Ilustração Jimmy Liao.
Trem-de-ferro, o teu apito
lembra-me um sino plangente:
tanta mágoa no teu grito,
tanta saudade na gente!
(Dorothy Jansson Moretti)
Ilustração Jimmy Liao.
Trem-de-ferro, o teu apito
lembra-me um sino plangente:
tanta mágoa no teu grito,
tanta saudade na gente!
(Dorothy Jansson Moretti)
Desconheço a autoria dessa ilustração.
Ferreira Gullar
Dizem que gato não pensa
mas é difícil de crer.
Já que ele também não fala
como é que se vai saber?
A verdade é que o Gatinho
quando mija na almofada
vai depressa se esconder:
sabe que fez coisa errada.
E se a comida está quente,
ele, antes de comer,
muito calculadamente
toca com a pata pra ver.
Só quando a temperatura
da comida está normal
vem ele e come afinal.
E você pode explicar
como é que ele sabia
que ela ia esfriar?
Pássaros na cidade, ilustração de Sylvie Daigneault.
Cruza o espaço a passarada,
no seu voo alegre e arisco,
levando à manhã menina
as bênçãos de São Francisco.
(Corrêa Júnior)
Xilogravura japonesa policromada, Ukiyo-e.
Vai o rio em cantochão…
Suas águas se lamentam.
-Parecem pedir perdão
às pedras que as atormentam.
(Durval Mendonça)
Castelo de cartas, ilustração de H. B. Long.
Guilherme de Almeida
Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!
Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?
Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?
Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.
Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!

Sem resposta que conforte,
dúvida imensa me corta:
Qual o segredo da morte?
Fim? Partida? Porto? Porta?
(Alonso Rocha)
Céu e água II, 1938
M.C. Escher ( Holanda, 1898-1972)
Xilogravura
Antes do voo da ave,
que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal
que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece,
e assim deve ser,
O animal,
onde já não está
e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve,
o que não serve para nada.
A recordação
é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza
de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada,
e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa,
e ensina-me a passar!
Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, páginas 149-150.

Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
(Dorothy Jansson Moretti)
Gato peludo, ilustração de Harrison Fisher (1875-1934).
Bobagem grande, de fato,
que o meu bom senso rejeita…
Mas que inveja dá-me o gato
que no teu colo se deita!…
(A. A. de Assis)
Ilustração de Pierre Brissaud.
Antonio Cícero
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
Por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Em: Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2008, página 11