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Carta, ilustração de Henry Clive.
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As tuas cartas, querido,
guardadas com muito amor,
de tanto que as tenho lido,
quase mudaram de cor!
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(Téula Athayde)
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Carta, ilustração de Henry Clive.–
As tuas cartas, querido,
guardadas com muito amor,
de tanto que as tenho lido,
quase mudaram de cor!
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(Téula Athayde)
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Janice Marditere
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Dormindo
Roman Zaslonov (Belarússia, 1962)
óleo sobre tela, 122 x 122 cm
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Ernest Hemingway
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Bahia… Voz que se exprime
num canto alegre e encantado,
pelo violão de Cayme
e a pena do Jorge Amado!…
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(Augusto Astério de Campos)
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O Natal era uma festa mais simples do que se tornou, principalmente quando é celebrado num período de instabilidade política. Retiro do Diário de Cecília de Assis Brasil: período de 1916 a 1928 [LP&M:1983] duas pequenas passagens que nos mostram o Natal em 1925, no interior do Rio Grande do Sul.
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” Sexta-feira, 24 de dezembro — Voltei ontem da Estância Nova. Fui substituir a Mamãe que se afastara para visitar Dona Mafalda. Passei o dia na cozinha. Além do almoço, fiz bolos, biscoitos, arroz de leite e pudim de ovos. Fiquei contente de ter encontrado aqui, na volta, o seu Lauro, que nos trazia boas notícias da gente do velho Neto. […]
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Sábado, 25 de dezembro, dia de Natal — Papai chegou cedo pelo noturno de Montevidéu. […] Papai trouxe-nos inúmeros presentes. Os meus foram régios: uma sela inglesa, de couro de porco, com barrigueira, e uma Corona 4, último modelo, novinha, lustrosa, em troca de minha velha máquina que o Sr. Firpo conseguiu vender em Buenos Aires, por 50 pesos. A nova custou 80. Antes do almoço entreguei meus modestos presentes de Natal, a cada membro da família: um tapete de trapos para a Mamãe, um crochê para a Maninha e lenços de linho para as outras. Ao Papai dei um carretel de linha de sapateiro para ele costurar os mata-moscas. O dia foi bonito e movimentado, mas passamos todo tempo pensando nos que estão ausentes, jogando a vida e a mocidade, para assegurar a liberdade da nossa terra e a nossa tranquilidade no futuro. […]”
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Para elucidar: Estes diários foram escritos durante um período de grande instabilidade no Rio Grande do Sul, que culmina na chamada Coluna Prestes. Aqui retirei só os trechos que descrevem o Natal nas estâncias, durantes este período.
Em: Diário de Cecília de Assis Brasil, período de 1916-1928, Porto Alegre, LP&M: 1983
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Pateta quer descansar, ilustração Walt Disney.–
Quando acaso sinto, crede,
vontade de trabalhar,
deito-me logo na rede,
até a vontade passar…
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(Augusto Linhares)
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Garrison Keillor
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São Nicolau e o Auto do Natal
Luiz Roberto da Rocha Maia (Brasil, 1947)
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Ubirajara Raffo Constant
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Dos reis magos no céu brilha
A estrela clara e viajeira;
De uma igrejita campeira
Soa ao longe a voz do sino;
Flete ao tranco sem destino,
Na solidão de um corredor,
Abre o canto um pajador
Saludando ao Deus Menino.
E todas as vozes do pago
Cantam salmos na planura
Irmanados na ternura
Do cantar do pajador;
Pedindo à Nosso Senhor,
Na humildade de seus versos,
Que só exista no universo
Fraternidade e amor.
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Ubirajara Raffo Constant nasceu no Rio Grande do Sul em 1938. Poeta de Uruguaiana.
Obras:
Retorno Bravo, poesia, 2003
Pampa em 23, prosa, 2004
Sepé Tiaraju, uma Farsa Em Nossa História, história, 2006
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Charles M. Schulz
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Natividade, 1467-69
Fra Filippo Lippi ( Florença 1406-1469)
Afresco
Catedral de Santa Maria Assunta em Spoleto, Itália
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Menotti del Picchia
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Já o burrinho ruma para a manjedoura. A estrela – seria, este ano, aquele enigmático cometa com nome japonês? – fulge no céu. Bate um pastor na porta da choça do compadre: “Olá Esdras! Acorda, camarada! Vamos para Belém!” As ovelhas balam. Toda a terra é um advento. Até flores estranhas rebentam nos cálices e as corolas atônitas perscrutam na noite um milagre. Os lírios do vale já devassaram o mistério e murmuram com seus lábios imaculados:
— Vai nascer Deus!
Aí está. Vai nascer Deus. “Fenômeno de rotina” – dirá um político despistando um repórter. “Nada demais, senhor jornalista. Todos os anos nasce Deus”. O repórter, apressado e superficial, registra a declaração numa caderneta e telefona os seus apontamentos para o redator de plantão. “O doutor Chuvisco disse que não há novidade: o nascimento de Deus é fenômeno de rotina”. O redator aceita essa explicação bocejando e gosta da palavra “rotina” aplicada ao mistério do Natal, porque a palavra está na moda. E ninguém dá pela transcendência do prodígio. Meu vizinho, Felisbino de Freitas Trancoso, excelente pai de família, saiu cedo para a fila das castanhas. D. Ordália Lopes, que é sentimental e fidelíssima, mesmo porque pesa perto de seis arrobas, comprou uma gravata de seda italiana e uns suspensórios de matéria plástica para presentear o marido. Tenho uma sensível admiradora que me mandou um cromo – sempre fui louco por cromos! – representando o presepe. Ali tudo é lindo: Jesus, tenro e sorridente, de cabelo cacheadinho e grandes olhos azuis abertos, como se um pimpolho que nasce, geralmente tão cheio de rugas e tão feio, pudesse ter aquele tamanho e aquela cabeleira de ouro… São José é um carpinteiro alinhado de túnica e talvez tenha saído nesse instante de uma arca. Maria Santíssima é um amor.
— No Natal do ano passado – diz-me a D. Celestina – meu marido me deu uma geladeira. Fico pensando dentro da noite mágica: “No Natal do ano passado…” Há perfumes no ar que vêm dos cedrinhos do Jardim América e, por causa das árvores do Natal, a gente liga o cheiro da resina ao oriente místico, à chegada daquela divina mãe grávida, morta de canseira na sua marcha ao lado do velho e santo marido, até a cocheira que serviu de berço à salvação do mundo. A imaginação trabalha. Percebe que nos palácios distantes, acordadas pelo fulgor da estrela, os reis poderosos preparam suas caravanas de mirra, ouro e incenso, para ver a criança estranha que uma vaca aquece com seu hálito e um burrinho manso humaniza com a bondade que irradia dos seus olhos…
— “Jornal da noite!” “Jornal da noite!” – berra um garoto sobraçando os últimos vespertinos. Compro uma folha. Não preciso ler pois a manchete metralha os meus olhos: “Dez mil árabes e cinco mil judeus em luta mortal na Palestina. Milhares de mortos e feridos…”
Os sinos de Natal bimbalham. “Glória a Deus na altura e paz na terra aos homens de boa vontade.”
Nasceu um Deus! Este ano nasceu outra vez um Deus!
E me ocorre, fulmineia a interrogação trágica: — mas por que nasce um Deus todos anos? Um arrepio me percorre o corpo. O calendário salta-me à memória pontilhada de guerras, brigas, roubos, bombas atômicas, crises econômicas, manobras políticas ditadas pela cobiça e ambição. No meio dessas memórias os sinos bimbalham. “Paz!” “Paz!” – brada Cristo, o Cristo que nascendo todos os 25 de dezembro há mil novecentos e quarenta e sete anos!
Então, percebo a razão do Natal! Dada a cruel desmemória dos homens é preciso que todos os anos nasça um Deus!
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Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM Propaganda: 1978