Trova da flor e do meu amor

19 07 2016

 

 

flor. lokiuuhIlustração Baskerville, capa da revista Theatre, agosto de 1923.

 

 

Longe de ti, meu amor,

morro de tédio e de mágoa,

bem como morre uma flor

posta num vaso sem água.

 

 

(Antônio Sales)





Domingo, poesia de Maria Thereza de Andrade Cunha

17 07 2016

 

Dia chuvoso, Cover illustration of the Sunday Magazine of the Minneapolis Journal (February 28, 1915)Dia de chuva, Capa da Revista de Domingo do Minneapolis Journal, 1915.

 

 

Domingo

 

Maria Thereza de Andrade Cunha

 

 

Domingo tristonho, de chuva, de vento.

Domingo de tédio, domingo nevoento.

Não vens. Todo o dia te espero, cansada;

Casais amorosos lá vão, na calçada,

E eu fico sozinha. Não vens.

Abandono…

Domingo de tédio, de bruma, de sono.

As mãos muito frias, a fronte pendida,

— Domingo sem cores… Domingo sem vida… —

Vidraça gelada que aos poucos se embaça:

Meu rosto apoiado de encontro à vidraça,

E a rua tão longa, tão triste, tão fria…

— Domingo chuvoso, de lenta agonia…

 

 

Em:  É primavera… escuta., Maria Thereza de Andrade Cunha, Rio de Janeiro, 1949, p.106.

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Resenha: “A maleta da Sra. Sinclair” de Louise Walters

16 07 2016

 

 

avião amareloIlustração de Hergé.

 

 

A maleta da Sra. Sinclair é uma história contada em dois tempos: nos dias de hoje, com foco em Roberta Pietrykowski, mulher que trabalha por onze anos na livraria e sebo Old & New, e Dorothy Sinclair, sua avó, que, morando nas proximidades de Lincolnshire, Inglaterra, viveu um romance fora do casamento com o piloto de guerra polonês Jan Pietrykowski.  Enquanto descobrimos as razões que levaram Dorothy a se apaixonar pelo piloto de guerra, descortinamos seu passado infeliz desde a infância, casamento e abandono pelo marido; também vamos aos poucos descobrindo a vida sem alegrias de Roberta que carrega uma  paixão encruada por Philip, proprietário da livraria,  sem qualquer possibilidade de reciprocidade. Roberta se  submetendo, por falta de melhores perspectivas, a um “affair” com homem casado, e simultaneamente trabalha para entender o segredo da vida de sua avó, cujas mentiras sobre a família, Roberta acabara de descobrir.

Apesar do roteiro melodramático, não há proximidade emocional suficiente do leitor com qualquer personagem para que a leitura chegue a germinar sentimentos mais fortes.  Nenhuma das duas mulheres, Roberta ou Dorothy, é retratada com vigor e dimensão; profundidade de caráter passa ao largo. Nenhuma tem perspectiva de melhorar a vida que leva.  São quase vítimas e não são heroínas.  Cada qual tem uma única preocupação ou desejo: Roberta persegue a história da família e deambula pelo cotidiano sem horizonte ou esperança.  Dorothy, submissa, aceita as consequências de uma escolha errada no casamento e a única coisa que deseja, a ponto de obsessão, é ser mãe. Falta a ambas maior complexidade. E um foco que supere as vidas amorosas frustradas.

 

 

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O foco na vida de mulheres durante a Segunda Guerra Mundial é muito bem-vindo.  Este é um assunto ainda por explorar na literatura.  Foi um período de grandes mudanças no papel da mulher. De repente com homens na linha do fronte aos milhares, espaço se abriu para um papel mais dinâmico, profissional e essencial das mulheres na sobrevivência dos países envolvidos.  Mulheres tornaram-se bombeiros, eletricistas, enfermeiras, mecânicas.  Foram em massa ao trabalho nas fábricas do mundo todo. Dorothy, no entanto, não se junta a essa grupo de mulheres da guerra.  Ao contrário, ela se encolhe incapaz de ultrapassar os limites impostos pelos bisbilhoteiros do vilarejo  que a cerca.  Tal avó, tal neta.  Nos anos 2000, Roberta também se auto destrói num romance sem futuro com um homem vinte e dois anos mais velho, cujo ponto culminante é um ato de ciúmes da esposa traída, à maneira do século XIX. Ou seja, ambas as personagens parecem ter comportamentos incongruentes com a época em que vivem.

Louise Walters é dona de um estilo narrativo claro, leve que não se perde em figuras de linguagem ou outros preciosismos. Conseguiu que eu levasse a leitura até o fim, um feito que muitos livros não atingem. E a trama interessante  sugere ao leitor ponderações sobre as diferenças de comportamento entre os que viviam nos anos 30 do século passado e setenta anos mais tarde, na primeira década deste século.  O que faltou ao romance foi um bom editor. Um editor à moda antiga, que questionasse a autora sobre a necessidade de alguns personagens ou até mesmo de algumas reviravoltas na trama.  Menos é mais, com frequência; porque nos dá a chance de aprofundar a caracterização de época, de ambiente ou de personagem, enquanto uma linguagem um pouco mais variada traria, sem negligenciar  a clareza, um vigor penetrante ao texto.

 

 

louise waltersLouise Walters

 

Desde O nome da rosa, de Umberto Eco em 1980,  A sombra do vento  de Carlos Luiz Zafón (2001),  da série de Harry Potter, anos 2000; e de filmes como Mensagem para você (1998), Um lugar chamado Notting Hill (1999), e dezenas de outras obras, que livrarias e bibliotecas têm sido ambiente ou até mesmo personagem de histórias populares escritas ou filmadas.  Digamos que é fruto do Zeitgeist (‘Espírito da época’). Gente que lê e que escreve em geral tem simpatia por bibliotecas ou livrarias.  Mas, justamente porque é uma assunto corrente, me pareceu um excesso da trama ter Roberta Pietrykowski trabalhando numa livraria.  Com poucas modificações, ela poderia trabalhar num açougue ou numa agência de banco.  A mim, me pareceram nulas as conexões dos livros citados por ela e variações na trama. Teria sido apenas um atrativo para o leitor que se delicia com referências a autores ou listas de obras interessantes?

Aqui estão alguns dos livros citados: Jane Eyre de Charlotte Bronte, Madame Bovary de Gustave Flaubert, A morte do coração de Elizabeth Bowen, Narciso Negro de Rumer Godden – O deus das pequenas coisas, de Arundhati Roy, A Bouquet of Barbed Wire, Andrea Newman, Os homens são de marte e as mulheres de Vênus, de John Grey,  Circle of Friends de Maeve Binchy. E um livro de Agatha Christie que agora me foge o nome.

A maleta da Sra. Sinclair é um livro leve, de leitura fácil que satisfará quem procura por passatempo de fim de semana e que não espera de suas leituras mais do que o texto lhes dá. Entretenimento.

 

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Cadê? poesia de Wilson W. Rodrigues

13 07 2016

 

 

cadê o pessoalZé Carioca procura por seus amigos, ilustração de Walt Disney.

 

 

Cadê?

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

Cadê o pé de cantiga

que quando criança cantei?

Nem minha gente se lembra

e nem na saudade achei.

 

Que sabe o verso perdido?

Por que ninguém o guardou?

Onde leva a nossa vida

que o verso bom não levou?

 

Quem me recorda sua rima?

Quem minha lembrança traz,

para cantar a cantiga

de que não me lembro mais?

 

Nem me responde a alegria

Nem a tristeza responde.

Cadê o pé de cantiga

onde vou encontrá-lo? Onde?

 

 

Em: Bahia Flor: poemas, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 19.

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De leitura e raça, texto de José Eduardo Agualusa

4 07 2016

 

 

Henry Lee Battle (American) Girl reading, 2002Menina lendo, 2002

Henry Lee Battle (EUA, contemporâneo)

www.henryleebattle.com

 

 

“Esta deveria ser a questão central: por que não há mais negros nas plateias? A verdade é que continua a existir uma linha de cor separando aqueles que no Brasil têm acesso ao livro e a vasta maioria da população. Para formar escritores é preciso primeiro formar grandes leitores. Se queremos formar bons escritores negros teremos primeiro de formar muitos milhões de leitores negros.”

 

Em: “O arraial da branca atitude”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 04/07/2016, 2º caderno, página 2.

 

O arraial da branca atitude.

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Esmerado: Centro de mesa, Porcelana Minton

1 07 2016

 

MINTON PORCELAIN FIGURAL CENTERPIECECentro de mesa figurativo com mulher lendo, c. 1875

Projeto de A. Carrier-Belleuse

Manufatura Minton, 46 cm de altura

Inglaterra

 

“A leitora”, centro de mesa de porcelana da fábrica Minton, mostra uma figura de mulher de pé, lendo, vestida de maneira clássica, encostada numa coluna atrás de uma vasilha de forma ovoide, como um capacete invertido sobre uma base. Tudo em cor turquesa e branco, com desenho de A. Carrier-Belleuse, 46 cm de altura.

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Dona Margarida, poesia de Paulo Setúbal

30 06 2016

Humberto da costa (1948) Mulher na Sacada, o.s.t. - 27 x 22. Ass. dat 84Mulher na sacada, 1984

Humberto da Costa (Brasil, 1941)

óleo sobre tela, 27 x 22 cm

Dona Margarida

Paulo Setúbal

Conheço apenas Dona Margarida

Por tê-la visto, acaso, num salão.

Seu negro olhar, cheio de fogo e vida,

Deixava em cada peito uma ferida,

Em cada peito abria uma paixão.

E eu, como os outros, vendo-a tão querida,

Tão moça, tão formosa, tão feliz,

Trouxe comigo, na alma dolorida,

A funda mágoa, Dona Margarida,

De não ter dito o que dizer lhe quis.

Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920] p. 109-110.

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Minutos de sabedoria — William Boyd

29 06 2016

 

Andrzej Malinowski, La lecture interrompue, ostA leitura interrompida

Andrzej Malinowski (Polônia, 1947)

óleo sobre tela

 

 

“A vida se recusa a se conformar às nossas necessidades — as necessidades da narrativa que você considera essenciais para dar um pouco de forma ao seu tempo neste planeta.”

 

 

118438099_boyd_367375cWilliam Boyd

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Trova das nuvens

28 06 2016

 

nuvens, elizabeth shippen-greenIlustração Elizabeth Shippen-Green.

 

 

Lá no céu, nuvens brejeiras

fofocando no horizonte,

lembram moças palradeiras,

lavando roupa na fonte!

 

 

(Zeni de Barros Lana)

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Na boca do povo: escolha de provérbio popular!

28 06 2016

 

 

segredoIlustração de Walt Disney.

 

 

“O segredo é a alma do negócio.”

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