Tua pulseira, poesia de Adherbal de Carvalho

24 09 2025
Tua pulseira

 

Adherbal de Carvalho

(1869-1915)

 

(A uma moça que me põe uma pulseira no braço)

 

Tenho beijado esta pulseira olente,

Cheia de amor e cheia de magia!

Aperto-a ao coração constantemente,

Como um sinal da tua simpatia!

 

Os elos, que se prendem nos meus braços,

Creio que têm um pouco de tua alma;

Alma subtil, voando nos espaços,

Alma de amor, que o meu delírio acalma!

 

Constantemente, eu a tateio a medo

E com caricia levo-a ao meu ouvido,

Afim de ver se encerra algum segredo

Que o teu amor acaso haja escondido!

 

E, no entanto, é tão fria, tão pacata,

Como o metal argênteo de que é feita!

Não há nada tão frio como a prata,

Ou como este aro que o meu braço enfeita.

 

Apesar d’isso, sei-a amar, querida,

E quero-a tanto como a ti desejo;

Pois vejo n’ela a minha e a tua vida,

O nosso amor entrelaçando um beijo!

 

Em: Efêmeras, Adherbal de Carvalho, 1894.





Carta-soneto, poesia de Célia de Cássia

15 09 2025
Cartão postal,  anos 20, séc. XX.

 

 

Carta-soneto

 

Célia de Cássia

 

“Escrevo-te pra dizer-te”, meu amor,

que minhas já não são as tuas cartas.

De folheá-las — velhas, já sem cor —

as minhas mãos nunca ficaram fartas!

 

As tuas cartas!  Doces e amargas…

Luar iluminando com fulgor

a minha escura estrada! Portas largas,

abrindo pra jardins plenos de flor!

 

Vão publicá-las. Dei-as de presente

(perdoa, amado, essas ideias loucas

que a meu viver já deram mil escolhos…)

 

Quero, dando-as a ler a toda gente,

que o amor que morreu em nossas bocas

possa ressuscitar em outros olhos…

 

Célia de Cássia (MG, 1909-?)





Trova das rosas

10 09 2025
Ilustração Jessie Willcox Smith.

Nesse exemplo se resume

um prêmio às almas bondosas:

fica sempre algum perfume

nas mãos que oferecem rosas!

 

(Aparício Fernandes) 





O galo, poesia infantil, Francisca Júlia

6 09 2025
Ilustração Steve Noble.
 
 
O galo
 

Francisca Júlia

 

 

Passo lento, olhar profundo,

Valente, brioso e grave,

O galo é a mais linda ave

Dentre todas que há no mundo.

 

Um pé adiante, outro atrás,

Bico aberto, o galo canta;

Tem a glória na garganta

E nas esporas que traz.

 

O galo é sempre o primeiro

A anunciar a s auroras.

Repara bem: tem esporas

E é por isso cavaleiro.

 

Coroa tem e de lei,

Coroa em forma de crista

Que ganhou numa conquista:

Por isso julga-se rei.

 

Pendentes até o peito,

Vermelhas, grandes e belas,

Tem barbas que são barbelas

Que lhe dão muito respeito.

 

Com que delicado amor

Ele defende e acarinha

Ora o pinto, ora a alinha

Com seu gesto protetor!

 

De cabeça levantada,

Altivo sobre o poleiro,

Ele é o rei do galinheiro

E o cantor da madrugada.

 

Vivem todos sob a lei

E ordens que o galo decreta:

Soldado, músico e poeta,

Pastor, cavaleiro e rei!

 

 Francisca Júlia. Alma Infantil (Rio de Janeiro: s.e., 1912), pp. 81-83

 





Trova da minha vida

30 08 2025
Serenata, ilustração de  Elizabeth Jones, para American Girl, abril de 1935

 

 

Quer ser feliz? Então siga

a minha vida bizarra,

que tem muito de formiga

e ainda mais de cigarra…

 

 

(Luiz Otávio)





Aquarela, poesia de Francisca Júlia

28 08 2025

Grace Rose, 1866

Frederick Sandys (Inglaterra, 1829-1904)

óleo sobre madeira, 28 x 24 cm

Yale Center for British Art, EUA

 

Aquarela

 

Francisca Júlia

 

Cheio de folhas, úmido de orvalho.

Fresco, à beira de um córrego crescia

Jovem pé de roseira em cujo galho

Uma rosa sorria.

 

O orvalho matinal que o beija e molha,

Desce de cima em brancas névoas finas.

E todo pé salpica, folha a folha,

De gotas pequeninas.

 

Beija-o o perfumeo Zéfiro, que passa,

O grupo de falenas que anda à toa,

A borboleta clara que esvoaça,

E o pássaro que voa.

 

Uma moça gentil sentiu anseio

De possuir a rosa e teve mágoa

De não poder colhê-la, com receio

De molhar os pés na água.

 

A roseira agitou a coma e opima,

Estremeceu, embriagada e douda,

Sob os raios do sol que lá de cima

A iluminavam toda.

 

A moça foi-se; o ar estava morno;

Mansamente o crepúsculo descia;

Uma abelha zumbiu36 da rosa em torno;          

Lento, expirava o dia…

 

Porém nessa hora a ventania brava

Que veio do alto impetuosamente,

Arranca a flor do ramo em que se achava          

E joga-a na corrente.

 

E a flor caiu no meio do riacho;

Do vento rijo foi sofrendo o açoite,

E escorregando em prantos, água abaixo,

Na tristeza da noite.

 

Nenhuma flor pode salvar-lhe a vida;

Na água desceram, entretanto, algumas;

E a flor morreu aos poucos, envolvida          

Num círculo de espumas.

 

Em: Livro da Infância, Francisca Júlia da Silva, 1899, em domínio público





Impressionista, poesia de Adélia Prado

9 08 2025

Paisagem

Jorge de Mendonça (Brasil, 1879-1933)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

 

 

Impressionista

 

Adélia Prado

 

Uma ocasião,

meu pai pintou a casa toda

de alaranjado brilhante.

Por muito tempo

moramos numa casa,

como ele mesmo dizia,

constantemente amanhecendo.





Trova do pai

7 08 2025

 

 

É tão bom ser tua filha,

me espelhar em teu caminho,

desta vida, és maravilha,

espalhando teu carinho.

 

(Carmen Pio)





Trova do pai e do filho

6 08 2025
Ilustração Fred Irvin (1914-2006)

 

 

Ninguém nasce, filho ou Pai,

já prontinho e acabado;

dia a dia é que se vai

sendo aos poucos lapidado.

 

(Amilton Monteiro)





A flor e a fonte, poesia de Vicente de Carvalho

4 08 2025

Jovem grega próximo à fonte, 1850

Jean-Baptiste Camille Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela, 55 x 39 cm

Louvre

 

A flor e a fonte

 

Vicente de Carvalho

 

“Deixa-me, fonte!” Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

“Deixa-me, deixa-me, fonte!”
Dizia a flor a chorar:
“Eu fui nascida no monte…
“Não me leves para o mar.”

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

“Ai, balanços do meu galho,
“Balanços do berço meu;
“Ai, claras gotas de orvalho
“Caídas do azul do céu!…”

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

“Adeus, sombra das ramadas,
“Cantigas do rouxinol;
“Ai, festa das madrugadas,
“Doçuras do pôr do sol;

“Carícias das brisas leves
“Que abrem rasgões de luar…
“Fonte, fonte, não me leves,
“Não me leves para o mar!”

*

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor….

 

Em: Rosa, Rosa de Amor, 1902