Retrato na praia, poema de Carlos Pena Filho

31 03 2013

Emily Patrick

Joelhos de menina, s/d

Emily Patrick (Inglaterra, contemporânea)

gravura de pintura da artista

www.emilypatrick.com

Retrato na praia

Carlos Pena Filho

Ei-la ao sol, como um claro desafio

ao tenuíssimo azul predominante.

Debruçada na areia e assim, diante

do mar, é um animal rude e bravio.

Bem perto, há um comentário sobre estio,

mormaço e sonolência. Lá, distante,

muito vagos indícios de um navio

que ela talvez contemple nesse instante.

Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza

por seu corpo salgado, enxuto e belo,

como se nuvem fosse, ou quase brisa.

E desce por seus braços, e rodeia

seu brevíssimo e branco tornozelo,

onde se aquece e cresce, e se incendeia.

Em: Melhores Poemas de Carlos Pena Filho, seleção de Edilberto Coutinho, São Paulo, Editora Global:1983, p.80

Carlos Pena Filho

Carlos Pena Filho ( PE 1929-PE 1960) poeta brasileiro.

Obras:

O tempo da busca, 1952

Memórias do boi Serapião, 1956

A vertigem lúcida, 1958

Livro geral, 1959





A flor, poema de Afonso Louzada

12 01 2013

20120923gogh-60

Vaso com oleandro e livros, 1888

Vincent van Gogh (Holanda,1853-1890)

óleo sobre tela 60 x 73 cm

Metropolitan Museum, Nova York

A flor

Afonso Louzada

Talvez marcando o poema, em livro antigo,

encontrei uma flor já ressequida.

Velha história de amor… penso comigo,

pondo-me a ler a página esquecida.

Quem à flor nesse livro deu abrigo,

quem sabe? procurou tê-la escondida –

do amor sentindo o grande abraço amigo,

para a própria saudade comovida.

E o que ficou daquele amor profundo?

Talvez agora, já não resta nada

De tudo que era sonho e que era vida.

Sob o silêncio lúgubre do mundo,

Apenas essa flor abandonada –

marcando a velha página esquecida.

Em: Sonetos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição aumentada.





O morcego, soneto de Da Costa e Silva

30 09 2012

Morcego, ilustração sem autoria da década de 1920.

O morcego

Da Costa e Silva

Como uma borboleta escura e desconforme,

Suspenso pelos pés com o instintivo emprego

Das garras que o sustém, o mórbido morcego,

Tonto de sono e luz, durante o dia dorme.

Dorme durante o dia; e à noite, ei-lo, conforme

É costume, senhor do pávido sossego,

Abrindo o membranoso e elástico refego

Das asas que-lhe dão um todo demiforme.

Rasgando, em largo voo, a treva ampla e uniforme,

O noturno avejão guincha em desassossego,

A pupila incendida a arder na noite enorme.

E é de ver-se, depois, em lânguido aconchego,

As asas a abanar sobre o animal que dorme,

O sanguinário egoísmo em forma de morcego.

Em: Poesias Completas, Da Costa e Silva, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário]

Antônio Francisco da Costa e Silva ( Brasil, [PI] 1885 — [RJ] 1950) poeta, jornalista.  Advogado, cursou a  Faculdade do Direito do Recife. Trabalho no Ministério da Fazenda.

Obras:

Sangue (1908),

 Elegia dos Olhos, s/d

Poema da Natureza, s/d

Clepsidra, s/d

 Zodíaco (1917),

 Verhaeren (1917),

Pandora (1919),

Verônica (1927),

Alhambra (1925-1933), obra póstuma inacabada,

 Antologia (coleção de poemas publicada em vida – 1934),

Poesias Completas (1950) (1975) (1985), coletânea póstuma.





Noite de inverno, poema de Américo Macedo

18 06 2012

Marinha, 1965

Heitor de Pinho (Brasil, 1897-1968)

Óleo sobre cartão, 25 x 40 cm

Coleção Particular

Noite de Inverno

Américo Macedo

Estala a ventania! O mar bravio,

Ruge, como uma hiena acorrentada!

O céu de chumbo, cúpula pesada,

Mostra-se escuro, umbrático e sombrio!

A chuva cai pesadamente!  O frio

Corta, como uma lâmina afiada!

E muito ao longe ecuta-se a balada

Dos sapos a cantar n’água do rio.

O raio corta o espaço enfurecido,

Em ziguezagues prófugos e cresce

O fragor do trovão, enraivecido!

E sobe… e sobe a intérmina caudal!

E a água é tanta e tanta, que parece

Um segundo dilúvio Universal!

Em: Panorama da Poesia Norte Rio-grandense, Rômulo Wanderley, Natal, Edições do Val: 1965, prefácio de  Luís da Câmara Cascudo.

Américo Soares de Macedo, ( 1877- 1948) nasceu em Assu, no Rio Grande do Norte a 29 de dezembro de 1877.  Funcionário da Prefeitura Municipal.  Morreu modestamente em 2 de janeiro de 1948.

Obras:

Sombras, poesia, 1945





Amigos, poesia de Yde Blumenschein

3 06 2012

Ostende, s/d

Jean Jacques René (França, 1943)

óleo sobre tela, 65 x 81 cm

Coleção Particular

Aos meus amigos

Ide Blumenschein

Não sei como expressar o sentimento

De gratidão imensa que me invade…

Parece até um dos sonhos que eu invento

Essas provas de afeto e de amizade,

Que de Vocês recebo. É um monumento

A sua indiscutível lealdade:

Na jornada que há tanto tempo enfrento,

Não pode haver maior felicidade.

Que essa de ter amigos como os tenho,

E que, de conservar, tanto me empenho,

Feliz, agradecida, emocionada.

Não sei como dizer … Mas, essas provas

De bem querer são esperanças novas,

Semeando roserais em minha estrada.

Yde Schloenbach Blumenschein [ pseudônimos: Colombina e Paula Brasil] nasceu em São Paulo em 1882. Fez seus estudos tanto no Brasil como na Alemanha. Falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano. Poeta, cronista teve seus poemas publicados em A Tribuna, de Santos. Colaborou em revistas e jornais como O Malho, Fon-Fon, Careta e Jornal das Moças. Faleceu em 1963.

Obras:

Sândalo, poesia, 1941

Distância, poesia, 1947

Versos em lá menor, poesia, 1949

Lampeão de gás, poesia, 1950

Gratidão, poesia, 1954

Manto de Arlequim,poesia, 1956

Inverno em flor, poesia, 1959





Primeiro fruto, poesia de Artur de Castro

13 04 2012

Mãe com bebê, ilustração Maud Tousey Fangel.

Primeiro fruto

Artur de Castro

De manso Ela desperta e o leito cor de arminho

Envolvendo no olhar de materna doçura,

Contempla o alvo filho entre os lençóis de linho,

Mais alvo que os lençóis de imaculada alvura.

E meiga a contemplar o tépido filhinho,

Seu casto olhar azul em lágrimas fulgura:

— É que nem sempre o pranto é de sofrer mesquinho…

— Que a lágrima é também  a imagem da Ventura.

Depois nos braços seus tomando-o febrilmente,

A fronte dele encosta à sua fronte bela,

Aos lábios dele cola os lábios seus, ridente…

E assim, em doce amplexo, em meio sonho, — Ela

De novo os olhos cerra… e terna… e vagamente

O filho adormecido, entre acordada, vela.

Em: 232 Poetas Paulistas, antologia, Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista: 1968.

Artur de Castro (SP, 1880 – ?) — poeta e  jornalista.  Residiu em Campinas.





Soneto da quarta-feira de cinzas — Vinícius de Moraes

22 02 2012

O beijo, 1886

Auguste Toulmouche (França, 1829-1890)

óleo sobre tela, 63 x 47 cm

Soneto da quarta-feira de cinzas

Vinícius de Moraes

Por seres quem me foste, grave e pura

Em tão doce surpresa conquistada

Por seres uma branca criatura

De uma brancura de manhã raiada

Por seres de uma rara formosura

Malgrado a vida dura e atormentada

Por seres mais que a simples aventura

E menos que a constante namorada

Porque te vi nascer de mim sozinha

Como a noturna flor desabrochada

A fala de amor, talvez perjura

Por não te possuir, tendo-te minha

Por só quereres tudo, e eu dar-te nada

Hei de lembrar-te sempre com ternura.





Azul, soneto de Orlando Martins Teixeira

2 01 2012

Chapéu Azul, 1922

Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)

óleo sobre tela, 92 x 75 cm

Azul

Orlando Martins Teixeira

Chapéu azul, vestido azul, de azul bordado,

Azuis o parassol e as luvas, senhorita,

Como um lótus azul por um deus animado,

Passa toda de azul, por mil bocas bendita.

Há um bálsamo azul nesse azul que palpita,

Misticismos de um mundo, há muito em vão sonhado,

Azul que a alma da gente a idolatrá-la incita,

Azul claro, azul suave, azul de céu lavado.

Deixa na rua um rastro azul que cega e prende,

Não sei quê de anormal, de fantasma ou de duende,

Que prende os pés ao solo e ao mundo os olhos cerra;

Vendo-a, não se vê mais nada que o azul, tonteia…

Como num sonho azul, logo nos vem a ideia

Um pedaço de céu azul passeando a terra.

Em: 232 Poetas Paulistas, de Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista: 1968

Orlando Martins Teixeira (SP, 1875- MG, 1902) nasceu em São João da Boa Vista, SP em 1875. Poeta, dramaturgo e jornalista. Trabalhou na Gazeta da Tarde.  Seus versos a Venus ficaram famosos quando declamados pelo ator português Dias Braga.  Faleceu em Sítio, MG, em 1902.





Natal, soneto de Gualter Cruz

23 12 2011

Adoração dos pastores, 1500-1510

[Também conhecida como Natividade de Allendale]

Giorgione (Itália, 1477-1510)

Óleo sobre madeira, 91 x 111cm

National Gallery of Art, Washington DC

Natal

Gualter Cruz

Na agitação das ruas da cidade,

De povo fervilhante, e forasteiros,

Ninguém notava os pobres caminheiros,

Dois santos na pureza e na bondade.

Castíssimos esposos, companheiros,

Irmãos na mais perfeita afinidade,

José buscava obter dos hoteleiros

Abrigo à esposa, santa de humildade.

As portas com estrondo se fechavam…

Enquanto a turba infecta gargalhava,

Outro local, nervosos, procuravam.

Para uma gruta, enfim, Deus os conduz…

Orando aos céus, Maria murmurava:

— Nasceu  meu filho, ó Deus!…  Nasceu Jesus!…

Em: Poesias completas, Gualter Cruz, Petrópolis, Editora do autor: 1983.

Gualter Germano Chaves da Cruz (Petrópolis, RJ, 1921, Rio de Janeiro, RJ 1978)





Papai Noel, soneto de Ciro Vieira da Cunha

10 12 2011

Ilustração dos anos 50 do século XX: Papai Noel.

Papai Noel

Ciro Vieira da Cunha

Natal… Natal… meus tempos de menino,

Tempos felizes que não voltam mais…

Missa do galo… repicar do sino…

E a casa pobre dos meus velhos pais…

Natal … a mocidade, o desatino,

Loucos amores, ternos madrigais…

Mulheres que dobraram meu destino

Com seus beijos marcantes e fatais…

Papai Noel! atende ao meu pedido,

Nesta noite de paz e de bonança,

Atende, pelo muito que hei sofrido.

E em meus sapatos põe a caridade

De um pedaço bonito de esperança,

De um farrapo esquecido de saudade…

Em: 232 poetas paulistanos – antologia — Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968

Ciro Vieira da Cunha, nasceu em São Paulo, SP em 1897.  Usou também o pseudônimo João da Ilha professor, poeta, biógrafo, cronista, jornalista e médico brasileiro.  Faleceu no Rio de Janeiro em 1976.

Obras:

Pontos de Química Fisiológica (com Alberto Moreira), 1918

Contra o alcoolismo, 1920

De como se deve combater o alcoolismo no Brasil, 1922

O Dialeto Brasileiro (tese), 1933

Espera Inútil, poesia, 1933

Oração de Paraninfo, 1937

De Pé, pelo Brasil, 1941

Trovas, 1942

Alguma Poesia, poesia, 1942

Chuva de Rosas, poesia, 1947

No tempo de Paula Nei, prosa, 1959

    O cadete 308, prosa, 1956

No tempo de Patrocínio (2 v.),prosa, 1960

Memórias de um médico da roça, 1965

Arte de colar, 1970

Guia de civismo (com Terezinha Saraiva), 1972