Trova do Don Juan

17 09 2024
Ilustração Arthur Sanoff.

 

 

“Don Juan” de última laia,

o meu amigo Amaral

namora até minissaia

pendurada no varal…

 

 

(Calixto de Magalhães)





Branca de Neve, poesia de Guilherme de Almeida

14 09 2024
Branca de Neve, ilustração de Nancy Ekholm Burkett

 

 

Branca de Neve

 

Guilherme de Almeida

 

Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.

Amei-te… E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada…
E és o primeiro sonho que sonhei.

Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!

Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação…

Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.

E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.

E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.

Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.

É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr…
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.


Em: Encantamento, Guilherme de Almeida,  São Paulo, Editora Nacional:1952
 





Trova da vida

3 09 2024

Olhando a vida vivida,

esta pergunta passou:

-fui eu que fiz minha vida,

ou fez-me a vida o que sou?

 

(Baptista Nunes)





Trova do rio

28 08 2024
Ilustração Nilva, 1980

 

Nem ouro, nem pedra rara,

nada que vem do garimpo,

vale um fio de água clara

no leito de um rio limpo…

 

(Aloísio Alves da Costa)





Olhos verdes, poema de Vicente de Carvalho

23 08 2024
Ilustração de revista, anos 60.  Ignoro a autoria.

 

 

Olhos Verdes

 

Vicente de Carvalho

 

Olhos encantados, olhos cor do mar

Olhos pensativos que fazeis sonhar!

Que formosas cousas, quantas maravilhas

Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo:

Cortes pitorescos de afastadas ilhas

Abanando no ar seus coqueirais em flor,

Solidões tranquilas feitas para o beijo,

Ninhos verdejantes feitos para o amor…

 

Olhos pensativos que falais de amor!

Vem caindo a noute, vai subindo a lua…

O horizonte, como para recebê-las,

De uma fímbria de ouro todo se debrua;

Afla a brisa, cheia de ternura ousada,

Esfrolando as ondas, provocando nelas

Bruscos arrepios de mulher beijada…

Olhos tentadores da mulher amada!

 

Uma vela branca, toda alvor, se afasta

Balançando na onda, palpitando ao vento;

Ei-la que mergulha pela noute vasta,

Pela vasta noute feita de luar;

Ei-la que mergulha pelo firmamento

Desdobrado ao longe nos confins do mar…

Olhos cismadores que fazeis cismar!

 

Branca vela errante, branca vela errante,

Como a noite é clara! como o céu é lindo!

Leva-me contigo pelo mar… Adiante!

Leva-me contigo até mais longe, a essa

Fímbria do horizonte onde te vais sumindo

E onde acaba o mar e de onde o céu começa…

Olhos abençoados, cheios de promessa!

Olhos pensativos que fazeis sonhar,

         Olhos cor do mar!

 

                  (Poemas e canções, 1908)





Trova da pressa

20 08 2024
Tintin e seu cachorro

 

 

Não vivas com tanta pressa…

Não sigas correndo assim…

– Quem vive muito depressa,

chega mais depressa ao fim…

 

(Rodolpho Abbud)





A Pátria, poesia de Pedro Homem de Mello

15 08 2024
Os clássicos infantis, Yvonne Gilbert (Inglaterra, 1951, English)

 

 

Pátria

Pedro Homem de Mello
 
 
A Pátria não é apenas

Um corpo de bailador.

Não são duas mãos morenas

Nem mesmo um beijo de amor

Mais do que os livros que lemos,

Mais que os amigos que temos,

Mais até que a mocidade,

A Pátria, realidade,
 

Em: Eu hei de voltar um dia, Pedro Homem de Mello, Editora Ática, 1966





Trova da Lua

13 08 2024
Ilustração Helena Perez Garcia.

Exausta de solidões

de um céu escuro e vazio,

a lua busca emoções

no leito alegre do rio.

(Durval Mendonça)





Trova do esporte

5 08 2024
Bom jogo para dois ou mais, 1865 John Leech (Inglaterra, 1817-1864)

 

Na vida do corre-corre,

muito bom é um descanso.

Para que saúde jorre,

pratique um esporte manso.

 

(Antonio Miguel Cestari)





Trova do inverno

22 07 2024
Ilustração, para Life Magazine, 1940,  Albert Dorne (EUA, 1904-1965).

 

 

Na lareira, um cobertor;

bule quente com café;

um romance ao bom leitor

neste inverno o prazer é…

 

(Fábio Siqueira do Amaral)