Este painel do artista italiano Cimabue (1240-1302), o mestre de Giotto, precursor da Renascença italiana, foi encontrado em uma cozinha, em cima do fogão numa casa do interior da França, em 2019. Cimabue é conhecido por suas tentativas, algumas vezes bem-sucedidas de incorporar a perspectiva linear em suas obras na esperança de dar impressão de profundidade às cenas representadas.
É esse painel, acima, chamado Jesus escarnecido por Herodes e flagelado. Com tema da Via Crucis que deixou de ser pintada com frequência a partir do século XVII. A obra foi adquirida pelo governo francês e hoje faz parte do acervo do Louvre. Foi adquirida por €24.000.000 (vinte e quatro milhões de euros) ou aproximadamente R$150.000.000 (cento e cinquenta milhões de reais).
Uma exposição especial sobre Cimabue e sua época, com quarenta obras de seus contemporâneos abriu no Louvre em 22 de janeiro deste ano e ficará aberta ao público até 12 de maio de 2025. É uma maneira de introduzir o novo painel do artista ao público francês e turistas. Ele está ao lado da Maestà, [Madona entronada] do mesmo.
Mais uma excelente escolha do grupo de leitura Papalivros neste ano — O barman do Ritz de Parisdo escritor francês Philippe Collin [Record: 2025, minha edição: Kindle] com tradução de Yvone Benedetti — conta a história de Frank Meier, famoso barman daquele hotel. Baseado nas próprias lembranças do personagem principal, acompanhamos a tomada do Ritz pelos oficiais alemães desde de o início da ocupação alemã da França, no que é conhecido como governo Vichy até a liberação de Paris, no final da guerra.
São inúmeros os livros de ficção que cobrem a Segunda Guerra Mundial, mas há relativamente poucos tratando do dia a dia da França ocupada, ou seja no governo Vichy. Lembro-me bem da popular série publicada nos anos oitenta, da escritora Regine Deforges, cujo primeiro volume de três chamava-se A bicicleta azul, e se concentrava no período da França ocupada, mas não na área de ocupação necessariamente. Um dos livros que li, que me deu outra visão desse período foi o de anotações de um diário do escritor inglês Somerset Maugham, Assunto Pessoal. Bem mais recente, houve a publicação do best-seller Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr, mas mesmo esse não se detém no cotidiano da guerra na ocupação alemã da França. Isso tem aparecido mais em filmes. De qualquer jeito, O barman do Ritz de Paris, vem para preencher esse pequeno hiato. E fazer muito mais, porque o Hotel Ritz havia sido escolhido como local preferido do comando do exército alemão em Paris.
Essa é uma narrativa ágil, cheia de viradas na trama que não foram inventadas, ou feitas para manter a atenção do leitor. Trata-se de um relato de quem assistiu, vivenciou e colocou sua vida em perigo, vivendo com os nazistas, sendo ele mesmo um judeu austríaco, protegendo outros judeus à sua volta, mas trabalhando em Paris, servindo a todos os militares alemães.
Para o leitor há ainda o prazer de ver circularem personagens famosos e históricos que encontram no Ritz alívio para o período da ocupação alemã. Conhecido por sua habilidade de compor deliciosos drinques, já com fama internacional desde que chegara a Paris depois do sucesso que tivera como barman em Nova York, Frank Meier diariamente, durante toda a ocupação, se preocupa com os dois mundos que o circundam no Ritz, desde o domínio alemão sobre a capital da França. De Ernst Hemingway a Coco Chanel, somos expostos pelos olhos de Frank Meier, aos segredos daquela sociedade e seus truques para sobrevivência. Nem sempre os generais famosos, escritores ou no caso de Chanel, saem dessa narrativa com o brilho que hoje lhes damos, o que torna a narrativa ainda mais interessante.
Philippe Collin
O autor, Philippe Collin, jornalista, escritor, radialista escreveu um livro agradável de ler, coordenou com eficácia as partes do diário de Frank Meier e a narrativa histórica. Ficamos familiarizados com a história do Ritz, que sobreviveu muito bem e até hoje é um marco na paisagem urbana de Paris, mas também percebemos que a sobrevivência naquelas circunstâncias exigia muita flexibilidade em atitudes, sem comprometer os princípios de cada um. Essa é uma narrativa que nos faz lembrar que somos humanos e cada um sobrevive de maneira diferente.
Recomendo a leitura, rica em detalhes, em ação, vivaz, mas que deixa espaço para entendermos a complexidade dos sentimentos dos que sobreviveram à guerra.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Nota: No que parece uma manhã tranquila em que a esposa do pintor toma o café, na ponta da mesa, em contraste a esse momento, o jornal da manhã anuncia que Mussolini, chefe do governo italiano, manda seu exército invadir a Abissínia, hoje Etiópia. A invasão da Abissínia em 1935, pela Itália, foi um dos eventos que deram início à Segunda Guerra Mundial.
Cumbuca de terracota parcialmente cinzelada, vitrificada
número 3/150
[Christie’s]
Em 12 de maio de 2020 coloquei aqui neste blog uma pequena postagem sobre Picasso e a coruja de Antibes. Corujas foram um tema contínuo na obra do artista espanhol desde os anos 40 até o anos 60 do século passado. Ontem vi que mais uma coruja de Picasso entrava no mercado com venda em leilão, resolvi portanto postar algumas das corujas de Picasso que venho colecionando. Não, ainda não esgotei minha coleção de fotos desse tema na obra dele. Espero que gostem.