
Nos leilões e nas quermesses
das festas de nossa aldeia,
apesar de minhas preces,
foste prenda em mão alheia!
(Roberto Medeiros)

Nos leilões e nas quermesses
das festas de nossa aldeia,
apesar de minhas preces,
foste prenda em mão alheia!
(Roberto Medeiros)
Árvore da família Donald. ©Estúdios Disney.
Pedro Bandeira
Por que é que eu me chamo isso
E não me chamo aquilo?
Por que é que o jacaré
Não se chama crocodilo?
Eu não gosto
do meu nome,
não fui eu
quem escolheu.
Eu não sei porque se metem
com um nome que é só meu!
O nenê
que vai nascer
vai chamar
como o padrinho,
vai chamar
como o vovô,
mas ninguém vai perguntar
o que pensa
o coitadinho.
Foi meu pai quem decidiu
que o meu nome fosse aquele.
Isso só seria justo
se eu escolhesse
o nome dele.
Quando eu tiver um filho,
não vou pôr nome nenhum.
Quando ele for bem grande,
ele que escolha um!
Em: Cavalgando o arco-íris, Pedro Bandeira, São Paulo, Moderna: 1984, páginas 12-13.
Igreja, ilustração de Andrew Loomis.
Ela possui tal encanto,
que quando na igreja entrou,
em vez de beijar o santo,
foi o santo que a beijou.
(José Nogueira da Costa)
São Paulo antiga
Carmelo Gentil Filho (Brasil, 1955)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Alberto Caeiro
Um dia de chuva
é tão belo
como um dia de sol.
Ambos existem;
cada um como é.
Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, página, 296
Primavera no jardim, Joseph B. Platt, capa da revista House and Garden, março 1926.
Mesmo pisando em espinhos
por travessias penosas,
em todos os meus caminhos
farei plantio de rosas!
(Dodora Galinari)
Retrato da menina Maria Catarina Douat, 1957
Win van Dijk ( Holanda/Brasil, 1915-1990)
óleo sobre tela, 95 x 60 cm
Stella Leonardos
(Para Leilá)
É uma sílfide dançando.
É uma infanta adolescendo.
Cabelo de ouro brilhando.
Alvor de lírio crescendo.
Coração de cristal puro,
Alma de rosa nevada,
Sonha trepada no muro.
E não sabe que é uma fada.
Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956, p.51

Memórias de São Luís do Maranhão, s/d
Fernando Castelo Branco (Brasil, contemporâneo)
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Martins D’Alvarez
“Minha terra tem palmeira
onde canta o sabiá…
isso é lirismo do poeta,
a gente pensa de cá!
Mas, ao penetrar-se, em barcos,
na baía de São Marcos,
vemos que há mesmo palmeiras
e muitas palmeiras lá.
E, emoldurando as palmeiras,
há jardins verdes, floridos,
ruas que sobem ladeiras,
azulejos e vitrais…
Poesia dos tempos idos:
— chafarizes esquecidos,
romances adormecidos
em solares coloniais.
E na fronde das palmeiras,
há mesmo alados cantores
— enlevo dos sonhadores,
— ternura dos namorados…
Dos platônicos mancebos
que se ficam nas calçadas
a acenar para as donzelas
nas janelas dos sobrados.
“Minha terra tem primores
que tais não encontrou eu cá…
“Velhos fortins dos franceses,
igrejinhas seculares:
Carmo, Remédios, a Sé
— mãe das primeiras Missões!…
Se cujo púlpito, Vieira,
plantou a fé brasileira,
com a augusta sementeira
de seus famosos sermões.
Tem recantos encantados,
de um bucolismo sem-par:
— Sacavém, Ponta da Areia,
São João de Ribamar…
O velho Farol de Alcântara,
o Bumba-meu-boi de Anil…
E outras relíquias da História
pitoresca do Brasil.
Tem aquela preta velha
da Rua dos Afogados
que foi preada na Angola,
deu bom preço nos mercados…
Foi tudo para os Senhores…
Amargou de mão em mão…
E traz na pele, gravado,
o drama da escravidão.
Tem o português dos “secos”
e o português dos “molhados”…
Tem o turco dos “retalhos”
ë o turco dos “atacados”…
Tem a “pipira morena”,
lá da Rua do Alecrim,
que aos domingos, toda chique,
vai fazer seu piquenique
e à noite, em Campos de Ourique,
quem paga tudo é o Joaquim!
“Nosso céu tem mais estrelas”
“na noite calma e deserta…
— Infinita porta aberta
para um mundo de poesias!
“nossas várzeas têm mais flores”,
além das rosas-meninas
que florescem nas esquinas
da Praça Gonçalves Dias!
“Nossos bosques têm mais vida”
na magia feiticeira
dessa Atenas Brasileira
de artistas e pensadores.
Graças à luz expendida
por esta estirpe luzida,
“nossos bosques têm mais vida,
nossa vida mais amores”.
“Em cismar sozinho à noite
mais prazer encontro eu lá”,
pela Praça João Lisboa,
recitando o “Marabá”…
Ao longo da Praia Grande…
No botequim da Sinhá,
tirando o gosto da pinga
com refresco de cajá…
Ouvindo, ao luar de prata,
acordes de serenata,
com trovador e com flauta
com violão e ganzá.
“Não permita Deus que eu morra
sem que eu volte para lá…
“Sem que carregue, contrito,
o andor de São Benedito,
na bênção que ao povo aflito,
em procissão, ele dá…
Sem que inda prove pequi,
cupuaçu, bacuri,
cambica de murici
e um bom arroz de cuchá!…
Quero morrer, na verdade,
na minha velha cidade,
namorando a antiguidade,
numa rede de algodão…
Dando um adeus ao passado,
um viva a Pedro II
na melhor terra do mundo:
— São Luís do Maranhão!
Ilustração de Margret Boriss
Parece o teu coração
com plataforma de trem,
qua mal despede os que vão
para abrigar os que vêm.
(Roberto Medeiros)
Teia de aranha, 1684
Gao Qipei (China, 1660-1734)
Pintura a dedo, sobre o papel
Olegário Mariano
Dizem que traz felicidade a teia
De aranha. Surge um dia, malha a malha.
E a aranha infatigável que trabalha,
Mata os insetos quanto mais se alteia.
Sobe ao beiral. É um berço e balanceia
Ao vento que os filetes de oiro espalha.
E ao sol iluminado, que a amortalha,
A trama iluminada se incendeia.
Voa a primeira borboleta ebriada.
Vem louca, primavera de ansiedade,
Mas de repente, a asa despedaçada,
Rola… É o fim… A tortura da grilheta…
Maldita seja essa felicidade
Que vem da morte de uma borboleta!
Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 117.