Por um Brasil Literário

8 07 2011





Os primeiros visitantes ao Rio de Janeiro — século XVII — texto de Gastão Cruls

7 07 2011

Mapa do Rio de Janeiro século XVII.

Livro de Toda a Costa da Província de Santa Cruz, 1666.

João Teixeira Albernaz

www.serqueira.com

Ganhei de aniversário a obra A aparência do Rio de Janeiro,do escritor carioca Gastão Cruls (1888-1959) em dois volumes,  publicada em 1949.  É um deleite para quem, como eu, gosta de ler sobre o Brasil e o Rio de Janeiro antigos.  Ontem, depois da postagem anterior sobre o Turismo no Rio de Janeiro, me ocorreu ver o que Gastão Cruls tinha apontado como primeiros visitantes dessa nossa cidade, que coloco abaixo:

Impressões de Flecknoe e Froger

De estrangeiros que nos visitaram no século XVII, temos apenas os depoimentos de Flecknoe e Froger.

Flecknoe, irlandês, que se diz, sem grande certeza, ter pertencido à Companhia de Jesus, aqui esteve em 1648.  Viajou, ao que parece, a convite de Salvador Correa de Sá e Benevides quando este, comandando uma frota de seis navios, tornava ao Rio investido das funções de governador, com alçada sobre as Capitanias do Sul.  Embora se trate de um letrado, que se demorou bastante entre nós, são das mais erradas e incríveis as observações do irlandês.  Começa por dizer que as águas da Guanabara estavam permanentemente envenenadas por um peixe muito tóxico, e que ele mesmo teve a prova disso, pois que se sentiu muito mal, com tonturas e outras perturbações, depois que nelas tomou banho.  Talvez os banhos é que não lhe fossem muito familiares.  Por outro lado, ao invés de nos dizer alguma coisa sobre a cidade e os habitantes, prefere alongar-se em considerações sobre a flora, fauna, etnografia e até astronomia e, versando esses assuntos, seus comentários são ainda mais absurdos.  Contudo, não lhe escapou que as casas da “cidade antiga”, no Morro do Castelo, já estavam quase em ruínas, dado que a população se fora aos poucos transferindo para a planície.

O outro viajante, Froger, era de nacionalidade francesa, e aqui parou, por algum tempo, em 1695, na esquadra do almirante Gennes, destinada ao Estreito de Magalhães, onde iria montar uma feitoria.  Recordando esse périplo, Froger escreveu a Rélation d’un Voyage de la Mer du Sud, Detroit de Magellan, Brésil, Cayenne et les Isles Antilles, obra hoje bastante rara, e da qual resumiremos alguns tópicos.

Agrada-lhe a cidade, em boa situação, cercada de altas montanhas, grande, bem construída e com ruas retas.  Elogia igualmente as magníficas edificações dos jesuítas e dos beneditinos, implantadas em pequenas elevações que fecham a cidade dos dois lados.  Quanto aos habitantes, são limpos e de uma gravidade  peculiar à nação.  Ricos, gostam de traficar e têm um grande número de escravos, além de várias famílias de índios, mantidas nos seus engenhos.  Assim, com tanta gente a trabalhar para eles, mostram-se moles e efeminados.  “O luxo lhes é tão é tão comum que não somente os burgueses, mas até os religiosos podem sustentar mulheres públicas sem temer a censura e a maledicência do povo, que lhes dispensa um respeito todos particular.”  Froger não para aí na crítica à corrupção do clero e, se abre ligeira exceção para uns oito ou dez capuchinhos franceses e alguns jesuítas, “que se entregam com zelo extraordinário aos seus santos misteres”, acha que o resto, pela depravação, poderia fazer “recear o incêndio de uma outra Sodoma”.

Aquele luxo, que tanto impressionou Froger, seria, é quase certo, apenas de hábito externo, de roupas e adereços brilhantes e espalhafatosos.  Não resta dúvidas que os trajes da época, com seus casacos de veludo e os seus calções de cetim afivelados ao joelho, concorriam para toda a pacholice.

Aliás, por uma carta divulgada entre nós graças à Vieira Fazenda, carta escrita daqui,  mais ou menos na mesma época, por certo comerciante português a um irmão em Lisboa, vê-se como era grande o consumo de veludos, sedas e tafetás, tão procurados no mercado do Rio como o azeite, as azeitonas, o vinagre, freios, fechaduras e outras ferragens que nos mandavam do Reino.  É verdade que aqui também vinham se abastecer os peruleiros, negociantes que através do Rio da Prata faziam o comércio com o Peru e o Reino de Granada, ambos já nadando em riqueza, e que na Guanabara não regateavam ducados de ouro e prata em troca de boa e bem sortida mercadoria.

Mas o gosto pelas roupagens de preço não ficava apenas entre a gente mais abastada.  Em 1703, por solicitação do bispo do Rio, o procurador da Coroa dirigia-se ao Rei, reclamando contra o fausto com que as escravas se exibiam nas ruas e pedindo-lhe “mandar que de nenhuma maneira usem, nem sedas, nem telas de ouro, porque será tornar-lhes a ocasião de poder incitar para os pecados com os adornos custosos que vestem.”

Neste caso, o mais provável é que o bispo fosse apenas o porta-voz de uma ou outra fidalga da cidade, posta em xeque pelo chiste  e a elegância de suas servas.  E havia negras de encher o olho.  Ainda em 1870, o Conde d’Ursel, viajante francês, falava na beleza de certas pretas Minas, “soberbas mulheres, eu diria preferentemente cariátides.”

Em: A aparência do Rio de Janeiro, vol I, Gastão Cruls, Rio de Janeiro, Livraria José Olympo: 1949

NOTA:

Richard Flecknoe (c. 1600-1678?), possivelmente de origem irlandesa, esse jesuita, poeta e teatrólogo, esteve no Brasil em 1648.

François Froger,  (1673-1715) engenheiro hidrográfico francês que trabalhou para a marinha e navegou por sete mares. Esteve no Brasil em 1695.





Uma lembrança do “Turismo no Rio de Janeiro”

6 07 2011



A exposição Turismo no Rio de Janeiro, que está no Espaço Cultural Fundação Getúlio Vargas, no centro da cidade, oferece uma vista d’olhos interessante sobre pontos turistícos da cidade vistos através de fotos antigas de cartões postais;  além de mostrar também o que os brasileiros, os cariocas em particular, ofereceram através do século XX como lembranças de viagem aos turistas que aqui chegaram.

As fotos de hoteis que já não existem, de pontos turísticos como a antiga praia de  Santa Luzia, são parte da interessante documentação reunida ali.   Mapas, fotos mostram como o Rio de Janeiro mudou a visão de si mesmo com a chegada da primeira excursão turística à cidade, em 1907. Os empresários cariocas com um olho nos eventos esportivos da cidade que estão dando um novo ímpeto ao Rio de Janeiro não deveriam deixar de ver a mostra dos objetos considerados lembranças da cidade.  Não só para terem uma noção do que já foi feito, como para verem o que não fazer, e também para melhorar as nossas lembranças, que comparadas com outras de outros locais do mundo da mesma época, deixam a desejar.

Mementos do Rio de Janeiro antigo: Bandeja com paisagem de asas de borboletas, prato com araras, piranha.

Lembranças turísticas: caneca e prato com imagem do Pão de Açucar, luva de cozinha, miniatura do Corcovado e do Maracanã.

Há algumas perguntas que não calam quando vemos a exposição, aqui ficam:

1 – É assim que gostaríamos de sermos lembrados lá fora?  Como queremos ser lembrados?

2 – Estamos perpetuando para o exterior a imagem que o exterior tem de nós?   Exoticismo tropical?

3 – Não haveria algum outro “Recuerdo de Rio de Janeiro” mais sofisticado mais condinzente com a nossa criatividade?

É hora de nos concientizarmos que turismo é uma indústria que traz grande benefício socio econômico, e que os turistas que aqui chegam devem estar interessados em mais do que lembranças artesanais, de pessoas bem intencionadas mas que não conseguem imaginar que pode-se sim, ter lembranças turísticas de alto valor monetário e muito mais sofisticadas.  Até mesmo as reproduções de alguns de nossos monumentos poderiam ser feitas em materiais de melhor qualidade.  Há também que nos lembrar que temos esculturas, pinturas nos nossos museus que não deixam nada a desejar quando comparados com trabalhos feitos fora do Brasil.  Por que eu posso ir à França e trazer uma bela cópia da Vênus de Samotracia, que está no Louvre e não consigo levar para um amigo no exterior uma bela cópia de um trabalho de arte brasileiro do século XIX, por exemplo?  Por que posso mandar um postal da Monalisa para o Brasil quando visito Paris e não posso mandar um postal da Fuga para o Egito de José Ferraz de Almeida Júnior que está no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro?   É assim que se faria a divulgação da cultura brasileira, no “boca a boca”…, no cartão postal de alguém que se apaixona por uma obra que viu no Brasil, de artista brasileiro.  Uma propaganda sobre o Rio de Janeiro e sobre o Brasil, quase gratuita.

Será que só queremos mesmo ser lembrados pelo Carnaval?

Boa documentação sobre um assunto que está em pauta.   Interessantíssimo!

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SERVIÇO

Centro Cultural da Fundação Getúlio Vargas

Rua da Candelária 6, Centro

Rio de Janeiro

Até 23 de julho de 2011

Entrada Gratuita

Horário:  de 2ª a 6ª feira  8 – 22 horas

Sábados: 9 – 18 horas





Imagem de leitura — Marc Chagall

4 07 2011

A sagrada família, 1909

Marc Chagall   (Belarússia/França, 1887-1985)

Óleo sobre tela, 91 x 103 cm

Musée National d’Art Modern, Centre Georges Pompidou, Paris.

Marc Chagall  nasceu em 1887 na cidade de Vitebsk, na Belarússia.  Ainda jovem, entrou para o ateliê de um retratista famoso da sua cidade natal. Ingressou mais tarde na Academia de Arte de São Petersburgo.  Terminou sua educação artística em Paris, onde passou a fazer parte do grupo de artistas de vanguarda, tecendo amizade com Modigliani e La Fresnay.   Sua maior influência no entanto foi a do crítico de arte Guillaume Apollinaire.  Voltou a sua terra natal no início da 1ª Guerra Mundial.  Depois da Revolução Russa inaugurou a Escola de Arte, num período em que a Rússia borbulhava com novas idéias, mas retornou, pouco depois, a Paris, onde iniciou uma das mais interessantes carreiras nas artes do século XX.  Com a perseguição dos judeus na Alemanha nazista, Chagall tornou-se um retratista das tensões sociais e religiosas da época.  Perseguido como judeu, emigra para os Estados Unidos.  Dois anos depois do término da 2ª Guerra Mundial, retorna à Paris onde permanece até o fim de seus dias, falecendo em 1985.





Quadrinha infantil do passarinho

4 07 2011
Cartão postal, 1907, ilustração assinada pelas iniciais JLS.

Não te invejo, ave que voas

tão livre no firmamento!

Vou também aonde quero

nas asas do pensamento!

(A. Coelho Neto)





Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós

3 07 2011

Natureza morta com tomates, 2008

Deb Kirkeeide (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 15 x 20cm

www.dailypainters.com

São poucos os autores de ficção que conseguem dizer muito em poucas palavras, que conseguem ser tão sucintos quanto os poetas, que conseguem contar uma história de maneira obliqua e simultaneamente clara.  Mas eles existem, esses mágicos da língua, esses domadores da prosa emocional, tecedores de imagens que nos envolvem e atrelam.  De vez em quando temos a chance de nos encontrarmos reféns de seus romances, de suas histórias.  Acabamos validando, a cada página, a Síndrome de Estocolmo, porque presas fáceis que somos da magia de seus textos, prolongamos a qualquer custo o prazer que sentimos na leitura e evitamos o desenlace final, a chegada dos últimos parágrafos.  Não somos mais os mesmos ao final da leitura, amamos o seqüestrador de momentos inebriantes, admiramos o sedutor de nossos sentidos, o raptor das nossas emoções.  Foi o que me aconteceu na leitura de  Vermelho amargo [Cosac Naify: 2011] do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Chamar esta publicação de romance é um exagero, chamá-la de conto, peca pelo lado contrário.  São quase 70, as páginas que ordenam as contemplações de um menino que acaba de entrar na escola. Não conhecemos seu nome, nem os de seus familiares. Não sabemos onde mora, nem suas brincadeiras prediletas.  Mas ao acabar a leitura, compartilhamos intimamente de sua solidão.  Bebemos do sofrimento sobre o qual pondera. O ponto de partida é a perda da mãe.  E as meditações, centradas na imagem de um tomate, são seu testemunho sobre as mudanças na família a partir daquele momento. Como o título prenuncia, é amarga a descoberta da vida após a perda materna.

Sinestesia é a figura de linguagem que engloba a expressão Vermelho amargo, uma combinação poderosa das sensações provocadas por diferentes órgãos sensoriais: vista e palato.  Que esse título abençoa as memórias do menino, já deveria nos colocar de sobreaviso: a expressão poética, bela e sedutora, não consegue esconder o lado cáustico das reflexões do narrador. Da vida cotidiana aos sentimentos de perda e saudades, participamos do turbilhão emocional corrosivo de um menino sensível, deixado ao largo da vida familiar, a interpretar meramente o que o rodeia a partir dos sinais que lhe são visíveis.

Bartolomeu Campos de Queirós é considerado “um dos maiores expoentes da literatura infantojuvenil brasileira”, como anuncia a editora Cosac Naify, na sinopse desse volume.  Mas não se enganem, esse não é um livro infantojuvenil.  É um livro para adultos ou jovens, que não só possam se encantar com um texto rico, entremeado pelas mais diversas imagens e de perfeita retórica, como também melhor interpretado por aqueles que já desenvolveram dentro de si, pelas vicissitudes enfrentadas, um extenso rol de sentimentos, dos mais sublimes aos mais mesquinhos, com todas as nuances que lhes pertencem.

Bartolomeu Campos de Queirós

De pronto, esse volume, um ensaio meditativo, é enriquecido de maneira exemplar quando o autor persiste em manter um texto delicadamente equilibrado na junção de imagens antagônicas.  O momento emocional se revela justamente no espaço deixado em branco pelas antíteses narrativas e o sentimento que elas não conseguem definir.  Essa é uma leitura que requer pausa e reflexão.  Há pensamentos que precisam ser digeridos antes mesmo de se passar ao parágrafo seguinte.   As ponderações são de um adulto voltando-se para o seu passado de menino. Somos convidados a participar de uma recapitulação, de uma memória emocional: “Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles.

Há livros que nos seqüestram pela trama, que nos seduzem pelo enredo.  Raras são as vezes em que é o texto, a maneira de dizer, que as imagens colocadas nos envolvem de tal maneira, que o argumento passa a segundo plano.  Tal é o caso de Vermelho amargo.  Esse é um livro para ser degustado mais por sua maneira de ser, por suas imagens, por sua prosa do que pelo que retrata.  Nele conseguimos viver os prazeres de uma língua bem colocada, bem armada.  Uma língua poética.  Fascinante.  Esse é o testemunho de uma língua viva, rica, amada e amante.  É uma ode ao idioma.  Aproveite-a.

Nota:  Agradeço à leitora desse blog, Nanci Sampaio, a recomendação da leitura desse livro.