Carlos Passos (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 90 x 130 cm
Chico Bento tirou 7, ©Maurício de Sousa.
“Amor no plural amores…”
Dizem aí… Não há tal!
Enganam-se os professores,
porque amor não tem plural.
(Antonio Sales)
Juan Lascano (Argentina, 1947)
óleo sobre tela
“…em uma noite chuvosa, naquela mesma colônia de férias em Pentagna, eu estava com minha tia-avó Iacy quando ela me entregou um exemplar de “Um estudo em vermelho”. Eu nunca havia lido um livro que não fosse daqueles obrigatórios na escola. Fiz cara feia, não queria ficar lendo, mas minha tia-avó insistiu e, afinal, por que não? Estava chovendo!
Quando percebi, tinha mergulhado de cabeça naquele universo, investigando crimes com Sherlock Holmes, tenso pelo que viria nas páginas seguintes e ansioso para chegar ao final. Naquela madrugada mesmo, terminei o livro. Eu estava em êxtase, como só ficamos quando nos deparamos com uma revelação, com todo um mundo novo e cheio de possibilidades. Ainda naquelas férias, li “A volta de Sherlock Holmes” e dois infanto-juvenis de Sidney Sheldon: “O fantasma da meia-noite” e “A perseguição”. Ainda naquelas férias, resolvi que seria escritor.
Fiz meus primeiros contos e, logo depois, um romance policial nunca publicado. Depois, vieram os outros livros. Naquela madrugada chuvosa, descobri que ilusão, surpresa, fantasia e encenação podem conviver em um mesmo lugar: nos livros. Mágica e atuação permeiam na mente do escritor. Sem falar no ócio, fundamental para alimentar as boas ideias. Por isso, escrevo livros, roteiros e, semanalmente, esta coluna. De certo modo, continuo a ser aquele moleque na dúvida do que vai ser quando chegar lá, quando crescer.”
Em: “O que você vai ser quando crescer”, Raphael Montes, O Globo, 1/08/2016, 2º caderno, página 6.
Charles Dana Gibson (EUA, 1867-1944)
gravura
“O convívio social tem o grande mérito de abrandar a idiotice do consorte e o casal que não conversa, jamais descobre que não tem muitas afinidades. A companhia do outro tem o mesmo efeito da aposentadoria para as pessoas de classe média, ou seja, causa divórcio.”
Em: Esnobes, Julian Fellowes, tradução de Beatriz Horta, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, página 164.
Canal da Barra, ao fundo a Pedra da Gávea
Orlando Brito (Brasil, 1920-1981)
óleo sobre tela, 42 x 34 cm
Piteco pensando na vida © Maurício de Sousa
Da vida ao brando balanço
diz o malandro, folgado:
— Se a morte é mesmo descanso,
prefiro viver cansado.
(Maia D’Athayde)
Marc Chalmé (França, 1969)
óleo sobre tela, 162 x 130 cm
Acho surpreendente a chuva de elogios ao livro A delicadeza do escritor francês David Foenkinos. Trata-se de uma história sobre a lenta recuperação, o processo de luto, sofrido por uma viúva. A história culmina na escolha de um novo parceiro; uma escolha que parece improvável e imprevisível por aqueles que conheciam a viúva. O luto como tema, não é surpreendente. Muitos livros já foram escritos sobre o assunto. Recentemente lançado no Brasil, Nora Webster, do irlandês Colm Tóibin, trata justamente do tema, com muito maior complexidade.
Aqui, no entanto, temos uma história banal. Previsível. Um livro que pretende descrição de emoções complexas, mas cai no enfoque raso e simplório. O texto, repleto de frases intencionalmente forjadas com o desejo de parecerem “pensamentos profundos”, não é nada mais do que uma maneira superficial de explorar os sentimentos humanos. Não recomendo.
Moda? Tendência? Já notou como está na moda a sequência de notas totalmente irrelevantes ao desenvolvimento de uma narrativa, no meio de um texto? Digamos um romance? Não consigo imaginar a razão desse fenômeno. Há alguns anos parecia uma característica de um ou outro escritor, mas agora, talvez por coincidência, parece que estou rodeada desses textos. Nessas férias li dois livros seguidos com interrupções da narrativa para a apresentação de receitas culinárias. Para quê? Para parecer mais real? Por que tenho que ler como se faz um risoto de aspargos quando os personagens de A delicadeza, de David Foenkinos, estão num restaurante conversando sobre outras coisas, não relacionadas à culinária? Por que de repente me encontro com a receita do prato que eles pediram para o garçom? Por que isso é relevante? Por que gastar a energia e a atenção do leitor quando esse detalhe não terá nenhuma relevância na história?
O mesmo ocorre com o recém-lançado Etta e Otto e Russell e James de Emma Hooper, onde de repente, na página 54, não é suficiente sabermos que “Otto pegou um cartão da seção de café da manhã/lanches” – e fez pãezinhos de acordo com a receita que encontrou. Não. Temos que gastar o nosso tempo de leitura com toda a receita, verbatim, de Pãezinhos de canela, para logo em seguida, na página 56, sermos apresentados à receita de Testar o fermento, para os referidos pãezinhos. Nada além disso irá acontecer a respeito desses pães. Ninguém vira padeiro, ninguém é envenenado. É uma aparição gratuita.
Não se trata em nenhum desses casos da história de um personagem envolvido numa cozinha, cozinheiro, ajudante de cozinha, ou alguém num programa de televisão de culinária. Não. São personagens com outras profissões. Com outros problemas. Não se trata de obras como A festa de Babette, filme de 1987, onde o próprio fazer de uma refeição é o ponto central da trama.
Entendo que é uma moda: a mistura de receitas com texto. Mas há que haver uma razão para isso, como houve em 2011. O oficial dos casamentos, livro do inglês Anthony Capella é um exemplo. Um romance leve sobre o finalzinho da Segunda Guerra Mundial na Itália. Havia receitas no texto, mas havia também uma cozinheira que era um personagem principal.
Reclamo de toda essa informação descartável, desnecessária, desimportante que atola a imaginação do leitor com dados insignificantes e totalmente desprezíveis.
Emma Hooper abusa do truque da informação irrelevante. Depois da personagem Etta receber uma carta, a autora lista verbatim, cada carta resposta possível que Etta não escreveu. São sete as cartas começadas com a seguinte introdução: “Quando Etta respondeu, não disse, [seguida de uma carta]. Sete vezes esse detalhamento do que não aconteceu. Na oitava versão, a introdução: “O que ela disse foi, [páginas 140 e 141]. Ora pura preguiça de narrar e selecionar o que é importante.
Espero que passe logo essa nova estética de “reality show” na literatura. Porque se eu quisesse novas receitas, acreditem ligaria a televisão nos canais especializados em culinária e aprenderia a fazer um jantar com os melhores professores, não iria ser um romancista a me dar aulas de pãezinhos ou risoto. Posso aprender com os grandes chefes, diretamente de suas cozinhas.
Rua de Cabo Frio com igreja de São Benedito, 1980
Wim van Dijk (Holanda/Brasil, 1915- 1990)
óleo sobre tela, 28 x 46 cm
Carissa Rose Stevens (EUA,contemporânea)
aquarela e marcador permanente sharpie
Lêdo Ivo
O mundo em peso cai-me sobre os ombros
e em seguida se evola, sol de urânio.
Arquipélago branco, sai da terra
a rosa nuclear da anunciação.
Fossem meus braços límpidas colunas
e eu deteria o mundo enfurecido
por esta luz atômica que sobe
ao convívio dos céus despedaçados.
Ó corola de átomos, leitosa
flor da quinta estação da terra em pânico
que se exibe à feição do Apocalipse,
sê para nós igual à rosa branca
da paz, sempre banhada pelo orvalho
monumental das lágrimas dos homens!
Em: Central poética, Lêdo Ivo, Rio de Janeiro, Nova Aguillar: 1976, p. 98-9.