das histórias do passado.  Os detalhes do rosto que vislumbro e que imagino, no entanto, nessa dança sedutora, não me são jamais revelados.  Foi grande a frustração causada pela narrativa dissimulada, oblíqua da história desta família de imigrantes do Oriente Médio no Amazonas.    Terminado o texto, voltei ao início do livro para ter certeza de que não havia perdido algum detalhe que houvesse me desviado para um final inconclusivo, mas continuei, depois de reler o texto, com a inconveniente sensação de uma narrativa que carecia de um único detalhe para um desfecho pleno, satisfatório.

Esse é o terceiro livro de Milton Hatoum que leio.  Já havia lido Dois irmãos, de que gostei imensamente, e Órfãos do Eldorado, cuja resenha pode ser encontrada aqui no blog.   Esse grande escritor amazonense me agrada.  Aprecio sua dedicação à memória, à memória cultural, à memória individual.  Sem ela não somos, simplesmente estamos.  Milton Hatoum tem uma maneira onírica de contar histórias e é capaz de nos levar facilmente a um mundo meio-sonho, meio realidade, à zona da imaginação que pontua narrativas de um passado não muito distante.  Como nos livros citados acima, este romance também se passa em Manaus, essa última fronteira, terra de água e de floresta, de culturas imigrantes e nativas.  Ali os mundos se encontram e aprendem a conviver.

Milton Hatoum, foto: Lucila Wroblewski.

A trama é centralizada numa família, cujos principais componentes e eventos que a cercam são contados não só pelas lembranças da principal narradora, uma mulher que, passados vinte anos, retorna ao lar da infância, mas por outras vozes também.  Ela era a filha adotiva do casal de imigrantes, e permanece o centro das recordações.   A narrativa é composta de diversas memórias, não só dessa filha, mas também de outros membros da família, de amigos, memórias  que se entrelaçam e se confundem.   Conhecemos assim por pedaços, por insinuações o mundo de Emilie, matriarca desse clã libanês.  Ao longo da narrativa tive consciência da herança da cultura oral brasileira e das culturas do Oriente Médio.  Com uma narrativa evocativa, o romance ganha profundidade a cada relato, a cada personagem que conta parte da história.  Acaba-se com a sensação de se ter lido, de fato um grande romance.  Gostaria, no entanto, de fazer a seguinte observação:  acho que Milton Hatoum complica um belíssimo texto, mais do que necessário.  Se eu, que sou leitora assídua e regularmente inteligente, tenho que pegar papel e lápis para fazer anotações e ver se estou entendendo direito o que acontece na trama, há algo de errado.   E foi isso o que aconteceu comigo.  Li o livro com papel e lápis na mão.  Até um esboço de uma árvore genealógica construí.  Não acredito que isso deva acontecer.  Qualquer que seja o romance, de quem quer que seja.  Mas mesmo assim, a força narrativa de Milton Hatoum, e seu texto, cuidadoso — como hoje já quase não vemos na literatura brasileira — não deixam que eu coloque esse livro de lado.  Vou recomendá-lo, mas advirto, nem sempre o texto tem a clareza que deveria  transmitir.  Fiquei frustrada e me senti manipulada com essa narrativa oblíqua e dissimulada.