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É feliz quem tem o dom
de sonhar a vida inteira.
Se não acha o mundo bom
faz um à sua maneira.
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(Dimas Lopes de Almeida)
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É feliz quem tem o dom
de sonhar a vida inteira.
Se não acha o mundo bom
faz um à sua maneira.
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(Dimas Lopes de Almeida)
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Sem título
George Roux (França, 1855- 1929)
óleo sobre tela
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Alexandre George Roux, nasceu em 1855 em Ganges, na França. Foi um pintor e ilustrador francês hoje lembrado por suas ilustrações dos livros de Júlio Verne; da Ilha do tesouro de R.L. Stevenson e de muitos outros livros de aventuras. Aluno de Jean-Paul Laurens, expôs no Salon des Artistes Français a partir de 1880. Morreu em Paris em 1929.
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Se Deus sempre deferisse
tudo o que lhe suplicamos,
veríamos a tolice
do que tanto desejamos.
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(Manoelita Amorim Meyer)
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Iluminura da Cidade das Mulheres, de Catarina de Pisano, século XV
Mestre da Cidade das Mulheres (Ativo em Paris entre 1400-1415)
Pintura sobre pergaminho, 12 x 18 cm
Biblioteca Nacional da França, Paris
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Tradicionalmente o Livro de Horas era um pequeno livro, manuscrito, contendo salmos e orações, para a pessoa comum usar como guia dos rituais religiosos. Foram populares na Idade Média, a maioria aparecendo entre os séculos XIV e XVI. Tinham, por vezes, divisões das horas canônicas, para que seus portadores mantivessem as orações necessárias na hora certa. Podiam conter também os meses ou as estações do ano com lembranças das festividades do ano cristão. O Livro de Horas era composto de pequenos textos pois era um guia para reflexão, para a meditação religiosa. Era carregado facilmente em bolsas ou bolsos; poderia ou não ser ilustrado com pinturas à mão, chamadas iluminuras, mais ou menos ricas dependendo da fortuna de seus portadores. Porque eram objetos próprios, especificamente feitos para um só dono, diferenciavam-se, cada qual adaptado ao gosto de quem o encomendara.
A descrição acima não se aplica ao livro de Nélida Piñon a não ser na forma e no espírito: ponderações oportunas, ritmadas. Meditações variadas. Seu livro tampouco se mostra afiliado aos poemas de amor divino enunciados no volume poético de Rainer Maria Rilke, titulado Livro das Horas, publicado em 1905. O que todos têm em comum é o convite à reflexão, a voz introspectiva, o tom meditativo. Este é um livro pessoal, íntimo, mesmo que essa intimidade seja filtrada e dosada. Dona de uma das mais fortes vozes narrativas da literatura brasileira, Nélida Piñon pode ser considerada acima de tudo a escritora da palavra certa, mestra do uso do “mot juste”.
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Engana-se quem imagina perceber nessas reflexões sobre o cotidiano, sobre viagens e leituras, memórias reveladoras dos pensamentos mais íntimos, das alegrias e tristezas de sua autora. Muito pelo contrário, vislumbramos sim, uma pessoa carinhosa para com seu cachorrinho de estimação, Gravetinho; uma pessoa cuja mente associa no perscrutar diário, segmentos de leituras do passado temperadas ao gosto da gastronomia galega. Mas são passos cuidadosos de revelação, passos que avançam o conhecimento que temos da escritora, mas que simultaneamente nos aguçam a curiosidade sobre suas opiniões, sobre suas ‘verdadeiras’ opiniões. A aparente facilidade com que Nélida Piñon pode deslizar da leitura da manchete de jornal a considerações sobre o teatro clássico grego; quando consegue se imaginar dialogando com a boneca Emília do Sítio do Picapau Amarelo, passear pelo velho centro do Rio de Janeiro e acabar com os olhos pousados nas águas da lagoa Rodrigo de Freitas, só demonstra sua extraordinária habilidade de cinzelar o texto, de abreviar as pausas e mostrar só, unicamente aquilo que se permite revelar. Mas os véus encobrindo a pessoa continuam a ser tão eficazes quanto a roupa de Salomé antes do espetáculo diante de São João Batista. O que descobrimos não é a autora, mas sua persona.
Memórias, todos sabemos, são tão grande ficção quanto um bom romance detetivesco. Lembramo-nos do mundo como o desejaríamos que tivesse sido, às vezes para justificar certas ações, outras para nos apresentarmos pelo melhor ângulo. Recontamos só aquilo a que nos permitimos. O mesmo se dá nessa publicação, nesse livro de reflexões. O presente que Nélida Piñon nos entrega, no entanto, nessa coletânea encantadora de meditações enfileiradas como contas de um rosário, é a habilidade de imaginarmo-nos em sua companhia, em conversa sem hora para terminar; saltando de um canto ao outro do mundo; peregrinando pela Ibéria com a escritora a nos servir de guia. O tom é íntimo. Suave. Meia-voz. E com ela escorregamos de um assunto ao outro, às vezes surpresos pelo convívio que revela ter com amigos, por um leve misticismo quase gitano, talvez herdado dos ancestrais espanhóis e alimentado nas raízes brasileiras. O que descobrimos é uma mulher com um interior rico, lúdico e letrado. Só. Imensamente só.
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Nélida Piñon
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A leitura de Livro das Horas é um presente. Deixou-me com curiosidade ainda maior pela autora, que já participava do meu panteão de sacerdotes da nossa literatura. Percorri a rede à cata de entrevistas, queria ouvir sua voz para finalmente casá-la com os textos que perscrutava. É impossível ler-se essa publicação de uma ou duas sentadas. Ela exige reflexão e os cinco ou seis parágrafos de cada etapa são suficientes para levar-nos, cheios de ponderações, ao dia seguinte, à noite seguinte. Sherazade, é quem me vem à memória. Tal é o encantamento do texto que me fez alongar a leitura por quase um mês, tomando-a a conta gotas, prolongando sua vida ao meu lado, como fez o rei Sheriar. Foi um prazer!
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Hora do silêncio, s/d
Heidi E. Press (Alemanha/EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 60 x 50 cm
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1. O direito de não ler.
2. O direito de pular páginas.
3. O direito de não acabar um livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de ler não importa o quê.
6. O direito de confundir um livro com a vida real.
7. O direito de ler em qualquer lugar.
8. O direito de ler trechos do meio do livro.
9. O direito de ler em voz alta.
10. O direito de não falar sobre o que se leu.
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Daniel Pennac
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Em, Como um romance, publicado em 1992
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O canto do galo, ilustração de Caroline Young.–
O galo canta e desperta
a festiva passarada,
que deixa o morno dos ninhos
para saudar a alvorada.
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(Manuel Lins Caldas) [psed. Daslak]
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Maria Madalena lendo,s/d
Estúdio de Pieter Coecke van Aelst (Flandres, 1502-1550)
Óleo sobre painel de madeira, 66 x 53 cm
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Christian Bobin
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Segredinhos, ilustração de Eloise Wilkin.–
Quer chova, quer brilhe o sol,
comentam-na os mexericos.
Não importa ao rouxinol
o pio dos tico-ticos!…
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(Sudra Vana)
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As irmãs, 1839
Margaret Sarah Carpenter (Inglaterra, 1793-1872)
óleo sobre madeira, 30 x 36 cm
Victoria & Albert Museum, Londres
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Margaret Sarah Carpenter nasceu em Salisbury em 1793. Começou a aprender a pintar com um mesttre local que primeiro lhe ensinou a arte do desenho. Seus primeiros estudos em pintura foram cópias dos quadros no Castelo de Longford, de Lord Radnor. Depois de receber um premio por u ma de suas cópias, sua carreira começou a se movimentar. Foi para Londres em 1814 e logo se estabeleceu como uma retratista de fama. Morreu em Londres, em 1872, no dia do seu aniversário.
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“Da janela da sala, avalio a beleza da lagoa Rodrigo de Freitas, cuja estética depende da capacidade de cada qual misturar princípios, gostos, esquemas, de abrir-se para a voluptuosidade das ofertas que nos cercam. Assim, o espelho da água denuncia em que estágio estou. Se amadureci com lisura, elegância, para ser quem sou, se ainda há tempo pra me corrigir.
Mais adiante observo o morro Dois Irmãos, de aparência irreal ao se iluminar. À direita, no topo da montanha, o Cristo, de braços abertos, critica o ufanismo nacional. Ele contempla os excessos e se cala. Da casa, em linha reta, quase no rés do chão os clubes náuticos e as pistas verdes do Jockey Clube.
Despertei cedo e pus-me a escrever com a esperança de ser tocada pela graça. Para o trabalho que ora desenvolvo, qualquer hora e local servem. Só as palavras, com seus símbolos, me pautam. A escrita brota, então, das máscaras que peço emprestadas a quem não sei, com o intuito de me apresentar em público. A escrita, contudo, à minha revelia, anota o inconfessável, a matéria da cama e dos salões. Mas como ludibriar sem a verdade da criação? Se a ficção apresenta, no seu nascedouro, uma verdade feita de falsa coerência?
Sigo para o mercado, atraída pelo supérfluo. Congratulo-me com o bairro e os seres que perambulam pelas ruas. Sei conquanto a vida não me perpetue, insisto em ser trânsfuga, andarilha, falar o português. O que mais pedir ao Brasil?
Ao final da tarde, o crepúsculo da lagoa reafirma que a arte reconcilia os seres, aquece-os. O ano está prestes a acabar, há que prestar contas, fazer votos, pedir trégua aos desafetos, aos que se odeiam tanto que só o assassinato lhes abrandaria o coração. Solicitar, sobretudo, mesa farta para os humilhados, febre para os indiferentes, clemência amorosa.
Jogo as cartas sobre a mesa aguardando que o ás de ouros me indique o porvir”.
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Em: Livro das Horas, Nélida Piñon, Rio de Janeiro, Record: 2012, pp 129-130