Na livraria, texto de Geraldo França de Lima

4 01 2013

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Leitora

Elaine G. Coffee ( EUA, 1941)

óleo sobre tela

Hoje posto, uma pequeníssima passagem do livro Branca Bela de Geraldo França de Lima.  Li esse livro na semana em que completei quatorze anos.  E ele me marcou muito e para sempre.  Adorei a personagem principal, que é uma jovem, com quem pude me identificar na época  e compartilhei de seus questionamentos. Seu impacto foi tão grande que tive receio de reler esse volume, ainda que tenha lido quase toda a obra de Geraldo França de Lima.  O receio era de que a magia que me influenciara, principalmente quanto ao papel feminino, pudesse ser desencantada durante uma segunda leitura.  Mas isso não está acontecendo.  À medida que leio Branca Bela, nessas férias de Natal e Ano Novo, tenho uma nova apreciação.  Sinal de que o romance é mesmo muito bom e que a leitura de hoje, mais madura, ainda consegue tirar outros significados do texto.  Fica aqui a recomendação:

“Nem sempre são flores a livraria: há instantes em que o ambiente se torna empestado e tenho de meter-me dentro de mim mesma, para não ouvir o que, alto, de propósito, conversam.  Explosões de sensualismo naqueles homens incapazes, que tentam afirmar-se pela palavra, pelos gestos… Embora eu me mantenha de cabeça baixa, sinto fixados em mim seus olhares insatisfeitos. O juiz é mestre, e se está na terra o coronel Anfilóquio, deliram…  Às vezes fico arrepiada. E tais, os tipos que dirigem a sociedade, que falam em moral e que condenam!

Meu pai com suas manias cíclicas, com aquela irreverência, jamais proferiu uma palavra feia.  Nem me lembro de o ter visto ser estar barbeado, camisa clarinha, de gravata, paletó abotoado, sapatos limpos e impecáveis os frisos da calça.

Falar mal dos outros é o assunto da livraria. O que dizem! Excetuados os negócios serão incapazes de uma palavra séria.

Acompanha-me, de Seu Artur, sacristão e pai de Nora, a impressão da infância: jeitos e trejeitos do demônio, língua impiedosa, o primeiro comentário sobre Luisita Veras veio dele.

Seu Antero é fantasma, fugindo à luz e ao sol, esqueleto em movimento: olhos morbidamente apagados, encravados nas órbitas.

Dr. Orestes é o menos mal-educado: desagradáveis as risadas regozijando-se com a desdita alheia. Por entre o intervalo de cada gargalhada, sentencia doutrinariamente:

— Mundo perdido! A licenciosidade, a promiscuidade!

— A causa é a mulher. Lugar dela é trancada em casa. Mas vive solta, tentando os homens – acrescenta  Seu Artur  porejando despeito.

— E você está certo, Artur, — concorda Seu Antero – a mulher é o mal. Ainda ontem vi uma, na rua, sem meia! Que se pode esperar de uma mulher sem meia!

Fervo e protesto por dentro: reduzir o conceito de mulher a um par de meias! Moral terá sexo?

Por que existem uma moral masculina e outra feminina?

Infelizmente a mulher permanece propriedade e sua conduta depende das concessões ou do tacanhismo do senhor”.

Em: Branca Bela, Geraldo França de Lima, Rio de Janeiro, São José: 1974, 2ª edição, p.49





Palavras para lembrar — Jean-Paul Sartre

3 01 2013

Anton Faistauer (Austria, 1887-1930)  A leitora, gd

Senhora à mesa com livro, 1916

Anton Faistaeur (Áustria, 1887 – 1930)

óleo sobre tela,

ColeçãoParticular em Saltzburg

www.saltzburgmuseum.at

“Tudo que sei a respeito da vida,  me parece, aprendi através dos livros”.


Jean-Paul Sartre





Quadrinha da vovó

3 01 2013

avóIlustração Maurício de Sousa.

Vovó, teu nome é ternura,
canção de amor e amizade.
Quem te possui, que ventura!
Quem te perdeu, que saudade!

(Nair Starling dos Santos Almeida)





São três os magos do Natal, antigos cartões postais no Dia de Reis

3 01 2013

3 REIS MAGOS 5-834x1232

Os Reis Magos foram e são um dos mais belos temas encontrados nas artes plásticas.  Na época da Renascença italiana foi frequentemente pintado como uma grande procissão em que os mecenas das artes eram representados como membros das caravanas acompanhando os magos.  Já conversamos sobre os Reis Magos e os doze dias do Natal, aqui mesmo no blog, em 2009, na postagem titulada Hoje, Dia de Reis, o 12º dia de Natal.


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Foi na Espanha moderna que encontrei o maior número de representações dos Reis Magos na escultura artesanal, nas artes folclóricas, digamos assim. Cheguei a ter uma pequena coleção de Reis Magos, trazidos a cada vez que volto à Espanha.

3 reis  CIRCA 1900Cartão c. 1900.

Muito associado, como deveria ser mesmo, às cenas da Natividade, a visita dos Reis toma características próprias de acordo com a região do mundo que a representa. Vejam abaixo que em alguns países europeus eles são frequentemente representados, nos cartões de Natal, como crianças.  Não sei a razão, talvez peças de teatro religiosas, como autos?.

3 REIS MAGOS em procissãoCartão de Natal, EUA, sem data.

Hoje, pelo menos aqui no Brasil, perdemos muito da importância do Dia de Reis, pelo menos no nosso folclore.  Está havendo há décadas uma mistura total das festividades que já não têm mais requisitos específicos para a data.  O nosso nordeste, onde grande parte da tradição dos reisados [a palavra vem do Dia de Reis] ainda existe, já não limita suas cantigas e suas danças a essa data ou à essa época.  Semelhantemente as festas juninas já não acontecem mais em junho, e sua celebrações podem ocorrer até agosto, enquanto as características roupas caipiras adquiriram, hoje, um ar carnavalesco, com muitas lantejoulas e paetês.

–  è

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Este é o único cartão de Natal que tenho em que todos os personagens são representados por negros.   É um cartão de Natal africano.   Não acredito que seja raro, mas nas minhas imagens é fora do comum.

3 REIS MAGOS EM SEUS CAMELOS

Algumas vezes a Estrela de Natal toma a forma de uma cruz, como se fosse uma prefiguração do sacrifício do Recem-nascido.

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Na Europa do Norte  há muitas representações dos Reis Magos como crianças, como neste cartão da Finlândia. 

3 REIS MAGOS, CARTÃO NATAL CHECOCartão Checo, 1955.

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Só pelas linhas alongadas já dá para saber que estamos olhando para um cartão de Natal dos anos 60 do século XX.

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Seis de Janeiro, Dia de Reis foi sempre bastante comemorado na minha infância.  Havia duas razões: o dia santo — acreditam que já foi feriado nacional?  Pois, também era data de aniversário de um de meus tios.  Enquanto minha avó morou conosco era celebrado com um grande almoço em família.  E depois do almoço, passadas algumas horas comíamos então o Bolo de Reis.  Já escrevi aqui no blog sobre esse bolo [Bolo de Reis ] que tinhas prendas dentro que previam o futuro.

3 REIS, FRÖHLICHE WEIHNACHTENCartão de Natal alemão.

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3 REIS

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3 reis criançasCartão de Max Nauta (Alemanha, 1896-1957)

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Imagem de leitura — Lois Mailou Jones

2 01 2013

12_lois mailou jones_jardin du luxembourg_oleo tela_c. 1948Jardim de Luxemburgo, c. 1948

Lois Mailou Jones ( EUA, 1905-1998)

óleo sobre tela

Lois Mailou Jones nasceu Boston, Massachusetts, em 1905.  Começou a pintar ainda criança, incentivada pela família que todos os verões a levava para a ilha Martha’s Vineyard, onde aprendeu a pintar com aquarelas o que se tornou seu meio favorito de pintura. Estudou na Escola de Arte do Museu de Boston. Na década de 1930, o trabalho de Louis Mailou Jones começou a refletir influências de tradições artísticas da África; e chegou a desenhar máscaras no estilo africano.  Esse trabalho refletiu no quadro Les Fétiches de 1938, que mostra máscaras africanas em cinco estilos étnicos diferentes.  Durante o ano de estadia na França produziu próximo a quarenta trabalhos entre paisagens e estudos figurativos, dando vazão a influencias africanas. Faleceu em 1998.





Descobrindo Machado de Assis, texto de Marques Rebelo

2 01 2013

Belmmiro de Almeida, (brasil 1858-1935) Amuada,oleosobremadeira,33x41, pontilhista, museu mariano procópio, mg

Amuada, s/d

Belmiro de Almeida (Brasil, 1858-1935)

óleo sobre madeira, 33 x 41

Museu Mariano Procópio, MG

“23 de junho [1939]

Meu primeiro contato com Machado de Assis data do mês que passei com Mimi e Florzinha, quando Roberto, ainda em colo de ama, não fora entregue aos cuidados das tias. Depois de vários adiamentos, papai resolvera limpar a casa, fazer alguns retoques no telhado e no forro, reformar o banheiro  — estava bastante maltratada.

Pintada a óleo, a óleo devia ser repintada, mas como cheiro de óleo envenena, durante a pintura não poderia continuar habitada. Houve uma distribuição de domicílios. Papai e mamãe foram para a casa de Ataliba, Mariquinhas carregou Emanuel para Magé, eu e Madalena ficamos na casa das primas, que era na Boca do Mato. A novidade foi excitante. Navegadores de primeira viagem, sentíamo-nos à deriva – e o casarão suburbano, com comida, hábitos, móveis, decoração, conversas e linguagem diferentes, com outra paisagem, outra luz, outro cheiro e calor, era um cosmos que se abria em mil e mil descobrimentos fascinantes.

Mimi era leitora inveterada e, de pouco dormir, chegava a romper madrugadas com livros na mão, livros dos quais, por não ignorar os meus pendores livrescos, contava-me depois os enredos com o mais lato seguimento e minudência. Se eu gostava, lia o livro, o que resultava em longas e posteriores conversações nas quais a boa prima não se dava conta, em absoluto, da nossa diferença de idade e com suma sisudez, manejando pincenê como uma batuta, aceitava ou rebatia os meus balbuciantes argumentos literários, o que de resto me envaidecia.

E foi assim que travei conhecimento com o mestre. Ela havia devorado Helena numa noite e no outro dia estava com a sensibilidade em polvorosa – é o melhor livro dele, dizia, e narrou-me todo o entrecho depois do almoço, na fresca e ensombrada varanda, que ladeava a casa em toda a sua longitude e que até o meio tinha uma tecedura de guaco, cujas virtudes expectorantes, sob a forma de chá ou de balas, eram amplamente recomendadas e exploradas.

Solicitei o romance, mas a verdade é que achei decepcionante, transmiti minha impressão, Mimi repisou o seu entusiasmo, e não pensei mais no autor.

Um ou dois anos mais tarde, passava eu para aquilo que no colégio se chamava o curso adiantado de português, isto é, o curso ao termo do qual era tirado o exame final dessa matéria. Para leitura e análise tínhamos uma grossa antologia de pífio papel, mas se houve livro que eu amasse, foi este. As amostras que trazia davam logo para gostar ou detestar. Foi nele que li “O Plesbicito”, de Artur de Azevedo, incorporando-o imediatamente à minha perene simpatia. Foi nele que amei Maupassant, por causa do “Adereço de esmeraldas”, amor que foi diminuindo como tempo até se mudar em desinteresse, desinteresse de que escaparam as curtas páginas de “Ao luar”, sim de que escaparam as curtas páginas de “Ao luar”.  Foi nele que Schiller me arrepiou com o episódio da luva e Coppée me emocionou como os vícios daquele capitão reformado, a primeira ficção francesa em que eu encontrava uma referência ao Brasil. Foi nele também que li um trecho de Dickens, “O jantar de Toby”, jantar de tripas numa noite glacial, jantar de pobre, trazido pela filhinha, maravilhosa revelação, pois a alegria de Toby me impressionou tanto que eu quis sem demora conhecer o romance por inteiro. Foi nele que aprendi a detestar Garcia Redondo, Pedro Rabelo, Coelho Neto, Alcides Maia, Macedo e tantos outros. Foi nele que, afinal, encontrei o meu Machado.  Vinha em pedaços como fatias de um grande bolo, grande e saboroso.  Fui comendo deliciado: aquele admirável trecho do fanático por brigas de galo, o do pesadelo em que o diabo tira libras de um saco para por em outro, o episódio da ponta do nariz, a célebre volta aos tempos, cavalgada às avessas, imorredouro retrocesso, e, principalmente, o famoso jantar da família Brás Cubas, ágape a que iria assistir, coberto de vergonha, numerosos similares. E o que não pude acreditar mui prontamente foi que houvesse relação entre o padeiro desses nacos surpreendentes e o confeiteiro de Helena de tão chocha  e açucarada memória. E atirei-me ao manjar inteiro, começando pelas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Daí para Quincas Borba, depois para Dom Casmurro, quando fiquei para toda a vida apaixonado por Capitu, paixão que só se igualaria com a provocada por Vidinha, a gargalhante mulatinha dos lundus. Quando cheguei aos contos – “Conto de escola”, “Uns braços”, “O diplomático”, “Uma senhora”, “Missa do galo”, “Capítulo de chapéus”, “Ideias de canário” – quando cheguei aos contos alumbramento de que Antônio Ramos compartilhava, senti que formavam um trilho ideal, caminho único encimado por uma estrela, estrela guiadora, bem diversa daquelas,  indiferentes às lagrimas e aos risos, que o mal-aventurado Rubião pedia à bela Sofia que fitasse”.

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





Trova [Quadrinha] sobre o jasmim

2 01 2013
primavera John Newton Howitt, Hollands, may1929Ilustração de John Newton Howitt, para a capa da Revista Holland’s de maio de 1929.

Eu fico pasmo, por certo,
vendo Deus, perfeito assim,
esquecer o cofre aberto
do perfume do jasmim…

(Lacy José Raymundi)





Lili e o telefone, poesia infantil de José Elias

2 01 2013

telefone, meredith johnsonMenina ao telefone, ilustração de Meredith Johnson.

Lili e o telefone

José Elias

Mal tocava o telefone,

Lili corria pra atender.

Só sabia falar: – Alô! Alô!

Qual é o seu nome?

E ficava naquele alô alô danado,

sem chamar quem foi chamado.

Um dia, foi atender,

como sempre apressadinha,

e saiu daquele alô, alô:

— Aqui é Lili. Aí, quem fala?

A fala falou grosso,

do outro lado da linha:

– Quem fala é o fantasminha!

Hahahahá, é o fantasminha!

Agora , se o telefone toca,

Lili nem se toca

ou fica meio encolhidinha.

Tem vontade de atender, mas…

e se for o fantasminha?!

 –

Em:  Caixa mágica de surpresa, José Elias, São Paulo: Paulus, 1984.

 





Foto do dia: orquídea

1 01 2013

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Ganhei esta orquídea de Natal de amigas do grupo de leitura.  Para minha surpresa, hoje mais uma carreira de flores se abriu.  Apesar do calor insuportável no Rio de Janeiro essa orquídea parece querer muito sobreviver!

Entre as dezenas de pequenas resoluções que fiz na entrada de 2013 está a volta à fotografia.  Gosto de fotografar e nos últimos três anos tenho feito muito pouco disso.  Como eu precisava me lembrar de algo de que eu gostasse fazer e que não seria difícil, lembrei-me da fotografia.

Ja tive um fotolog, onde postei observações visuais de alguém que volta ao Rio de Janeiro depois de uma longa estadia fora.  Com a cidade ainda “nova”, “fresca” aos meus olhos consegui algumas notas visuais de interesse.  Depois fui me acostumando com o Rio de Janeiro e perdi o frescor do olhar.

Quando eu usava máquinas analógicas, aquelas que requerem filmes, e conhecimento da abertura do diafragma, e outros detalhes,  eu me considerava uma boa, quase muito boa,  retratista principalmente de tipos de rua, de pessoas desconhecidas. Sim, esse era o meu forte.  Tenho algumas cenas excelentes, por exemplo, da minha estadia de dois anos em Portugal.  Sempre gostei de usar lente de longo alcance para passar desapercebida e fiz bonito algumas vezes.

Mas as máquinas digitais são diferentes.  Elas requerem menos ajustes, ou talvez eu não saiba ajustá-las com a precisão necessária, para um efeito semelhante ao que eu conseguia obter com as máquinas antigas.  Assim peço perdão pelas fotos que estarei postando, no máximo uma ao dia, para ver se consigo expandir o meu conhecimento da foto digital.  Não uso nenhum programa de edição fotográfica,  por enquanto.

Então, vamos que vamos!





Quadrinha do amor e da vida

1 01 2013

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Brincadeira de roda, c. 1885

Frederick Morgan (Inglaterra, 1847-1927)

Óleo sobre tela, 81 x 104 cm

Towneley Hall Art Gallery and Museum

Burnley, Lancashire, Inglaterra

O amor eterniza as vidas

e, a vida, vem nos lembrar:

– Correntes de mãos unidas

ninguém consegue quebrar!…

(José Maria Machado de Araújo)