Trova da folha caída

19 11 2018

 

 

 

outono, folhas, brincadeira, menina

 

 

Vou vivendo a minha vida,

como Deus quer e consente.

– Sou como a folha caída,

levada pela corrente.

 

(Adelmar Tavares)





Trova da presença divina

17 11 2018

 

 

passaro no galho

 

Sinto a presença divina

em tudo que me rodeia:

na vibração matutina,

num sabiá que gorjeia!

 

(Clarindo Batista)





Trova do soneto e da sonata

23 10 2018

 

 

 

 

tocando piano, margret borissIlustração de Margret Boriss

 

 

Eu tenho na alma um dueto

que qual à Trova, arrebata.

É na Poesia o Soneto,

é na Música a Sonata!

 

(Dorothy Jansson Moretti)





Trova do trem de ferro

17 10 2018

 

 

978-84-15208-79-2_Un_beso_y_adios-Jimmy Liao, 幾米, well-known Taiwanese illustrator and writer.Ilustração Jimmy Liao.

 

 

Trem-de-ferro, o teu apito

lembra-me um sino plangente:

tanta mágoa no teu grito,

tanta saudade na gente!

 

(Dorothy Jansson Moretti)





Gato pensa? — poesia de Ferreira Gullar

13 10 2018

 

 

gatinho travessoDesconheço a autoria dessa ilustração.

 

 

 

Gato pensa?

 

Ferreira Gullar

 

Dizem que gato não pensa

mas é difícil de crer.

Já que ele também não fala

como é que se vai saber?

 

A verdade é que o Gatinho

quando mija na almofada

vai depressa se esconder:

sabe que fez coisa errada.

 

E se a comida está quente,

ele, antes de comer,

muito calculadamente

toca com a pata pra ver.

 

Só quando a temperatura

da comida está normal

vem ele e come afinal.

 

E você pode explicar

como é que ele sabia

que ela ia esfriar?

 

 





Trova para São Francisco de Assis

4 10 2018

 

 

 

passaros na cidade, Sylvie DaigneaultPássaros na cidade, ilustração de Sylvie Daigneault.

 

 

Cruza o espaço a passarada,

no seu voo alegre e arisco,

levando à manhã menina

as bênçãos de São Francisco.

 

(Corrêa Júnior)





Trova do rio

1 10 2018

 

 

girl-by-river-vintage-japan-ukiyo-e-woodcut-just-eclecticXilogravura japonesa policromada, Ukiyo-e.

 

 

Vai o rio em cantochão…

Suas águas se lamentam.

-Parecem pedir perdão

às pedras que as atormentam.

 

(Durval Mendonça)





“Coração”, poesia de Guilherme de Almeida

11 09 2018

 

 

castelo de cartas, jb longCastelo de cartas, ilustração de H. B. Long.

 

 

 

Coração

 

Guilherme de Almeida

 

 

Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!





Trova da morte

6 09 2018

 

 

Journey's_End_Cemetery

 

 

 

Sem resposta que conforte,

dúvida imensa me corta:

Qual o segredo da morte?

Fim? Partida? Porto? Porta?

 

(Alonso Rocha)





Antes do voo da ave, Fernando Pessoa

27 08 2018

 

 

 

sky-and-water-ii.jpg!LargeCéu e água II, 1938

M.C. Escher ( Holanda, 1898-1972)

Xilogravura

 

XLIII

 

Antes do voo da ave

 

Antes do voo da ave,

que passa e não deixa rasto,

Que a passagem do animal

que fica lembrada no chão.

A ave passa e esquece,

e assim deve ser,

O animal,

onde já não está

e por isso de nada serve,

Mostra que já esteve,

o que não serve para nada.

A recordação

é uma traição à Natureza,

Porque a Natureza

de ontem não é Natureza.

O que foi não é nada,

e lembrar é não ver.

 

Passa, ave, passa,

e ensina-me a passar!

 

 

Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, páginas 149-150.