Senhora lendo, 1839
Alexander Pavlovich Brullov (Rússia, 1798-1877)
Aquarela
Autorretrato com camisa de listras, 1906
Henri Matisse (França, 1864-1959)
óleo sobre tela, 55 x 46 cm
Kunst Statens Museum, Copenhagem
Autorretrato com pincéis, 1909
Marc Chagall (Rússia/França, 1887-1985)
óleo sobre tela , 57 x 48 cm
Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Alemanha
Marc Chagall (Rússia/França, 1887-1985)
óleo sobre tela
Coleção Particular
“Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar esse contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que comove, o interessa, o excita e repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo – por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido.”
Submissão, Michel Houellebecq, Rio de Janeiro, Alfaguara: 2015, pp, 10-11
Yevgeniy Demakov (Rússia, 1968)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
Renata de Albuquerque
Escritor russo Eugênio Kulikov, 1904
Ivan Kulikov (Rússia, 1875-1941)
óleo sobre tela
“Por esse tempo começaram a cintilar os primeiros alvores de minha vocação literária. Estava eu certo de que meu pai se afogaria em júbilos, acaso me lesse um artigo de campanha contra a espada aventureira, que rasgou o ventre da Bahia e ameaçou decapitar São Paulo. Mas, tanto que me surpreendeu os intuitos, concentrou nas sobrancelhas todas as forças de sua energia e, chamando-me a um ajuste, ordenou, com dedo autoritário, que me fosse ocupar de ofício limpo. E não era limpo o da imprensa? Meu pai entendia que o tal mister calha ao patetas, aos inúteis, aos irresponsáveis. Tais os epitetos com que fulminava os jornalistas — por amor de meu futuro! Mas é bem notar, ele não detestava letrados. Ao contrário, acolhia-os, com regozijo, na usa consideração de boêmio tardiamente regenerado. E a prova está em que nunca deixou esmorecer a velha camaradagem, travada aos tempos da Academia, de alguns poetas de classe, notadamente de um tal José de Freitas, vivo ainda, parece-me que em Minas, o qual sempre escrevia para solicitar-lhe notícias e dinheiro. Meu pai, regra geral, só atendia à primeira parte das cartas do amigo, porém não se enfastiava a no-lo citar, à hora da mesa, amiudando-lhe gabos aos mérito de estilista e versejador.
O pobre José Freitas voltava, de novo, com os queixumes e soluços, estes simbolizados por um desperdício de reticências. Dizia-se na miséria, encravado com promissórias e oito filhos raquíticos. Para contê-lo, meu pai mandava-lhe duas ou três laudas de conselhos. O homem sossegava durante quinze dias, mas tornava, depois, lamuriante ainda, reclamando o vale-postal. Talvez mal compare, mas esse desgraçado José de Freitas me fazia lembrar alma penada, que suplicasse, do outro mundo, preces de alívio aos seus tormentos. Tenho por certo que o velho o tomou por exemplo do infortúnio, que me esperava, se me abandonasse aos impulsos da idade. Excelente pai!
Ora, não sei se erro, afirmando qua as paixões trazem a vantagem de nivelar índoles. Não me rebelei contra meu pai. Curvei-me resignado, às objurgatórias, como a receber a coroa de mártir que, no caso, me ficava a talho. Bem a contragosto, em casa dava de mão às consolações da pena. À noitinha, então sim, escapulia-me às vistas paternas e corria ao meu protetor, o Ferreira, que me oferecia lenitivo pronto às aflições: o conhaque, papel e tinta. Bom sujeito! Daqui ainda o vejo, alto, grosso, gordura consistente e pesada, ilhargas tão amplas como as espáduas, enormes bigodes retorcidos a modos de chifres, uma cicatriz angular na região frontal esquerda, sempre alegre, sempre loquaz, sempre desbocado… Bom sujeito. Tinha a mania de esmurrar o próximo por dê cá aquela palha, mas, afinal, isto é sestro de homem musculoso,e ninguém o recriminava por isto, afora os hermistas que lhe temiam o contato, como se evitassem pisar numa casca de banana.
Ferreira arrumava-me nos fundos da taverna, entre dois tabiques discretos, que ficavam por detrás das teias de aranha e das quartolas de azeite doce e de vinagre. Eu, meio desalentado, sentava-me defronte de um traste coxo e trêmulo e aguardava a inspiração… Ferreira trazia-me o conhaque… dois, três… a lambujem do trato, e as ideias, pouco a pouco destilavam no papel, seguindo a vertiginosa abalada de minha cólera contra o mundo e os adversários de Rui Barbosa.”
Em: Gente Moça, novela, (a primeira publicação em 1920), aqui, publicada junto ao romance Bagunça, David Antunes, São Paulo, Saraiva:1968, p. 115-117.
David Antunes, usou também o cognome Iago Joé, escritor brasileiro. Nasceu em Santa Branca, São Paulo em 1891 e faleceu em Campinas, SP, em 1969).
Obras:
Gente Moça, novela, 1920
Bagunça, romance, 1932
Incenso e pólvora, romance, 1937
Caminhos perdidos, romance, 1940
Briguela, romance, 1945
Lagoa Verde, romance, 1947
A face trágica da arte, ensaio, 1952
Obsessão, romance, 1956
Piracicaba, romance histórico, 1956
O pastor e as cabras, romance, 1968
Yuri Belov (Rússia, 1929)
“Uma carta implica dedicação. Quem escreve uma carta suspende a vertigem do tempo para refletir, para melhor sentir, para pensar no outro. Uma carta de amor é realmente uma carta de amor.”
José Eduardo Agualusa
Em: “A convulsa solidão dos nossos dias“, José Eduardo Agualusa, O Globo, 18/05/2015, 2º caderno, página 2.
Retrato de Julia Makovsky, 1881
(Esposa do pintor)
Konstantin Makovsky (Rússia, 1839-1915)
óleo sobre tela
Lêdo Ivo
Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.
Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d’água, mas do canto.
Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:
amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.
Em: Central poética, Lêdo Ivo, Rio de Janeiro, Nova Aguillar: 1976, p. 47.
Fran Peppers (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Cá pelo Rio de Janeiro, temos 9 dias de folga em pleno mês de abril. Amigos me pedem dicas de leitura. Todos sabem que vou sempre preferir algo um pouquinho menos conhecido. Como a volta ao trabalho só está programada para segunda-feira, dia 27, há tempo de sobra para se ler bons livros.
Hoje, li a entrevista de Sofi Oksanen no jornal inglês The Guardian, e me lembrei que a autora está representada no Brasil, por pelo menos dois títulos. Com ela conhecemos melhor as histórias de colonialismo soviético, que como o The Guardian lembra, é assunto pouco abordado. E sabê-lo pelo olhos de uma escritora finlandesa, uma raridade no nosso horizonte, parece interessante pois sugere um distanciamento político raramente preservado nos meios intelectuais brasileiros em relação à antiga União Soviética. Estes livros são de leitura empolgante, thrillers, daqueles que não se quer deixar de lado para nada. Perfeitos para férias.
SINOPSE — Em 1992, uma velha senhora que vive solitária em uma floresta da Estônia, Aliide, acolhe em sua casa uma jovem russa, Zara. Apesar das desconfianças e precauções iniciais, as duas começam a se conhecer melhor e desenvolvem uma relação de amizade. Zara era uma escrava sexual na Rússia, e depois que fugiu passou a ser caçada por dois mafiosos russos que estão envolvidos no mercado sexual. Já Aliide vê na nova amiga uma oportunidade de contar sua trajetória e suas experiências pela União Soviética, tentando se livrar dos próprios fantasmas.
Expurgo, de Sofi Oksanen, Editora Record: 2012, 350 páginas
SINOPSE — Este é um poderoso romance, épico, único, que ao contar a história de Sofia, Katariina e Anna — avó, mãe e filha — perpassa todo o século 20 até chegar na atualidade. Desde a fome durante a guerra aos distúrbios alimentares para alcançar uma magreza ideal típica dos nossos tempos: está tudo aqui escrito com a visceralidade de uma das autoras contemporâneas mais aclamadas.
Na década de 1970, Katariina deixou a Estônia soviética em busca da promessa de felicidade ocidental que a Finlândia, país vizinho porém com realidade distante, representava. Sua mãe Sofia vivera desde o início os terrores da repressão soviética e assim que pôde incentivou a filha a ir embora mas agora é Anna, justamente a neta nascida na Finlândia e de hábitos ocidentais, que precisa de salvação: desde a doentia relação com seu corpo à estranha relação que tem com o sexo e com as pessoas.
As vacas de Stalin, Sofi Oksanen, Record: 2013, 420 páginas