Café da manhã, 1927
Jane Rogers (EUA, 1896 –?)
óleo sobre cartão, 50 x 60 cm
Oresman Collection, NY
Café da manhã, 1927
Jane Rogers (EUA, 1896 –?)
óleo sobre cartão, 50 x 60 cm
Oresman Collection, NY
Conservatória, 1961.
José Maria de Almeida (Portugal/Brasil, 1906-1995)
óleo sobre tela, 33 x 46 cm
O quarto azul
Carole Rabe, (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 60 x 45 cm
Georges Simenon escreveu mais de quatrocentas obras tanto em seu nome quanto sob dezoito pseudônimos. Mais de cem pertencem ao que se denomina romances duros. Diferente dos livros em que figura o inspetor chefe da polícia francesa, Maigret, os romances duros, publicados através da vida do autor, tratam com cuidado do drama psicológico de seus personagens. O quarto azul é um deles.
Conheci os livros de Simenon ainda na adolescência, nas longas férias de verão, com mistérios e resolução de crimes. Só recentemente dei atenção aos romances duros, através da publicação de mais de um título pela Cia das Letras. [Em francês há a publicação da obra completa dos romances duros,compilados por décadas de publicação, diversos volumes]. E me apaixonei por essa faceta de Simenon que considerava sua produção subdividida: romances policiais, como os que têm Maigret como chefe de polícia; e as obras que considerava não serem comerciais, os romances duros, onde não precisava ter um fundo moral ou atender ao gosto do público.

O quarto azul trata da aventura amorosa fora do casamento de dois personagens que se encontram regularmente — oito vezes em onze meses — no quarto azul de um hotel, na pequena Triant, aldeia francesa nas redondezas de Paris. Enquanto para Tony, naturalmente lacônico em seu diálogo com a amante, essa aventura parecia não criar raízes profundas, para Andrée as poucas palavras enunciadas pelo homem com quem acabara de ter um encontro fogoso vinham carregadas de potente significado. Essa diferença de interpretação de uma situação fora dos parâmetros morais, acaba com surpreendente desfecho de mortes e problemas para Tony. É no questionamento policial de Tony que então entendemos a complexidade dos personagens envolvidos.
Georges Simenon
Um romance com meras cento e trinta e seis páginas não deveria ser capaz de detalhar fortes emoções criando empatia pelos personagens, nem fornecer ao leitor detalhes da vida pregressa de cada elemento da trama fazendo-os tridimensionais de maneira sucinta. Aí está a arte de Georges Simenon, que não acreditava na narrativa longa, nem em frases bonitas. Sabe-se que sua maneira de editar era retirar tudo que fosse bonito, deixando apenas o essencial. Esta narrativa dá impacto a uma trama simples, esparsamente descrita com palavras carregadas de significado. Gostei imensamente do livro e recomendo. Mas não espere um mistério do gênero do Inspetor Maigret.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Papoulas, 1988
Lorice Ganut (Brasil, 1932)
óleo sobre tela, 46 X 33 cm
Interior com jovem lendo, 1912
Kristian Zahrtmann (Dinamarca, 1843 – 1917)
óleo sobre tela, 70 x 63 cm
Bornholm Museu de Arte
Casas na Glória, década de 1950
Marie Nivouliés de Pierrefort (França/Brasil, 1879 – 1968)
óleo sobre tela, 58 x 65 cm
Casal conversando, 1898
Simon Glücklich (Áustria, 1863-1943)
óleo sobre tela, 77 x 92 cm
“Preciso te dar os parabéns por não comer uma mulher?, você dizia, preciso te agradecer? Você belicosa, zangada. E não se deu por vencida. Você é boa em discussão. Me diga o que você quer, você insistia. E eu sem dizer mais nada. Não quis continuar. Em que momento o monstro que nós dois éramos foi ficando paralítico? Antes a gente trepava em pé, lembra? No terraço do seu apartamento em Agüero, encostados no armário que pintamos juntos, no chuveiro, uma vez em cima da mesa da copa. Éramos incríveis assim, nos procurando. Tínhamos fome um do outro. De frente com uma perna apoiada na parede, de quatro na poltrona, derrubando os enfeites da mesa, você por cima, envergando o corpo de repente como se fosse abduzir uma nave extraterrestre. Se nos ocorria alguma coisa, éramos versáteis, dinâmicos, girávamos pegando fogo. Pouco a pouco nossa fera de duas costas foi ficando abatida, deitou-se, não levantou mais. Surgia só com a vizinhança da cama, com o contato, horizontal, a fera indolente, trepadas de uma só posição, missionários previsíveis, ou então você de barriga para baixo, quase ausente. Sós e juntos. Ou nas noites em que você estava tão cansada que não chegava a se enfiar direito debaixo das cobertas, ficava entre o edredon e o lençol e não conseguia nem dormir de conchinha com você, nem envolver sua cintura com a mão, nem agarrar seus peitos, nem te dar um beijo no pescoço, separados por um pano esticado, lado a lado, mas inatingíveis, como se estivéssemos em duas dimensões diferentes da realidade.”
Em: A uruguaia, Pedro Mairal, tradução de Heloísa Jahn, São Paulo, Todavia: 2019, pp. 10-11.
Ernest Hemingway, 1930
Henry Strater (EUA, 1896 – 1987)
óleo sobre tela
Coleção Particular
Tabac, 1928
Joaquin Torres Garcia (Uruguai, 1874 – 1949)
óleo sobre cartão, 52 x 73 cm
Museu de Artes Visuais do Uruguai
Há algum tempo coleciono pequenos romances, de preferência de cento e cinquenta a duzentas páginas, cuja brevidade narrativa não esvazia a densidade literária. A uruguaia, romance do argentino Pedro Mairal, preenche esses requisitos e depois de lido achou um lugar especial entre outras obras do gênero: O fuzil de caça de Yasushi Inoue e A vida peculiar de um a carteiro solitário, de Denis Thériault.
Talvez seja uma das narrativas mais masculinas que li nos últimos tempos. O que isso quer dizer? O ponto de vista e a maneira de contar são explicitamente masculinos. Trata-se da história de um homem, num casamento que perdeu a paixão, frustrado profissionalmente, mantido pela mulher, que usa um pagamento antecipado de editoras sobre dois de seus livros — ele é escritor — para sair de Buenos Aires, ir a Montevidéu, fazer uma operação de câmbio que só faz sentido na América Latina e mais ainda na volúvel economia argentina. Ele sai de manhã em direção a Montevidéu para efetuar a transação bancária programada, enquanto secretamente nutre o desejo de se encontrar com Magali, “Maga”, jovem que o encantara meses antes, num evento literário no Uruguai e que desde então tem preenchido suas fantasias românticas.

Volta para casa dezessete horas depois. Neste meio tempo, enquanto viaja, nós também somos levados por ele através do tempo, aprendendo sobre seu casamento, filho, profissão, Magali, o cotidiano em Buenos Aires e ausência de criatividade que o assola. Também ficamos cientes de suas fantasias sexuais e do que planeja fazer ao encontrar a jovem uruguaia que o enfeitiçara. Nem por isso deixamos de nos surpreender com os eventos. Há um pequeno gosto de mistério nesta história.
Pedro Mairal desenvolve uma narrativa densa, clara, direta que encanta o leitor, levado pela mão a acompanhá-lo. Repleto de referências à livros, escritores, à cena literária e cultural, à música, com fino humor e destro gerenciamento, ele enriquece em muito o que em mãos menos hábeis não passaria de uma pequena aventura, de uma malandrice literária. Apesar de trabalhar seu texto incessantemente para chegar à clareza apesar da complexa linha narrativa, a leitura de A uruguaia é rápida, agradável e insinuante.
Pedro MairalPor suas constantes referências aos escritores argentinos e de outros lugares, Pedro Mairal posiciona sua escrita dentro do panorama literário atual da América Latina e percebemos que é junto a Borges, Cortazar e outros de semelhante calibre que um dia pretende se encontrar. Muito justo se continuar assim.
Entendo este ser seu segundo romance. O primeiro Uma noite com Sabrina Love, que comprei depois de ler este livro, está na pilha para leitura próxima. Já foi transformado em filme. Sou fã do cinema argentino. Filmes argentinos, quase sempre, são maravilhosos com perspectivas únicas sobre casos corriqueiros. É justamente esse tom que permeia A uruguaia. Parece roteiro de filme argentino. E que roteiro! Excelente leitura. Recomendo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Natureza morta com legumes, 2002
Armando P. Dantas (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 55 X 46 cm