Ilustração Maurício de Sousa.
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Cantiga da bela infância,
peteca, bola, pião …
Minha inocência pelada
nadando no ribeirão…
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(Clóvis Brunelli)
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Cantiga da bela infância,
peteca, bola, pião …
Minha inocência pelada
nadando no ribeirão…
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(Clóvis Brunelli)
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Jovem lendo recostada em banco, 1902
Frédéric Dufaux (Suiça, 1852-1943)
óleo sobre tela, 40 x 28 cm
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Auguste-Frédéric Dufaux nasceu em Genebra em 1852. Teve as primeiras aulas de desenho com seu pai o pintor Frédéric Guillaume. Mais tarde entrou para a Escola de Belas-Artes de Genbra onde estuda com Barthélemy Menn. Depois de formado sai em viagem para França e Itália. Trabalha em Florença com Luigi Rubio. Especializa-se em pintura de gênero e pequenas paisagens. Dedica-se também à escultura. Premiado na Exposição Universal de Paris em 1889. Morreu em Genebra em 1943.
Roupa estendida, 1944
Eliseu Visconti (1866-1944)
óleo sobre tela 67 x 82 cm
Coleção Particular
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Jorge de Lima
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No fio de arame
tem roupa estendida,
tem roupa na corda,
ceroulas e cuecas
que dizem coisas brejeiras
às calçolas da sinhá
sinhá, sinhá
toma vento
senão vem um pé-de-vento
e carrega com sinhá!
no fio de arame
tem roupa pingando água,
deixa pingar
não faz mal nenhum…
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Em: Poesias completas, vol. IV, Jorge de Lima, Rio de Janeiro, José Aguilar:1974
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Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.
Obras:
Poesia:
XIV Alexandrinos (1914)
O Mundo do Menino Impossível (1925)
Poemas (1927)
Novos Poemas (1929)
O acendedor de lampiões (1932)
Tempo e Eternidade (1935)
A Túnica Inconsútil (1938)
Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)
Poemas Negros (1947)
Livro de Sonetos (1949)
Obra Poética (1950)
Invenção de Orfeu (1952)
Romance:
O anjo (1934)
Calunga (1935)
A mulher obscura (1939)
Guerra dentro do beco (1950)
Panda na rede.–
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Os animais do zoológico de Washington pressentiram o terremoto que atingiu a cidade antes mesmo de o tremor que abalou a capital norte-americana ter ocorrido. A informação foi dada pelo próprio Parque Zoológico Nacional Smithsonian. O zoológico informou que os animais anteciparam o tremor de magnitude 5,8.
O abalo não fez feridos entre os animais ou entre os funcionários da instituição, mas o zoológico foi obrigado a impedir a entrada de novos visitantes. Os funcionários notaram várias mudanças nos comportamentos das espécies do zoológico. Cerca de cinco segundos antes dos tremores, a gorila Mandara soltou um guincho, recolheu o seu bebê, Kibibi, e foi com ele para o topo de uma árvore.
Antes do terremoto, a orangotango Iris começou a fazer um ruído típico de quando sua espécie está extremamente irritada e continuou com esse som depois do tremor. O lêmure emitiu um grito de alerta 15 minutos antes do terremoto e novamente após ele ter ocorrido. O bugio adotou o mesmo procedimento minutos antes do tremor.
Ao longo do período de abalo, os grandes répteis do zoológico, que normalmente permanecem inativos por todo o dia, começaram a se contorcer. Murphy, o dragão de komodo do zoológico, buscou refúgio em um abrigo interno. Funcionários estavam alimentando castores e mergulhões quando o sismo foi sentido. Eles imediatamente pularam no lago próximo do local. Já os castores pararam de comer, ficaram sobre as duas patas traseiras e pularam na água. Eles lá permaneceram por uma hora, até que alguns dos castores retornaram à terra para continuar comendo.
O zoológico conta com 64 flamingos. Pouco antes do tremor, os pássaros ficaram agitados e se agruparam. Eles permaneceram juntos pelo tempo que durou o terremoto. A única espécie que permaneceu indiferente ao sismo foram os pandas gigantes, que se mostraram totalmente alheios ao incidente.
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Fonte: Terra
Notícias matutinas, ou De manhã, s/d
Thomas Love ( Canadá, contemporâneo)
aquarela, 32 x 52 cm
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Thomas Love nasceu em Saskatoon, Saskatchewan, mas morou a maior parte de sua vida em Calgary e Edmonton na província de Alberta. Depois de uma carreira no mundo dos negócios, enquanto os filhos eram pequenos, dedica-se hoje em tempo integral à pintura, pela qual nutria aspirações desde criança. Especialista em pintura de gênero, paisagem e retrato.
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Cascão entediado, ilustração Maurício de Sousa.–
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As férias de julho acabaram, mas ainda escutamos os ecos das reclamações dos filhos, sobrinhos ou crianças e adolescentes da família nesse período: “Não tem nada pra fazer…” O tédio que parecia ser impossível de aparecer nas férias quando as olhávamos das salas de aula, de repente, se instala em casa e as crianças que se voltam para a TV, passam o dia no sofá, trocando os olhos de sono e sem entusiasmo. Hoje me lembrei dessas expressões de fastio, pois venho de ler um artigo O tédio pode ser bom para você [Boredom is good for you, study claims], que enumera as boas conseqüências do enfado. Sim, elas existem.
O enfado, fastio, tédio, aborrecimento acontece com todas as pessoas, quer elas sejam idosas ou adolescentes, crianças ou adultos. E contrário ao que muitos pensam o tédio não é uma conseqüência da solidão. É comum, numa crise de enfado, invejarmos as pessoas que têm muitos amigos, porque parece que ela conseguem evitar o fastio. Mas as relações superficiais, que podemos desenvolver em grandes números freqüêntemente levam a uma sensação de vazio, e acabamos por questionar se aqueles que têm muitos amigos não são de fato amigos de ninguém, como bem demonstra o médico francês Gilles R. Lapointe, no artigo Truques para combater o tédio [Des trucs pour vaincre l’ennui], que lembra também que a solidão não tem efeitos negativos. Há diversas maneiras de reagirmos ao tédio. Podemos chorar, comer, dormir, beber, gritar. Mas podemos também: ler, estudar, trabalhar, escrever. É importante aprender desde cedo, desde criança, a lidar com o enfado, para construir maneiras positivas de encará-lo, maneiras que poderemos levar à nossa fase adulta.
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Cascão farto de tédio, ilustração Maurício de Sousa.—
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Para salvar as nossas consciências de qualquer culpa que possamos ter tido vendo nossas crianças aborrecidas com a “falta do que fazer”, vou ajudar relembrando pontos positivos desse comportamento:
1 – O tédio estimula a mente para dentro de si mesma. A conseqüência é a reflexão. Pensar em causas e conseqüências, encontrar seus próprios valores.
2 – O tédio também aumenta a criatividade. Inovações em geral são conseqüência de alguém achar que há de haver uma “solução melhor” para uma tarefa específica.
3 – O tédio é um dos elementos essenciais para o adormecimento da mente e em conseqüência, para o sono.
4 – O tédio pode levar as pessoas a desempenharem tarefas em prol da sociedade em geral. Um exemplo: doar sangue, ser voluntário num abrigo para idosos.
5 – O tédio também ensina a paciência. E explorar esse sentimento ajuda a construir caráter. Além de ensinar que nem tudo na vida é divertimento.
6 – O tédio ensina a fazermos bons amigos de nós mesmo ou seja, aprendemos que estar só não significa estar entediado.
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Cascão não se aguenta de tédio, ilustração Maurício de Sousa.—
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O tédio acontece com todas as pessoas, quer sejam idosas ou adolescentes, crianças ou adultos. Mas se o enfado se instala na sua vida, troca a sua rotina, faz com que você esteja constantemente triste, se ele atrapalha, pode ser resultado de um estado psicológico depressivo, talvez causado por uma perda de um ente querido, por ansiedade, angústia. Quando você passa a achar que sua vida perdei o sentido e o tédio se instalou, aí sim, é um caso mais sério, mais delicado. Esse tédio, quando parece instalado no dia a dia deve ser controlado, combatido mesmo, de uma forma positiva: procurar os amigos, lembrar-se de que você não está sozinho é o início de uma solução a longo prazo. Rever amigos é uma excelente maneira de combater o fastio. Saia de casa, do seu ambiente familiar, faça um esforço para tomar um caminho diferente para o mercado, tomar um ônibus e vá até o fim da linha. Veja coisas novas e diferentes, sem precisar fazer muito esforço. Redescubra alguns interesses, explore um hobby deixado de lado.
Comece por Identificar as causas de seu tédio e faça uma lista das pequenas mudanças em sua vida que poderão tirá-lo desse predicamento. “A inércia leva à morte psicológica”, diz Gilles R. Lapointe. Mova-se, crie, invente, produza, visite pessoas, faça uma boa ação, mas acima de tudo: MOVA-SE.
É importante organizar o seu tempo, principalmente para ter uma vida bem equilibrada entre lazer e trabalho. Separe dentre as pessoas que você conhece aqueles que são os verdadeiros amigos e aqueles que são conhecidos. Os amigos sinceros em geral são poucos. Dedique-se a eles.
Mas lembre-se de que é normal ficar entediado. E muita coisa boa, mudanças positivas podem vir das pequenas atitudes que tomamos para enfrentá-lo. O tédio é quase sempre essencial à criatividade.
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FONTES:
Marinheiro lendo [no café], 1980
Yannis Tsarouchis ( Grécia, 1910-1989)
óleo sobre tela
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Yannis Tsarouchis ( Grécia, 1910-1989) Nasceu em Piraeus. Estudou na Escola de Belas Artes de Atenas entre 1929-1935. Estudou com Photios Kontoglou. Dedicou-se também ao estudo de arquitetura popular. Viajou por dois anos pela Turquia,França e Itália. Em seu retorno à Grécia teve sua primeira exposição individual. Lutou na guerra da Grécia contra a Itália em 1940. Mudou-se para Paris em 1967. Faleceu em Atenas em 1989.
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Se me coubesse a votação para um prêmio nacional de literatura — melhor livro do ano — ele iria para Traduzindo Hannah de Ronaldo Wrobel [Record:2010]. O livro já foi um dos finalistas, este ano, do Prêmio São Paulo, nessa mesma categoria, quando o vencedor foi Passageiro do fim do dia de Rubens Figueiredo. Mesmo assim, continuo convencida de que o romance de Ronaldo Wrobel, escancara as portas para novos rumos da literatura brasileira contemporânea. O que faz esse livro merecer tanto entusiasmo? Tema, estilo, narrativa, leveza, humor, ironia e pesquisa.
O tema é um retrato de grupos de imigrantes judeus que chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, fugidos de desastrosas realidades: guerra, fome, desemprego, perseguição. Tais como milhares de outros imigrantes, que ao longo dos séculos vieram se estabelecer no país. Acentuando a narrativa, trazendo-a para o nível de deleite literário, está o estilo de Ronaldo Wrobel, leve e solto, com uma refrescante e fértil maneira de expressão: imagens, figuras de linguagem soam novas, soam belas e vivazes. Permeando todo o texto há uma leve ironia, um humor fugaz que nos faz sorrir, quase rir em certos trechos sem, no entanto, termos diante de nós nada mais do que a mera e justa comédia humana. Sua pesquisa foi preciosa, o que tornou fácil imaginar as andanças pelas ruas do Rio de Janeiro, pela Lapa, pelo Catete, pela Praça Onze, mesmo que hoje esses locais sejam tão diferentes.
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A história tem início na década de 1930. Max Kutner sapateiro, imigrante e judeu polonês, que já havia estabelecido uma pequena clientela no centro do Rio de Janeiro, é convocado, durante o governo Vargas, para trabalhar na censura de cartas. Traduzir do iídiche para o português passa a ser sua segunda ocupação. Ele se enfronha na intimidade da comunidade judaica através das cartas que traduz. No processo, também se familiariza com as irmãs, Hannah e Guita, do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, e se interessa em conhecer Hannah. Quando isso acontece, descobre que ela não era bem a pessoa que ele imaginava ser quando lia sua correspondência.
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Ronaldo Wrobel
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Deste momento em diante passamos a uma grande aventura em terras cariocas. Num ritmo galopante, vamos de espionagem a contra-espionagem. A cada capítulo uma surpresa e um aprofundamento da trama. Como num teste de visão, vamos corrigindo nossas lentes, passo a passo, enquanto acompanhamos o progresso de Max Kutner que, como nós, precisa acertar a combinação de lentes para ver, entender, compreender e digerir tudo que o rodeava. Traduzindo Hannah é uma pequena obra-prima burlesca, inteligente e histórica. Não deixe de ler. Um deleite!
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A leitura, 1889
Pierre Auguste Renoir ( França, 1841-1919)
pastel sobre papel
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Segue abaixo uma passagem que achei particularmente charmosa, na descrição de duas irmãs, (Lola e Garance) do livro Uma bela escapada, de Anna Gavalda, [Rocco: 2011] traduzido do francês por Pedro Afonso Vasquez, cuja resenha postei no dia 11 deste mês. Para aqueles que se preocupam com a boa escrita, com o exercício de narração, esse é um exemplo maravilhoso de texto de comparação e contraste. Este é um livro muito pequenino, 140 páginas, mas cheio de preciosos momentos. Vejam, Garance descevendo a irmã Lola e a si mesma…
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Hoje ela é minha melhor amiga. Aquela parada tipo Montaigne e La Boétie, sabem como é… Porque era ela, porque era eu. E o fato de que essa jovem mulher de trinta e dois anos seja minha irmã mais velha é puramente anedótico. Digamos que no sentido que nós não perdemos tempo ao tentar nos encontrar.
Para ela os Ensaios, as super teorias em que uma pessoa é punida por se obstinar e que filosofar é aprender a morrer. Para mim, o Discurso sobre a servidão voluntária, os abusos infinitos e todos esses tiranos que são grandes apenas porque estamos de joelhos. Para ela, o verdadeiro conhecimento, para mim os tribunais. Para ambas, a impressão de ser a metade de um todo e que uma sem a outra não passaria de uma metade.
No entanto, somos muito diferentes… Ela tem medo da própria sombra, eu sento em cima dela. Ela copia sonetos, eu faço downloadsde música na internet. Ela admira os pintores, eu prefiro os fotógrafos. Ela nunca diz o que está realmente pensando, eu digo tudo que me passa pela cabeça. Ela não gosta de conflitos, eu gosto que as coisas estejam bem claras. Ela gosta de ficar “um pouco alta”, eu prefiro beber seriamente. Ela não gosta de sair, eu não gosto de voltar. Ela não sabe se divertir, eu não sei dormir. Ela não gosta de jogar, eu não gosto de perder. Ela tem enormes braços protetores, eu tenho a bondade um pouco escaldada. Ela nunca se irrita, eu sempre perco o juízo.
Ela afirma que o mundo pertence aos que se levantam cedo da cama, eu suplico que ela fale mais baixo. Ela é romântica, eu sou pragmática. Ela é casada, eu vivo ciscando. Ela não consegue dormir com um homem pelo qual não esteja apaixonada, eu não posso dormir com um homem que não use camisinha. Ela… Ela precisa de mim e eu preciso dela.
Ela não me julga. Ela me aceita como sou, com minha tez acinzentada e minhas idéias negras, ou com minha tez rosada e minhas idéias floridas. Lola sabe o que é uma grande vontade de um longo ou de saltos altos. Ela compreende o prazer que existe em aquecer ao máximo um cartão de crédito e de se culpabilizar até a morte quando ele se esfria. Lola me mima. Ela segura a cortina quando estou no provador e diz que sou linda e que não, minha bunda não está grande demais. Ela sempre me pergunta como andam os meus amores e sempre fica emburrada quando falo dos meus amantes.
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Páginas: 48-50
Notas do tradutor:
Ensaios: [“Les Essais”] foi a principal obra do escritor e filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592), composta por três volumes de conteúdo bastante variado e redigidos entre 1572 e 1595.
Discurso sobre a servidão voluntária [“Discours de la servitude volontaire”] obra panfletária sobre o absolutismo, escrita aos 18 anos de idade por Etienne de la Boétie (1530-1563), porém publicada apenas postumamente, em 1576. La Boétie era grande amigo de Montaigne, que o acompanhou até o leito de morte e foi o responsável pela posterior difusão de sua obra.
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Nota da peregrina:
Essas obras de autores franceses fazem parte da leitura obrigatória em filosofia dos cursos de ensino médio com concentração em literatura e filosofia na França. O leitor francês, para quem a obra é dirigida, estaria facilmente familiarizado com os princípios de cada uma das obras citadas.
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Henriqueta Lisboa
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Vento do Norte
vento do Sul
vento do Leste
vento do Oeste.
Quatro cavalos
em pêlo.
Quatro cavalos
de longas crinas,
de longas caudas,
narinas sôfregas
bufando no ar.
Quatro cavalos
que ninguém doma,
quatro cavalos
que vêm e vão,
que não descansam,
de asas e patas
varrendo os céus.
Cavalos sem dono,
cavalos sem pátria,
cavalos ciganos
sem lei nem rei.
Quatro cavalos em pêlo.