Cantiga, poema de Jair Amorim

6 09 2014

 

moça com sombrinha, Neysa McMein,AmericanMagazine 1925-08Moça com sombrinha, Ilustração de Neysa McMein, American Magazine, Agosto de 1925 [DETALHE].

 

 

Cantiga

 

Jair Amorim

 

Pensamento, pensamento,

mais veloz que um pé de vento

mais sonhador que um detento

mais duro que um sofrimento

mais forte que um juramento

mais feroz e violento

que o pranto de um sentimento.

Pensamento, pensamento,

cadê forças, onde o alento,

para tirar um momento

a amada do pensamento?

 

Em Canto Magro, Jair Amorim, EFES: 1995 (?), p. 41

 

 

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.





Trova da sabedoria do xadrez

5 09 2014

 

Diana de Méridor. Chess is ArtDiana de Meridor (personagem de Alexandre Dumas) em jogo… Ilustração de autoria desconhecida.

 

 

O xadrez repete a vida

em sucessivas lições:

quando a nobreza é atingida

sacrificam-se os peões.

 

(Sinval Emílio da Cruz)





Trova das nossas mentiras

3 09 2014

 

espera, ilustração de Blanche Fisher WrightIlustração Blanche Fisher Wright.

 

 

Eu volto um dia — juraste.

Não te espero — me zanguei.

— Mentiste: nunca voltaste…

Menti: eu sempre esperei…

 

(Cícero Acaiaba)

 

 





Caboclo Espirituoso, história contada em versos

1 09 2014

 

 

péChico Bento tem um pensamento desagradável, ilustração de Maurício de Sousa.

 

Caboclo Espirituoso

[de uma história contada por meus avós]

 

 

Walter Nieble de Freitas

 

 

“Nhô” Vicente, certo dia,

Montando o lindo alazão,

Foi fazer uma visita

Ao compadre Sebastião.

 

Cavalgou horas e horas,

Chegou ao entardecer:

Sua barriga roncava

De vontade de comer!

 

Ao vê-lo abrir a porteira,

“Nhô” Sebastião diz contente:

— Até que um dia compadre,

Você se lembrou da gente!

 

Apeie, vamos chegar.

Não repare na palhoça.

Como é que vai a comadre?

Vá entrando que a casa é nossa!

 

Tenho muito o que contar,

Sente-se aí no banquinho.

Você sabe que morreu

A mulher do Vadozinho?…

 

Também, a sogra do Zeca,

A jararaca mordeu:

A velha não sentiu nada

E a pobre cobra morreu!…

 

Sem perceber que a visita,

De fome quase morria,

“Nhô” Sebastião, na conversa,

Longas horas consumia…

 

“Nhô” Vicente paciencioso,

Tudo ouvia sem falar;

Porém, a sua barriga

Não parava de roncar!

 

Notando que seu amigo

Parecia nada ouvir,

Sentiu, o dono da casa,

Que o melhor era dormir.

 

Nesta altura, perguntou-lhe

Numa rural cortesia:

— O compadre lava os pés?

Vou mandar vir a bacia.

 

Respondeu-lhe “Nhô” Vicente,

— Isso não! de modo algum!

Acho muito perigoso

Lavar os pés em jejum.

 

 

Em: Barquinhos de papel, poesias infantis de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961, pp: 75-78.





Trova do tempo passado

28 08 2014

 

 

cha das cincoChá das cinco, ilustração de autor desconhecido, provavelmente inglês seguidor de Walter Crane.

 

 

Esse tempo que passou

de trabalho e de fadiga,

também sorrisos deixou

em nossas vidas, amiga.

 

(Alice de Oliveira)





Trova do galo

25 08 2014

Galo, Mary Ann CaryGalo, ilustração de Mary Ann Cary.

Bem cedinho o galo canta,

molhado ainda de orvalho.

A roça, ouvindo-o, levanta

e entoa um hino ao trabalho.

(A. A. de Assis)

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Trova da igualdade

24 08 2014

 

amigas de escola com uniforme

 

 

Quer na alegria ou na dor,

entre sorrisos e ais,

para mim não existe cor:

brancos… pretos… são iguais.

 

(Alice de Oliveira)





Os nomes — poesia infantil de Maria Alberta Menéres

21 08 2014

 

 

crianças na árvore, Ingela P ArrheniusIlustração de Ingela P. Arrhenius.

 

 

 

Os Nomes

 

Maria Alberta Menéres

 

Porque é que me chamo coelho
E não me chamo melão?

Porque é que me chamo lagartixa
E não me chamo cão?

Porque é que me chamo uva
E não me chamo chuva?

Porque é que me chamo Maria do Céu
E não me chamo chapéu?

Porque é que me chamo pedra
E não me chamo perna?

Porque é que me chamo cebola
E não me chamo papoila?

Porque é que me chamo casa
E não me chamo asa?

Porque é que me chamo Sol
E não me chamo Lua?

Porque é que me chamo Lua
E não me chamo caracol?

Cada coisa tem o seu nome
Para assim ser conhecida.

 

 

Em: Conversas com versos, Maria Alberta Menéres, Lisboa, Edições Asa:2005





Trova do presente do sogro

20 08 2014

 

presentes, gravatas, Ruth Eastman, Judge magazine, dez 1929Ilustração Ruth Eastman, capa da revista Judge (EUA), dezembro de 1929.

 

Deu-lhe o sogro uma gravata…

— E sua emoção foi tanta

que casou antes da data,

sentindo um nó na garganta!…

 

(Manuel de Oliveira Costa)





Belo belo, poema de Manuel Bandeira

19 08 2014

 

ARTHUR TIMÓTHEO DA COSTA - (1882 - 1923) Ziza no atellier - ost - 65 x 54 - cie - 1919Ziza no ateliê, 1919

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)

óleo sobre tela, 65 x 54 cm

 

Belo Belo

 

Manuel Bandeira

 

Belo belo minha bela

Tenho tudo que não quero

Não tenho nada que quero

Não quero óculos nem tosse

Nem obrigação de voto

Quero quero

Quero a solidão dos píncaros

A água da fonte escondida

A rosa que floresceu

Sobre a escarpa inaccessível

A luz da primeira estrela

Piscando no lusco-fusco

Quero quero

Quero dar volta ao mundo

Só num navio de vela

Quero rever Pernambuco

Quero ver Bagdá e Cusco

Quero quero

Quero o moreno da Estela

Quero a brancura da Elisa

Quero a saliva da Bela

Quero as sardas da Adalgisa

Quero quero tanta coisa

Belo belo

Mas basta de lero-lero

Vida noves fora zero.

 

Petrópolis, fevereiro de 1947.

 

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1978, 10ª edição,pp: 135-136.