Ilustração de Walter Molino (Itália, 1915 – 1997)
“Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.”
Monteiro Lobato
Monteiro Lobato

Diamantina, paisagem com igreja, 1986
Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)
óleo sobre tela, 61 x 45 cm
Terra vista da Lua
Veronika Zubareva (Rússia, contemporânea)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Há muito tempo um livro não me encanta tanto quanto Orbital de Samantha Harvey, tradução de Adriano Sacandolara [Editora DBA, 2025]. A obra, vencedora do Booker Prize em 2024, é uma cuidadosa ponderação sobre a vida, a Terra, nosso lugar no Universo. Ainda que acompanhemos seis astronautas que orbitam a terra, não há diálogos, não há trama. Em seu lugar, somos convidados a compartilhar com a autora a visão, o encantamento e o privilégio de, com ela, viajarmos em volta do nosso planeta e nesse trânsito refletir sobre a grandeza do espaço, a pequenez do planeta azul, a fragilidade de nossa existência.
Não se trata de prosa poética. Mas o livro é repleto de poesia e do encantamento que poesia provoca. Com grande sensibilidade atravessamos as dezesseis órbitas que fazem um dia no espaço e que, por sua vez, designam os dezesseis capítulos do livro. A cada um deles voltamos ao nascer do dia numa parte do planeta, diferente da anterior, ou ao acender das luzes quando a noite chega em algum continente. Essa forma circular, de voltar e voltar a um ponto semelhante ao do início é usada desde a antiguidade para a meditação. O círculo sempre esteve ligado à ponderação e introspecção. Os conhecidos labirintos meditativos, desenhados no chão, como o da Catedral de Chartres na França, assim eram para levar o pensamento do andarilho de volta através de uma espiral circular a um ponto semelhante ao anterior. É isso que acontece com o leitor em Orbital. Junto à equipe de astronautas voltamos sempre mais ou menos ao mesmo ponto, mas um pouco diferente. As ruminações são inescapáveis.
“Os continentes passam como as campinas e vilarejos na janela de um trem. Dias e noites, estações e estrelas, democracias e ditaduras. É só à noite, quando você vai dormir, que você se alivia dessa esteira perpétua. E mesmo ao dormir você sente a Terra girar, assim como sente uma pessoa deitada ao seu lado. Você a sente ali. Sente todos os dias que penetram sua noite de sete horas. Sente todas as estrelas efervescentes e os humores dos oceanos e o tropeço da luz contra a pele, e se a Terra parasse por um segundo na sua órbita, você acordaria de sobressalto, ciente de que há algo errado.“
Difícil imaginar as incontáveis horas de pesquisa que Samantha Harvey deve ter dedicado a visões da Terra da perspectiva de quem a vê do espaço, nem muito longe, nem muito perto. Suas descrições, suas observações precisas e poéticas são imperdíveis e trazem a sensação de verdadeira experiência. E nos deixam extasiados. Outras tantas horas devem ter sido dedicadas ao estudo da rotina dos astronautas antes e durante os voos, assim como os tipos de pesquisas que são executadas em voo.
Esse livro é uma homenagem à Terra mas é também uma austera e enigmática reflexão sobre nosso papel nesse planeta, nesse Universo. Ponderação sobre nossa inimaginável necessidade de ir além, de conquistar. A prosa é belíssima e delicada. Para os apreciadores da pintura há uma longa reflexão sobre Velazquez e menções sobre Turner. Mas sobretudo essa ruminação poética sobre o ser humano e seu lugar no universo é profunda, toca a alma e faz pensar.
Com Anton, Roman, Nell, Chie, Shaun e Pietro, os astronautas de diversas nações aprendemos, como Harvey nos diz que:
“A humanidade não é esta ou aquela nação, é tudo junto, sempre juntos, venha o que vier.”
Leia. Recomendo.
Pastor, 1912
Oscar Pereira da Silva (Brasil, 1867-1939)
óleo sobre madeira, 24 x 35 cm
Paisagem, 1931
Antonio Parreiras (Brasil, 1860-1937)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
Momentos domésticos, 2013
Olim Muhammadali (Uzbequistão, 1991)
óleo sobre tela, 90 x 130 cm
Francisca Júlia
Passo lento, olhar profundo,
Valente, brioso e grave,
O galo é a mais linda ave
Dentre todas que há no mundo.
Um pé adiante, outro atrás,
Bico aberto, o galo canta;
Tem a glória na garganta
E nas esporas que traz.
O galo é sempre o primeiro
A anunciar a s auroras.
Repara bem: tem esporas
E é por isso cavaleiro.
Coroa tem e de lei,
Coroa em forma de crista
Que ganhou numa conquista:
Por isso julga-se rei.
Pendentes até o peito,
Vermelhas, grandes e belas,
Tem barbas que são barbelas
Que lhe dão muito respeito.
Com que delicado amor
Ele defende e acarinha
Ora o pinto, ora a alinha
Com seu gesto protetor!
De cabeça levantada,
Altivo sobre o poleiro,
Ele é o rei do galinheiro
E o cantor da madrugada.
Vivem todos sob a lei
E ordens que o galo decreta:
Soldado, músico e poeta,
Pastor, cavaleiro e rei!
Francisca Júlia. Alma Infantil (Rio de Janeiro: s.e., 1912), pp. 81-83
Caixa cofre do Cardeal Guala Bicchieri, 1220-1225
Medalhões esmaltados de Limoges com decoração profana
Palazzo Madama–Museo Civico d’Arte Antico
Peça do acervo permanente do Palazzo Madama–Museo Civico d’Arte Antiga em Turim, na Itália, essa caixa cofre do Cardeal Guala Bicchieri é considerada uma das mais importantes peças medievais que traz esmaltação da melhor qualidade encontrada na era medieval. Os esmaltes da cidade de Limoges na França eram conhecidos por toda Europa pela excelência na técnica champlevé.
Champlevé é o termo francês usado para significar a técnica conhecida desde a antiguidade, de esmaltação sobre um objeto de metal, ou uma folha de metal sobre madeira, em que depressões no metal, com formas específicas, são preenchidas até as bordas de seus limites, com esmalte vítreo, que exposto ao fogo se funde com o metal. Mais tarde a peça é polida e as “paredes” de cada célula são expostas fazendo uma moldura de cada cor aplicada. Essa técnica esteve muito em voga no século XIII na Europa, para objetos de luxo e muitas caixas como essa do Cardeal Guala Bicchieri. Já mostrei aqui no blog duas dessas caixas da mesma época:
O Cofre do Cardeal Guala Bicchieri é uma das peças conhecidas mais importantes da famosa produção de Limoges. Essa caixa é decorada com medalhões mostrando lutas de animais, cenas da corte. O proprietário original desse cofre Guala Bicchieri, foi um grande colecionador e diplomata experiente, membro de uma família proeminente de Vercelli no norte da Itália.
Disco decorativo: Dois pequenos dragões devorando um peixe em esmaltação champlevé.
Vaso de flores, 1956
Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)
óleo sobre madeira, 46 x 55 cm
Fleurs sauvages [Flores selvagens]
Carlos Haraldo Sorenses (Brasil, 1928 – 2008)
encáustica sobre tela, 35 x 27 cm












