
Da vida, pelos caminhos,
uma coisa aprendi bem:
a roseira dá espinhos,
mas nos dá rosas, também…
(A. Isaias Ramires)

Da vida, pelos caminhos,
uma coisa aprendi bem:
a roseira dá espinhos,
mas nos dá rosas, também…
(A. Isaias Ramires)
Gravura anônima do Século XIX.
Jorge de Lima
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões de rua!
Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 62
Ilustração, Griswold Tyng (American, 1883 – 1960)
O quanto te amo, querida,
nem às paredes confesso,
mas deixo a casa florida
esperando o teu regresso.
(Antonio Francisco Pereira)
Dama com flores, (Década de 30)
Oswaldo Teixeira (Brasil, 1904 -1975)
óleo s cartão, 39 X 29 cm
Naide Vasconcelos
A tua mão pequena de escultura
é cópia da pérola mais rara
ou duma rosa branca a miniatura,
talhada em fino bloco de Carrara.
O mundo inteiro deslumbrado a encara
quando, soltando a cabeleira escura,
ostentas essa mão, mimosa e clara,
num glorioso esplendor de formosura.
Tua mão lembra as trêmulas papoulas,
as conchas de nacar, as verde algas
o aroma penetrante das caçoulas
Trabalho dum antigo colorista
a tua mão, que tem poses fidalgas,
foi feita para impressionar a vista.
Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 298-9
Samambaias, foto: Ladyce West
Hélio Pellegrino
As samambaias
debruçadas no espaço
esplendem seu silêncio.
Que farta verdade
em seu verde farfalha!
Rio, 2/10/1980
Em: Minérios Domados, poesia reunida, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco: 1993, p. 47.

Casario
Francisco Céa (Brasil, 1908 – 1978 ?)
Cesídio Ambrogi
Meu vilarejo – um cromo estilizado:
O Largo da Matriz. Uma palmeira.
A cadeia sem preso nem soldado.
Calma em tudo. Silêncio. Pasmaceira.
Andorinhas em bando, no ar lavado.
O rio. O campo além de uma porteira.
Um velho casarão acaçapado
— Nossa casa tranquila e hospitaleira.
O Cruzeiro lá em cima, em plena serra,
Braços abertos para minha terra…
E eu criança e feliz. Que doce idade!
Hoje, porém, meu Deus, quanta emoção!
Do meu peito no triste mangueirão,
Cavo e soturno, o aboio da saudade…
Em: 232 Poetas Paulistas: antologia, ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 209.
Cesídio Ambrogi nasceu em Natividade da Serra, a 22 de maio de 1894. Faleceu em 27 de julho de 1974. Professor, escritor, jornalista, poeta eclético. Fundador da “Sociedade Taubateana de Ensino” e considerado presidente perpétuo da União Brasileira de Trovadores (UBT-Taubaté). Casou-se em 1920 com Petronilha Chiaradia, que faleceu em 1933. Tiveram dois filhos. Cinco anos depois, contraiu matrimônio com a advogada, professora e também trovadora Lígia Teresinha Fumagalli com quem teve mais cinco filhos.
Obras:
As moreninhas, 1923

Homem com cavalos
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885 – 1962)
óleo sobre tela, 32 x 40 cm
Wilson W. Rodrigues
Deixa o meu balaio velho
que guardei como lembrança
do tempo em que no balaio
levava muita esperança…
Eu mesmo fiz o balaio,
entrancei-o em sua trança,
cantando as minhas cantigas
que aprendi quando criança.
Com o balaio nas costas,
tive tanta ilusão mansa,
pensei até que amaria
a filha do rei de França.
Com tanta coisa sonhei!
Tudo se foi sem tardança…
Só meu balaio ficou
com minha desesperança.
Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 55.
Bolinha não tem um tostão.
Busca primeiro a virtude;
teu ouro, busca depois.
Quem não toma essa atitude
acaba perdendo os dois!
(Renata Paccola)

Ilustração de Harrison Fisher (1875 – 1934)
Ferreira Leal
Entre Elisa e a pimenta
Acho tanta semelhança,
Que quando a moça me tenta,
Vem-me a pimenta à lembrança.
Se a donzela se agonia,
Da fruta assume o rubor;
E p’ra mais analogia
Têm ambas o mesmo ardor.
Quer que uma e outra excite
O destino alterações
A pimenta – no apetite,
Elisa – nos corações.
Afinal, se mais se atenta,
Tanto acordo se divisa,
Que, como Elisa é pimenta,
Também a pimenta é lisa.
Em: Mosaico, diversos autores, Rio de Janeiro, Biblioteca Brasileira: 1878, N
º 2, agosto, página 37.