Clara Cavendish (Brasil, 1963)
acrílica sobre papel, 56 x 73 cm
Marc Chagall (Rússia/França, 1887-1985)
óleo sobre tela
Coleção Particular
“Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar esse contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que comove, o interessa, o excita e repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo – por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido.”
Submissão, Michel Houellebecq, Rio de Janeiro, Alfaguara: 2015, pp, 10-11
Helen M. Turner (EUA, 1858-1958)
óleo sobre tela, 108 x 86 cm
Speed Museum, Louisville, Kentucky
Gustav Bauernfeind (Alemanha, 1848-1904)
óleo sobre tela, 148 x 281 cm
“Aqueles árabes que eu, na prática, maltrato, porque caíram nas minhas mãos algemados e derrotados, quem são eles se não aqueles árabes que foram trabalhadores no pátio de nossa casa, aqueles mesmos árabes com os quais persegui lebres; aqueles árabes cujas mães trabalhadoras me seguravam secretamente sob a sombra do galpão e cobriam o meu rosto de beijos; as primeiras mulheres de quem ouvi, quando estava com cinco anos, que eu era bonito, que queriam me raptar e me levar para casa delas. E agora eu coloco os filhos delas sentados sob uma lâmpada elétrica e, em troca das alegrias da infância que conheci com elas e do amor de suas mães, os retribuo com medos mortais.
Não estou pedindo desculpa. Eles nos odeiam mortalmente e eu faço exatamente o que é possível e é preciso fazer. Mas isso não altera o fato de que, pela amizade de um árabe, eu daria dez amigos norte-americanos, ingleses ou franceses. Com um homem europeu eu posso tomar uísque, fazer negócios e chegar a um acordo de que o Estado de Israel é na prática uma extensão da Europa no Oriente. Mas com um árabe posso voltar a rolar na poeira no meio da plantação, respirar o cheiro de esterco queimado de bodes, colher e mascar segurelha, correr em direção ao horizonte e encontrar ali a minha infância e talvez encontrar também um sentido na vida — que agora quase não tem propósito — no local em que se encontra também a colina dos dias da minha infância.”
Em: Minotauro, Benjamin Tammuz, tradução de Nancy Rozenchan, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2015, pp, 179-180.
Descanso ou La femme au sofa, 1906
Carl Frederick Frieseke (EUA,1874-1939)
Óleo sobre tela, 127 x 177 cm
Coleção Particular
John Ruskin
Paisagem com ferrovia, Teresópolis, 1945
Manoel Santiago (Brasil, 1897-1987)
óleo sobre tela, 53 x 69 cm
“COMO NO DIA DA MINHA CHEGADA, cinco anos antes, no meu embarque para Belo Horizonte, tive a assistência do Modesto. Levou-me à estação. Eu ia galgar o nosso Caminho Novo de noturno. Vi desfilarem os subúrbios, depois a baixada com seu ar de fogo, comecei a subir a Serra do Mar. Eu estava num momento de grande euforia. Vencera uma página da vida, flutuava dentro dum ar azul entre duas etapas. Pensava que tudo continuaria em Belo Horizonte e na Faculdade, fácil e doce como tinha sido naqueles anos de Pedro II entrecortados de férias paradisíacas. Mal sabia eu o que ia sofrer na Rua da Bahia, no Bar-do-Ponto, na Praça da Liberdade, na Rua Guaicurus, na Rua Niquelina, na Lagoinha, Quartel e Serra: o martírio, paixão, morte e ressurreição do moço mineiro Pedro da Silva Nava ainda descuidado das lambadas, dos escárnios, das quedas e das sete chagas de sua Via Dolorosa. Eu ia aprender aos poucos, à minha custa, os búfalos nadantes e os crocodilos; as panteras e toda a casta de bestas-feras. O noturno subia para Minas Gerais. Passou estações. Parou muito tempo em Juiz de Fora e fiquei na janela do carro apreciando o Cristo Redentor todo iluminado. Foi quando dormi na madrugada mineira. Vi amanhecer no meu Estado cortado instante a instante pelas curvas do Paraopeba. A máquina puxava cada vez mais. De repente Brumadinho surgiu dentro de moitas cheias de gotas d’água dum sereno que o sol ainda não secara. Se o futuro iluminasse eu compreenderia que estava chegando ao campo de concentração e aos fornos crematórios dos meus sonhos de adolescente. As estações se sucediam. Fecho do Funil. Treblinka. Birkenau. Sarzedo. Ibirité. Ibirité. Bergen-Belsen. Auschwitz. Barreiros. Gameleira, Calafate, Belsen-Belo, Belo Belo Belo Belo. A máquina agora ia devagar, batendo sino, atravessando a cidade sob um céu rival do céu da Úmbria. Belo Horizonte, Belorizonte, Belorizonte. Desci na estação. Minha Mãe. Fomos juntos para a Serra. Pisei novamente minha Serra. Sua terra de ricos pardos começou a me penetrar. Dela respirei. Dela sujei meus sapatos. Seu colorido era tão polpa que enganava não parecia mineral, antes vegetal. Variava de cores. Tinha do castanheiro, do tojo, do ulmo, da nogueira, da tília clara e da tuia escura. Entretanto era ferro. Chão de Ferro.”
Em: Chão de Ferro: memórias 3, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:1976, 2ª edição, p. 273-4
James Abbott McNeill Whistler (EUA, 1834-1903)
aquarela, 13 x 22 cm
Fogg Museum of Art – Harvard University
Claes Oldenburg (Suécia, 1929)
aço inoxidável, espuma de uretano, resina, esmalte, 300 x 200 x 200cm
Museu de Israel, Jerusalem
Cartão postal com ilustração de F. Hardy.
A lua, que nos clareia,
é diferente de quem,
recebendo luz alheia,
não ilumina…ninguém!
(João Freire Filho)