
Arranjo com tangerinas, bule e caçarola
Florêncio [José Carlos dos Santos] (Brasil, 1947)
óleo sobre tela

Arranjo com tangerinas, bule e caçarola
Florêncio [José Carlos dos Santos] (Brasil, 1947)
óleo sobre tela
Igreja em Caxambu, MG, 1976
José Maria de Almeida (Portugal/Brasil, 1906-1995)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
Fotografia de jovem desconhecido, século XIX.
Eça de Queirós ou Eça de Queiroz
Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, duma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras rudes, crespo e quase lanígero; e o bigode, como o dum Celta. ca[ia em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com pétalas de flores dessemelhantes, cravo, azaléa, orquídea ou tulipa. fundidas numa mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.”
[Exemplo de Retratos Descritivos]
Em: Flor do Lácio, [antologia] Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 74.

Uma vez, quando era hóspede numacasa de campo no interior da Inglaterra, Oscar Wilde irritou-se com a rudeza de um dos convidados lá hospedados que, em voz alta e clara, declarava que todo esforço na criação artística não passava de uma triste perda de tempo.
“Meu caro Wilde, ele disse numa manhã, por favor, diga como passou a manhã?”
“Oh, estive muito ocupado,” Oscar Wilde respondeu sério.”Passei o tempo todo revisando os textos para meu novo livro de poemas.” E o filisteu perguntou então sobre o resultado dessa atividade.
“Foi um trabalho importante,” ele disse, “tirei uma vírgula.”
“Então,” retrucou o homem, “foi só isso o que fez?”
Oscar Wilde respondeu educadamente, “de modo algum, depois de muito pensar, coloquei a vírgula de volta.”
O homem não aguentou, e tratou de pegar o próximo trem para Londres.
Absorta
Dee Nickerson (Grã-Bretanha, 1957)
acrílica sobre tela

Dança do velho e coelho, 2016
Simon Taylor (GB, contemporâneo)
acrílica sobre tela, 40 x 40 cm
Libertar-se do marasmo da rotina diária, do cotidiano sem sentido, é o desejo silencioso de Kaarlo Vatanen, um jornalista finlandês que protagoniza o livro de Arto Paasilina, O ano da lebre, traduzido por Lilia e Paso Loman. O livro é composto pelas aventuras — uma por capítulo — da vida de Vatanen que, em um dia de frustração depois de um acidente rodoviário em que atropela uma lebre, toma-a sob seus cuidados, abraça-a e a mantém saudável e aquecida. Neste momento de distúrbio, pode-se dizer de imprudência, declara independência da vida que tem em Helsinque e decide não retornar ao lugar onde mora. Abandona o emprego no jornal e deixa para trás a esposa com quem estava em conflito. Num piscar de olhos, Kaarlo Vatanen passa de profissional a andarilho, sem destino, errando pelas aldeias e bosques do interior da Finlândia. A lebre é sua companheira de aventuras.
Começa então a série de escapadas, molecagens, estripulias em que ambos se metem e que dão a Vanaten a oportunidade de agir como veterinário, pescador, boiadeiro, bombeiro, caçador de ursos. O destino é incerto, requer audácia e empreendedorismo para sobrevivência. Vivem de pequenos trabalhos, de bicos nos vilarejos e audaciosas decisões de sobrevivência nos bosques e florestas. Algumas situações são engraçadas, trazem um sorriso ao leitor, outras aventuras não se resolvem de bom grado. Uma vez, os dois ciganos são postos na prisão quando um médico reclama da invasão de seu terreno; outra, um reverente pastor de uma igreja mais radical decide sacrificar a lebre em seu ritual religioso. Este formato de aventuras em sequência é clássico na literatura mundial e, neste caso, imprevistos extraordinários trazem à lembrança As aventuras do Barão de Münchausen ou Alice no País das Maravilhas, obras que se assemelham a esta por utilizarem sistemas de lógica próprios, impenetráveis.

O ano da lebre é uma obra simbólica. Vanaten procura se livrar de todos os grilhões da vida citadina, com horários e responsabilidades a terceiros, correntes que o prendiam, que o deixavam deprimido e sem poder de decisão sobre sua própria vida. É curioso que tenha sido a lebre o animal que lhe ajuda a deixar para trás mundo urbano e procurar sua própria essência. Desde a antiguidade o coelho ou a lebre foram símbolo de renascimento, de ressurreição. Símbolo mais tarde adotado para a Páscoa. Não é gratuita a associação de lebres e coelhos com essa data cristã que comemora a ressurreição de Cristo. Aqui, Vanaten consegue a liberdade a partir do momento em que abraça a lebre ferida e dela cuida até que se recupere. Ambos, de fato, estão num processo de renascimento, de cura. Não sei se este é um dos motivos desta obra ser considerada um clássico da literatura finlandesa. Publicado em 1975 teve imediatamente grande sucesso que extrapolou as fronteiras do país e se tornou leitura popular não só na França como em grande parte dos países europeus. Mas o grito de liberdade dos limites impostos por uma civilização urbana também encontra eco num grande número de obras clássicas. Há na própria literatura escandinava obra de grande sucesso do norueguês Erlend Loe, Doppler, (2004) que advoga semelhante aventura, o protagonista, que dá o nome ao livro, abandona a vida em Oslo, emprego, mulher e filho e se embrenha numa série de aventuras enquanto se liberta da civilização. Que ambas as obras usem de humor para a narrativa é mais um ponto em comum.
Arto Paasilinna
Humor é cultural. Ainda que no presente estejamos conectados 24 horas por dia com outras culturas, é possível vermos que o humor inglês, nervoso, característico de Fawty Towers, não se assemelha ao americano Seinfeld, nem ao mexicano Chaves ou ao brasileiro Chico Anysio. Podemos entender muitas das situações humorísticas em qualquer deles, mas nem sempre compreendemos na totalidade a razão da piada. Foi assim que me senti ao ler O ano da lebre. Ainda que caracterizado por críticos como de grande senso de humor, esta não seria a mais importante característica para descrever o livro. Um livro de aventuras, de contos fantásticos, quase surreal, seriam as maneiras mais óbvias para mim descrevendo a obra. O humor, acredito que tenha se perdido na tradução. No entanto, foi uma leitura prazerosa, diferente, que me colocou pela primeira vez, que eu me lembre, em contato com um escritor finlandês. Recomendo aos curiosos e aos que desejam alargar os horizontes.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
Paisagem
Durval Pereira (Brasil, 1917 – 1984)
óleo sobre tela, 38 x 55 cm –

LENDO
Pequenos incêndios por toda parte
Celeste Ng
Intrínseca: 208, 416 páginas
SINOPSE
Um encontro entre duas famílias completamente diferentes vai afetar a vida de todos.Em Shaker Heights tudo é planejado: da localização das escolas à cor usada na pintura das casas. E ninguém se identifica mais com esse espírito organizado do que Elena Richardson.
Mia Warren, uma artista solteira e enigmática, chega nessa bolha idílica com a filha adolescente e aluga uma casa que pertence aos Richardson. Em pouco tempo, as duas se tornam mais do que meras inquilinas: todos os quatro filhos da família Richardson se encantam com as novas moradoras de Shaker. Porém, Mia carrega um passado misterioso e um desprezo pelo status quo que ameaça desestruturar uma comunidade tão cuidadosamente ordenada.
Flores, 2006
Augusto Herkenhoff (Brasil, 1965)
óleo sobre tela, 40 x 40 cm
Poucos trabalham, muitos se divertem, 1987
Lia Mittarakis (Brasil, 1934-1998)
óleo sobre tela, 54 x 73 cm