Roberto Burle Marx (Brasil, 1909-1964)
técnica mista sobre cartão, 17 x 17 cm
Allan Ramsay (GB, 1713-1784)
óleo sobre tela, 125 x 102 cm
Walker Art Gallery, Liverpool
Emílio Kemp (Brasil, 1874- 1955) em Melancolia.
Rua Direita em dia de chuva, Mariana, 2015
Cássio Antunes (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre madeira, 51 x 60 cm
“– Como é que você só leu uma página do seu livro, mamãe?” — Cartoon, Bil Keane.
Sérgio Caparelli
De patins, de bicicleta,
de carro, moto, avião
nas asas da borboleta
e nos olhos do gavião
de barco, de velocípedes
a cavalo num trovão
nas cores do arco-íris
no rugido de um leão
na graça de um golfinho
e no germinar do grão
teu nome eu trago, mãe,
na palma da minha mão.
Em: Poesia fora da estante, Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, 13ª edição, Porto Alegre, Projeto: 2007, p.106
Navio de emigrantes, 1939-1941
Lasar Segall (Lituânia/Brasil, 1891-1957)
óleo com areia sobre tela, 230 x 275 cm
Museu Lasar Segall, São Paulo
“Pessoas deslocadas” era o nome que nos davam, desde 1945, e isso era o que éramos, verdadeiramente. Quando você vê bombas caindo em alguns antigos documentários, seja um exército avançando contra outro, aldeias e cidades consumidas por fogo e fumaça, você esquece dos grupos de pessoas no celeiro. Sr. e Sra. Inocente pagaram alto neste século só por estarem ali. Condenados pela história, como os marxistas gostavam de dizer, talvez pertencendo a uma classe social incorreta, um grupo incorreto ou uma religião incorreta – o que seja – eles eram e continuam a ser uma lembrança desagradável de todas as utopias filosóficas e nacionalistas que não deram certo. Com seus trapos e trouxas e seu ar de miséria e desespero, eles vieram em massa do Leste, fugindo do mal sem ideia de para onde estavam indo. Ninguém tinha muito para comer na Europa e aqui estavam os refugiados famintos, centenas de milhares em trens, campos e prisões, molhando pão dormido em sopa aguada, procurando por piolho nas cabeças de seus filhos e grasnando em dúzias de línguas sobre seu horrível destino.
Minha família, como tantas outras, pode ver o mundo graças às guerras de Hitler e a chegada ao poder de Stalin na Europa Oriental. Não éramos colaboradores alemães ou membros da aristocracia, nem éramos precisamente exilados políticos. Peixes pequenos, não decidíamos por nós mesmos. Tudo foi arranjado por nós pelos líderes do nosso tempo. Como tantos outros que estavam deslocados, não tínhamos nenhuma ambição de sair do nosso bairro em Belgrado. Nós gostávamos de lá. Negociações foram feitas sobre esferas de influência, fronteiras foram redesenhadas, a chamada Cortina de Ferro foi baixada, e nós ficamos à deriva com nossos poucos bens. Historiadores ainda estão documentando todas as traições e horrores que nos atingiram como resultado da Yalta e de outras tantas conferências, e o assunto ainda não chegou a seu ponto final.
Como sempre, houve diferentes graus do mal e da tragédia. Minha família não se deu tão mal quanto outras. Milhares de russos que os alemães haviam forçado a trabalhar para eles nas indústrias e fazendas foram devolvidos a Stalin contra a vontade deles pelos Aliados. Alguns foram assassinados, outros mandados para os ‘gulags’ para que não contaminassem o resto da população com novas ideias adquiridas pelo capitalismo decadente. Nossas perspectivas foram melhores. Tínhamos a esperança de acabar nos Estados Unidos, Canadá ou Austrália. Não que isso fosse garantia. Entrar nos Estados Unidos era particularmente difícil. A maioria dos países da Europa Oriental tinha cotas muito pequenas, diferente da Europa Ocidental. Aos olhos dos especialistas em genética e dos políticos da imigração, eslavos do sul não era material étnico altamente desejável.”
Em: “Refugees”, Charles Simic, Letters of Transit: Reflexions on Exile, Identity, Language and Loss, ed. André Aciman, New York, The New Press: 1990, pp. 120-121
Tradução Ladyce West.
Jarro com flores vermelhas, década de 1940
Sylvio Pinto (Brasil, 1918-1997)
óleo sobre tela, 45 x 55 cm
Ilustração de Joseph B. Platt, Revista House and Garden, março de 1925.
Afonso Louzada
Artista jardineiro, enamorado
do encanto policrômico das cores,
em meu jardim plantei todas as flores
a que dei meu amor mais desvelado:
rosas de um rubro vivo, das mil dores
do acicate cruento do pecado;
lírios de um branco puro, imaculado,
da virginal pureza dos amores.
E sob o meu carinho, todo dia,
como nenhum outro jamais faria,
tudo medrou, cresceu, floriu, enfim.
Só vós que sois das flores a princesa,
entre rosas e lírios, com certeza
não quisestes florir no meu jardim.
Em: Templo Abandonado, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1945, p. 31