Leitura, 1891
Juan Llimona (Espanha, 1860-1926)
óleo sobre tela, 100 x 67cm
Museu Nacional d’Art de Catalunya.
“Leia e liderarás; não leia e serás liderado.”
Santa Teresa de Jesus
Leitura, 1891
Juan Llimona (Espanha, 1860-1926)
óleo sobre tela, 100 x 67cm
Museu Nacional d’Art de Catalunya.
Santa Teresa de Jesus
No tempo da harmonia, a idade de ouro não está no passado, está no futuro, 1892
Paul Signac (França, 1863-1935)
óleo sobre tela, 310 x 410 cm
Prefeitura de Montreuil, França
Ricardo Coração de Leão
Iluminura, MS Royal 14 C VII f.9
Data do manuscrito !250-1259
Biblioteca Britânica
“…Mas, depois de sua partida, o senhor de Zara enviou um emissário secretamente a seu irmão avisando-lhe que detivesse o rei quando ele chegasse às suas terras. Quando o rei chegou e entrou na cidade onde morava o irmão daquele senhor, este imediatamente convocou um homem em quem tinha toda confiança, Rogério, um normando de Argenton, que estava junto dele havia vinte anos e a quem dera sua sobrinha em casamento; ordenou-lhe que inspecionasse atentamente todas as casas onde houvesse visitantes alojados, e que tentasse identificar o rei por sua maneira de falar ou por qualquer outro detalhe. Prometeu dar-lhe a metade da cidade se conseguisse capturar o rei.
O homem localizou e examinou todas as casas onde havia viajantes; Ricardo ocultou por bastante tempo sua identidade, depois, vencido pelas súplicas e pelas lágrimas do leal investigador, confessou sua identidade. Imediatamente o outro exortou-o , chorando, a fugir às escondidas, e ofereceu-lhe um cavalo excelente. Pouco depois, voltando para junto de seu senhor, disse que aquilo que se contava a respeito da chegada do rei não tinha fundamento, mas que se tratava de Balduíno de Béthune e de seus companheiros, voltando da peregrinação. O senhor, furioso, mandou prender todos eles.
O rei deixou a cidade às escondidas com Guilherme de Etang e um jovem servidor que falava o alemão; viajou três dias e três noites sem se alimentar. Depois, compungido pela fome, foi até uma cidade chamada Viena, na Áustria, às margens do Danúbio, onde, por cúmulo de infelicidade, naquele momento encontrava-se o duque da Áustria. O jovem servidor do rei foi trocar dinheiro; tirou muitos besantes , mostrando-se arrogante e pretensioso. Então os habitantes da cidade apoderaram-se dele imediatamente e lhe perguntaram quem era; respondeu que estava a serviço de um mercador muito rico que chegaria à cidade três dias depois. Foi libertado e voltou discretamente para junto do rei, em seu refúgio, exortando-o a fugir o mais depressa possível e contando-lhe o que acontecera. Mas o rei, ainda sob o efeito da fatiga causada por sua dura navegação, desejava descansar alguns dias naquela cidade. O servidor ia com frequência ao mercado para comprar o necessário, e certa vez, no dia de São Tomé Apóstolo, enfiara inadvertidamente sob seu cinto as luvas do patrão.Vendo-as, os magistrados da cidade voltaram a deter o servidor, maltrataram-no rudemente, infligiram-lhe muitas torturas, feriram-no e ameaçaram arrancar-lhe a língua se não se apressasse em dizer a verdade. O servidor, vencido por um sofrimento insuportável, contou-lhes tudo. E eles informaram o duque imediatamente, cercaram o alojamento do rei e instaram-no a entregar-se voluntariamente.
O rei permaneceu marmóreo em meio ao alarde de todas aquelas pessoas que palravam; deu-se conta de que sua bravura não poderia defendê-lo contra tantos bárbaros, e exigiu a presença do duque, garantindo que só se entregaria a ele. O duque chegou imediatamente e o rei deu alguns passos em sua direção, depois colocou sua espada e sua pessoa em suas mãos. O duque,muito satisfeito, levou o rei com ele, com grandes honras. Depois entregou-o à guarda de bravos cavaleiros que, noite e dia, vigiaram-no estreitamente em todos os lugares, de espada na mão.” *
* Narrativa baseada em diversos relatos da época de Ricardo I, de Inglaterra, conhecido como Ricardo Coração de Leão.
Em: Ricardo Coração de Leão; história e lenda, Michele Brossard-Dandré e Gisèle Besson, tradução de Monica Stahel, São Paulo, Martins Fontes: 1993, pp: 224-6
O retorno, 2002
Giovanni Santarelli (Brasil, 1971)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Brasil Pinheiro Machado
Manhã de domingo de sol reto.
A grande igreja sem estilo
Decorada por dentro por um batismo de Cristo
Feito por um pintor ingênuo
Que quis ser clássico e foi primitivista.
Missa internacional
Com gentes de todas as raças
Ouvindo o padre alemão rezar em latim.
A gente nem tem vontade de olhar o crucifixo desolado
Nem de rezar
Porque tem lá dentro tanta menina bonita
Que não reza também
E fica sapeando a gente com meiguice…
Só os polacos de camisa nova por ser domingo
Que vieram com as famílias de carroça lá das colônias
Rezam fervorosamente
Enquanto nos seus quintais
Os chupins malvados e alegres
Comem todo o centeio
Cantando glórias pro sol de domingo.
Em: 101 Poetas Paranaenses: V.1 (1844 -1959) – antologia de escritas poéticas do século XIX ao século XXI, seleção e apresentação de Ademir Demarchi, Curitiba, Biblioteca Pública do Paraná: 2014, p.94
Senhora sentada lendo, década 1930
Roland Wakelin (Nova Zelândia-Austrália, 1887-1971)
óleo sobre madeira
John Steinbeck disse a um amigo que seu cachorro comeu seu primeiro manuscrito, Ratos e homens (1937). Ficou agradecido porque não só estava só pela metade, como descobriu que a obra necessitava de enormes revisões.
Senhora lendo jornal, 1902
William Worchester Churchill (EUA, 1858-1926)
óleo sobre tela
Boa surpresa ver a reedição das obras de Marques Rebelo pela editora José Olympio. Desde que me dediquei aos três volumes de O trapicheiro, comprados num sebo do centro da cidade, não me lembro o ano, sou admiradora da prosa de Marques Rebelo, um dos mais cariocas dos escritores, que andava um tanto esquecido no fundo do nosso baú literário. Além de prosa deliciosa, de fácil leitura, com narrativa direta, temos na obra dele o retrato da cidade na primeira metade do século passado.
Não se trata da capital do país glamorosa, construída na arquitetura art déco, cidade de requinte, luxo, peles sobre os vestidos de noite nos bailes no Hotel Glória, Copacabana Palace, dos luxuosos cassinos, cidade de residência de diplomatas de todo mundo, elegante paraíso tropical à moda Hollywoodiana de Voando para o Rio [Flying down to Rio] filme icônico do Distrito Federal em 1933 ou o local de nascimento de um dos personagens mais queridos de Walt Disney: Zé Carioca. A época é a mesma, sem dúvida. Mas é o Rio de Janeiro dos subúrbios construídos às margens da estrada de ferro. Estes compõem o pano de fundo das dezesseis histórias contadas em Oscarina.
A preocupação maior de Marques Rebelo está na caracterização do homem comum, seus anseios, desejos, preocupações, o sobreviver diário. Na prosa estão estampados valores, padrões de comportamento, crenças, regras, moral tudo que colabora para o ponto de equilíbrio cultural do carioca. Não há nenhum super-herói, vencedor de grandes batalhas, de odisseias esplendorosas. Ao contrário participamos das frustrações e pequenas vitórias cotidianas, na melhor tradição literária brasileira com raízes na obra de Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Aluízio Azevedo, passando por Lima Barreto, uma única geração acima de Rebelo. Do naturalismo-realismo do século dezenove, ele acena ao modernismo por contos sem fechamento, porque a vida é contínua, pelo humor que nos leva de volta ao notável Memórias de um Sargento de Milícias com semelhante olhar carinhoso sobre a classe trabalhadora brasileira e também pelo linguajar comum, direto, repleto de expressões populares.
Carioca, Marques Rebelo mudou-se ainda criança para Minas Gerais. É em Barbacena que lê. Lê muito. Não só os livros que faziam parte da biblioteca do pai, como jornais e revistas diversos e clássicos. Voltando ao Rio de Janeiro, na adolescência, já tem conhecimento literário mais sólido do que muitos adultos, ciente dos clássicos das literaturas brasileira, portuguesa, francesa. Mais tarde, quando abandona os estudos no terceiro ano da Escola de Medicina para se dedicar à escrita tem cabedal na arte literária produzida aqui e na Europa, apreciador sobretudo de Manoel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Está formado e destinado a escrever. Oscarina é seu primeiro livro, publicado em 1931.
Dos dezesseis contos neste volume destaco o que nomeia o livro, Oscarina, Em maio, História de abelha, do qual retiro esta passagem, para revelar o sabor da prosa encontrada aqui:
“Assim… assim… o diabo é que a missa seria em dia útil. Manhã perdida. Poucas vendas. Era preciso forçar a freguesia, correr os subúrbios, dar uma repasso nas lojas de Madureira, ver se desencantava um tal de seu Arlindo que prometera, de pedra e cal, pagar as duplicatas vencidas do Pirelli, um caloteiro que lhe passara a casa. Não há por onde escapar: não iria ao cinema ver Greta Garbo, o domingo é que seria perdido e toca a acompanhar o Esteves, estava casando dinheiro como para o Caju. E se não fosse? que sofreria com isso? Pelo contrario ganharia que a fita era muito falada. O Antunes tinha elogiado: uma beleza! O Antunes era uma besta! Mas o Gomes, sim o Gomes era um rapaz inteligente e tinha gostado especialmente do pedaço em que ela mata o marido com um tiro, “um troço muito bem arranjado”, afirmara.” [153]
Se você não se vê na prosa de Marques Rebelo, certamente reconhecerá seu vizinho, o tio de Marechal Hermes, a madrinha de sua prima do Engenho de Dentro, a colega de trabalho de Olaria, o músico trompetista de Riachuelo, o pai do amigo torcedor de futebol, que não perde um jogo no Maracanã, mesmo que seu time não seja grande. Entramos no mundo do vendedor de sapatos de Piedade, do funcionário público sem ambições do Cachambi, do gerente do supermercado do Jardim Sulacap, do dono da quitanda de Rocha Miranda, do apostador no jogo do bicho de Madureira, da feijoada mensal na Pavuna. E com certeza, brincamos com todos esses personagens nas festas características do carioca, da Igreja da Penha como no Carnaval na Avenida Central. O Rio de Janeiro, repleto de carioquices, é tridimensional no mundo de Marques Rebelo.
Recomendo para todos. Leitura agradável, divertida, no melhor estilo literário. Faltou dizer que Marques Rebelo é pseudônimo de Eddy Dias da Cruz e que em 1964 entrou para a Academia Brasileira de Letras. Merecidamente.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.