Marceline Desbordes-Valmore, 1924
Robert Hope (GB, 1869-1936)
óleo sobre tela
Mme Valtat lendo, 1906
Louis Valtat (França, 1869-1952)
óleo sobre tela, 71 x 57 cm
Museu de Belas Artes, Houston, Tx
Jovem lendo
Corinne Garlick (Canadá, contemporânea)
óleo sobre telal, 20 x 20 cm
David Foenkinos
Triste Notícia, 1905
Antônio Parreiras (Brasil, 1860-1937)
óleo sobre tela, 50 x 73 cm
Quando vi esta imagem, à primeira vista me pareceu que a senhora retratada lia em um dispositivo digital. Mas como? Não era uma cena das últimas duas décadas! Observando com maior cuidado, percebi tratar-se de papel timbrado de preto a toda volta, retirado do envelope próximo também assim tarjado. E, de repente, me encontro de volta à minha infância. Memórias muito antigas de outro hábito desaparecido.
Eu era criança quando vi pela primeira vez um envelope como este, trazendo em seu recheio nota semelhante. Vinha de Mato Grosso, terra da família paterna de minha mãe. De lá, eu conhecia quatro pessoas: vovô Gessner e alguns de meus tios avós: a meia irmã Eneyde (Nedi), o marido Luiz, que moravam aqui no Rio de Janeiro, com quem tive muito contato, mesmo depois de adulta, eles eram figurinhas conhecidas e queridas por demais. Eu adorava as histórias de titio Luiz sobre caçadas em Mato Grosso. Também conheci a irmã mais velha de vovô em uma visita ao Rio de Janeiro. Chamava-se titia Evange, apelido familiar de Evangelina.
Não sei se o falecimento dela foi telegrafado para meus pais. Talvez telegrafado para vovô. Mas a notícia de seu falecimento certamente chegou através de uma nota tarjada de preto, como esta do quadro de Antônio Parreiras de 1905.
Ainda vi na casa de meus pais, algumas, poucas, notificações de falecimento desta maneira. Mas ao que eu saiba, este hábito já era um tanto arcaico na segunda metade do século XX.
O luto mudou muito. Mas isso é papo para outra ocasião.
©Ladyce West, Abril de 2023, Rio de Janeiro
No. 217, 1998
Davi dalla Venezia (Itália, 1965)
óleo sobre tela, 162 x 130 cm
“Um amigo de infância que não encontrava havia anos me escreveu após a publicação do meu segundo romance, O pêndulo de Foucault: “Caro Umberto, não me recordo de ter-lhe contado a história patética do meu tio e da minha tia, mas acho que você foi muito indiscreto ao usá-la em seu romance.” Bem, no meu livro eu conto alguns episódios envolvendo um certo Tio Charles e uma certa Tia Catherine, que na história são os tios do protagonista, Jacopo Belbo. É verdade que essas pessoas de fato existiram. Com algumas alterações, eu estava contando uma história da minha infância envolvendo um casal de tios meus — mas é claro que eles tinham nomes diferentes dos personagens. Respondi ao meu amigo dizendo que o Tio Charles e a Tia Catherine eram meus parentes, e não dele (e, portanto, os direitos autorais eram meus), e que eu nem sequer sabia que ele tivesse um tio ou uma tia. Meu amigo se desculpou: deixara-se envolver tanto pela história que achou que havia identificado certos incidentes ocorridos com seus tios — o que não é impossível, pois em tempo de guerra (o período ao qual remontavam minhas lembranças) coisas semelhantes podem acontecer a diferentes tios e tias.
O que acontecera com meu amigo? Ele buscara na minha história algo que estava, isto sim, na sua lembrança pessoal. Não estava interpretando meu texto, mas usando-o. Não é propriamente proibido usar um texto para sonhar acordado, e todos nós o fazemos com frequência — mas não é uma questão pública. Usar um texto dessa maneira significa mover-se nele como se fosse nosso diário íntimo.”
Em: Confissões de um jovem romancista, Umberto Eco, tradução de Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record: 2018, p. 33
Homem lendo livro à luz de candeeiro, 1839
Escola inglesa, primeira metade do século XIX
óleo sobre tela, 65 x 75 cm