Oreste Sercelli (Itália/Brasil, 1867-1927)
óleo sobre tela, 37 x 55 cm
Iluminura em manuscrito
Biblioteca Britânica
Historiadores da arte, como a Peregrina, não importa a especialização, passam muito tempo estudando a vida dos santos, a história ocidental, histórias folclóricas, o surgimento de mitos, tudo o que foi ou que poderia ter sido motivo de representação nas artes. Por isso temos depois de muitos anos de dedicação, uma visão mais ou menos geral da história da cultura ocidental, com um viés para o que foi importante para ser representado.
Ao longo da vida profissional é natural que independente das crenças de cada um dos estudiosos, haja contos, lendas, histórias que nos sejam preferidas, porque nos encantam.
Não sou uma medievalista (pessoa dedicada ao estudo da Idade Média). Minha especialização é arte moderna europeia. Mas as pessoas mudam, vão encontrando outros amores e outros caminhos. Passados 30 anos de formada, não me arrependo dos meus estudos. Mas talvez, hoje, minha segunda especialização seria arte medieval, no lugar de século XVII na Holanda.
A razão é simples: as lendas, as histórias, religiosas ou não, que eram representadas tão detalhadamente nas páginas de pergaminho. Entre elas tenho duas preferidas: a história da Virgem Maria, como representada por Giotto, na Capela degli Scrovegni em Pádua, e a história de São Jorge.
Deleite é o que sinto ao ver a representação do dragão, às vezes tão engraçado, a representação da Virgem salva por São Jorge. Um dos pontos altos para mim na exposição de Kandinsky, que esteve aqui no Rio de Janeiro, foi justamente as diversas representações de São Jorge.
Por isso mesmo, não posso deixar de comemorar o dia de São Jorge com uma bela pintura de manuscrito medieval, que se encontra na Biblioteca Britânica.
Um bom feriado a todos os cariocas. Aqui, no Rio de Janeiro, São Jorge é feriado!
Maria Augusta (Brasil, 1927-2012)
[Maria Augusta de Oliva Morgenroth]
óleo sobre tela, 46 x 61 cm
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
Painel de 5 m x 4 m
Acervo do Banco Central
René Magritte (Bélgica, 1898-1967)
óleo sobre tela
LACMA, Los Angeles County Art Museum
Siem Sigerius é um grande matemático especializado na teoria dos nós e reitor de uma universidade holandesa. É também um dos narradores de Bonita Avenue, assim como seu principal personagem. Ainda que ele divida com Joni, sua enteada e Aaron o namorado dela a apresentação ao leitor dos eventos que levaram ao colapso da família, é seu o papel principal dessa obra.
Diz a teoria dos nós que : “O artesão que faz uma trança, uma rede, ou alguns nós estará preocupado, não com questões de medidas, mas com aquelas de posição: o que ele vê ali é a maneira na qual os fios estão entrelaçados”. [Wikipédia] Como um bom entendedor de nós, e de seus emaranhados, Siem, na segunda metade da obra quando começa a perceber a teia em que ele se encontrava, começa a desatar um a um os nós que estruturavam as relações familiares. Até o momento em que precisa ele mesmo desaparecer. Desse ponto de vista seu suicídio é previsível. E para os que acham que posso estar revelando segredos, acalmem-se: o suicídio é contado logo no início do livro. Pois não só a narrativa é baseada em três vozes, como ela é apresentada no presente e no passado sem qualquer ordem que possa ser detectada pelo leitor.
Bonita Avenue não é para o leitor de coração fraco, ou do que gosta de uma narrativa linear. Nem é para o leitor que deseja simplesmente se divertir. Temos que trabalhar o cérebro para seguir essa trama espetacular, confusa, estranha e, sobretudo questionadora dos comportamentos modernos, pós-internet. No coração dessas questões está o hábito do consumo de pornografia na rede, assim como a questão curiosa sobre a imagem das mulheres e homens que se expõem em sites pornográficos: são ou não profissionais da prostituição? Os atores pornográficos são exibicionistas? E suas identidades podem de fato se manter desconhecidas? A identidade na rede é uma das questões levantadas nessa obra abrangente sobre a vida moderna.
A história circula em volta da família Sigerius entre os anos de 1980 e 2000. É uma família moderna. Segundo casamento de ambas as partes com filhos dos compromissos anteriores. Também é uma família disfuncional. Seus personagens são fascinantes e incluem além do matemático conhecido mundialmente, um fotógrafo, uma marcineira e uma atriz pornô. Há referências ao judô, a doenças mentais e sobretudo à indústria pornográfica na internet. A família não é feliz. A época em que foi mais feliz se resume aos anos passados na Califórnia, em Berkeley, num endereço na Bonita Avenue.
Peter Buwalda
Peter Buwalda tem uma maneira singular de narrar. Paga seus tributos à literatura do século XIX dando-se ao trabalho de apresentar personagem por personagem logo no início da obra. Mas são poucos. Isso contribui para a sensação de claustrofobia, e também para dar a impressão de que o enredo não progride. O que lembra de novo as obras do século XIX, em particular a afirmação da escritora inglesa Geoge Eliot em relação à linha do tempo de uma obra: “O melhor fogo não é o que se acende mais rapidamente.” Buwalda toma seu tempo e diferente da literatura mais tradicional apresenta seus personagens com viés: todos parecem caracterizados pelos seus piores aspectos, como se os víssemos só pelo lado B de suas personalidades. Outro artifício é a apresentação de um enredo simples centrado na família, mas contado com tantas interferências de fatos irrelevantes, anedotas, histórias paralelas que parece chegar ao essencial paulatinamente, comendo pelas beiradas.
Uma história espetacular, em que personagens fora da norma nos convidam a reflexões nem sempre fáceis. É violenta. Ocasionalmente bastante gráfica, inclusive na pornografia. Mas não é para qualquer um. Você precisa gostar de uma história apresentada de maneira complexa, não linear e com final em aberto. Fora isso, magistral.