Retrato de Mimi Gross Grooms, 1966
Benny Andrews (EUA, 1930-2006)
óleo sobre papel colado em placa, 37 x 29 cm
“Todos os grandes escritores são grandes leitores de dicionários: eles nadam através das palavras.”
Umberto Eco
Retrato de Mimi Gross Grooms, 1966
Benny Andrews (EUA, 1930-2006)
óleo sobre papel colado em placa, 37 x 29 cm
Umberto Eco
Lendo a carta
Thomas Benjamin Kennington (Inglaterra, 1856-1916)
óleo sobre tela
Coleção Particular
Um dia, um amigo visitando James Joyce, o encontrou cabeça baixa sobre a escrivaninha parecendo estar em profundo desespero. Perguntou logo o que se passava. “Era o trabalho?” Joyce não levantou a cabeça da posição em que estava, nem disse uma palavra. Seu amigo continuou com as perguntas. “Quantas palavras você escreveu hoje?” Joyce com a cabeça ainda repousada na mesa, respondeu: “Sete“. “Sete? Mas isso é bom, não é?” – o amigo respondeu. “Claro“, Joyce respondeu. “Acho que sim, mas não sei em que ordem elas vão!” *
*Há diversas fontes para esta história, foi contada inclusive por Stephen King. Mas não consegui verificar.
Depois do café da manhã, 1890
Elin Danielson-Gambogi (Finlândia, 1861-1919)
óleo sobre tela, 67 x 94 cm
Coleção Particular
À beira d’água, 1929
Lucien Jonas (França,1880-1947)
óleo sobre tela , 50 x 65 cm
“Eu, porém, continuo repetindo aquela mesma cena. Desde então, já vi a mesma manhã 6.607 vezes.
Coloquei os ovos delicadamente dentro da sacola. São os mesmos ovos que vendi ontem, mas diferentes. A Senhora Cliente insere os mesmos hashis dentro da mesma sacola de ontem, recebe as mesmas moedas e sorri para a mesma manhã,”
Em: Querida Konbini, Sayaka Murata, tradução de Ruth Kohl, São Paulo, Estação Liberdade: 2018, p. 74.
Vista do meu atelier no Vidigal, 1982
Geraldo Orthof (Áustria-Brasil, 1903 – 1993)
óleo s ibre tela, 73 x 100 cm
Mulher descansada, 2009
Lole Ferrada Sullivan (Chile, 1962)
Cheguei ao livro Herança, de Miguel Bonnefoy (tradução de Arnaldo Bloch) com boas expectativas. Recebeu o Prix des Librairies, em 2021, na França, que já premiara autores que vim a admirar. Francês, conectado com a América Latina, terra de nascimento de seus pais, e já tendo dois livros premiados, Miguel Bonnefoy parece a voz certa para para abordar cem anos de história de uma família francesa, imigrante para o Chile, como a sinopse relata. Enredo promissor, que começa e finda na França, nos traz uma variante das histórias de imigrantes. Estamos acostumados a saber daqueles que se estabelecem na França vindos de outras culturas; pouco se retrata o francês que saiu para novas terras ou antigas colônias.
Miguel Bonnefoy conta as aventuras e valores das gerações de Lonsoniers que sobrevivem e prosperam no Chile de 1873 a 1973. Retrata também a dualidade de identidades que permeia o coração dessas pessoas que herdam culturalmente a identidade europeia, ainda que vivam em outra terra forjando nova identidade ao sul do Equador. Essa conhecida dualidade de sentimentos vem à tona diversas vezes durante a saga da família, em diferentes gerações, começando com a primeira geração pós imigração, que se vê obrigada a ir lutar no front da Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, outras pessoas irão também se ver abraçadas por essa herança cultural que a cidadania francesa lhes traz, ainda que tenham o Chile como lugar onde vivem e prosperam. Através de décadas todos os descendentes dos Lonsoniers mantêm essa dualidade.
Tenho dois senões quanto à obra. O primeiro tem a ver com a herança literária deixada por de Gabriel Garcia Márquez para dezenas de escritores latino-americanos que insistem em trabalhar no realismo mágico do autor colombiano e sistematicamente deixam a desejar nas suas narrativas. Só há um Gabo. Só houve um Gabo, fenomenal, com grande facilidade de nos levar através de sua mágica a Macondo e seus habitantes. Cem anos de solidão é considerado o segundo mais importante livro da literatura hispânica, tendo Don Quixote de La Mancha, em primeiro lugar. Parte de sua importância está justamente no entrelace de realidade e sonho; na habilidade de seduzir o leitor que passa a não questionar o irreal. Miguel Bonnefoy, claramente admira a escrita de Márquez. Como sabemos disso? Graças ao aforismo criado por Charles C. Colton, escritor inglês de temperamento excêntrico que enunciou: “a imitação é a mais sincera forma de elogio” [Imitation is the sincerest form of flattery]. Esta observação foi mais tarde revista por Oscar Wilde, que a completou, “a imitação é a mais sincera forma de elogio que a mediocridade pode prestar” [Imitation is the sincerest form of flattery that mediocrity can pay to greatness]. Miguel Bonnefoy não é medíocre. É um bom escritor. Tem ritmo, assunto e ideias que merecem melhor tratamento. Ele diminui sua escrita e criatividade ao se prender a um estilo que não é seu. Gostaria de ver a mesma obra, contada à maneira de Bonnefoy e não ao modo de Gabo.
O segundo ponto que ressalto tem a ver com o as duas diferentes narrativas encontradas no livro. Há a que pode ser mais facilmente chamada de realismo mágico que se desenvolve aos poucos, desde o primeiro capítulo, chegando a um ponto máximo nas gerações seguintes, até a última, a geração de Ilario Da. Nesta fase, temos personagens com paixões, com idiossincrasias, com excessos, repletas de mistério sobre o que fazem, o que colecionam, o que pensam e seguimos de surpresa em surpresa, sem chegar a maior profundidade sobre o que os leva às ações, aos sentimentos e comportamentos exóticos que os Lonsoniers demonstram. Mas, subitamente, deixa-se de lado a mágica, o sonho, a poesia para entrar numa narrativa realista extremamente detalhada de todos os males da ditadura chilena de Augusto Pinochet. É uma virada artificial na voz narrativa do livro, que parece encomendada para ter sucesso nos meios políticos apoiados pelo autor. Há uma traição, pode-se dizer, daquele leitor que apesar de ter reserva com a imitação a Gabriel Garcia Márquez, a aceita e está próximo de levar a cabo a leitura, para de repente, se ver preso nos abusos realistas, nas torturas, no dia a dia dos subterrâneos que escondem os agravos de governos ditatoriais, de qualquer naipe que sejam, neste caso na ditadura de Pinochet. Esse novo caminho da história contada, surpreende, desagrada e mostra que Miguel Bonnefoy se rendeu aos ditames do “politicamente correto” empobrecendo em muito o que até então havia sido uma narrativa charmosa ainda que imitativa.
Pena. Este tem todo o jeito de ser um livro que cairá no agrado de muitos leitores. Não posso recomendar sem essas ressalvas.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.