acrílica e grafite em tela formatada, 305 x 305 cm
Quem frequenta este blog, ou visita a página da Peregrina Cultural no Facebook, certamente não poderia imaginar que um dos meus grandes amores, figurativamente falando, nas artes plásticas do século XX, foi entre outros, Frank Stella (EUA, 1936-2024). Num blog que favorece não só a pintura figurativa assim como a pintura figurativa brasileira, saber que eu tinha verdadeiro carinho, amor e apreciação pelo trabalho de Stella deve vir como surpresa. Mas sim, há pintores abstratos, tanto do expressionismo abstrato americano, como Franz Kline, Mark Rothko, e também do abstracionismo geométrico, como o de Frank Stella e de seu antecessor Morris Louis, que sempre me tocaram.
Saber do falecimento de Frank Stella (4 de maio) foi um choque. Stella para mim foi um pintor mesmerizante. Entrar em seu mundo, pelo tamanho gigantesco de suas telas, muitas delas eventualmente em formas fora do comum, era entrar no País das Maravilhas. Era dar asas a sonhos felizes. Admirava a precisão matemática de sua pintura. Foi um grande visionário do que imaginava-se ser o futuro. Ainda que este futuro tenha sido um pouco diferente… Por muito tempo pensei em me dedicar no doutoramento ao trabalho deles. Mas história da arte é uma matéria conservadora. Já havia sido uma luta eu dedicar meus anos de pós-graduação e todos os outros em diante a René Magritte antes que o mínimo de 50 anos fossem passados (teoricamente só se sabe se alguém vai ter influência marcante depois de 50 anos de sua morte). Imaginem como seria querer trabalhar com alguém ainda vivo. E nos anos 80 a maioria destes artistas ainda estava viva. Então fica aqui o meu testemunho de que com Stella, acho que ele é o último a falecer, vai-se uma geração inteira de artistas que eram sérios em suas pesquisas para chegarem a obras “que qualquer um poderia fazer”.
Paul Auster (EUA, 1947-2024) Frank Stella (EUA, 1936-2024)
Outro falecimento nesta semana, (30 de abril) que muito me tocou foi o de Paul Auster, (EUA, 1947-2024) um dos escritores americanos que mais admirei, cujo último livro 4321 considero uma obra-prima da literatura americana contemporânea. Li duas vezes, primeiro em inglês, depois em português para poder selecionar algumas passagens para meus grupos de leitura. Auster era um escritor que mostrava camadas de significados, de referências em cada cena, detalhista, suas narrativas são verdadeiros tesouros trabalhando constantemente com o tema que lhe afligia: o acaso. Era um verdadeiro conhecedor da literatura americana e mundial, falava o francês fluentemente, eu mesma o vi falando francês, no programa da televisão francesa La Grande Librairie. Mas era sobretudo um escritor americano, da realidade americana de um fôlego raro de encontrarmos atualmente. Aos poucos a geração pós-guerra dá seu adeus. Que fiquem conosco suas obras notáveis em cada uma das artes em que estes dois homens brilhantes trabalharam. Fica aqui o meu minuto de silêncio em respeito ao que ambos conseguiram e nos deram.
Listas, listas, listas de livros quem não as ama? Uma coincidência hoje em fez com que eu passasse a tarde refletindo sobre livros lidos e listas de livros. Uma amiga me mandou um artigo do The New YorkTimes, [Book Review’s Best Books Since 2000– Looking for your next great read? We’ve got 3,228. Explore the best from chosen by our editors] e como não poderia deixar de ser, fui investigar que livros eles consideraram os melhores de duas décadas e meia no século XXI. E será que os meus favoritos estariam nesta lista? Vou levar vocês às coisas sobre as quais rumino neste fim de semana.
Tenho refletido muito sobre escolha de livros, sobre o quanto me transformei numa pessoa mais exigente e sem paciência para algumas narrativas. E avaliei durante este mês de abril, quando meu primeiro grupo de leitura, Papalivros, chegou à sua maioridade, 21 anos de existência, se vale a pena continuar. Tenho considerado o desempenho do grupo, mas principalmente o meu desempenho como organizadora, porque vinte e um anos são uma geração inteira, e o mundo mudou nestas duas décadas. O mundo mudou, mudei eu e mudaram os membros. O grupo, hoje, já não está mais tão alerta, mais tão energético quanto era. Basta ver a maior similaridade daquilo que lemos com a lista dos favoritos dos editores do NYT. Estávamos mais engajados no passado. E me pergunto se vale a pena continuar, com o grupo nos termos estabelecidos, tanto para mim como para os membros. Uma coisa é certa: há uma alteração óbvia nos três grupos que organizo. Há um afastamento, um relaxamento depois da pandemia. Nenhum dos grupos é o mesmo. Nem eles são do mesmo tamanho. O comportamento das pessoas mudou. Considero portanto o que poderia ser feito para que o grupo continuasse com mais interesse e mais curiosidade pela leitura.
O modelo que escolhi em 2003 foi uma adaptação carioca de grupos de leitura que frequentei, mais que um, em diversas cidades americanas, nas décadas que morei fora do Brasil. Lá, talvez porque o hábito da leitura já esteja absorvido, há uma naturalidade nos encontros que não acontece aqui. Lá os grupos são mistos, aqui os homens que entraram desistiram. Os encontros são nas casas das pessoas, em rotatividade, sempre. Nunca participei de um grupo de leitura que se encontrasse em lugar público. Estabelece-se um horário, sempre dia da semana, sempre à noite. O americano janta cedo, de modo que 20 horas é um horário que todos têm livre e já é depois do jantar. Os encontros são cada vez na casa de um membro. Dependendo do grupo, aquele membro oferece um café, chá, alguns biscoitos, talvez um bolo. Ninguém vai “para comer ou beber”, comer ou beber é secundário. Outros grupos funcionam com “potluck” cada membro traz uma coisa de comes e bebes ou alguém fica responsável pelos biscoitos ou por assar um bolo para aquele encontro. Todo americano sabe cozinhar: homem ou mulher, ou sabe comprar (muito mais raro) algum biscoito especial, e traz uma garrafa de vinho, Mas a atenção é no livro, nas leituras, na troca de experiências literárias ou pessoais. O americano também fala no seu turno, acho que essa é uma diferença fundamental aprendida na escola quando crianças e adolescentes aprendem a organizar grupos e a aceitar propostas, a votar nelas. Eles aprendem desde cedo a seguirem a Robert’s Rules of Order, algo de que nunca ouvi falar no Brasil, mas que todo americano conhece e segue. Sendo assim, um americano nunca atrapalha o outro ou corta o outro na fala. Esse hábito não é mantido por aqui, linhas de argumentação se perdem e frequentemente conversas paralelas surgem, o que põe qualquer troca de ideias a perder. Esse é verdadeiramente um hábito carioca, cultural, ao qual não consigo me acostumar. Lá, o assunto revolve sobre o livro, o tema abordado, a vida do escritor, que mais aquele escritor publicou. “E vocês viram o artigo… no NYT, ou no Post, ou no N&O?” E como e se aquilo reflete no que você conhece da sua vida. Por volta das 22 horas todos mais ou menos se preparam para ir embora, todos trabalham no dia seguinte. Antes, um novo livro foi acordado para o próximo mês. Neste aspecto os americanos são bem mais participativos do que os cariocas. Não sei bem porque.
A mesa, 1928
Georges Braque (França, 1882-1963)
óleo sobre tela, 81 x 131 cm
National Gallery, Washington DC
A adaptação que fiz para o Rio de Janeiro foi principalmente o ajuste do local de encontro. Inicialmente, nos primeiros seis anos, os encontros foram na minha moradia. Ainda mantenho o hábito de receber, gosto de juntar amigos. Gosto de fazer pratos especiais. Mas o carioca está acostumado a se encontrar fora de casa, no bar, no restaurante. Portanto, quando me mudei para um apartamento menor, as reuniões passaram a ser feitas em restaurantes. Nessa época o grupo tinha 14 membros Os problemas se intensificaram: a conversa sobre o livro é sempre interrompida por pedidos de mais uma laranjada… gelo… e a minha ordem? Pode trazer o sal, por favor? Fulana, você já experimentou o pastel? É bom? Ah, eu não posso comer … aqui não tem nada que eu possa comer… a atenção não se mantém no livro. Conversas paralelas surgem numa fração de segundos. O assunto gerado pelo livro é abortado. É difícil manter a atenção dos participantes.
Esta pequena mudança de um ambiente fechado para um ambiente público foi determinante no comportamento dos participantes. Mudou. O grupo se tornou menos dedicado às trocas de ideias sobre a leitura e mais inclinado a escapulir da agenda a qualquer momento. Poucas vezes alguém cuida de trazer um artigo sobre o livro, sobre o escritor, até mesmo sobre o país em que a trama se desenvolve. As conversas empobreceram. E, houve um agravante pior: nos sujeitamos à troca de lugares de encontro, a mercê da economia local. Se a economia na cidade ia bem, podíamos contar com a estabilidade dos locais de encontro. No momento em que a economia ia mal também nós sofríamos. A lanchonete onde nos encontrávamos fechou, o café que a substituiu, fechou, fomos para um restaurante tradicional, tivemos problemas: não queriam servir só salgados ou coisas rápidas; mudamos para outro restaurante mais tradicional que não nos recebeu mal mas a sala especial no terceiro andar, que haviam nos prometido não pode ser acionada depois da segunda vez que nos encontramos lá, porque a receita não era grande suficiente para eles nos abrirem o local. Nossos encontros de domingo à tarde (horário estabelecido pelos participantes) sempre têm pessoas que almoçam tarde e não querem comer nada. Nenhum restaurante pode segurar lugares sem receita por duas ou duas horas e meia. Até que este mesmo restaurante, que nos abrigou, fechou para obras e nem nos avisou! Fomos para outro lugar. Mas a luta continua sempre: ou não consumimos o suficiente, ou não há lugares para dez pessoas. Não há acesso para deficientes. Muito barulho. Muita música alta ou o som da televisão com o futebol não pode ser baixado. Tudo contribui para dispersão, para falta de atenção dos componentes do grupo, mesmo aqueles que estão verdadeiramente interessados. Durante a pandemia, o grupo diminuiu de tamanho. Os encontros foram online. Muitos acharam que não valia a pena. Quando voltamos ao encontro presencial, nem sempre todos aparecem. A presença varia muito, como se tivéssemos perdido o hábito. Como se a leitura e sua discussão não tivesse mais lugar, a não ser como um aposto, um extra e não um compromisso. Ultimamente só uma ou duas pessoas se interessam de sugerir leituras. Tem sido uma decepção. Então, desde meados de abril, me pergunto se vale a pena o esforço de manter o grupo. Se não é hora de fechar. As amizades que se formaram devem perdurar. Afinal, tudo tem seu tempo. 21 anos já é uma vitória!
Natureza morta com fruteira na mesa, 1914-15
Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)
óleo sobre tela, 64 x 80 cm
Colombus Art Museum, Ohio
Aí vejo a lista dos melhores livros destas duas décadas e meia do século XXI, publicada pelo The New York Times. E quando já estava praticamente decidida a ter a última reunião do Papalivros neste mês de maio, faço a listagem dos livros selecionados por eles. Comparo com a nossa lista de leitura e começo a reconsiderar.
Venho de uma família de leitores. Todos liam na família, pais, avós, tios, tias. Houve uma única vez, uma restrição a um livro que eu queria ler e minha mãe recusou. Era Trópico de Câncer, de Henry Miller. Eu tinha 15 anos. Isso ficou marcado para mim. Mas meus pais acreditavam em deixar que nós escolhêssemos o que iríamos ler. Nunca, a não ser na escola, fomos requisitados a ler alguma coisa. Essa tradição eu trouxe para o grupo. E muitas vezes leio o que jamais escolheria na livraria, Às vezes tenho boas surpresas, outras simples confirmações de que não era um livro para mim. Também nunca me considerei uma especialista em literatura mas fica claro, para mim, que sou uma pessoa que já leu muito mais do que a maioria e muitas vezes me calo. Não há pecado maior do que mostrar conhecimento em certos momentos. Mas, agora me pergunto, e se eu fosse um pouco mais incisiva sobre os livros que fôssemos ler? Ou, e se eu pedisse maior envolvimento destes leitores com as obras escolhidas? Porque quando comparo o que lemos nesses últimos 21 anos com a lista do NYT, temos muita coisa em comum. Um grande número de acertos mesmo em se tratando de livros que precisam de tradução e portanto aparecem no Brasil, mais tarde. Vou pensar melhor amanhã. Obrigada por me acompanharem neste solilóquio.