Vaso de flores, 2014
Yugo Mabe (Brasil, 1955)
[óleo sobre tela,100 x 150 cm
Explosão botânica
Roberto Magalhães (Brasil, 1940)
óleo sobre tela, 100 x 100 cm
Vaso de flores, 2014
Yugo Mabe (Brasil, 1955)
[óleo sobre tela,100 x 150 cm
Explosão botânica
Roberto Magalhães (Brasil, 1940)
óleo sobre tela, 100 x 100 cm
Lição de casa, 2007
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925-2019)
óleo sobre tela, 81 x 100 cm
Reynaldo Fonseca é um dos pintores brasileiros de que mais gosto. Gosto do silêncio em suas imagens, da tradição clássica que todas suas obras respiram, podendo estar lado a lado com uma tela renascentista, por exemplo, sem estar diminuída, apesar de usar linguagem diversa. Gosto também do mistério e do ocasional aceno ao surrealismo figurativo. Seus quadros são atemporais, quase místicos. Eles aspiram a algo maior do que a própria imagem, do que a própria pintura. Sou parcial à sua obra. Sim, eu teria muitas de suas telas em casa, vivendo comigo.
A mocinha aí em cima, me lembrou meus anos de adolescente. Estudava numa escrivaninha como essa. Não tinha gavetas laterais. Havia uma gaveta grande e rasa para lápis, réguas, clipes, material de papelaria. Embaixo havia um armário de duas portas, com uma grande prateleira, onde eu guardava meus livros, minhas revistas, tudo que era só meu e não da família. A tampa fechada, era um alívio, dizia: “não precisa mais fazer dever de casa”. Essa jovem da ilustração parece estar escrevendo em seu diário. Manter um diário foi sempre uma tarefa que não consegui realizar. Comecei muitos. Mas sem sucesso. A vida sempre foi muito cheia de aventuras, brincadeiras. Era muito ocupada e tudo parecia tão menos interessante quando era posto no papel, tão mais reduzido de excitação que não valia a pena relatar o dia a dia. Mas a jovem adulta voltou aos cadernos. Não aos diários. Cadernos de citações, frases de livros, poemas.
No YouTube no início de cada ano aparecem dezenas de vídeos ensinando as vantagens de se manter um diário para o equilíbrio emocional, para boas decisões. Ou a importância para o pintor, artista plástico, de carregar consigo um caderno de sketches. Para leitores e escritores há as cadernetas de bolso para que se anote uma ideia, observação feita na rua, no jardim, na praia, algo que possa ser colocado como detalhe na sua escrita. Não tenho nenhum deles. Este ano, pela primeira vez, coloquei na bolsa um pequenino caderno para isso, mas vou precisar me lembrar de que tenho essa ferramenta. Como nunca usei, talvez precise me esforçar para lembrar de que tenho essa coisa na bolsa.









O que faço, é uma adaptação do que é conhecido como Commonplace Book. Não, não é o típico Commonplace Book, objeto vindo de um hábito criado na Renascença, na Itália, das pessoas guardarem citações, ditados, ideias do que fazer, ideias do que escrever, ideias próprias e uma variedade de anotações. O meu Commonplace Book é de coisas que vou lendo, que não são citações que encontrei em livros. Essas eu tenho em cadernos separados e já escrevi sobre eles aqui no blog, no dia 23 de outubro de 2022, sob o título: O acaso sempre ensina. Meu livro de anotações é de coisas que aparecem no meu caminho, ou alguma coisa que preciso verificar para um nota de rodapé ou para um detalhe que venha a ser interessante – não importante, mas interessante – para o futuro. Não há ordem. Não há assunto específico. São coisas que acho que ainda voltarei a consultar, apesar de não saber exatamente porque.
Todos eles são feitos exatamente como esse acima nas fotos, que é i caderno de 2022. Divido um pedaço da página, nos cantos, onde só coloco títulos ou ilustrações sobre o texto. Sou uma pessoa que pensa por imagens. Minha memória imagética é mais desenvolvida do que a memória de textos. Por exemplo, não sei uma única de minhas poesias de cor. Apesar de ter publicado um livro de poesias, ter diversas outras poesias publicadas em antologias e estar tratando de meu próximo livro de poemas. Mas preciso ler meus textos, porque não consigo me lembrar deles de cor. Contudo, consigo resgatar conhecimento ou onde encontrar algo que procuro, por causa das “figurinhas” que imprimo e colo no caderno. Cada louco com sua mania, essa é uma das minhas.
Lembrei-me de colocar essa postagem aqui, porque estou fazendo minhas primeiras anotações no Commonplace Book deste ano. Numero todas as páginas. Guardo algumas páginas no final para um índice, E assim muita informação secundária e interessante não só é guardada como faz parte de um processo a que tenho fácil acesso.
Não é o verdadeiro Commonplace Book. Os puristas não gostarão de ver esse nome aplicado a esses cadernos. Mas é para mim.
E vocês? Com ajudam sua memória? Como guardam informações que um dia poderão vir a utilizar?
Natureza morta com peras, 1958
Alice Brueggemann (Brasil, 1917-2001)
óleo sobre tela
Pinacoteca Aldo Locatelli
Peras
Sylvio Pinto (Brasil, 1918 – 1997)
óleo sobre madeira, 27 x 22 cm.
Meio do mês e ainda não consegui organizar tudo que pretendia. Comecei logo depois do Natal com as pastas no computador. Tenho mais de duas centenas delas. Cada pasta pode ter dezenas de subdivisões. Se por acaso guardo alguma coisa, alguma imagem, poema, artigo, notas na pasta errada, aquilo pode estar perdido para sempre, descoberto só ao acaso. Se eu tivesse nascido no século XVIII, seria uma enciclopedista, porque catalogo e organizo o que me cai nas mãos. Esse hábito vem do primeiro curso do mestrado, curso requerido pela Univ. de Maryland. chamado Métodos. Se não se passasse nesse curso era bye-bye para a possibilidade de um mestrado ou PhD. Era sobre métodos de pesquisa acadêmica, especificamente voltado para história da arte. Esse curso foi dado talvez pelo mais brilhante professor que já tive (que procurei imitar a vida toda), meu conselheiro, que mais tarde veio a ser diretor do Museu de Belas Artes de Lausanne, na Suíça. Mas esse meu hábito não é exportado para outros aspectos da minha vida. Ainda bem, porque acho que poderia ser uma coisa muito aborrecida. Não sou uma acumuladora, muito pelo contrário. Até mesmo meus livros não têm ordem rígida nas estantes e a cada semestre faço doação de algumas dezenas deles.
Quando abro meu computador vejo mais ou menos o que a imagem acima me mostra, Só que com mais pastas. Não sei exatamente a lógica que utilizo. Ela responde unicamente à minha cabeça. E há muita coisa guardada. Os nomes das pastas, só eu mesma posso decifrar, e como são muitas, nem sempre me lembro de como organizei. Às vezes tenho que parar para pensar onde alguma coisa estaria colocada. Vou dar um exemplo recente. Fiz um curso de escrita de contos, em agosto: 30 dias, 10 contos. O curso está numa pasta Curso de Contos. Desde o primeiro dia, tínhamos que produzir um pequeno conto de 1500 palavras a cada 3 dias. Foi uma maratona, porque os tópicos não eram meus, os tópicos foram dados pela professora. Para cada tópico eu poderia ter uma ou mais tentativas. Nem sempre a primeira ideia se desenvolve bem. Então a pasta, Curso de Contos, tem todas as aulas, que estão subdivididas em outras pastas: aulas, exercícios, tentativas e resultados finais. Quatro subdivisões. Mas não para aí, porque dentro das tentativas há outras coisas. Exemplo: um dos temas dos contos: Fake News. Ora, eu não queria entrar num tópico controverso. Se há coisa que tenho evitado é entrar nessa loucura das discussões atuais. Então, resolvi procurar algo sobre a guerra da Rússia na Georgia, há anos. Eu me lembrava de ter lido a respeito… Ia dar uma repaginada no evento. Procurei na internet… li os artigos sobre esse evento nos anos 90 do século passado. E inventei uma situação plausível. Mas alguns dos artigos copiei e colei num documento para me lembrar dos nomes de lugares, (dificílimos) distâncias, o que era ao norte ou a oeste, etc… Todos esses textos também estão em uma pasta Textos-suporte, dentro da pasta tentativas. E assim as coisas vão se acumulando.
E, pasmem: os três contos que têm alguma possibilidade de se tornarem bons contos, três de dez, nada mal para um investimento de 30 dias, separei e… como não consigo deixar de fazer palhaçadas com os nomes, ou tentar me confundir (será?) … coloquei os três numa pasta chamada: Caixa de Pandora que imagino poder ter algo a ver com um título, caso haja uma coletânea no futuro. Mas essa é uma pasta que aparece sozinha, lá naquela primeira tela, sem qualquer referência ao que tem dentro.
A necessidade de organizar as informações no meu computador se tornou evidente quando fui surpreendida por uma emergência burocrática em setembro que me obrigou a viajar de supetão para os Estados Unidos, momento em que, para piorar, percebi que meu passaporte havia expirado. Precisava de um novo. Esse período de setembro/outubro foi um constante lidar com burocracias de dois países trazendo um tremendo desgaste energético, emocional e financeiro, porque era uma viagem e estadia inesperadas. Desde que enviuvei, passei, por precaução, informações que imaginei serem necessárias numa emergência para minha sobrinha, que não só é fluente em inglês como advogada trabalhando numa firma internacional. Uma pessoa em quem confio e que pode destrinchar qualquer problema em português ou inglês. Mas, ficou claro, que se ela precisasse navegar através das centenas de pastas importantes no meu computador a coisa ia ficar periclitante.
Nesses 16 anos de blog, com postagens quase todos os dias, leitores perguntam como arranjo as fotos, as ilustrações, os quadrinhos. Bem, estão todos no meu computador. Tudo espalhado em pastas Se estou em dia de apresentar Arte Brasileira, vou para a pasta com esse nome. Ela é subdividida em outras pastas, que por sua vez são subdivididas em outras pastas, cujos significados às vezes só eu entendo: Profissões, Cidades, Naturezas mortas, Retratos, Paisagens e assim por diante. Cada uma delas se subdivide. Por exemplo: Arte Brasileira>Tipos> Meninos, Meninas, Mulheres, Homens, Casais, Familias, assim por diante, todos, na verdade, são retratos. Crianças também aparecem nas pastas: Brinquedos-brincadeiras; Gênero, Maternidade, Músicos. A pasta de imagens mais complexa que tenho é a que denominei Festas. Não é a que tem o maior número de fotos, mas é a que tem o maior número de subdivisões que vão de festas folclóricas, a religiosas, a Carnaval, Natal, Procissões, Casamentos, Enterros, Santos (esses subdivididos), etc. É um sistema abstruso. Mas são milhares de imagens.
A maioria dos quadrinhos, eu mesma fotografei. Eles também são subdivididos em pastas de acordo com assuntos tratados nas imagens. Na última vez que abri, semana passada, o total de ilustrações de quadrinhos eram 1.268. E sempre retiros dessas pastas as imagens que já usei, para não haver repetição. Há. Mas é sem querer.
Às vezes gasto mais tempo escolhendo a foto da postagem do que a própria postagem. Tenho uma boa coleção de revistas em quadrinhos em casa. Quando posso e os preços não sobem muito, compro um lote ou outro de gibis antigos em leilão. Só para me divertir. Para o blog há gibis mais interessantes que outros. Mas gosto da maioria dos gibis antigos. Não gosto por exemplo, da Monica adolescente.
Enfim, é um mundo de muita informação. Não pretendo ter que ensinar tudo isso à minha sobrinha. Afinal, quando necessário for para ela assumir qualquer pasta no meu computador, nada terá a ver com o blog. Mas como hoje toda documentação burocrática é digital também tenho pastas com esse material e descobri que sou um tanto criativa no nome delas. Eu mesma às vezes não me lembro bem o que o nome da pasta significa. Só me dou conta depois de abri-la. Por isso estou tentando organizar as coisas no computador. Mudando nomes e até escolhendo a figurinha que pode ir ao lado do nome da pasta. Mas isso é perigoso também porque já notei minha tendência a ser criativa nessa escolha. Mas vamos lá: essa postagem, é sinal claro, de que prefiro escrever do que arrumar a casa.
Fica a pergunta: como vocês organizam seu computador?
Enseada de Setiba, Guarapari, ES, 1964
Inimá de Paula (Brasil, 1918 – 1999)
óleo sobre madeira, 40 x 73 cm
Meus pais
Auke Leistra, (Holanda, 1958)
acrílica, 52 x 39 cm
Joseph Epstein
(EUA, 1937)
Galvão Queiroz
Mamãe lavava a gilete
que o Papai vinha de usar,
na pia junto ao toalete,
para, depois, ir guardar.
Chacuca que observava
tudo o que a mamãe fazia,
muito pensativo olhava
a água jorrando na pia.
De repente diz: Mãezinha,
quando eu crescer, vou usar,
como o Pai, essa enxadinha
pra meu queixo capinar?
Em: Almanaque Tiquinho, 1955, página 61