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Cena de Café, s/d
Jacqueline Osborne (Inglaterra, comtemporânea)
gravura
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“A ficção revela verdades que a realidade encobre.”
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Jessamyn West
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Cena de Café, s/d
Jacqueline Osborne (Inglaterra, comtemporânea)
gravura
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Jessamyn West
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Caricatura portuguesa sobre a política, de Alonso, 1923.
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Lima Barreto
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Trouxe Chaves, quando nasceu, o nome de Felismino. Seus padrinhos, a pedido dos pais, conservaram-lhe o nome do Santo do dia do seu nascimento; mas acrescentaram a este, o de Felicíssimo. Veio a chamar-se, portanto, Felismino Felicíssimo Chaves da Costa.
Antes do batismo, sua mãe, senhora duplamente crente, tanto na Igreja Católica como nas práticas da adivinhação e feitiçaria, mandou chamar algumas pessoas conspícuas e entendidas nessas últimas misteriosas coisas e pediu-lhes que dissessem o futuro da criança. A mãe de Chaves ainda estava de resguardo; e as “fadas” locais disseram a “buena-dicha” do pequeno.
Falou em primeiro lugar a Victoria, uma velha indiática, originária da raça extinta dos Caetés, aqueles indígenas sacrílegos que, logo nos primórdios da colonização do Brasil, não trepidaram em cremar as carnes do primeiro bispo do nosso país, D. Pero Fernandes Sardinha.
A velha cabocla falou em primeiro lugar e com brevidade:
— Iaiá, ele vai longe; vai ser grande coisa.
Disse isto, após ter feito algumas gatimonhas, caretas e cuspinhar nos quatro cantos do aposento, que ainda rescendia a alfazema.
Seguiu-se à velha índia, a não menos velha Maria Ângela, uma preta da raça catrinta, rainha do terreiro e respeitada por toda aquela redondeza, pelo poder de seus bruxedos e feitiços.
Era aparecer alguém com moléstia tenaz, queixar-se de atrasos de vida ou desgraças domésticas, todos aconselhavam a una você:
— Isto, D. Dadá – por exemplo – é “uma coisa feita”. Não há que ver! Porque a senhora não procura a tia Maria Ângela, para cortar?
Sendo assim famosa e respeitada, indo ler o horóscopo do infante Felismino, esperava ser a primeira ouvida. Não o foi, porém; agastou-se. Contudo, não deixou cair o seu despeito.
Quando chegou a sua vez de deitar o vaticínio, preliminarmente fez uns passos de jongo, em melopeia horrível e profética:
— Sim, menino, meu anjinho: vancê será grande coisa… Mamãe é bem boa… Eu não corta... Mas vancê não será feliz naquilo que vancê e os seus quisé.
A mãe não se conteve e perguntou:
— Em que será então?
A velha negra não teve tempo de responder.
Pai Luís, um velho preto congo, também entendido nessas coisas transcendentes de adivinhar o futuro dos outros, e que viera prognosticar a vida a vir de Felismino, apressou-se, um tanto amuado, em afirmar:
— Eu não gunguria ningror; não qué botá biongo nem mangá; mas eu diz que criança sê macota no que ele não sabe.
Chaves fez-se rapazola e foi matriculado na escola militar do Ceará, porque em criança andava de chapéu armado, feito com jornal, tendo uma espada de bambu na cinta e corria pela chácara paterna, montado num cabo de vassoura. Era um bom augúrio para uma bela carreira militar…
Não acabou o curso e foi desligado por falta de pontos. Terminou mal ou bem, aos tombos os preparatórios, e foi mandado estudar medicina, na Bahia. Foi logo reprovado em Botânica e Zoologia, no primeiro ano. Tomou então a resolução de estudar direito. Formou-se afinal. Fez-se promotor, juiz, ganhou influência na comarca. Guindaram-no a deputado. Ele viveu, na Câmara Federal, calado e, por isso mesmo, logo foi feito senador pelo seu estado natal.
Veio a governar a República o Imperador Pechisbeque. Um belo dia, sem saber como, Felismino Felicíssimo Chaves da Costa deitou-se senador e levantou-se da cama ministro do estado dos negócios da Marinha.
Todos os horóscopos dos feiticeiros de sua terra se haviam cumprido exatamente.
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15-12-1920
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Em: A Nova Califórnia e outros contos, Lima Barreto, seleção e apresentação de Flávio Moreira da Costa, Rio de Janeiro, Revan: 1994.
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Homem lendo jornal
Cayetano de Arquer Buigas (Espanha, 1932)
óleo sobre tela
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Cayetano de Arquer Buigas nasceu na Espanha em 1932. Passou a adolescência entre Madri e Barcelona. Mostrou talento para o desenho desde cedo. Antes de se dedicar à pintura, dedicou-se à fotografia e ao cinema. Aos vinte e sete anos finalmente rendeu-se ao desenho e à pintura e o tem feito desde então.
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Para ter sempre verduras,
No almoço e no jantar,
No quintal da minha casa
Uma horta eu vou plantar.
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(Walter Nieble de Freitas)
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Henri Lebasque (França, 1865–1937)
óleo sobre tela
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William Hazlitt
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Desconheço a autoria dessa ilustração.–
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Cassiano Ricardo
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E começa a longa história
do navio que ia e vinha
pela estrada azul do Atlântico:
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Ia, levando pau-brasil
e homens cor da manhã, filhos do mato,
cheios de sol e de inocência;
vinha trazendo delegados…
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Ia, levando uma esperança;
vinha trazendo foragidos de outras pátrias
para a ilha da Bem-aventurança.
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Ia levando um grito de surpresa;
————- da terra criança;
e vinha abarrotado de saudade
————–portuguesa…
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Em: Martim Cererê de Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974
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Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974) foi um jornalista, poeta e ensaísta brasileiro.
Obras:
Dentro da noite, poesia, 1915
A flauta de Pã, poesia, 1917
Jardim das Hespérides, poesia, 1920
Atalanta, poesia, 1923
A mentirosa de olhos verdes, poesia, 1924
Borrões de verde e amarelo, poesia, 1925
Vamos caçar papagaios, 1926
Martim Cererê, poesia, 1928
Canções da minha ternura, poesia, 1930
Deixa estar, jacaré, poesia, 1931
O Brasil no original, crítica, teoria e história literárias, 1937
O Negro na Bandeira, crítica, teoria e história literárias, 1938
Pedro Luís: visto pelos modernos, crítica, teoria e história literárias, 1939
Academia e a poesia moderna, crítica, teoria e história literárias, 1939
Marcha para Oeste, crítica, teoria e história literárias, 1942
O sangue das horas, poesia, 1943
Paulo Setúbal, o poeta, crítica, teoria e história literárias, 1943
A academia e a língua brasileira, crítica, teoria e história literárias, 1943
Um dia depois do outro (1944-1946), poesia 1947
Poemas murais, 1947-1948, poesia, 1950
A face perdida, poesia, 1950
Vinte e cinco sonetos, poesia, 1952
Poesia na técnica do romance, crítica, teoria e história literárias, 1953
O Tratado de Petrópolis, crítica, teoria e história literárias, 1954
Meu caminho até ontem, poesia, 1955
O arranha-céu de vidro, poesia, 1956
João Torto e a fábula : 1951-1953, poesia 1956
Pequeno Ensaio de Bandeirologia, crítica, teoria e história literárias, 1956
Poesias completas, poesias, 1957
Poesia, poesia, 1959
Martins Fontes, 1959
Homem Cordial, crítica, teoria e história literárias, 1959
Montanha russa, poesia, 1960
A difícil manhã, poesia, 1960
O Indianismo de Gonçalves Dias, 1964
A floresta e a agricultura, crítica, teoria e história literárias, 1964
Algumas Reflexôes Sobre Poética de Vanguarda, 1964
Poesia praxis e 22, crítica, teoria e história literárias, 1966
Jeremias sem-chorar (1964)
Viagem no tempo e no espaço (Memórias) poesia, 1970
Serenata sintética, poesia XX
Sobreviventes, mais um poema Circunstancial , poesia, 1971
Seleta em Prosa e Verso, miscelânea, 1972
Sabiá e sintaxe, crítica, teoria e história literárias, 1974
Invenção de Orfeu (e outros pequenos estudos sobre poesia), poesia, 1974
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A contadora, 1656
Nicolas Maes (Holanda 1634, 1693)
óleo sobre tela
Saint Louis Art Museum, EUA
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Nicolaes Maes, (também chamado de Nicolaes Maas) nasceu em Dordrecht em 1634 e morreu em 24/11/ 1693 em Amsterdã. Foi um pintor da época barroca na Holanda e se especializou em cenas do dia a dia assim como em retratos. Filho de um próspero comerciante, Gerrit Maes, foi em 1648 para Amsterdã estudar com Rembrandt. Só a partir de 1655, no entanto encontra seu próprio estilo, deixando de lado a influência de seu mestre. Pelos próximos dez anos ele desenvolve o estilo que o faria famoso, especializando-se em cenas do dia a dia, ou seja da pintura de gênero, onde sua habilidade para coordenar cores e reproduzi-las colocou-o entre os mais importantes pintores da Holanda.
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Igreja de Nossa Senhora do Socorro, em São Cristóvão, 1850-1856.
Pieter Godfried Bertichen (Holanda ?, 1796- Petrópolis, Brasil, c. 1866)
Litografia colorida à mão, 18 x 27
Museu Imperial, Petrópolis.
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Hoje me peguei relendo algumas passagens de Esaú e Jacó, de Machado de Assis. E resolvi postar aqui, parte do capítulo IV, A missa do coupé, que considero uma jóia representativa do estilo do autor, de sua ironia, de seu modo sucinto, de sua palavra certa. Não há como não se sair com um sorriso no lábios depois da leitura desse texto tão revelador do comportamento humano. [ O livro já se encontra em domínio público e há diversos portais oferecendo o texto completo.]
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CAPÍTULO IV / A MISSA DO COUPÉ
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Mergulharam outra vez no silêncio. Ao entrar no Catete, Natividade recordou a manhã em que ali passou, naquele mesmo coupé, e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na Igreja de S. Domingos.
“Na Igreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de Melo, falecido em Maricá.” Tal foi o anúncio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mês foi agosto. O anúncio está certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada, nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite. Não se disse sequer que o defunto era escrivão, ofício que só perdeu com a morte. Enfim, parece que até lhe tiraram um nome; ele era, se estou bem informado, João de Melo e Barros.
Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguém lá foi. A igreja escolhida deu ainda menos relevo ao ato; não era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem gente, metida ao canto de um pequeno largo, adequada à missa recôndita e anônima.
Às oito horas parou um coupé à porta; o lacaio desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mão a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram na igreja. Na sacristia era tudo espanto. A alma que a tais sítios atraíra um carro de luxo, cavalos de raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas ali sufragadas. A missa foi ouvida sem pêsames nem lágrimas. Quando acabou, o senhor foi à sacristia dar as espórtulas. O sacristão, agasalhando na algibeira a nota de dez mil réis que recebeu, achou que ela provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas,se pensasse, quando a luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então havia na igreja meia dúzia de crianças maltrapilhas, e fora, alguma gente às portas e no largo, esperando. O senhor, chegando à porta, relanceou os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objeto de curiosidade. A senhora trazia os seus no chão. E os dois entravam no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.
A gente local não falou de outra coisa naquele e nos dias seguintes. Sacristão e vizinhos relembravam o coupé, com orgulho. Era a missa do coupé. As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas de chita ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume,mas a missa do coupé viveu na memória por muitos meses. Afinal não se falou mais nela;esqueceu como um baile.
Pois o coupé era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquele senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente, ainda que pobre. Também ele foi pobre, também ele nasceu em Maricá. Vindo para o Rio de Janeiro, por ocasião da febre das ações (1855), dizem que revelou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo muito, e fê-lo perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que ia então nos vinte anos e não tinha dinheiro, mas era bela e amava apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Anos depois tinham eles uma casa nobre, carruagem, cavalos e relações novas e distintas. Dos dois parentes pobres de Natividade morreu o pai em 1866, restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez não creio, ele gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais.
Não lhe valeu isto com João de Melo, que um dia apareceu aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser, como ele, diretor de banco. Santos arranjou-lhe depressa um lugar de escrivão no cível em Maricá, e despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.
João de Melo retirou-se com a escrivania, e dizem que uma grande paixão também. Natividade era a mais bela mulher daquele tempo. No fim, com os seus cabelos quase sexagenários, fazia crer na tradição. João de Melo ficou alucinado quando a viu, ela conheceu isso, e portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bela assim que zangada; também não lhe fechou os olhos que eram negros e cálidos. Só lhe fechou o coração, um coração que devia amar como nenhum outro, foi a conclusão de João de Melo uma noite em que a viu ir decotada a um baile. Teve ímpeto de pegar dela, descer, voar, perderem-se…
Em vez disso, uma escrivania e Maricá; era um abismo. Caiu nele; três dias depois saiu do Rio de Janeiro para não voltar. A princípio escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de que ela as lesse também, e compreendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos não lhe deu resposta, e o tempo e a ausência acabaram por fazer de João de Melo um excelente escrivão. Morreu de uma pneumonia.
Que o motivo da pratinha de Natividade deitada à caixa das almas fosse pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me pormenores. Mas pode ser que sim, porque esta senhora era não menos grata que honesta. Quanto às larguezas do marido, não esqueças que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.
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Em: Esaú e Jacó de Machado de Assis, Rio de Janeiro, Edições de ouro: 1966. Original publicado em 1904, hoje em domínio público.
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Annette Schmucker (Alemanha, contemporânea)
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P.J. O’Rourke
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Minie e Clarbela atravessam a rua, ilustração de Walt Disney.–
A segurança no trânsito,
Sabem todos muito bem,
Não só cabe aos motoristas,
Cabe aos pedestres também.
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(Walter Nieble de Freitas)