São Luís do Maranhão, poesia de Martins D’Alvarez

9 03 2017

 

 

 

Fernando Castelo Branco, Memórias de São Luís do Maranhão

Memórias de São Luís do Maranhão, s/d

Fernando Castelo Branco (Brasil, contemporâneo)

http://casteloartes.blogspot.com.br/

 

 

 

São Luís do Maranhão

 

Martins D’Alvarez

 

 

“Minha terra tem palmeira

onde canta o sabiá…

isso é lirismo do poeta,

a gente pensa de cá!

Mas, ao penetrar-se, em barcos,

na baía de São Marcos,

vemos que há mesmo palmeiras

e muitas palmeiras lá.

 

E, emoldurando as palmeiras,

há jardins verdes, floridos,

ruas que sobem ladeiras,

azulejos e vitrais…

Poesia dos tempos idos:

— chafarizes esquecidos,

romances adormecidos

em solares coloniais.

 

E na fronde das palmeiras,

há mesmo alados cantores

— enlevo dos sonhadores,

— ternura dos namorados…

Dos platônicos mancebos

que se ficam nas calçadas

a acenar para as donzelas

nas janelas dos sobrados.

 

“Minha terra tem primores

que tais não encontrou eu cá…

“Velhos fortins dos franceses,

igrejinhas seculares:

Carmo, Remédios, a Sé

— mãe das primeiras Missões!…

Se cujo púlpito, Vieira,

plantou a fé brasileira,

com a augusta sementeira

de seus famosos sermões.

 

Tem recantos encantados,

de um bucolismo sem-par:

— Sacavém, Ponta da Areia,

São João de Ribamar…

O velho Farol de Alcântara,

o Bumba-meu-boi de Anil…

E outras relíquias da História

pitoresca do Brasil.

 

Tem aquela preta velha

da Rua dos Afogados

que foi preada na Angola,

deu bom preço nos mercados…

Foi tudo para os Senhores…

Amargou de mão em mão…

E traz na pele, gravado,

o drama da escravidão.

 

Tem o português dos “secos”

e o português dos “molhados”…

Tem o turco dos “retalhos”

ë o turco dos “atacados”…

Tem a “pipira morena”,

lá da Rua do Alecrim,

que aos domingos, toda chique,

vai fazer seu piquenique

e à noite, em Campos de Ourique,

quem paga tudo é o Joaquim!

 

“Nosso céu tem mais estrelas”

“na noite calma e deserta…

— Infinita porta aberta

para um mundo de poesias!

“nossas várzeas têm mais flores”,

além das rosas-meninas

que florescem nas esquinas

da Praça Gonçalves Dias!

 

“Nossos bosques têm mais vida”

na magia feiticeira

dessa Atenas Brasileira

de artistas e pensadores.

Graças à luz expendida

por esta estirpe luzida,

“nossos bosques têm mais vida,

nossa vida mais amores”.

 

“Em cismar sozinho à noite

mais prazer encontro eu lá”,

pela Praça João Lisboa,

recitando o “Marabá”…

Ao longo da Praia Grande…

No botequim da Sinhá,

tirando o gosto da pinga

com refresco de cajá…

Ouvindo, ao luar de prata,

acordes de serenata,

com trovador e com flauta

com violão e ganzá.

 

“Não permita Deus que eu morra

sem que eu volte para lá…

“Sem que carregue, contrito,

o andor de São Benedito,

na bênção que ao povo aflito,

em procissão, ele dá…

Sem que inda prove pequi,

cupuaçu, bacuri,

cambica de murici

e um bom arroz de cuchá!…

 

Quero morrer, na verdade,

na minha velha cidade,

namorando a antiguidade,

numa rede de algodão…

Dando um adeus ao passado,

um viva a Pedro II

na melhor terra do mundo:

— São Luís do Maranhão!

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Trova da inconstância

7 03 2017

 

 

 

004_001Ilustração de Margret Boriss

 

 

Parece o teu coração

com plataforma de trem,

qua mal despede os que vão

para abrigar os que vêm.

 

 

(Roberto Medeiros)





Teia de aranha, poesia de Olegário Mariano

3 03 2017

 

 

gao-qipei-finger-painting-of-a-spider-on-a-web-china-1684Teia de aranha,  1684

Gao Qipei (China, 1660-1734)

Pintura a dedo, sobre o papel

 

 

 

Teia de aranha

 

Olegário Mariano

 

Dizem que traz felicidade a teia

De aranha. Surge um dia, malha a malha.

E a aranha infatigável que trabalha,

Mata os insetos quanto mais se alteia.

 

Sobe ao beiral. É um berço e balanceia

Ao vento que os filetes de oiro espalha.

E ao sol iluminado, que a amortalha,

A trama iluminada se incendeia.

 

Voa a primeira borboleta ebriada.

Vem louca, primavera de ansiedade,

Mas de repente, a asa despedaçada,

 

Rola… É o fim… A tortura da grilheta…

Maldita seja essa felicidade

Que vem da morte de uma borboleta!

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 117.

 

 





Trova do que passa

2 03 2017

 

 

 

comboios-aCartão postal.

 

 

Tudo muda, tudo passa,

neste mundo de ilusão:

vai para o céu a fumaça,

fica na terra o carvão.

 

 

 

(Guilherme de Almeida)

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A máscara, de Ladyce West

26 02 2017

 

 

lucia-helena-redig-de-campos-brasil-1945

Mulher com máscara, 2005

Lucia Helena Redig de Campos (Brasil, 1945)

óleo sobre tela

 

 

 

A máscara

 

Ladyce West

 

 

Máscara?

Que máscara?

Somos todos mascarados.

Cada qual com seu disfarce

Na passarela, no palco,

Na escola, na corte,

No hospital, no bar da esquina,

Na reunião em família,

Na lágrima sem dor.

No Bom Dia! Na Boa Noite!

No “foi bom para você”?

No obrigado ingrato.

Até os super-herois precisam de suas máscaras.

Não me venha com essa de tirar a minha máscara.

Você me reconheceria?

E ao espelho de manhã?

Fazendo a barba.

Tem certeza de que sabe quem está do outro lado?

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, dezembro, 2016.




Trova da roleta!

21 02 2017

 

 

 

il_570xn-821886684_j1pzDecoração de garrafa de bebida alcoólica, em cerâmica. Autor desconhecido.

 

 

 

Roleta da vida, espelho

dos enganos que cometo;

ponho as fichas no vermelho

e o destino grita: “Preto” !!!

 

 

(Izo Goldman)





Trova da cigana

15 02 2017

 

 

cigana-lendo-palma-stevan-dohanos-untitled-1950Cigana lendo a palma da mão, ilustração de Stevan Dohanos, 1950.

 

 

 

É normal ver a cigana
lendo a sorte de um cliente…
E ela diz que não se engana,
mas engana muita gente!
 –
(Edmar Japiassú Maia)

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Canção, poesia de Mauro Mota

9 02 2017

 

 

candido-portinari_flautista-1934-oleo-sobre-madeira46-x-375cm-col-part

Flautista, 1934

Cândido Portinari (Brasil,  1903-1962)

óleo sobre madeira, 46 x 37 cm

Coleção Particular

 

 

 

Canção

 

Mauro Mota

 

 

Para onde fui? Ou essa

música de onde veio?

Uma flauta divide

a noite pelo meio.

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 93.





Trova do casamento

2 02 2017

 

soneca-6Dona Maria Cebolácia Carneiro Menezes “Dona Cebola” e Seu Cebolácio Cogumélio da Silva “Seu Cebola” dormindo, © Maurício de Sousa.

 

 

 

– Casamento é mesmo o fim!

diz ela, no seu enfado,

– Quem suspirava por mim

agora ronca ao meu lado!…

 

 

 

(Arlindo Tadeu Hagen)

 

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Trova dos tons de cinza

24 01 2017

 

arte-artista-rpof-pardal-lampadinha-pintura-arte-abstrataProfessor Pardal quer ser pintor, ©Walt Disney.

 

Não deixe que maus momentos

ofusquem seus ideais.

Sobre “velhos” tons cinzentos,

“novas” cores brilham mais.
(Wandira Fagundes Queiroz)

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