Dias de leitura, Marcel Proust

7 06 2020

 

 

Vanlerberghe, Sylvie (1963-...) 1Leitura

Sylvie Vanlerberghe (França, 1963)

óleo sobre tela

 

 

Dias de leitura
[20 de março de 1907]

 

Você provavelmente lera, Mémoires de la comtesse de Boigne.  Há “tantos doentes” nesse momento que os livros encontram leitores, até mesmo leitoras. Sem dúvida, quando não podemos sair e fazer visitas, preferimos recebê-las a ler. Mas, “nesses tempos de epidemias”, até as visitas que recebemos representam algum perigo. É a senhora que da porta onde se detém por um momento – apenas por um momento -, e de onde, emoldurando sua ameaça, grita: “Vocês não  temem a caxumba e a escarlatina? Previno-os de que minha filha e meus netos estão doentes.  Posso entrar?”; e entra sem esperar resposta.

E outra, menos franca, que mostra seu relógio: “Preciso voltar logo: minhas três filhas estão com rubéola; vou de uma a outra; minha inglesa está acamada desde ontem com uma febre alta, e temo ser minha vez de ficar doente, pois me senti mal ao levantar.  Mas fiz questão de fazer um grande esforço para vir vê-lo…”. Então preferimos não receber muito, e, como não podemos telefonar sempre, lemos. Só lemos em último caso. …

[…]

… a partir do momento em que nos resignamos a ler, escolhermos de preferência livros como as memórias da sra. de Boigne, livros que dão a ilusão de continuarmos a fazer visitas, a fazer visitas às pessoas que não pudemos visitar, porque ainda não éramos nascidos sob Luís XVI e que, de resto, não serão muito diferentes daquelas que conhecemos, pois levam quase os mesmos sobrenomes que elas, seus descendentes e nossos amigos, os quais, por uma comovente delicadeza para com a nossa fraca memória. conservaram os mesmos nomes e ainda se chamam: Odon, Ghislain, Nivelon, Victurnien, Josselin, Léonor, Artus, Tucdal, Adhéaume ou Raunaulphes. Belos nomes de batismo, aliás, e dos quais não deveríamos sorrir; eles provêm de um passado tão profundo que em seu esplendor insólito parecem brilhar misteriosamente como esses nomes de profetas e santos inscritos abreviados nos vitrais de nossas catedrais.”

Em: Salões de Paris, Marcel Proust, tradução Caroline Fretin de Freitas e Celina Olga de Souza, São Paulo, Carambaia: 2018, 2ª edição, pp.  87 e 90.

 





Resenha: A paciente silenciosa, de Alex Michaelides

5 06 2020

 

 

 

Andrew Ganley - Brigit Ganley - Pintora irlandesa (1909-2002)O dramaturgo Andrew Ganley

Brigit Ganley (Irlanda, 1909 – 2002)

óleo sobre tela

 

Em 1926,  Agatha Christie publicou seu primeiro grande sucesso de vendas: O assassinato de Roger Ackroyd. Em 2013, a Associação de Escritores Britânicos de Crime elegeu esta obra como a melhor história de crime já escrita.  Este mistério é considerado um dos livros de maior influência no gênero, mesmo que tenha gerado controvérsia pela virada no final na trama.  Não pude deixar de me lembrar de Roger Ackroyd  ao terminar a leitura de A paciente silenciosa, do escritor britânico, nascido em Chipre, Alex Michaelides, publicado em 2019, para uma carreira de sucesso imediato.  Como o livro de Agatha Christie, este também ganhou inúmeros prêmios inclusive o Prêmio do site Goodreads  para mistérios e suspense no mesmo ano de lançamento. Além disso os dois livros são repletos de suspense, mistério e de finais surpreendentes.

Diferente do que aconteceu comigo na leitura do  livro de Agatha Christie, não consegui gostar nem me identificar com qualquer dos personagens envolvidos na trama de Michaelides. A narrativa me pareceu distante e artificial, assim como os dramas pessoais dos personagens me pareceram desde o início forjados, um tanto teatrais.

 

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Não obstante, A paciente silenciosa tem ritmo acelerado que ao longo do tempo torna-se trepidante, causa incertezas aumentando ansiedades no leitor, certo de que há algo muito errado, sem conseguir perceber claramente o que acontece.  Há passagens arrepiantes, repletas de situações aterrorizadoras, principalmente na descrição da perseguição [stalking] de um dos personagens.

Alex Michaelides usa de diversos métodos de narrativa para elaborar a trama.  Neste ponto, o livro é de grande riqueza, pois passamos da narrativa em primeira pessoa, às notas em diários, conversas, pintura e silêncio como meios de comunicação para a evolução do enredo e desta maneira consegue iludir o leitor, quando precisa, sobre as elipses que irão permitir a reviravolta final.  Neste ponto, A paciente silenciosa  é uma obra de grande auxílio àqueles que desejariam escrever uma história de suspense.

 

lex Michaelides 2.jpgAlex Michaelides

 

O livro gera questões sobre ética de trabalho de profissionais como psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, assim como segurança nas instituições de acolhimento daqueles que necessitam de tratamento mental.  Há também a questão de confiabilidade, transparência e genuíno cuidado de pacientes mentais.

A paciente silenciosa é bom entretenimento, leitura feita para um fim de semana, para um dia de chuva.  Diverte, ajuda a passar o tempo, retém a atenção do leitor. Com este fim, recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: A maçã envenenada, Michel Laub

1 06 2020

 

 

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Monika Luniak (Alemanha, contemporânea)

óleo sobre tela

 

Há escritores que surpreendem com a justaposição de eventos que escolhem para nos revelar a trama de um romance. Com isso mostram sua maneira de pensar, como retêm o que veem, a essência do que os preocupa. Formam uma colcha de retalhos que os leva  à sabedoria, à lição do que observaram.  Fora do Brasil, Julian Barnes é um escritor que seduz com similaridades que descobre em coisas aparentemente assimétricas. Este tipo de narrativa faz parte do charme da prata da casa, o escritor brasileiro Michel Laub.  Seguir paralelos que não apresentam conexão imediata é um dos prazeres de seus livros e de A maçã envenenada.

Narrado na primeira pessoa, o personagem, jornalista de quarenta anos,  procura respostas, para entender o motivo do suicídio de sua primeira namorada, Valéria. Oscilando entre dois eventos que, justapostos, o intrigam: o suicídio do músico Kurt Cobain e a entrevista de Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio de Ruanda ele transita entre essas duas forças cujo ponto em comum é a preservação ou não da própria vida. Há,  de um lado, um cantor, compositor, músico de sucesso,  admirado no mundo inteiro, ídolo de uma geração, que despreza a vida e se suicida.  De outro está a jovem africana, desconhecida e pobre, feita heroína pelas circunstâncias, porque preza a vida a ponto de sobreviver nas piores condições imagináveis, por um longo tempo. É no equilíbrio entre essas duas forças que o jornalista encontra o caminho da ponderação sobre eventos e sentimentos.

 

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Fragmentos  da letra Drain me, de Kurt Cobain, são usadas, para titular duas partes da narrativa.  ‘A não ser que seja sobre mim’  [I don’t care what you think unless it is about me], apropriada para descrever a narcisista Valéria, e ‘Que sorte ter encontrado você’, ironicamente, aplicável ao nosso narrador [One baby to another says: I’m lucky I’ve met you]. Enquanto o título A maçã envenenada continua a referência à letra da música de Kurt Cobain, é usado  em contraposição,  [You’ve taught me everything without a poison apple]; pois o suicídio de Valéria é de fato verdadeira maçã envenenada para o homem maduro que revive a juventude, em busca do significado do suicídio de Valéria.

Ainda que estas referências sejam óbvias, a mim, a procura do protagonista e sua conclusão sobre o que é o suicídio, o que significou o suicídio de Valéria e o efeito que tem sobre os que estão à volta de quem o comete,  lembrou duas conhecidas frases do escritor Patrick Ness “Nós somos as escolhas que fazemos” do livro The Knife of Never Letting Go e “Dizer que você não teve escolha é omitir sua responsabilidade”, do livro Monsters of Men.

 

fotografia-do-editorial-mondadori-do-escritor-brasileiro-michel-laub-1364849951116_300x420Michel Laub

 

Este é o terceiro livro de Laub que leio.  Ainda que seja parte de uma trilogia pode  ser lido separadamente.  Com ele termino o grupo.  Para mim, dos três, o livro imperdível é Diário da Queda, que me encantou e comoveu. É o mais emotivo dos três, revelando, com genuína delicadeza, a fragilidade do narrador.  Depois, a Maçã envenenada, que trabalha o texto de uma forma mais intelectual, com emoções menos explícitas e por fim O tribunal da quinta-feira, cuja óbvia dor psicológica do personagem principal é transmitida com ironia e distanciamento.  De qualquer jeito, recomendo a leitura dos três livros em qualquer ordem que você queira colocá-los.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 





Sublinhando…

31 05 2020

 

 

Ivanov, Anatoly - Woman w Book, Table by WindowMoça com livro em mesa junto à janela

Anatoly Ivanov (Cazaquistão- Rússia, 1928 – 2012)

óleo sobre tela

 

“O suicídio é uma traição aos  outros e a si mesmo, ao que você poderia se tornar no futuro, uma pessoa diferente que nunca poderá existir porque a linha foi interrompida antes que os erros sejam corrigidos.”

Em: A maçã envenenada, Michel Laub, São Paulo, Cia das Letras: 2013, p. 103





Imagem de leitura — Alexander Mark Rossi

29 05 2020

 

 

Alexander_M__Rossi_British_artist_18401916___The_Morning_NewsNotícias matutinas

Alexander Mark Rossi (GB, 1840 – 1916)

óleo sobre tela, 60 x 91 cm





Imagem de leitura — Arlene Cassidy

26 05 2020

 

 

Arlene Cassidy, Arlene.-Canadá.-a93774Tarde preguiçosa de leitura

Arlene Cassidy (Canadá, contemporânea)

 





Minutos de sabedoria: Ralph Waldo Emerson

23 05 2020

 

 

Charles Courtney CurranUm canto confortável, 1887

Charles Courtney Curran (EUA, 1861–1942)

óleo sobre tela,  22 x 30 cm

 

 

“Nada é rico senão a inexaurível riqueza da Natureza. Ela mostra apenas a superfície, mas tem a profundidade de um milhão de metros.”

 

Ralph Waldo Emerson

 

emersonRalph Waldo Emerson (1803 – 1882)

 





Imagem de leitura — Auguste Oleffe

21 05 2020

 

 

Auguste Oleffe (Bélgica, 1867-1931) Em agosto, 1909 - Terrasse de la maison du peintre, chaussée de Wavre, ost, 200 x 200, Museu Real de Belas Artes BruxelasTerraço da casa do pintor, à rua Chaussée de Wavre, em Bruxelas, 1909

Auguste Oleffe (Bélgica, 1867-1931)

óleo sobre tela,

200 x 200 cm

Museu Real de Belas Artes,  Bruxelas





Minutos de sabedoria: Machado de Assis

17 05 2020

 

 

 

Birbee (Holanda, contemporânea)Mulher lendo com cachorroost, 40 x 50cm,wwwbirbee.nl.Mulher lendo com cachorro

Birbee (Holanda, contemporânea)

óleo sobre tela, 40 x 50cm

www. birbee.nl

 

“Não é a verdade que vence, é a convicção.”

Machado de Assis

 

 

Machado de AssisMachado de Assis (1839 – 1908)

 

 





Imagem de leitura — Dee Nickerson

13 05 2020

 

 

Dee Nickerson (GB, 1957) leituraLeitura

Dee Nickerson (GB, 1957)