Resenha: O jovem, de Annie Ernaux

13 02 2025

Le quai des brumes

Francine van Hove (França, 1942)

óleo sobre  tela

 

 

Fazer resenha de alguns parágrafos sobre o livro O jovem de Annie Ernaux, com tradução de Marília Garcia [Fósforo: 2022] é mostrar que apesar de poucas páginas — um conto? — há pelo menos algo de mais sólido a ser observado sobre essa leitura.  Estou aos poucos cobrindo a obra de Annie Ernaux, volume por volume.  Não porque ela tenha sido recipiente do Nobel de Literatura 2022.  Não tenho o hábito de ler toda a obra de quem ganha o Nobel.  Mas sua prosa é de grande sensibilidade e a forma de autobiografia ficcionalizada,– sempre considero que qualquer biografia é ficção –, tem me atraído nos últimos tempos, também pela interação de história com memória. 

A linha narrativa deste minúsculo volume é simples: uma mulher de uma certa idade, tem um parceiro amoroso muito mais jovem do que ela.  O rapaz tem idade para ser seu filho.  Nas últimas décadas esse parece ser um acontecimento mais comum, menos escondido.  Vemos na mídia, com alguma frequência, senhoras envolvidas amorosamente com rapazes jovens.  Tinha impressão de que essa desigualdade de idades, com o perfil desse casal, fosse corriqueiro na França, mas, pelo visto, na época de Annie Ernaux, esse não era o caso.

 

 

O que me surpreendeu nessa história  foi perceber que a mulher, pelo menos nesse caso, acaba com atitudes e posicionamentos que vemos na descrição de homens mais velhos que mantêm relacionamentos com mulheres que, pela idade, poderiam ser suas filhas.  Não sei porque, eu achava que seria diferente: estava errada.  Nesse conto, a mulher (Annie) se sente superior ao rapaz e fada madrinha, dando ao jovem acompanhante oportunidade de viagens por diferentes cidades europeias, estadias e refeições em lugares luxuosos, ao mesmo tempo observando para si mesma e muitas vezes de maneira crítica,, gestos e maneirismos que lhe desagradam.  Ao mesmo tempo, sua exposição à penúria da vida do estudante, e aos métodos que ele usa para combater a falta de dinheiro, trazem para a narradora memórias de sua própria juventude.  Mas não há afeto.  É um estranho passeio sem emoção pela juventude da própria autora.

 

Annie Ernaux

A conclusão sobre o comportamento da mulher nessa memória fica a cargo do leitor.  Apesar de ser uma parte independente das outras obras de Annie Ernaux dessa volumosa autobiografia, acho um gesto de marketing fazer essa publicação em separado.  Talvez traga o benefício de apresentar a autora a um publico maior, que não queira investir tempo na leitura.  Mas suas outras obras, publicadas pela mesma editora podem muito bem preencher essas demandas, pois são livros de rápida leitura e poucas páginas. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: Eu vou, tu vais, ele vai, de Jenny Erpenbeck

6 02 2025

Serenidade

Sherree Valentine Daines (Inglaterra, 1959)

óleo sobre placa

 

 

Quando o meu grupo de leitura Papalivros decidiu que o final do ano seria dedicado à leitura de Eu vou, Tu vais, Ele vai, da autora alemã Jenny Erpenbeck, tradução de Sergio Tellaroli [Cia das Letras: 2024] confesso ter tido algum receio. Talvez fosse mais um livro dos tantos que apareceram nos últimos anos com agenda política ostensiva, uma das heranças mais limitantes que recebemos do filósofo francês Sartre, amplamente abraçada por militantes de minorias mundo afora, defendendo que a literatura só tem valor se politicamente comprometida.

Mas que bela surpresa tive: o livro é um escrupuloso relato das dificuldades dos países europeus em aceitarem responsabilidade sobre refugiados de guerra e imigrantes. E da tribulação por que esses refugiados, sem terra, sem emprego, sem conhecimento linguístico passam sem obter resultados positivos para a retomada de uma vida proveitosa.  Aos poucos nos envolvemos com cada um dos personagens pelos olhos de um professor de literatura clássica, que ao se aposentar e por acaso, passa a se interessar por um grupo de homens, a maioria do norte da África, que pede asilo político em Berlim.  Sua adaptação à nova vida sem as obrigações da universidade é lenta. Confronta o final de carreira e a aproximação do final de vida.  A esposa já faleceu, e a morte parece presente, bem próxima mesmo, desde que um homem se afoga no lago próximo à sua casa. Este contraponto é finamente entrelaçado na narrativa que se torna ainda mais rica quando através da perspectiva do professor vemos paralelos entre os refugiados e antigos heróis gregos da Ilíada.

 

 

 

A riqueza das  referências aos clássicos da literatura ocidental, dos gregos aos romanos, Homero, Ovídio,  tecidas junto a referências contemporâneas como “O tempo que passa: ensaio sobre a espera” de  Andrea Köhler ou lendas medievais, como O romance de Tristão e Isolda, toda elas parte do fluxo de consciência contínuo de Richard, o professor que  seguimos em seu novo papel de aposentado e interessado na vida além paredes universitárias, é a cereja do bolo dessa leitura. Entre os bônus dessas associações de ideias estão também os cognomes que ele dá aos asilados para melhor caracterizá-los para si mesmo e para o leitor.  Richard identifica história, personalidade e saga de cada um e os liga a personagens clássicos. Mesmo que o leitor não esteja familiarizado com essas referências, a leitura corre suave, mas se você as conhece, o prazer dos sorrisos de reconhecimento é enorme.

No entanto, o cerne das questões abordadas está no dilema dos países europeus e da Alemanha em especial, em aceitar e introduzir os novos habitantes na cultura do país.  A burocracia impera.  Não só porque são muitos os que procuram asilo fugindo das mais variadas guerras, revoltas, perseguições nos países do continente africano, mas também porque os sistemas europeus, repletos de armadilhas burocráticas herdadas, quer da Alemanha ocidental como da oriental, têm longas raízes na própria história do pensamento europeu.  Richard, está em boa posição para entender e se revoltar simultaneamente com a lenta resolução.  E compara como lhe apetece a experiência antes da unificação da Alemanha em 1990 e a vida que levou depois, observando também, como seus colegas,  já aposentados, reagem ao problema aos que procuram asilo. Paralelamente somos apresentados a Rashid, [Nigéria], Awad [Gana}, Osaboro [Niger e Líbia], Khalil [Chad], e outros doze homens, conhecendo suas histórias, desejos, esperanças e passado. Com eles aprendemos sobre a dificuldade de adaptação.  Falam línguas que ninguém entende quer na Alemanha, na Itália, de onde muitos vieram,  ou na Europa. Não conhecem o alemão. Vêm à procura de algum trabalho qua não existe.  Têm experiências desnecessárias para o país que os abriga.  E passam dias, semanas, meses, anos à espera.  À espera de permissão para ficar, para trabalhar.  Esperam serem vistos e respeitados, mesmo que fazendo trabalhos meniais.  Querem trabalhar e não podem. Presumem poder se adaptar, imaginam um futuro melhor, calculam maneiras de ajudar as famílias deixadas para trás, suspeitam que pode não dar certo, consideram um dia voltar às suas origens, desconfiam, com toda razão, dos europeus e especulam silenciosamente o propósito de suas vidas.

 

Jenny Erpenbeck

A meio termo da leitura, depois de conhecer através de Richard cada um dos homens procurando asilo, um após outro, numa corrente infinita de sofrimentos, fugas, guerras, lutas desesperadas pelo sobrevivência duvidei de minha capacidade de chegar ao fim desse volume. Em geral não me emociono muito na leitura, mas temi que qualquer conclusão a que se chegasse no fim desse volume, seria extremamente penosa. Mas a escrita de Jenny Erpenbeck é muito leve, justa, equilibrada. Avancei meticulosamente. E não me arrependi, Eu vou, tu vais, ele vai, – um título significativo para essa obra — traz tênue esperança de um mundo melhor. E isso foi o que bastava para que que eu o considerasse uma excelente e importante leitura. Passadas quatro semanas, posso afirmar, é um livro importante nas considerações que traz à tona, ilibadas. Ele nos faz pensar sobre o problema dos asilados. Não só na Europa. O mundo está cheio deles que fogem dos regimes mais desumanos. É um problema de todos nós, inclusive nosso, aqui no país, que abrigamos tantas famílias vindas da Venezuela. Essa leitura pode nos sensibilizar ainda mais para sua saga.

Recomendo; tornou-se um de meus livros favoritos dos últimos tempos. Sem restrições.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Água fresca para as flores” de Valérie Perrin

12 01 2025

A leitura

Bernard Charoy (França, 1931-2024)

óleo sobre tela, 74 x 61cm

 

 

Meu grupo de leitura, Ao Pé da Letra, escolheu para leitura longa  — aquele livro que é votado no final de novembro para ser debatido no encontro de janeiro — Água fresca para as flores, de Valérie Perrin, traduzido por Carolina Selvatici [Intrínseca:2022]. Grande sucesso mundial.  Para mim, não funcionou muito bem.  Raramente resenho alguma coisa de que não gosto.  Talvez tenha havido falta de empatia pela história do jeito que foi contada.  No entanto, faço uma exceção hoje para algumas observações que se aplicam aqui e que podem ser levadas a outros casos.

A história se passa no finalzinho dos anos 90 e na primeira década do século XXI, na França.  Ela se concentra na vida cotidiana de Violette Toussaint, uma mulher que na abertura do livro beira os cinquenta anos.  Ela é zeladora do cemitério numa pequena cidade francesa. Teve infância difícil, órfã, mal sabe compreender um texto escrito. Jovem, casa-se com Philippe Toussaint.  Ele é um conquistador de mulheres, não gosta de trabalhar e vem de uma família com alguma aspiração social. Violette não se importa de trabalhar e manter esse bon-vivant em sua vida. Para seguir as peripécias deste casal, a autora entrelaça a vida deles com a de outro casal mais velho que conhecemos através de um diário deixado para trás, depois que ela morre.  Esse diário traz, por sua vez, outras tantas informações, relatos de aventuras, decisões acertadas ou não da pessoa que escreve, que são desnecessárias para a trama. Além disso, conhecemos, fora deste diário, na narrativa principal diversos outros personagens tangenciais que nada têm a ver com o eixo da trama. A narrativa não linear é usada para introduzir pormenores da vida destes coadjuvantes e contribui para inserir incerteza ao leitor na ordem dos acontecimentos.  Há um terceiro personagem importante: o cemitério.  Este é um jardim, calmo, cuidado pela protagonista, lugar de reflexões dos visitantes e dela, que serve de contraponto ao caos das vidas na cidade, fora dos portões que o resguardam. É um lugar mágico que também tem alguns personagens invulgares além dos onze gatos que o habitam. 

Há através dessas páginas também o escancarado desejo de prover o leitor com frases de efeito, passando por poéticas, na maioria inconsequentes, mas que aparentam profundidade.  Muitas delas dão nome aos capítulos do livro, mas podem estar também distribuídas através do texto. A mais popular delas, de acordo com a Amazon, até o dia de hoje, 1370 pessoas, marcaram a seguinte: “Temos que aprender a oferecer nossa ausência àqueles que não entenderam a importância da nossa presença.” E, segundo lugar, com 1062 pessoas ressaltando no texto: “Ninguém nunca diz que podemos morrer de tantas vezes que nos sentimos chegar ao nosso limite.”  Ou como as que marquei que iniciam capítulos: “O tempo aniquila a vida. O tempo aniquila a morte.“;  “Uma lembrança nunca morre, apenas adormece.”  Elas me lembraram frases feitas que encontramos em postagens das redes sociais como guias do bem viver e que muitas vezes, passam por poesia.

 

 

 

Há tempos imagino como seria bom termos editores, à moda antiga, ao estilo de Robert Gottlieb ou Maxwell Perkins conhecidos por darem forma, interferindo no texto, sugerindo mudanças para escritores que ficaram famosos.  Gottlieb foi editor de Joseph Heller, John Le Carré; enquanto Maxwell Perkins ficou famoso por sugerir mudanças em mais de um livro de Scott Fitzgerald, trabalhando também com Ernest Hemingway. Outros editores, contribuindo proativamente nos textos, tiveram sucesso em transformar alguns escritores em início de carreira, em clássicos.  Com o aumento de pessoas escrevendo e a diminuição de editoras publicando desconhecidos, tendência mundial hoje, há mais escritores autopublicando aqui e no resto do mundo.  Com isso surgiu a profissão do ‘leitor crítico’ que, por uma quantia previamente estipulada, procura melhorar os textos, mostrando falhas na  coerência ou plausibilidade, na estrutura ou demais problemas. Mas seus conselhos, sempre bons, se forem profissionais competentes, não têm a força daqueles que investidos monetariamente nas obras, querem o sucesso do que publicam.  Água fresca para as flores poderia ter-se beneficiado de um bom editor à moda antiga. Com uma escrita verborrágica, suas 480 páginas poderiam ser reduzidas a um pouco mais da metade.  Por que?  Porque há muita informação desnecessária.  Se alguém sai de férias, por exemplo, somos expostos à lista de todos os itens colocados nas malas de viagem; se acompanhamos o dia a dia no cemitério, somos expostos a aulas de jardinagem que não têm qualquer importância para a trama. Tudo isso para quê? Realismo? Ambientação? Para mim, perda de tempo.

 

Valérie Perrin

 

Água fresca para as flores parece ter sido escrito para a categoria jovem adulto.  Foi um grande sucesso na Europa, e pelo que consegui perceber por minhas companheiras no grupo, um livro agradável, de que gostaram, ainda que longo.  Nem todas essas leitoras dariam a nota baixa [duas estrelas de cinco] que dei. Sei que é um livro popular.  Afinal ganhou dois prêmios na França: Maison de la Presse, 2018 (um prêmio dedicado a jovens autores) e no ano seguinte, 2019, ganhou o Les Livres de Poche Reader’s Prize, que é dado pelos leitores. Então agradou muito.  Se você está querendo simplesmente passar o tempo, investir numa leitura inconsequente mas agradável, esse livro deve estar na medida.  Mas se você gostaria de uma leitura mais complexa, inesquecível, este não é o seu livro.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: Kentukis, de Samanta Schweblin

11 12 2024

Brinquedos de férias

Valentina Valevskaya (Ucrânia, contemporânea)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

 

 

Cheguei à escritora argentina Samanta Schweblin por Kentukis, tradução de Guilherme Pires, [ed. Fósforo] por este livro ter sido incluído na primeira seleção de finalistas do Booker Internacional, em 2020.  Mais tarde descobri que a obra também havia sido nomeada como melhor ficção científica de 2020, por diversos críticos internacionais, como relata o início da sinopse da Amazon:  A Guardian & Observer Best Fiction Book of 2020 * A Sunday Times Best Science Fiction Book of the Year * The Times Best Science Fiction Books of the Year * NPR Best Books of the Year.  Com toda essa retumbante aprovação, muitos diriam que eu estava pronta para ser desapontada.  Não exatamente.  Mas tenho alguns problemas com a narrativa. A proposta é astuta, o tema é interessante e do momento.  Combina avanços tecnológicos em robótica com o uso das redes sociais. E em sua narrativa retrata o imediatismo e falta de continuidade a que nos habituamos com os clipes nos diversos portais de interação pessoal.

A história gira em torno de robôs comandados à distância, disfarçados de animaizinhos de pelúcia que se tornam companheiros de quem os compra.  Seus olhos são câmeras e por intermédio de pessoas que os dirigem, a milhares de quilômetros de distância, como se dirige um drone, eles podem se relacionar com seus mestres (donos).  Podem servir de companheiros, semelhantes a um animal de estimação. mas que precisam de recarga na bateria.  Eles podem causar problemas inesperados também aos seus donos.  Chamados kentukis, ele são vendidos como companheiros-brinquedos e rapidamente fazem sucesso no mundo inteiro.

Agora existiam aqueles aparelhos por todos os lados, tantos que até seu pai parecia começar a entender do que se tratava. Estavam frequentemente no noticiário, retratados em reportagens de comportamento ou em histórias de fraudes, roubos e extorsões. Os usuários compartilhavam vídeos em todas as redes sociais, com suas invenções caseiras de kentukis presos a drones, montados em patinetes ou passando o aspirador pela casa. Tutoriais decorativos, conselhos pessoais, milagres de sobrevivência diante de acidentes insólitos. Um kentuki panda assustando um gato e fazendo-o saltar pelo ar. Um kentuki coruja com gorro natalino batendo em sete taças com a ponta do nariz e fazendo soar uma canção de Natal.

 

 

 

O projeto de Samanta Schweblin é ambicioso. Em sua narrativa seguimos diversos kentukis, comprados com diferentes propósitos, vivendo em várias partes do mundo, dirigidos por pouquíssimas pessoas. Para nos dar a ideia desta imensa variedade de experiências dos kentukis e da profusão de personalidades de seus donos, a sequência narrativa é picada, em stacatto, não tem continuidade. Temos uma colcha de retalhos, flashes de vidas cujos personagens não conhecemos e só iremos conhecer aos poucos. São pequenos contos inacabados, que mais tarde, ao acaso, voltamos a visitar.  Essa técnica engenhosa nos ajuda na compreensão da multiplicidade de aventuras dos robô-drones e no entendimento da variada localização desses brinquedos – da Alemanha à Amazonia, por exemplo. Mas torna difícil para o leitor seguir as ‘aventuras’ sem ter que voltar atrás algumas páginas para se conectar uma vez mais com os personagens: daquela casa, daquela cidade, daquele país.  Esses relatos das vidas dos kentukis e a sequência de aventuras independentes espelha os pequenos vídeos, pedaços das vidas de pessoas que não conhecemos, em situações que podem ou não ser comprometedoras, que podem ou não ser agradáveis, qua aparecem em um feed de qualquer das populares redes sociais.

Além de retratar a multiplicidade de realidades encontradas pelos kentukis, Samanta Schweblin insere observações de alerta sobre o perigo de abrirmos nossas vidas a esses dispositivos de conexão social.  Logo no início um dos personagens reflete: Não se podia contar com o bom senso das pessoas, e ter um kentuki circulando por aí era a mesma coisa que dar as chaves da sua casa a um desconhecido.” E sobre a necessidade de haver alguma regulamentação das novas engenhocas que vieram fazer parte do nosso cotidiano.

 

 

 

Samanta Schweblin

Por se tratar de literatura, sinto que a interação dos personagens com os kentukis poderia ser um tantinho mais desenvolvida.  Mas, no todo, o livro cobre a vida das pessoas comuns e a imensa necessidade humana de companheirismo.  Esses personagens que observamos pelos olhos dos kentukis são solitários: mal conhecem seus amantes, amigos ou familiares.  Isso não escapa ao leitor.  Acompanhamos, as preocupações da autora quando percebemos que vivemos num período de transição entre uma vida com privacidade e a, atual, quase sem ela, onde podemos ser reconhecidos por câmeras de segurança nas ruas de qualquer região urbana, identificados entrando e saindo de aeroportos, edifícios, estacionamentos, shoppings, calçadas movimentadas, elevadores comerciais, transportes coletivos.   E mais, o livro aborda a imensa curiosidade humana sobe a vida alheia, que sempre existiu, mas que hoje tem a aprovação de todos.  Essa história aborda também necessidade de muitos de exibirem aquilo que os rodeia ou faz parte de suas vidas.  Essa aceitação à vigilância sobre o outro, que tomou conta das televisões abertas no mundo inteiro, desde a virada do século vinte e um, é a essência dessa obra.  Atrás de cada kentuki há um ser humano atraído por alguém, qualquer alguém, porque ele não escolhe quem o compra,  que então observa, sem a expectativa de interferir naquela realidade.  Isso nem sempre acontece, mas quando acontece os resultados são imprevistos.   Kentukis é um livro que retrata exatamente  essa “descoberta” do século: a sedução que temos pela vida alheia:”O que era aquela estúpida ideia dos kentukis? O que fazia toda aquela gente circulando por pisos de casas alheias, olhando como a outra metade da humanidade escovava os dentes?”   A descoberta de que a vida cotidiana, sem nada extraordinário, banal é chocante: “Por que as histórias eram tão pequenas, tão minuciosamente íntimas, mesquinhas e previsíveis? Tão desesperadamente humanas.

Kentukis coloca esse espelho à nossa frente para vermos o que como sociedade estamos desenvolvendo, as regras que deixamos para trás e permitimos o novo, sem regulamentação. O mundo anda depressa.  Será que sabemos nos comportar quando há tanta coisa nova? Há um personagem nessa história que diz: ou você se moderniza ou a vida te atropela”.  É um bom sumário do espírito dos tempos.

Se você gosta de ficção científica com crítica social, na tradição de Huxley ou Orwell, bem leve, este livro lhe agradará.  Recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Almoço de domingo”, José Luís Peixoto

5 11 2024

Senhora lendo

Ady de Lannay (Bélgica, 1900-1942)

óleo sobre tela

 

 

Em um grupo de escritores a que pertenço conversamos algumas vezes sobre biografias, como escrevê-las, se são ou não ficção, se queremos ou não ser ghost writers, se precisamos ter alguma empatia para com a pessoa biografada, e até que ponto biografias são ficção.  Não chegamos a qualquer conclusão nessas conversas, mas é uma temática interessante para quem escolhe a carreira de escritor.

José Luís Peixoto, no livro Almoço de domingo, abraça a oportunidade de biografar um empresário português, um milionário, que apesar de ser da região do Alentejo, a mesma do escritor, não se conheciam.  O comendador Rui Nabeiro tem de fato uma história magnifica de crescimento e sucesso da venda de café à expansão para vinícolas e depois ainda maior diversidade em outras áreas de negócios. Imagino que dadas as devidas proporções poderia ser equivalente a história de um Abílio Diniz aqui no Brasil.

 

 

Este foi o terceiro livro de José Luis Peixoto que li.  O primeiro, um livro chamado Livro, me encantou sobremaneira. Uma escrita exemplar na criatividade, sem chegar a extremos em busca da novidade. Li, anos mais tarde Nenhum olhar, completamente diferente, encantador, onírico e asfixiante,  Ambas as resenhas se encontram neste blog, e também nos sites Skoob e Goodreads.   E agora, Almoço de domingo traz outra faceta do autor, que tendo sido contratado para esta biografia, consegue inovar substancialmente a forma, usando de subterfúgio engenhoso.

A vida de Rui Nabeiro, (seu sobrenome não é nunca usado) conhecemo-lo simplesmente como Rui, é narrada em duas vozes. A onírica, na primeira pessoa, usa de toda a imaginação de Peixoto e compõe  os pensamentos, emoções de Rui, enquanto a voz narrativa, a que nos revela a história do personagem principal, é objetiva e precisa.  As duas vozes se misturam sem criar qualquer problema e como resultado temos uma visão tridimensional do personagem principal.  Sabemos de seus pensamentos e sonhos assim como de suas ações e os motivos delas serem executadas.

 

 

 

José Luís Peixoto

 

Em nenhum momento a narrativa se arrasta. O ritmo é preciso e cobre em um pouco mais de duzentos e cinquenta páginas os noventa anos do biografado. Dos três livros que li de José Luís Peixoto este não é o meu favorito.  Mas confesso ter grande apreço pela maneira como o autor resolveu a difícil tarefa de fazer uma biografia para um público geral de uma pessoa desconhecida além das fronteiras portuguesas, e ainda assim conseguir seduzir o leitor a ler com gosto a obra.

Àqueles que acreditam um dia escreverem a biografia de quem quer que seja, recomendo a leitura não só como exemplo de criatividade mas sobretudo na seriedade com que a forma da biografia é tratada.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: Todas as manhãs do mundo, Pascal Quignard

15 10 2024

A lição de música, 1717

Atribuído a Jean-Antoine Watteau (França, 1684-1721)

óleo sobre tela

Wallace Collection, Londres

 

 

 

Este pequeno livro é um dos poucos traduzidos no Brasil do premiado autor francês, Pascal Quignard. Todas as manhãs do mundo, tradução de Yolanda Vilela [editora Zain:2023] não chega a ter cem páginas, em edição cujas dimensões parecem aquelas de um livro de bolso. Seu texto mesmo pequeno no original, já foi transformado em um filme de Alain Corneau, de bastante sucesso com adaptação do próprio autor do romance, em 1991, ano de sua publicação na França. Por isso mesmo, hoje ele é a obra mais popular de Quignard.

Trata-se da biografia, fictícia, de um verdadeiro músico francês, do século XVII, Jean de Sainte-Colombe, cujos poucos detalhes conhecidos de sua existência se resumem a pequenos apontamentos de Marin Marais, este sim, músico mais conhecido da época.

Sainte-Colombe foi um dos primeiros e grandes compositores de peças para a viola da gamba, instrumento que começava a se popularizar no século XVII na Europa.  Na Inglaterra essa viola consiste em geral de seis cordas, enquanto na França ela é mais usada com sete cordas, como aparece no livro e como Sainte Colombe a usou. No entanto quer com seis ou sete cordas, ambos instrumentos são tocados com arco.

 

 

 

 

De acordo com o posfácio, sabe-se muito pouco da vida de Sainte-Colombe: tinha duas filhas, muitos alunos e era um mestre da composição para a viola da gamba que tocava em um trio com suas duas filhas.  Tudo que sabemos vem das anotações do músico Marin Marais, que havia sido seu aluno e que eventualmente foi músico na corte de Luís XIV.

A história nos apresenta Sainte-Colombe conhecido professor fazendo apresentações no interior da França, viúvo, não tem qualquer interesse pela vida na corte, porque não acredita que lá estariam os verdadeiros amantes da música.  Dedicadíssimo à sua arte, ele amarga, inconsolável, a perda da esposa que tanto amava, morta em 1650. Ensina as duas filhas a tocarem a viola da gamba e se apresenta com elas em trio que ficou conhecido pelos apreciadores da arte. Nas quase cem páginas em que o seguimos, selecionando alunos, sendo convidado a tocar em Paris e  percebemos a dicotomia para ele, entre o silêncio e a música.  Sainte-Colombe, impaciente e dado ataques de cólera, goza da inabilidade de se expressar, exceto pelas composições que produz. Desse modo,é um exemplo de sua própria definição do que é música: “A música existe simplesmente para dizer o que a palavra não pode dizer.” [85]

 

 

 

Pascal Quignard

Além de escritor Pascal Guignard é um talentoso violoncelista fundador do Festival de Ópera e de Teatro Barroco de Versalhes. Tal dedicação à musica traz grande riqueza à sua escrita.  Não são poucas as descrições na história relacionadas aos sons que rodeiam os quatro personagens principais: Sainte-Colombe, suas duas filhas e Marin Marais.  Ao ler este texto, pare e preste atenção. Outra faceta a notar é a descrição dos locais e hábitos da época.

Foram 98 páginas de deleite.  Leitura deliciosa, perfeita para uma tarde chuvosa ou um fim de semana preguiçoso.  Recomendo sem restrições

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: Cora do Cerrado, de Tana Moreano

5 07 2024

Menina lendo livro, 1937

Winifred Pattison (Inglaterra, 1920)

[née Winifred Wheeler]

óleo sobre tela

 

 

 

É gratificante quando sou apresentada a uma nova escritora, em seu primeiro romance, e saio da leitura entusiasmada, imaginando como será bom me encontrar no futuro, com a autora em outra obra de ficção.  Tana Moreano  presenteia o leitor com prosa direta, sem grandes rebuscados, contando uma história eletrizante, perfeitamente ritmada, sem cenas repetitivas, sem causar um único um momento de tédio.  Sua escrita me pegou logo no primeiro capítulo de Cora do Cerrado, [Maringá, Editora: A. R. Publisher Editora: 2024]. Eu já vinha seguindo a escritora no Instagram, em razão dos vídeos em que explicava palavras encontradas no português falado no interior do país, que muitas vezes eu desconhecia.  Foi assim que me familiarizei com a escritora e quando o livro apareceu em pré-venda, decidi imediatamente comprá-lo. De fato, o livro será lançado neste fim de semana, no sábado, dia 6 de julho no Centro de Ação Cultural, à Avenida XV de Novembro, Zona 01 em Maringá-PR às 19h.  Se puder, vá lá prestigiar o nascimento de uma boa escritora.  Porque Tana Moreano é uma engenheira agrônoma, carioca de nascimento e mineira de coração, que por seu trabalho acabou “assimilando vivências e costumes” de diversos locais do Brasil. Esse conhecimento adquirido in loco, essa vivência íntima com a vida recôndita do país, aparece na firmeza da prosa com que relata as aventuras de Cora.

Fui puxada para a história da personagem principal desse pequeno romance, pelo relato da primeira cena do livro, quando somos apresentados ao que irá acontecer em algum ponto da narrativa.  Sabemos de antemão que presenciamos as consequências de algo com sintomas de catástrofe acontecida a essa personagem à qual ainda não fomos formalmente apresentados.  Contudo, por isso mesmo, desde as primeiras vinte linhas, começamos a torcer por ela.  Sabemos que está correndo perigo.  Nossa simpatia é imediatamente seduzida por suas ações e a tensão é tanta, que não dá vontade de parar de ler até sabermos como foi que chegamos àquele ponto.  Fui fisgada como um peixe com a boca presa no anzol e não resisti.

 

 

 

 

Ainda que ao descrever esse início eu possa ter passado a ideia de se tratar de um suspense, isso está longe da verdade, pelo menos pelos parâmetros mais comuns dos contos de suspense.  Há sim, uma busca tenaz do leitor por resolver o mistério que justificará a cena inicial.  Porém, esta é a história de uma mulher que, tendo nascido na cidade grande, conhece um homem do interior e acaba indo morar na fazenda da família dele no cerrado.  Jovem, com um filho pequeno de um relacionamento anterior, cujo namorado desapareceu, ela se encontra no início de uma gravidez, desta vez do rapaz que a leva à vida no campo. Sua adaptação a esse novo mundo é repleta de desafios. Mas ela precisa, também, superar limitações interiores para ser bem sucedida na empreitada do viver.  Não há como não torcer por Cora.

 

 

 

Tana Moreano

 

 

 

Além de se tratar de uma trama irresistível, Cora do Cerrado cumpre um papel importante, ao mostrar aos leitores, um exemplo de perseverança e de rigoroso desejo de sobrevivência.  Com olhos ‘estrangeiros’, de alguém que não pertence ao local onde vive, ela observa o comportamento daqueles à sua volta.  Aprende  com as mulheres com quem se relaciona a prática do próprio sustento em ambiente inóspito.  Ela se familiariza  com o mínimo para superar os obstáculos que lhe são impostos tanto pela natureza, quanto pelos costumes locais e ganha, graças à imensa vontade de se ajustar a esse novo mundo, coragem para superar limitações físicas e emocionais.  Cora é uma heroína exemplar.

Ao final do livro me peguei recordando que na minha juventude e até mesmo nas leituras que fiz como jovem adulta, raramente encontrei, na literatura brasileira,  exemplos tão atraentes de mulheres vencedoras como Cora. Encontrei sim, sacrifícios semelhantes, mas no geral, lembro-me mais de mulheres que se submetiam com ou sem resignação aos modelos impostos pelos tempos.  E considerei quanto ocasionalmente teria sido importante para mim, poder recorrer em hora de dúvida, a um personagem como Cora.  Ainda bem que esta veio ´para preencher esse vazio no nosso mundo.

Recomendo sem restrições. Violência atenuada por exemplar discrição. E  não é gratuita.  Vale a leitura, espero que se transforme em livro de grande sucesso.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: As filhas moravam com ele, André Giusti [contos]

1 07 2024

Homem lendo à luz de lampião

Adrien Hebert (França-Canadá, 1890-1966)

óleo sobre tela

 

 

Terminei hoje a leitura de As filhas moravam com ele, uma coleção de contos do escritor e jornalista André Giusti, [Nova Lima, MG, Editora Caos e Letras: 2023]. Há muito tempo não me dedicava a um grupo de contos com tanto prazer. Para mim, contos, crônicas e poesia são coletâneas que leio aos poucos, um texto por dia, porque por serem pequenos, em geral, entregam muito, já que não podem se perder na narrativa.  Todos os três gêneros têm a habilidade de causar impacto rápido e certeiro. E isso acontece com as histórias deste autor carioca, radicado em Brasília.

Giusti traz contos enraizadas no desvario que nos rodeia e que sem querer assimilamos ao viver numa grande cidade, hoje.  Ele retrata a insensatez que nos instiga, corrompe, empurra e muitas vezes atraiçoa na vida cotidiana.  Constante nessas vinte histórias é a incredulidade da pessoa de bem que quer simplesmente tocar a vida com calma, segurança e bom-senso.  Invariavelmente nos vemos nos personagens das histórias.  Se não nos vemos, conhecemos alguém que entra direitinho naquele perfil. No entanto, frequentemente as situações em que elas se encontram, mesmo que corriqueiras, trazem consequências inesperadas, quase absurdas, que as deixam pasmas, beirando a inércia.  E fica o profundo sentido de frustração permeando as histórias; pois não é raro, diante de uma consequência imprevisível, que a resposta do homem comum seja apenas uma série de impropérios que aliviam só de modo superficial os desatinos que encontrou.

 

 

 

 

Vale salientar que André Giusti não é um iniciante no trato da palavra.  Jornalista por profissão e autor de pelo menos doze livros, ele traz na sua narrativa algumas preciosas imagens e descrições diretas que não deixam dúvidas sobre sua capacidade de dizer exatamente o que pretende. Cito aqui dois exemplos, o primeiro pela divertida e carinhosa descrição de uma mulher:  “Mariana ri com os olhos levemente vesgos e intensamente alegres. Os olhos de Mariana parecem esquilos escapulindo por árvores de um parque.” [110]  E em segundo lugar, um exemplo da maneira direta com que nos conta muita coisa com apenas uma frase:  “Para desfazer o possível constrangimento real, Robério toma um grande gole de chope, arrota sem conseguir ser discreto e anuncia que tem novidade: vai ser avô, e faz uma cara que nos deixa em dúvida se ele acha bom ou ruim. [60] Estas maneiras variadas na escrita revelam completo domínio da arte.  É narrativa que seduz o leitor.

André Giusti

Não sei se estou certa ao dizer que a escrita de Giusti tem o tom do carioca. Penso que ele foi para Brasília, mas que o Rio de Janeiro não saiu dele. Ritmo, irreverência, diálogos e filosofia de vida de seus personagens parecem saídos dos meus vizinhos, dos meus conhecidos, dos meus ouvidos. Mas além disso, sinto nessa coletânea o retrato de como está realmente dura, difícil de gerenciar a vida nos nossos dias, sobretudo o cotidiano do homem, daquele que só pretende levar uma vida comum, de conhecedor de alguma coisa, de vivenciador de algumas belezas e tristezas, de cidadão que quer acertar na educação da filha, no romance com a mulher, no convívio no emprego. Em nenhum momento, que fique claro, isso é explícito nessas histórias. Mas ao terminar a leitura, repassando o que li, fica essa consideração: está difícil manobrar a vida com as exigências que nos foram impostas, a impaciência geral e a intransigência generalizada. Você quer um retrato da vida de hoje? É aqui que vai encontrar.

Recomendo sem qualquer objeção a leitura desse delicioso livro. Cinco estrelas.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha, “Não é um rio” de Selva Almada

29 04 2024

Josien

Arjan van Gent (Holanda 1970)

óleo sobre  tela, 50 x 65 cm

 

 

 

Meu grupo de leitura Ao Pé da Letra, já havia escolhido Não é um rio, de Selva Almada, com tradução de Samuel Titan, Jr, como leitura para o mês de abril, antes mesmo do livro ter sido anunciado como finalista do prêmio Booker Internacional deste ano.  Há, além disso,  a curiosidade deste livro estar competindo com o livro Torto Arado do escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior, também finalista para o mesmo prêmio. O grupo leu o livro brasileiro em fevereiro de 2021. Ainda brincamos, no nosso encontro de sábado, que mais uma vez estamos diante de uma competição Brasil x Argentina, já que a autora é natural da Argentina. Mas dessa vez  a rixa não é no futebol.

Todos do grupo gostaram do livro.  Ainda que alguns sentissem a necessidade de mais conteúdo de alguns personagens, mais complexidade na trama. O livro é pequeno, há aproximadas cem páginas de texto, e características de alguns personagens poderiam ser aprofundadas, fazendo o texto mais rico,  mais tridimensional.  Há personagens fortes e herméticos.   As personagens mulheres parecem tão enigmáticas quanto o olhar masculino as julga.

 

 

 

 

 

 

Confesso que gostei do livro como está.  Sem necessidade de aprofundamento dos personagens.  Gosto de textos curtos, impactantes, que marcam pela elipse, por tudo que não dizem.  É uma maneira de engajar o leitor que dá de si ao preencher as lacunas, ao entender o que foi sugerido.  Selva Almada tem uma maneira de escrever lacônica.  Não há uma palavra extra, nenhuma palavra extra para ênfase.  A narrativa mistura passado e presente, e por isso requer atenção. Há muitos personagens.  Há os personagens humanos e há pelo menos dois personagens não humanos: a floresta tropical, e o rio.  Há um tantinho de realismo mágico, na dose certa. Para mim, fiz algumas notas para manter cada personagem no seu lugar, com sua história, algo raro em texto tão curto.  Mas talvez isso tenha sido porque não li o livro de uma só vez, ainda que ele possa ser lido em duas horas. 

 

 

 

Selva Almada

 

 

Mas há uma característica dessa narrativa que me cativou e a colocou à frente de muitos livros;  Esta é uma história que mostra a violência de pessoas comuns.  Exibe o desprezo de muitos pela vida.  A vida é algo barato.  Dispensável,  Todos morremos e sofremos.  E revela o lugar deprimente das mulheres nesse enclave a que somos apresentados. É o retrato da bestialidade humana, das atrocidades cometidas no cotidiano de um grupo que se reserva um mínimo civilizatório.  Apesar disso, a narrativa é tão precisa, tão pontual e hábil que aceitamos tudo sem espanto, sem choque.  Nesse aspecto, Selva Almada se mostra uma mestre, sem igual.  Não me surpreende que hoje seja conhecida como uma das grandes escritoras argentinas. Recomendo a leitura.





Cara Paz, de Lisa Ginzburg, resenha

12 02 2024

Vestido de flores

Franco Bresciani (Itália, contemporâneo)

acrílica e colagem sobre tela, 50 x 50 cm

 

 

Cara Paz  de Lisa Ginzburg, tradução de Francesca Criscelli é um romance italiano, finalista do Prêmio Strega de 2021 (Itália). Foi a escolha de um dos meus grupos de leitura para o mês de fevereiro. Trata-se da história de duas irmãs.  São interdependentes, quatorze meses as separam e, no entanto, Madalena e Nina são muito diferentes, e se veem como “irmã sol, irmã lua” [159].  Filhas de um casal divorciado, elas sofrem na infância e na adolescência com a separação dos pais, principalmente porque circunstâncias legais não as deixam morar com nenhum dos progenitores.  Moram sozinhas com uma governanta numa casa grande.  Pouco veem a mãe, Glória, que sai deste casamento infeliz e veem o pai, a cada quinze dias, que, fotógrafo profissional, trabalha,  a maior parte do tempo, a mais de seiscentos quilômetros de distância, em Milão. As referências todas remetem à década de 70 do século passado e a ênfase dada à narrativa da separação traz um gosto passado, de questão social ultrapassada, narrativa estereótipa e banal.  Quantas e quantas histórias já lemos sobre crianças sem pais próximos, e quantas mais precisaremos ler?  Há de haver algum outro tema, outro enfoque ou perspectiva.   O processo do contar da história também me pareceu antigo, sem objetividade e repetitivo.

 

 

 

 

O que me fez achar anacrônica essa narrativa? Primeiro, todos os personagens têm nome, sobrenome, ocasionalmente apelidos, mesmo aqueles que mais tarde vemos serem de menor importância.  Isso taxa e dificulta o leitor atento que imediatamente se põe a memorizar detalhes que se mostrarão irrelevantes para a conclusão da história. Segundo, passeamos por Roma suas ruas, famosas lojas de Gucci a sorveteria e café Giolitti;  sabemos por que rua ou estação do metrô precisamos andar para chegar à Prima Porta ou se pegamos ou não a linha do metrô Leonardo Express.  Marcamos também lagos, praias, ilhas em que as meninas passam férias, visitam, sem falarmos dos bairros em que, mais tarde, já adultas,vivem, uma no Brooklyn, NY outra em Paris. Basta virar algumas páginas e lá estamos com uma sequência de pontos referenciais de Roma, Paris e Nova York, sem sabermos exatamente a razão de sermos apresentados a esses lugares. Não me surpreenderia se alguma promoção de turismo romano não tivesse patrocinando a publicação.  No fundo, no final mesmo da história, fica aquela sensação de que é uma obra direcionada às socialites, àqueles que precisam saber a marca do sorvete que tomam, a marca do carro comprado, a loja de moda em que alguém trabalha.  As mulheres são marcadas por sua beleza, elegância. Não se pode falar de Gloria sem mencionar sua beleza, nem da filha Nina sem mencionar seus olhos verdes. Pouco se sabe da beleza de Maddi, mas ao final um amante casual, nos diz que ela é bela.

As irmãs crescem e vivem vidas mais glamourosas do que seria de se esperar, um marido trabalhando na UNESCO, outro proprietário de mais de uma galeria de arte de sucesso.  É um mundo irreal, que tenta se enraizar no mundo real pela menção de todos os lugares pelos quais os personagens passam.  A atenção de leitor é sempre direcionada à Nina, que tem um temperamento difícil e se comporta com rebeldia;  Madalena passa a juventude contornando os problemas de Nina, mas pouco sabemos do que sente.  Casa-se com um francês, tem filhos, leva a vida de uma mulher mantida pelo marido, sem trabalhar, sem profissão, um papel que de novo me leva a achar o tema obsoleto, com ranço de uma sociedade que já acabou, que já passou. De repente, nos capítulos finais do livro, ela nos surpreende, com um encontro extraconjugal, com rapaz muito mais jovem, desconhecido.  Ficaram confirmadas minhas suspeitas de que estava diante de um conto de fadas para mulheres ociosas.

 

 

Lisa Ginzburg

 

 

Vim a este livro com grande expectativa.  Há tempos li A família Manzoni de Natalia Ginzburg, avó de Lisa, e esposa do conhecido editor, escritor e jornalista Leone Ginzburg.  A família GInzburg está por algumas gerações ligada ao mundo cultural italiano. Infelizmente fiquei decepcionada com o resultado desta leitura. Sei que Lisa Ginzburgo é autora de outras obras.  Infelizmente esta não me cativou.   Muito longa, poderia ter menos umas cinquenta páginas, rasa, repetitiva.  Três características que me levam a não recomendar a leitura.

—-

Uma observação sobre a tradução do título.  Li que o título, Cara Paz, que não faz o menor sentido em português, foi mantido ao pé da letra para honrar o trocadilho que existe em italiano, carapaça e cara paz.  Mas francamente, não há como em português darmos esse salto para o entendimento.  Temos, há muito tempo,  o hábito de trocar nomes de filmes e de livros no Brasil, pensando em como melhor chegar ao leitor ou espectador de um filme.  Porque não fazer isso com esse livro?  Honrou-se o literal em prejuízo da compreensão. Não faz sentido.  Como mostrar ao leitor do que se trata?  E mais, este título não faz o menor sentido no marketing pata o livro.  Má escolha editorial.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.