Ilustração de Nicolai Fomin.
Senti, no suave cheiro
que o vento me trouxe agora,
que o vento passou primeiro
pela rua onde ela mora!
(Arlindo Tadeu Hagen)
Ilustração de Nicolai Fomin.
Senti, no suave cheiro
que o vento me trouxe agora,
que o vento passou primeiro
pela rua onde ela mora!
(Arlindo Tadeu Hagen)
Igreja do Senhor do Bonfim, 1945
José Pancetti (Brasil, 1902-1958)
óleo sobre tela, 46 x 38 cm
Ó sino de minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minh’alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
Em: Poesias, Fernando Pessoa, Lisboa, Ática, 1987, 12ª edição, p. 95-6.
Cálice em cristal de rocha montado em prata. No cristal de rocha gravado: Arte Rhéno-Mosan, c. 1230. O pedestal em prata inglesa da época de James I (1566-1625). Altura 11 cm; largura com as alças, 10 cm
O bojo do cálice em cristal de rocha está decorado com volutas acabando em pétalas. Este tipo de bojo também aparece em um pouco mais de uma dúzia de objetos reconhecidos como exemplos de cristal de rocha gravado no ocidente sob a influência dos fatímidas e bizantinos importados da Europa depois dos saques de Cairo em 1062 e de Constantinopla em 1204.
Trabalhos em cristal de rocha decorado com volutas que nos chegam até hoje pertenciam a relicários. Transformado em cálice montado em pedestal de prata no início do século XVII, esse bojo evidencia um relicário do século XIII, provavelmente confiscado por Henrique VIII da Inglaterra, durante a dissolução dos mosteiros em 1538. Posteriormente montado em prata. Há semelhantes exemplos na Inglaterra.
Três mulheres japonesas, c. 1793
Kitagawa Utamaro (Japão, 1786-1864)
xilogravura policromada, 54 x 94 cm
2016 trouxe-me alguns livros pequeninos e impactantes. Belos e sucintos. Simples na aparência, complexos no que entregam. O fuzil de caça do escritor japonês Yasushi Inoue é um deles. Uma pequena obra prima, um diamante facetado pelas cinco vozes que o constroem.
Um poeta publica numa revista de caça, um poema-prosa, baseado na figura de um homem desconhecido que viu um dia numa paisagem de inverno com um fuzil nas costas. Ele dá ao poema-prosa o nome: O fuzil de caça. (Curiosamente o mesmo título da obra que temos em mãos.) O poema pouco tem a ver com a temática da revista em que apareceu. O tempo passa. Eis que o poeta recebe uma carta de um leitor se identificando como o personagem daquele poema. A carta e sucinta e direta não deixando muita informação sobre seu autor. No entanto, ele recomenda ao poeta que leia as cartas num pacote que mandará em futuro próximo. para que entenda o que pensava naquela manhã de inverno. Dias depois o poeta recebe um pacote com cartas de três mulheres diferentes que endereçadas ao caçador descrevem-no de acordo com cada uma de suas visões: a sobrinha,a amante e a esposa.
É um jogo de espelhos. Primeiro temos a visão do poeta sobre um homem desconhecido. Lemos o poema-prosa e nós mesmos construímos um personagem, vagamente baseado no poema. Depois alguém se reconhece naquele poema. E assim como o poeta, cujo nome não é revelado, fazemos novos conceitos sobre esse caçador através primeiro, de sua formalidade ao se comunicar depois nas vozes de três mulheres distintas, que a ele se dirigiam. O jogo epistolar é fascinante e Josuke Misugi, personagem principal, emerge multifacetado. Que isso seja compreendido em 102 paginas é fenomenal.
Yasushi Inoue
Esse foi o primeiro livro do autor que li. E agora Yasushi Inoue irá para a lista de autores que preciso ler. É autor de quase cinquenta obras e poucas estão traduzidas para o português, mas há muitas em inglês. Não só ele me seduziu pela complexa construção dessa obra, pela ambiguidade deixada entre o texto publicado na revista e aquele que lemos, pelas vozes individuais de cada uma das mulheres; como ele também me impressionou pela beleza da linguagem e pelas elipses necessárias para construir em três dimensões o enigmático caçador.
Recomendo com prazer essa pequena obra.