Mangas e mar, 1982
Quirino Campofiorito (Brasil, 1902-1993)
óleo sobre tela colada em eucatex, 18 x 48 cm
Mangas e mar, 1982
Quirino Campofiorito (Brasil, 1902-1993)
óleo sobre tela colada em eucatex, 18 x 48 cm













Fernando Pessoa
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Em: Cancioneiro, Fernando Pessoa, Cyberfil: 2002 – página 34
Entardecer no pasto
Gérson de Azeredo Coutinho (Brasil, 1900-1967)
óleo sobre madeira, 15 x 20 cm
Natureza morta com anjinhos e borboletas
Adir Sodré de Souza, (Brasil, 1962-2020)
acrílica sobre tela, 36 x 30 cm
Lendo à beira do lago
Edward Henry Potthast, (EUA, 1857-1927)
óleo sobre tela
Em: A vida do livreiro A. J. Fikry, Gabrielle Zevin, tradução de Flávia Yacubian, São Paulo, Paralela: 2014, p. 37
Rio de Janeiro
Ismael Nery ( Brasil, 1900-1934)
aquarela sobre papel, 20 x 25 cm
Coleção Particular
Retrato de mulher
Joseph Eze (Nigéria, 1975)
Técnica mista
Hibisco Roxo foi o primeiro romance publicado da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Mas o terceiro dela que leio. Minha apresentação à sua obra foi com Americanah. Depois li Meio sol amarelo, que continuo achando o melhor dos três, e agora o popularíssimo Hibisco Roxo, leitura obrigatória nos meios feministas, por sua temática: a violência contra a mulher.
Gosto, na prosa de Chimamanda Ngozi Adichie, do retrato social da Nigéria que, para o ocidente, foge aos estereótipos das sociedades dos países africanos, comumente vistas como soterradas na extrema pobreza. Em todas as três obras, ela nos dá o retrato de um país formado por diversas camadas sociais, com profissionais nas classes rica, empresarial, média e pobre. Essa visão multi-strata enriquece a compreensão do leitor sem familiaridade com a realidade local. E o lembra de que o mundo é bem mais complexo do que as notícias que recebemos nos meios de comunicação nos levam a crer; que o mundo não pode ser visto exclusivamente por posturas políticas, visões de progresso e riqueza; nem mesmo pelas distorções do colonialismo. Hibisco Roxo lembra que culturas e sociedades são formadas por uma variedade de indivíduos: bons, maus, ponderados, fanáticos, abusivos, respeitadores de regras, religiosos.

A trama revolve em torno uma família rica, chefiada por um homem de grande sucesso empresarial que, com a desculpa da religiosidade, domina mulher e filhos — Kambili e Jaja — de maneira cruel exigindo comportamento inumano de sua família. Suas vidas correm em paralelo à vida de sua irmã que, apesar de professora universitária, não tem o mesmo poder financeiro dele. Sua educação, é provavelmente responsável pela grandeza humanística com que aceita o mundo em que vive, as tradições culturais do país e, sobretudo, a individualidade de seus filhos. Por trás de tudo isso, como pano de fundo, há o conflito entre a religião colonizadora em oposição à religião nativa. Mesmo assim, nem nesse, nem nos outros dois livros da autora, mencionados acima, há clara condenação ou revolta contra os resquícios da colonização europeia. Um fato revigorante e inovador. Essa luta já passou. Ninguém clama um retorno ao período anterior aos colonizadores. O passado passou, a colonização britânica faz parte do passado, mas também, hoje, da identidade da Nigéria como a escritora retrata.
O fanatismo religioso demonstrado em Hibisco Roxo, existe em qualquer lugar do mundo, em qualquer país, em qualquer religião. Neste caso trata-se da religião católica, que é interpretada pelo chefe de família com severidade militar. Ainda que seja fácil ler nesse extremismo uma crítica ao catolicismo pela autora, é justamente um padre católico um dos personagens mais carismáticos, enquanto joga futebol com os adolescentes e, em visitas familiares aos membros de paróquia, age de maneira perceptiva e grandiosa.
Chimamanda Ngozi Adichie
A enredo detalha a passagem da vida de dois adolescentes para as responsabilidades da vida adulta. Criados com muitas restrições os irmãos Kambili e Jaja vão visitar a tia, em outra cidade. Lá, livres dos grilhões paternos, descobrem que o mundo pode ser diferente. Suas personalidades vêm à tona e com ela a liberdade por que tanto ansiavam. Com essa liberdade vem também escolha e responsabilidades, que ao final se apresentam necessárias.
Narrado na primeira pessoa por Kambili, a menina que desabrocha na casa da tia, a narrativa corre fácil com tradução de Júlia Romeu. Percebemos o que Kambili percebe. Seus olhos são os nossos. Por isso também vemos o mundo com a mesma ingenuidade e visão limitada dos acontecimentos e personagens. Até mesmo Jaja, seu irmão, visto pelos olhos de Kambili, não é desenvolvido plenamente. Portanto, quando ele toma uma decisão radical, surpreendente, o leitor se choca, por não ter reconhecido nele, personagem de tal importância. Este é o meu problema com a narrativa, e a razão de não poder dar a esse livro todos os meus pontos de aprovação. A história é envolvente, informativa. Mas precisava de mais solidez nos personagens.
É uma boa leitura. Interessante, forte. Recomendo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
Leitura, 1958
Mikhail Anikeev (Rússia, 1925)
óleo sobre tela
Ernest Hemingway