Quadrinha do descobrimento do Brasil

18 04 2012

 

Ilustração de autoria desconhecida.

Cabral olhando o infinito,

Viu um cruzeiro de luz

E chamou a nossa Terra

de Ilha de Santa Cruz.

(Walter Nieble de Freitas)





Lima Barreto: “O destino do Chaves “, um conto ainda relevante

31 03 2012

Caricatura portuguesa sobre a política, de Alonso, 1923.

O destino do Chaves

Lima Barreto

Trouxe Chaves, quando nasceu, o nome de Felismino.  Seus padrinhos, a pedido dos pais, conservaram-lhe o nome do Santo do dia do seu nascimento; mas acrescentaram a este, o de Felicíssimo.  Veio a chamar-se, portanto, Felismino Felicíssimo Chaves da Costa.

Antes do batismo, sua mãe, senhora duplamente crente, tanto na Igreja Católica como nas práticas da adivinhação e feitiçaria, mandou chamar algumas pessoas conspícuas  e entendidas nessas últimas misteriosas coisas e pediu-lhes que dissessem o futuro da criança. A mãe de Chaves ainda estava de resguardo; e as “fadas” locais disseram a “buena-dicha” do pequeno.

Falou em primeiro lugar a Victoria, uma velha indiática, originária da raça extinta dos Caetés, aqueles indígenas sacrílegos que, logo nos primórdios da colonização do Brasil, não trepidaram em cremar as carnes do primeiro bispo do nosso país, D. Pero Fernandes Sardinha.

A velha cabocla falou em primeiro lugar e com brevidade:

— Iaiá, ele vai longe; vai ser grande coisa.

Disse isto, após ter feito algumas gatimonhas, caretas e cuspinhar nos quatro cantos do aposento, que ainda rescendia a alfazema.

Seguiu-se à velha índia, a não menos velha Maria Ângela, uma preta da raça catrinta, rainha do terreiro e respeitada por toda aquela redondeza, pelo poder de seus bruxedos e feitiços.

Era aparecer alguém com moléstia tenaz, queixar-se de atrasos de vida ou desgraças domésticas, todos aconselhavam a una você:

— Isto, D. Dadá – por exemplo – é “uma coisa feita”.  Não há que ver!  Porque a senhora não procura a tia Maria Ângela, para cortar?

Sendo assim famosa e respeitada, indo ler o horóscopo do infante Felismino, esperava ser a primeira ouvida.  Não o foi, porém; agastou-se. Contudo, não deixou cair o seu despeito.

Quando chegou a sua vez de deitar o vaticínio, preliminarmente fez uns passos de jongo, em melopeia horrível e profética:

— Sim, menino, meu anjinho: vancê será grande coisa… Mamãe é bem boa… Eu não corta... Mas vancê não será feliz naquilo que vancê e os seus quisé.

A mãe não se conteve e perguntou:

— Em que será então?

A velha negra não teve tempo de responder.

Pai Luís, um velho preto congo, também entendido nessas coisas transcendentes de adivinhar o futuro dos outros, e que viera prognosticar a vida a vir de Felismino, apressou-se, um tanto amuado, em afirmar:

— Eu não gunguria ningror; não qué botá biongo nem mangá; mas eu diz que criança sê macota no que ele não sabe.

Chaves fez-se rapazola e foi matriculado na escola militar do Ceará, porque em criança andava de chapéu armado, feito com jornal, tendo uma espada de bambu na cinta e corria pela chácara paterna, montado num cabo de vassoura. Era um bom augúrio para uma bela carreira militar…

Não acabou o curso e foi desligado por falta de pontos. Terminou mal ou bem, aos tombos os preparatórios, e foi mandado estudar medicina, na Bahia.  Foi logo reprovado em Botânica e Zoologia, no primeiro ano.  Tomou então a resolução de estudar direito. Formou-se afinal. Fez-se promotor, juiz, ganhou influência na comarca. Guindaram-no a deputado. Ele viveu, na Câmara Federal, calado e, por isso mesmo, logo foi feito senador pelo seu estado natal.

Veio a governar a República o Imperador Pechisbeque. Um belo dia, sem saber como, Felismino Felicíssimo Chaves da Costa deitou-se senador e levantou-se da cama ministro do estado dos negócios da Marinha.

Todos os horóscopos dos feiticeiros de sua terra se haviam cumprido exatamente.

15-12-1920

Em: A Nova Califórnia e outros contos, Lima Barreto, seleção e apresentação de Flávio Moreira da Costa, Rio de Janeiro, Revan: 1994.





Quadrinhas contando o Descobrimento do Brasil — uso escolar

22 03 2012

Para firmar o comércio

Das Índias e Portugal,

Uma esquadra foi entregue

A Pedro Álvares Cabral.

Eram treze embarcações

Com brancas velas de pano

Que iriam concretizar

Velho sonho lusitano.

Ao chegar às costas da África,

Cabral ordenou que a frota

Desviasse das calmarias

Que estavam em sua rota.

Assim procedeu a esquadra,

Para a Vinte e Dois de Abril

Chegar nesta linda terra

Hoje chamada Brasil.

Esse fato aconteceu

No ano de mil e quinhentos:

Um grande feito na História

Dos grandes descobrimentos.

Walter Nieble de Freitas

Em: 1000 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1965.





O índio, poesia de Robert Preis

13 03 2012

O atirador de arco, 1925

Vicente do Rego Monteiro ( Brasil,1899-1970)

óleo sobre tela, 108 x 137 cm

Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife


O índio

Robert Preis

O índio, elemento

tão sensível e frágil

das matas tropicais!

Como poderia resistir

à legião de

conquistadores,

donatários,

donos de engenhos,

bandeirantes,

capitães de mato,

desembargadores,

grileiros,

coronéis,

generais,

parlamentares,

escritores românticos,

entre outros,

quando cada um destes grupos

já é de morte?

4/9/97

Em: Transpondo fronteiras, Robert Preis, Niterói, Ed. Muiraquitã:1999

Robert Preis nasceu na Alemanha em 1934. Bacharel e licenciado em história, pós-graduado em língua alemã e doutor em linguística, todos cursos na Universidade de São Paulo.





Meu lugar é aqui! texto de Mário Sette

5 02 2012

Enfermeira, ilustração de Coles Phillips, para a revista Red Cross, Janeiro, 1918.

Meu lugar é aqui!

Mario Sette

Impelidos por maus políticos, e a pretexto de se opor à execução da lei humanitária da vacina obrigatória, alguns elementos militares, no Rio de Janeiro, revoltaram-se contra o governo da República.
A cidade estava alarmada.  Precavida, a população ordeira ficava em seus lares, contristada das lutas que iam pelas ruas e temerosa pelas consequências da insubordinação militar.
Indivíduos afeitos a barulhos, a abusos, aproveitando-se da situação, quebravam lampiões, agrediam transeuntes, ameaçavam de saque casa comerciais.
Na baía de Guanabara os vasos de guerra estavam de fogos acesos, de canhões prontos para qualquer ordem de defesa do governo. Igualmente, nas fortalezas ninguém dormia.
No palácio do Catete, o presidente Rodrigues Alves reunira o ministério e conferenciava com ele a respeito das medidas necessárias, de força, para prestígio da autoridade.
Os salões estavam acesos.  Havia abaixo e acima movimento de secretários, de contínuos, de estafetas do telégrafo.  Iam ordens para bordo, iam ordens para batalhões, iam telegramas para os Estados.
A expectativa era intranquilizadora.  Falavam de adesões de tropas à revolta.  Sabia-se que a Escola Militar marchava para a paia de Botafogo contra o Catete.  Ouvi-se a fuzilaria, longe.
Noite a dentro, alguém chegou, apressado, no palácio, avisando que as forças revoltosas avançavam com o intuito de atacar o Catete.
Um ministro, vendo a gravidade do momento, aconselhou ao presidente Rodrigues Alves que saísse dali, que se recolhesse a outro lugar onde sua vida estivesse menos exposta.
O chefe da Nação, porém, desprezando o alvitre, declarou:  Saia quem quiser.  Quanto a mim, o meu lugar é aqui!

Em: Terra Bandeirante, textos escolares para a 4ª série, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1954

NOTA –  A Revolta da Vacina ocorreu de 10 a 16 de novembro de 1904 na cidade do Rio de Janeiro.  O motivo que desencadeou esta revolta dos militares contra o governo federal foi a campanha de vacinação obrigatória, imposta pelo governo contra a varíola.

Mário Rodrigues Sette (Recife, PE 1886 — 1950) professor, jornalista, contista, cronista e romancista.  Veja: www.mariosette.com.br

Obras:

Ao clarão dos obuses, contos, 1914
Rosas e espinhos, contos, 1918
Senhora de engenho, romance, 1921
A filha de Dona Sinhá, romance, 1923
O vigia da casa grande, romance, 1924
O palanquim dourado,  romance, 1921
Instrução Moral e Cívica, didático, 1926
Sombra de baraúnas, contos,  1927
Contas do Terço, romance, 1928,
A mulher do meu amigo, novela, 1933
João Inácio, novela, 1928
Seu Candinho da farmácia, romance, 1933
Terra pernambucana, didático, 1925
Brasil, minha terra! , didático, 1928)
Velhos azulejos, parábolas escolares, 1924
Os Azevedos do Poço,romance, 1938
A moça do sítio de Yoyô Coelho, contos, s/d
Maxambombas e maracatus, crônicas, 1935
Arruar, crônicas, 1948
Anquinhas de Bernardas, 1940
Barcas de vapor, 1945
Onde os avós passaram, s/d
Memórias íntimas,s/d





Outra opinião: Irene Popow, trecho extraído do livro Adeus, Stalin!

19 01 2012

O bolchevista, 1920
Boris Kustodiev (Rússia, 1878-1927)
Óleo sobre tela, 101 x 141 cm

Estou lendo as memórias de Irene Popow,  publicadas em 2011 pela Editora Objetiva, que levam o título  Adeus Stalin!.  Ainda não terminei a leitura — tenho o hábito de ler 4 a 5 livros ao mesmo tempo — mas ressalto aqui uma passagem interessantíssima, com o objetivo de contrabalançar a atual  discussão sobre o legado de Luís Carlos Prestes, cuja controvérsia sobre a doação de seus bens a família parece até fomentar para que o líder comunista não caia no esquecimento.  Resolvi citar essa passagem de Irene Popow por achá-la necessária para contextualizar, em perspectiva histórica, um período importante na nossa história.

“Tenho um sentimento misto de admiração e inveja cada vez que ouço ou leio que, durante o nazismo de Hitler, 6 milhões de judeus foram mortos.  Admiração porque os judeus conseguem manter viva a lembrança das atrocidades nazistas através de filmes, livros, artigos, palestras, exposições.  Não deixam ninguém esquecer.  Todos, na ponta da língua, sabem: 6 milhões de judeus morreram por ordem de Hitler.  Inveja porque os russos e os ucranianos não o fazem:  não divulgam que 30 milhões de conterrâneos morreram vítimas do comunismo de Stalin.  Raríssimas vezes se fala ou se escreve a respeito.

Dez milhões de ucranianos morreram durante a Segunda Guerra, e cerca de 2,3 milhões foram levados para campos de trabalho forçado na Alemanha (dois terços de todos os eslavos deportados). Com o fim do conflito, muitos não quiseram voltar para a União Soviética e emigraram para vários países.  Minha família veio para o Brasil, mas a maioria seguiu para o Canadá e os Estados Unidos.  O Ukranian Canadian Research & Documentation Center, com sede em Toronto, lamenta que, dos 300 mil imigrantes ucranianos, apenas dois gravaram depoimentos em vídeo sobre os campos de concentração de trabalhos forçados Ostarbeiterlager (Campo de Trabalhadores do Leste), na Polônia, e nenhum sobre o Holodomor.

No entanto, existem dezenas de milhares de relatos feitos por judeus sobre suas vivências nos campos de extermínio.  Jorge Mautner, que nasceu no Brasil, deu um intrigante título ao seu livro autobiográfico O Filho do Holocausto.

É ou não para ter admiração e inveja?

Ao mesmo tempo, fico irritada com a crescente glorificação de Olga Benário e Luís Carlos Prestes, que aumentou após o livro de Fernando Morais e o filme de Jayme Monjardim.  Ambos são muito bons.  Porém, uma obra com qualidade estética considerável sobre Hitler ou Stalin não justifica o enaltecimento desses líderes.
Olga, judia alemã e filiada ao Partido Comunista, revolta-se contra o nazismo e a perseguição ao seu povo, foge para a Rússia e abraça o comunismo de Stalin.  Mas ela ignora – o talvez apoie – a perseguição do dirigente soviético aos milhões de inimigos do povo.  Prestes, que mora em Moscou desde 1931, é treinado com Olga para liderar uma revolução armada no Brasil.

Não acredito que os dois estivessem alheios ao que acontecia na União Soviética.  Posteriormente, devido à Cortina de Ferro e ao isolamento absoluto, foi possível esconder a existência do muro de Berlim.  Entretanto, era quase inconcebível ignorar os milhões de mortos pelo Holodomor e pelos expurgos de Stalin, que era de conhecimento de toda a população soviética.  O mesmo comunismo que Olga e Prestes queriam implantar no Brasil. Eles então chegam ao Brasil em 1934, fiéis ao lema “Os fins justificam os meios”. A tentativa fracassa e os dois são presos.

Porém, nada justifica a decisão da ditadura de Getúlio Vargas de entregar Olga, grávida, à morte nos campos de Hitler.  Nada faz dela uma heroína tampouco.  A glorificação do casal é bem diferente da de Anne Frank, judia alemã também morta num campo nazista.  Seu diário foi traduzido para dezenas de línguas.  A casa em Amsterdã, onde se escondeu com os parentes durante a guerra e na qual registrou suas anotações, virou merecidamente um museu.”





Fundação de São Paulo, texto de Alfredo Ellis Júnior

18 01 2012

Fundação da cidade de São Paulo, 1913

Antônio Parreiras (Brasil, 1860-1937)

óleo sobre tela, 179 x 200cm

PESP: Pinacoteca do Estado de São Paulo

São Paulo, SP

Fundação de São Paulo

Alfredo Ellis Júnior

O padre José de Anchieta veio da Europa em 1553, como irmão leigo e, em companhia do padre Manuel de Paiva no lugar antes chamado de aldeia de Piratininga, em 25 de janeiro de 1554 (ano do nascimento de D. Sebastião) ergueu a casa de educação e catequese de índios Guaianás.

Aí, nessa data, foi dita a primeira missa, tendo a casa tomado o nome de Colégio de São Paulo de Piratininga, em razão do santo do dia.  O lugar que era antes a aldeia de Piratininga, da qual era chefe Tibiriçá, achava-se quase na foz do riacho Anhangabaú, ao desembocar este no Tamanduateí, com um promotório de terra vestido de vegetação rala, que avançava ravinoso e íngreme sobre a várzea do Tamanduateí.

Em razão da facilidade de sua defesa, o colégio jesuíta foi o ponto de atração de imigrantes que vieram em abundância, do velho vilarejo de Santo André da Borda do Campo e do litoral vicentino. Com essa corrente de novos povoadores, o vilarejo piratiningano progrediu de tal forma que, em 1560, o 3º governador-geral Mem de Sá ordenou a extinção de Santo André e a ereção, no novo núcleo do planalto, doo pelourinho, que deveria ser transferido.

É que Santo André não apresentava condições de fácil defesa.  Situada em um descampado circundado de floresta, o povoado andreense não oferecia segurança aos seus moradores, que estavam por demais expostos aos ataques dos índios.  Enquanto isso, São Paulo de Piratininga, acavalada por sobre outeiros, ilhados na imensidão líquida de varzedo e de valados inundáveis, era uma posição praticamente inexpugnável.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano — pequena antologia sobre a terra, o homem e a cultura do estado de São Paulo, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954

Alfredo Ellis Júnior nasceu em 1896.  Advogado, historiador, militar, político. Dedicou-se ao ofício de professor de História, lecionando em escolas de São Paulo.  Em 1938 torna-se professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde permanece até 1952 quando se retira por problemas de saúde. Faleceu em 1974.

Obras (listagem incompleta):

Amador Bueno: o rei de São Paulo

Ascendendo na história de São Paulo, 1922

O Bandeirismo Paulista e o Recuo do Meridiano, 1924

O café e a paulistânia, 1951

Capítulos da história social de São Paulo, 1944

Confederação ou separação, 1933

A economia paulista do século XVIII

A Evolução da Economia Paulista e Suas Causas, 1937

Feijó e a primeira metade do século XIX

Geografia econômica

História da civilização brasileira, 1º volume, 1939

História da civilização brasileira: Feijó e sua época, 2º volume, 1940

História da civilização brasileira: panoramas políticos, 6º volume, 1946

Jaraguá: romance histórico da penetração bandeirante

A Lenda da Lealdade de Amador Bueno e a Evolução da Psicologia Planaltina, s/d

A madrugada paulista:lendas de Piratininga, 1934

Meio século de bandeirismo: 1590-1640, 1939

A nossa guerra, 1933

Um parlamentar paulista da república, 1949

Pedras lascadas, 1928

Panoramas históricos, 1946

Os primeiros troncos paulistas e o cruzamento euro-americano, 1936

Populações paulistas, 1934

Raça de gigantes, 1926

Raposo Tavares e a sua época, 1944

Resumo da história de São Paulo, 1942

O tesouro de Cavendish, 1928

O tigre ruivo, 1934





A dura vida em Santo André da Borda do Campo, texto de Viriato Corrêa

9 01 2012

Descobrimento do Brasil.

As constantes reclamações, que temos todo o justo direito de fazer sobre os impostos no Brasil, associadas à próxima data de aniversário da cidade de São Paulo, me levaram a pensar hoje nos ensaios de Viriato Corrêa, em particular neste que reproduzo aqui sobre os impostos do vilarejo de Santo André da Borda do Campo em meados do século XVI, quando o Brasil tinha um pouco mais de 50 anos de existência.  Resolvi postá-lo, porque gosto desse excelente escritor e o ensaio  me lembra e espero que faça o mesmo a vocês, das dificuldades que os nossos antepassados tiveram ao se estabelecerem nesse Eldorado.  Sei muito bem que comemora-se o aniversário de Santo André da Borda do Campo  em abril — fundada em 1553 este ano ela comemora 459 anos de idade.   No entanto, Santo André da Borda do Campo exerce um grande fascínio para mim, o fascínio do desconhecido, do mistério, já que o vilarejo desapareceu em 1560 e há muito pouca informação sobre sua localização original.

A dura vida em Santo André da Borda do Campo

Viriato Correia

Desde que o Brasil é Brasil não houve certamente multas mais extorsivas que as que se cobraram na vila remota de Santo André da Borda do Campo.

Ao mais ligeiro golpe de vista pelas atas da municipalidade do rude arraial de João Ramalho, o leitor se escandaliza diante da disparidade das multas, comparada com o valor do dinheiro naquela longínqua quadra quinhentista.

Quer sobre a vila de Santo André, quer sobre a vida de João Ramalho, anda a história ainda às tontas.

João Ramalho tem sido tudo na história, ao sabor dos historiadores.  Para uns foi o precursor de Colombo, pisando em terras americanas antes que as caravelas do navegador genovês fundeassem nas águas das Antilhas.  Para outros é o náufrago que ao Brasil aportou naqueles dias sombrios em que o Portugal deixou a terra de Santa-Cruz em pleno abandono.  Para Cândido Mendes não é outro senão o muito conhecido bacharel da Cananéia, que a história até hoje não pode conhecer definitivamente.  Uns dizem-no fidalgo da casa real, outros afirmam-no aventureiro e ignorante.  O que ele é, até hoje, nestes dias de pesquisas, é um ponto de interrogação.

O arraial de Santo André continua com a mesma sorte de seu fundador.  Ninguém sabe em que ponto do planalto paulista João Ramalho fundou o seu povoado.

Até hoje não se pode determinar o lugar preciso em que existiram os primeiros fundamentos do mais antigo dos núcleos populosos de S. Paulo.

João Ramalho e seu filho

[DETALHE]

Wasth Rodrigues (Brasil, 1891-1957)

óleo sobre tela

Museu Paulista, São Paulo, SP

Que ambos existiram – o arraial e o fundador – é que não há mais dúvida.  Para muitos o arraial de Santo André da Borda do Campo não era mais que uma furna de bandidos, um numeroso rancho de malfeitores, colocados no planalto paulista, logo após as muralhas da cordilheira do Mar, ali vivendo como salteadores terríveis, escravizando indígenas, de arcabuz e flechas impedindo que alguém transpusesse os sertões incultos.  João Ramalho não era mais que o maioral dessa quadrilha.

É possível, é mesmo quase certo, que a população que fervia nas ruas de Santo André não fosse a mais dócil e a mais proba daqueles tempos ásperos.

Não seria possível existir no coração da selva, numa quadra de aventura e de fome de riquezas, uma população de santos.  As surpresas da floresta desconhecida, as emboscadas dos índios indomáveis e principalmente o ambiente da época, haviam de tornar os homens afoitos e bravios.

Mas a verdade é que Santo André da Borda do Campo teve uma organização social e uma organização política.  Ninguém hoje pode duvidar disso, depois que o sr. Washington Luis fez publicar as velhas atas da municipalidade do remoto arraial de João Ramalho.

Em Santo André não mandava quem queria, nem João Ramalho era o poder autoritário e supremo.  Havia uma municipalidade, havia um poder legislativo, havia o que hoje chamamos prefeito e que, naquele tempo, era chamado juiz.

A lei tinha um rigor feroz; os assuntos públicos um tom de seriedade que hoje absolutamente não existe nas mais perfeitas sociedades organizadas.

Em Santo André da Borda do Campo os deveres de um vereador eram coisas rigorosamente sérias.  Basta citar este caso hoje surpreendente para nós: os vereadores sofriam multas quando não compareciam às sessões da Câmara.

A moradia em Santo André não era para qualquer pé rapado.  Ninguém punha a trouxa às costas e entrava sem mais aquela no arraial, para morar.  Devia pedir licença à Câmara e obtê-la.  Em 1556, consta de uma ata da vila, Manuel Ribeiro, que já possuía “casa, roças, vaca e mulher” no povoado, requeria aos vereadores que o “assentassem por morador”.

Se se não entrava sem licença, sem licença também não se saía.  Havia multas rigorosas para os transgressores.  De uma ata de 1555 consta que Francisco Alves requerera permissão para viver algum tempo no campo.

Entre nós, em pleno século XX, o pistolão destrói o rigor das multas impostas pelas municipalidades.

Em muitas localidades do interior os amigos do chefe político não pagam impostos e multas.

Ilustração de trabalho escravo feito por índios.

No arraial de João Ramalho o caso era seríssimo.  Uma multa imposta era uma multa paga.  Não havia empenho capaz de demovê-la. O almotacel João Pires Gago, por desleixo, não mandou limpar os monturos das ruas.  Multaram-no em quinhentos réis.  O pobre diabo fez tudo para livrar-se da pena.  Nada conseguiu.  E, como não tinha dinheiro para pagá-la, viu-se obrigado a fugir.

Diante das atas da municipalidade de Santo André da Borda do Campo o que mais espanta não é o rigor das leis: é o vulto, o extorsivo vulto das multas que se impõem ao povo.

É necessário que nos reportemos à época.

No período quinhentista o dinheiro não tinha o mesmo valor de hoje. Basta dizer que a descoberta da América não custou muito mais de sete contos de réis ao governo da Espanha.  Um cruzado era uma quantia fabulosa.

Cabral quando fez a viagem às Índias, da qual resultou a descoberta do Brasil, ganhava regiamente.  Vencia, pela viagem de ida e volta, a soma incrível de quatro contos de réis.  Cada um dos comandantes das naus recebia um conto e duzentos, ida e volta.  Os pilotos ganhavam duzentos mil réis pela viagem; os marinheiros quatro mil réis por mês; e os soldados dois mil réis apenas.

Fernão de Magalhães não descobriu para Portugal o estreito que tem o seu último nome, porque el-rei d. Manuel não lhe quis gratificar com seis escudos, cerca de nove mil e seiscentos réis na moeda atual.
Na época em que o povoado de João Ramalho floresceu, o governador geral do Brasil percebia dos cofres públicos o imenso ordenado de trinta e três mil trezentos e trinta e três réis mensais.  O bispo não recebia mais que a metade.  O oficial do governador geral só recebia quinhentos réis por mês e vivia como um príncipe.

Ruínas de Santo André da Borda do Campo, aquarela de Miguel Dutra.

Na própria vila de Santo André os ordenados eram apertadíssimos.  O prefeito ganhava oitocentos réis por ano (dois cruzados).  O porteiro da Câmara satisfazia-se com quatrocentos réis anuais.

Numa quadra em que os valores eram esses, as multas impostas pelas municipalidades deviam ser relativas aos valores.  Não o eram em Santo André.

As penas impostas pela Câmara são as mais díspares.  Um tostão, naquela época tomava o vulto de muito dinheiro. Era quanto pagava o vereador que não comparecia a uma sessão da Câmara.

Certamente não existiram no Brasil taxas mais pesadas que as da vila ramalhense.  Tem-se a impressão de que a municipalidade, não podendo arcar com os encargos normais por falta de numerário, quer arrancar, seja como for, o pelo do povo.

A vila de João Ramalho, ao fundo da floresta paulista, era pobre.  A municipalidade tinha que refletir a pobreza da vila.  O patrimônio municipal, em 1556, constava apenas de uma balança, de pau, um peso de ferro de quatro arráteis, dois taipais com seus aparelhos e um machado grande de carpinteiro.  Em 1557 era mais rica.

Tinha a mesma balança, os mesmos taipais, e tudo isso agora acrescido com três agulhas e uma medida de três alqueires e o fabuloso saldo de quatrocentos réis em dinheiro.

Desenho refletindo como seria uma aldeia por volta de 1560.

Apesar de pobre, a municipalidade andreense fazia empréstimos aos seus munícipes preeminentes.  Em 1556 emprestou a João Fernandes – o Gago – a quantia de quatrocentos réis.

Aquele machado de que se fala acima era a caução que João Fernandes deixou, ao receber o grande empréstimo.  No mesmo ano emprestou três cruzados a Paulo Proença.  No ano seguinte João Pires Gago, conseguia, com a caução de um arcabuz, o empréstimo de mil e duzentos réis.

Parece que esse estado de penúria explica de alguma maneira o exagero das multas impostas em Santo André.  Se se não extorquir o povo, os cofres municipais nunca terão dinheiro.

As penas são horríveis.  Na vila a criação de vacas e porcos, dia a dia aumenta.  Os bichos vivem a estragar as roças da redondeza.  A Câmara toma uma medida enérgica contra o abuso, em 1556.  Pelo animal que for recolhido ao curral do Conselho pagará o dono cem réis por cabeça.  Mais tarde o imposto é diminuído, aos reclamos do povo.  A vaca desce a cinqüenta réis e o porco a um vintém.

Os índios das florestas vizinhas fazem, de quando em quando, surpresas desagradáveis à vila, destruindo o que podem.  Todo o mundo é obrigado a recolher, à tardinha, o gado às fortificações. O criador desleixado pagará cem réis por animal.

Cem réis é uma das penas menores impostas em Santo André da Borda do Campo, no tempo em que o ordenado maior era o do prefeito (juiz) e não ia além de oitocentos réis anuais.

João Ramalho aponta o caminho de Piratininga a Martim Afonso de Souza, c. 1912

Benedito Calixto ( Brasil, 1853-1927)

Palácio de São Joaquim

Rio de Janeiro

As taxas são sempre de quinhentos réis para cima.  O morador que se retirava da vila, sem licença, pagava quinhentos réis ao voltar.  Quando pusesse raízes de mandioca a fermentar nas fontes públicas entrava com dez tostões para os cofres municipais.

Era uma multa horrível.  Talvez possa ser explicada pelas razões da saúde pública: a mandioca, antes de fermentada, é um veneno terrível.

Ao fiscal da Câmara, que deixava de cumprir o seu dever, obrigava-se a entregar ao município a soma de quinhentos réis.  Foi a pena imposta ao almotacel João Pires Gago, por não ter mandado “ha limpar monturos”, pena que, por pesada, o fez fugir da vila.

Santo André, plantada à porta do campo paulista, na virgindade inculta dos sertões americanos, vivia numa constante ameaça de ataques. A mata, em redor, era a hostilidade dos índios.  Não se podia deixar a vila desprevenida.  Mas acontecia que os lavradores seguiam todos para as roças, deixando nas casas apenas as crianças e os enfermos.  A Câmara tomou medidas contra a negligência.  Designou as turmas de lavradores a trabalhar e as turmas que ficariam guardando o povoado.  A transgressão custava cento e cinqüenta réis.

As noções de higiene moderna já eram conhecidas no agrupamento humano que João Ramalho fundou.

Hoje, depois de quatro séculos, a trinta minutos do Rio de Janeiro, os médicos da profilaxia rural não conseguiram ainda que a população dos subúrbios compreendesse a necessidade das sentinas.  Nem as fossas simples, cavadas no solo, quer o suburbano usar.
Em Santo André da Borda do Campo, em mil quinhentos e tantos, havia o abuso das fossas.

Há uma ata de 1557, em que os edis, reunidos, impõem a multa de dez tostões a quem fizer privadas dentro dos muros da vila.
No Brasil, em defeitos administrativos, não há nada de novo. O atraso dos governos para com o funcionalismo público, que muita gente supõe ser coisa moderna, é velhíssimo.

Já a municipalidade de Santo André vivia em atraso.  Conhece-se um requerimento do escrivão Gaspar Nogueira solicitando pagamento dos seus ordenados esquecidos.  Devia-lhe a Câmara mil, cento e sessenta réis, dos quais ele já havia recebido oitocentos.

Há quem afirme que o desfalque é, no Brasil, uma criação da República.  Tem quatro séculos. Nasceu com os nossos primeiros vagidos.

Em 1555, em Santo André da Borda do Campo, deu-se um desfalque.  De uma ata constam sérias medidas tomadas contra o procurador João Fernandes, que teve a clamorosa improbidade de não entrar para os cofres municipais com a soma de cinqüenta réis, de uma multa que cobrou.

Sempre a multa! A municipalidade de Santo André da Borda do Campo foi a mais extorsiva criadora de impostos que houve no Brasil.

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Em: Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, Viriato Corrêa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1956





A descoberta de Sutil, de Theobaldo Miranda Santos, uso escolar.

29 11 2011

Bandeirantes, gravura do século XVIII.

Miguel Sutil foi um dos primeiros bandeirantes que atravessaram os sertões de Mato Grosso.  Em outubro de 1720, encontrava-se ele no povoado de Nossa senhora da Penha, onde tinha inciado uma plantação de milho e mandioca.

Durante muito tempo, Sutil havia procurado ouro na região sem nada conseguir.  Certo dia, achava-se ele no interior da mata, longe de casa, quando sentiu fome.  Ordenou então, a dois índios carijós, que trouxera em sua companhia, que percorressem a floresta em busca de mel de abelhas e palmito.

Lá se foram os índios obedientes à ordem do chefe.  Passaram-se muitas horas sem que eles voltassem.  Sutil ficou impaciente. A fome aumentava a nada havia ali para comer.

O sol descambava no horizonte.  Os pássaros recolhiam-se aos seus ninhos.  E os índios não apareciam.  Sutil estava furioso com a demora dos indígenas.

De repente, ouviu-se um barulho no mato e surgiram, afinal, os dois carijós.  Vinham correndo.  Traziam nas mãos alguma coisa que o bandeira não distinguiu.

Sutil interpelou-os com energia.  Os índios nada responderam.  Mas mostraram ao chefe o que traziam.  Suas mãos estavam cheias de ouro!

Mal rompeu o dia, Sutil dirigiu-se ao lugar onde os índios haviam encontrado o ouro.  Lá chegando, quase desmaiou de emoção.  O ouro, em grande quantidade, brilhava na superfície da terra.  Num só dia, o bandeirante e os índios recolheram mais de duas arrobas de ouro!

E assim foi descoberta uma das minas de ouro mais ricas da região centro-oeste do Brasil.

Em: Vamos estudar? — 3ª série primária – de Theobaldo Miranda Santos, edição especial para os estados Goiás e Mato Grosso,  Rio de Janeiro, Agir: 1961





Imagem de leitura — Ângelo Agostini

14 11 2011

D. Pedro II lendo os jornais do dia, 1888.

Ângelo Agostini ( Brasil, 1843-1910)

Publicado no Diário Popular de 18 de novembro de 1888.

[quase um ano antes da Proclamação da República]

Homenagem ao dia 15 de novembro!