Joel Oliveira (Brasil, contemporâneo)
acrílica sobre eucatex, 20 x 25 cm
Georges Croegaert (França, 1848-1923)
óleo sobre painel de madeira, 27 x 22 cm
Há dias, soube que crianças expostas a barbáries têm problemas de memória, coisa que acontece como consequência de violência doméstica, pobreza, fome, guerra. Crianças refugiadas frequentemente apresentam esse trauma. Sei também que a memória, mesmo que a pessoa não tenha sido exposta aos horrores descritos acima, consegue ser seletiva. Muitas vezes a memória esconde o que não se quer saber. Isso, às vezes, é o que acontece com pessoas que consideramos ingênuas. Seus mecanismos de sobrevivência não as deixam ver por trás da cortina de fumaça que o cérebro desenvolveu para viver em paz. Foi por esse ângulo que interpretei a incrível ingenuidade de Odran Yates, padre irlandês, protagonista de Uma história de solidão.
Esta é uma história sobre a construção da nossa própria história, da nossa imagem. O que escolhemos esquecer ou lembrar ao construirmos a nossa biografia? Odran Yates foi levado ao sacerdócio por sua mãe. Até o passado recente não fugia ao normal que famílias católicas dedicassem um de seus filhos — sem considerar as propensões individuais — à Igreja. Mas Odran Yates não vê um problema nisso. Depois de testemunhar um ato de violência em sua própria família, acaba por se convencer de que a vida sacerdotal lhe caía bem. Tornou-se padre da igreja católica, na Irlanda, cheio de esperança e ambição. Gostava de ser professor no Terenure College, e de cuidar com esmero da biblioteca do local. A vida era confortável, mas melhor ainda, ele se sentia útil. A narrativa cobre desde sua chegada ao seminário na década de 1970 ao ano de 2013. Tudo começa a mudar quando Odran Yates se depara com a força brutal do colapso da igreja católica irlandesa, quando casos de abuso sexual são revelados.
Quando é mandado para uma paróquia onde o amigo e colega seminarista, Tom Cardle, havia sido padre e começa a perceber que o mundo idealizado que ele criara para si, não existia. Quanto ele havia ignorado propositadamente para manter seu próprio conforto emocional? Confrontado com o passado, reconhece eventualmente sua participação nos crimes de seu amigo, porque não tomou a atitude correta, por ter sido permissivo com seu silêncio e vontade de não ver problemas onde eles existiam. Quarenta anos depois de sua entrada no seminário, Odran Yates, um padre honrado, vê seu amigo e companheiro seminarista ser julgado, seus colegas mandados à prisão e a vida de muitos de seus paroquianos destruída pelas revelações de abuso sexual pelo clero.
John Boyne
Este foi meu primeiro livro de John Boyne. Fiquei feliz de encontrar nele um escritor sério, cuja voz narrativa segura o leitor através do texto. Sua escrita é cuidada. Usa a sutileza de maneira incisiva para tratar de assuntos difíceis e desagradáveis. Ocasionalmente seu texto é repetitivo, principalmente aquele que lança a isca para acontecimentos futuros. Mas no todo, esta é uma excelente leitura.
Pássaros no galho, ilustração de Noel Hopking.
Vede em seus lares como ao sol trabalha
O diligente e alegre passarinho:
Uma paina, um graveto, folha ou palha,
Ele conduz para fazer o ninho.
E no berço onduloso se agasalha,
Depois de horas de luta e de carinho,
Sem precisar de cobertor e toalha
A não ser o do céu estreladinho.
E bem feliz, na tépida mansão,
Cuida de sua meiga geração,
Sem vexames, sem lágrimas, sem guerra.
Humilde e bom, amando e sendo amado,
Cantando em meio às árvores do prado,
Antes eu fosse um pássaro na terra.
Em: Natureza: versos, Sabino de Campos, Rio de Janeiro, Pongetti: 1960, p. 36
Nesta semana: mini crisântemos tingidos de vermelho.
Promover a leitura entre adultos e adolescentes é um dos meus objetivos há anos. Saber que muitos adolescentes saem da escola sem conseguir interpretar o que leem é chocante. E uma vergonha. Isso me levou a pensar num programa de leitura dedicado ao problema. Está em fase de construção. No momento coleto informações sobre projetos, fora da escola formal, que tenham tido bons resultados na educação de menores. Quero aprender com eles.
Na semana que passou visitei um dos mais bem sucedidos projetos de recuperação educacional do Brasil, que serve de modelo para organizações fora do Brasil: Projeto Uerê.
Foi uma visita impactante. Emocionante para qualquer um de nós que preza a educação. Localizado na Comunidade da Maré no Rio de Janeiro, o projeto recupera um pouco mais de 400 crianças que se encontram em situação de risco. É uma instituição de ensino alternativo. E as crianças participam até os quinze anos de idade. Essa escola alternativa usa o método educacional desenvolvido por Yvonne Bezerra de Mello, chamado Uerê-Mello.
Quando entram, as crianças pequenas ainda, já demonstram sequelas causadas pela pobreza, violência familiar, abandono e uma miríade de outros problemas que as colocam em risco. A memória é afetada e com isso o aprendizado formal deixa de fazer o seu papel.
Visitei a escola toda. As salas de aula das crianças pequenas me surpreenderam com seus jogos de matemática, com o aprendizado em diversas línguas [vi números serem contados em português, inglês, francês, alemão e ioruba], com o conhecimento de geografia e do noticiário do mundo.
Passei um bom tempo também com os adolescentes de 14 anos que fazem parte da orquestra de câmara do Uerê (cordas). Alguns deles vocês podem ver aqui abaixo. São rapazes educados, gentis, inteligentes e como todos os jovens brincalhões.
Vim para casa renovada e determinada a estabelecer o projeto de leitura para adolescentes. O Projeto Uerê me deixou confiante num Brasil melhor.
No violoncelo, o cellista Cláudio Cardoso.
No violino, Erik Lima.
Violinista Luís Felipe Andrade.
Paulo Henrique Conceição violinista.
Membro da orquestra de cordas, Luís Eduardo Honorato.
Violinista Luan Vítor França.
Jamming: o immproviso com música popular.