Ilustração Arthur Sanoff.
“Don Juan” de última laia,
o meu amigo Amaral
namora até minissaia
pendurada no varal…
(Calixto de Magalhães)
“Don Juan” de última laia,
o meu amigo Amaral
namora até minissaia
pendurada no varal…
(Calixto de Magalhães)
Guilherme de Almeida
Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.
Amei-te… E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada…
E és o primeiro sonho que sonhei.
Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!
Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação…
Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.
E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.
E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.
Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.
É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr…
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.
Em: Encantamento, Guilherme de Almeida, São Paulo, Editora Nacional:1952
Olhando a vida vivida,
esta pergunta passou:
-fui eu que fiz minha vida,
ou fez-me a vida o que sou?
(Baptista Nunes)
Nem ouro, nem pedra rara,
nada que vem do garimpo,
vale um fio de água clara
no leito de um rio limpo…
(Aloísio Alves da Costa)
Vicente de Carvalho
Olhos encantados, olhos cor do mar
Olhos pensativos que fazeis sonhar!
Que formosas cousas, quantas maravilhas
Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo:
Cortes pitorescos de afastadas ilhas
Abanando no ar seus coqueirais em flor,
Solidões tranquilas feitas para o beijo,
Ninhos verdejantes feitos para o amor…
Olhos pensativos que falais de amor!
Vem caindo a noute, vai subindo a lua…
O horizonte, como para recebê-las,
De uma fímbria de ouro todo se debrua;
Afla a brisa, cheia de ternura ousada,
Esfrolando as ondas, provocando nelas
Bruscos arrepios de mulher beijada…
Olhos tentadores da mulher amada!
Uma vela branca, toda alvor, se afasta
Balançando na onda, palpitando ao vento;
Ei-la que mergulha pela noute vasta,
Pela vasta noute feita de luar;
Ei-la que mergulha pelo firmamento
Desdobrado ao longe nos confins do mar…
Olhos cismadores que fazeis cismar!
Branca vela errante, branca vela errante,
Como a noite é clara! como o céu é lindo!
Leva-me contigo pelo mar… Adiante!
Leva-me contigo até mais longe, a essa
Fímbria do horizonte onde te vais sumindo
E onde acaba o mar e de onde o céu começa…
Olhos abençoados, cheios de promessa!
Olhos pensativos que fazeis sonhar,
Olhos cor do mar!
(Poemas e canções, 1908)
Não vivas com tanta pressa…
Não sigas correndo assim…
– Quem vive muito depressa,
chega mais depressa ao fim…
(Rodolpho Abbud)
Em: Eu hei de voltar um dia, Pedro Homem de Mello, Editora Ática, 1966
Exausta de solidões
de um céu escuro e vazio,
a lua busca emoções
no leito alegre do rio.
(Durval Mendonça)
Na vida do corre-corre,
muito bom é um descanso.
Para que saúde jorre,
pratique um esporte manso.
(Antonio Miguel Cestari)
Na lareira, um cobertor;
bule quente com café;
um romance ao bom leitor
neste inverno o prazer é…
(Fábio Siqueira do Amaral)