Há muito tempo um livro não me encanta tanto quanto Orbital de Samantha Harvey, tradução de Adriano Sacandolara [Editora DBA, 2025]. A obra, vencedora do Booker Prize em 2024, é uma cuidadosa ponderação sobre a vida, a Terra, nosso lugar no Universo. Ainda que acompanhemos seis astronautas que orbitam a terra, não há diálogos, não há trama. Em seu lugar, somos convidados a compartilhar com a autora a visão, o encantamento e o privilégio de, com ela, viajarmos em volta do nosso planeta e nesse trânsito refletir sobre a grandeza do espaço, a pequenez do planeta azul, a fragilidade de nossa existência.
Não se trata de prosa poética. Mas o livro é repleto de poesia e do encantamento que poesia provoca. Com grande sensibilidade atravessamos as dezesseis órbitas que fazem um dia no espaço e que, por sua vez, designam os dezesseis capítulos do livro. A cada um deles voltamos ao nascer do dia numa parte do planeta, diferente da anterior, ou ao acender das luzes quando a noite chega em algum continente. Essa forma circular, de voltar e voltar a um ponto semelhante ao do início é usada desde a antiguidade para a meditação. O círculo sempre esteve ligado à ponderação e introspecção. Os conhecidos labirintos meditativos, desenhados no chão, como o da Catedral de Chartres na França, assim eram para levar o pensamento do andarilho de volta através de uma espiral circular a um ponto semelhante ao anterior. É isso que acontece com o leitor em Orbital. Junto à equipe de astronautas voltamos sempre mais ou menos ao mesmo ponto, mas um pouco diferente. As ruminações são inescapáveis.
“Os continentes passam como as campinas e vilarejos na janela de um trem. Dias e noites, estações e estrelas, democracias e ditaduras. É só à noite, quando você vai dormir, que você se alivia dessa esteira perpétua. E mesmo ao dormir você sente a Terra girar, assim como sente uma pessoa deitada ao seu lado. Você a sente ali. Sente todos os dias que penetram sua noite de sete horas. Sente todas as estrelas efervescentes e os humores dos oceanos e o tropeço da luz contra a pele, e se a Terra parasse por um segundo na sua órbita, você acordaria de sobressalto, ciente de que há algo errado.“
Difícil imaginar as incontáveis horas de pesquisa que Samantha Harvey deve ter dedicado a visões da Terra da perspectiva de quem a vê do espaço, nem muito longe, nem muito perto. Suas descrições, suas observações precisas e poéticas são imperdíveis e trazem a sensação de verdadeira experiência. E nos deixam extasiados. Outras tantas horas devem ter sido dedicadas ao estudo da rotina dos astronautas antes e durante os voos, assim como os tipos de pesquisas que são executadas em voo.
Samantha Harvey
Esse livro é uma homenagem à Terra mas é também uma austera e enigmática reflexão sobre nosso papel nesse planeta, nesse Universo. Ponderação sobre nossa inimaginável necessidade de ir além, de conquistar. A prosa é belíssima e delicada. Para os apreciadores da pintura há uma longa reflexão sobre Velazquez e menções sobre Turner. Mas sobretudo essa ruminação poética sobre o ser humano e seu lugar no universo é profunda, toca a alma e faz pensar.
Com Anton, Roman, Nell, Chie, Shaun e Pietro, os astronautas de diversas nações aprendemos, como Harvey nos diz que:
“A humanidade não é esta ou aquela nação, é tudo junto, sempre juntos, venha o que vier.”
Pensativa foi minha reação à leitura de A voz de tempo, de Lenah Oswaldo Cruz. Por coincidência, horas depois, quando ainda estava sob o impacto da leitura, recebi de uma amiga, a conhecida frase de Luís Fernando Veríssimo: A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Esse seria um resumo parcial das contorções emocionais dos quatro personagens envolvidos nessa biografia familiar: Luiz, Dora, Victor e Lenah. Com ajuda da autora, navegamos pelos mares tempestuosos das paixões, dos amores e desejos de seus pais, e testemunhamos as consequências, o legado deixado aos filhos pelo comportamento destemperado dos progenitores.
Luiz era um homem de família muito pobre que encontrou na igreja um meio de se educar e trazer alívio às vicissitudes da pobreza em que ele e seus pais viviam. Inteligente, brilhante mesmo, com conhecimento acima de todos à sua volta, que a bela educação no seminário beneditino lhe proporcionou, Luiz não se tornou padre sem dúvidas sobre essa escolha. No entanto, não viu outro caminho aberto que pudesse preencher suas necessidades. Fervoroso, dedicado, segue pelo magistério até encontrar a belíssima aluna, que chega atrasada para sua primeira aula. Dora era de uma beleza estonteante. Mas mais que isso, era inteligente, interessada, devoradora de livros, capaz de sustentar um argumento intelectual melhor do que muitos homens de seu tempo. De espírito intrépido, desafiador, fazia o que queria sem as entravas sociais que a maioria respeitava. Vinha de uma família abastada, da alta sociedade. Duas pessoas fisicamente atraentes, que se encontram no respeito e na admiração pelo intelecto do outro. O incêndio amoroso é quase instantâneo. Mas ele é padre. Para ambos essa é uma paixão impossível, o que torna o relacionamento ainda mais intenso.
Victor e Lenah são as crianças dessa loucura. Luiz eventualmente deixa a batina, mas a vida não é fácil e Dora, a bela e rebelde mulher que conquista quem ela quiser, acaba desinteressada. Eventualmente, há outro homem no caminho. Um americano, também casado, também inteligente, belo e rico. Mas, essa paixão tem um preço para Dora: ela terá que não trazer seus filhos para o convívio diário do novo casal, depois que ambos, conseguindo o divórcio, se estabelecerem em novo casamento. Mas que divórcio? No Brasil da época não há divórcio. Há o desquite. E há um preconceito enorme contra os desquitados (principalmente a mulher nessa situação indefinida de status civil) e também contra as crianças frutos do relacionamento do casal que se separa. Pais não querem seus filhos em companhia dessas crianças, nem nenhum contato com seus progenitores. Esse é apenas um dos grandes empecilhos encontrados por essas quatro almas protagonistas dessa biografia de família. E volto à frase de Luís Fernando Veríssimo: A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
As crianças não só são deixadas de lado por Dora que verá os filhos nos anos vindouros sem frequência regular; mas Luiz também os abandona, porque olhar para a menina, que é a imagem da mãe, dói muito. Esse pai, ex-padre, passa a vida sem olhar para sua filha, olho no olho. Suas interações são sempre sem que ele a olhe no rosto. Luiz também se casa, com uma viúva, que traz para o casamento uma filha do relacionamento anterior, que ele trata muito melhor que a própria filha. Victor e Lenah são colocadas em colégios internos no Rio de Janeiro: ele no Anglo-Americano, na praia de Botafogo, enquanto Lenah vai para o Bennett, no Flamengo.
Lenah Oswaldo Cruz
Não pretendo dar a história completa da família biografada. Mas não posso deixar mencionar alguns pontos que me fizeram pensativa. É impressionante que em duzentas páginas se consiga identificar tantos sentimentos nesse imbróglio familiar. Sair dessa leitura sem meditar sobre o que move nossas almas: amor, ódio, paixão, reconciliação, traição, abandono, perdão, preconceito, coragem e tantos outros sentimentos primordiais, não teria sido uma leitura completa, digna do texto publicado. Somos também forçados a considerar o progresso que tivemos nas normas sociais do país. Não teria sido tão rica narrativa sem as memórias escritas de Luiz, lembranças de familiares, e experiência vivida por Victor e Lenah.
Essa é uma leitura impactante, que não nos deixa tempo para respirar. Viciante. Recomendo a todos. O livro está em sua segunda edição. Agora na Amazon em papel e eletrônico. Essa foi a segunda vez que li A voz do tempo. A primeira, foi no lançamento de 2017. Meu grupo de leitura Ao Pé da Letra, contudo, escolheu essa nova edição para leitura de agosto, já que a recente publicação (2025) está recebendo bastante atenção. Para nossa alegria tivemos a oportunidade de um encontro com a autora, após a leitura. Foi delicioso. Recomendo. Além da biografia há um esquete bastante repleto de surpresas da vida no Rio de Janeiro nas décadas de 30 a 50.
Faço questão de escrever minha avaliação sobre esse livro: ou a tradução não está boa, ou a escrita é falha. Não dá nem para decidir qual desses problemas é o maior. Sou leitora de muitos anos de literatura japonesa contemporânea e clássica. Encontrei nesse campo livros fenomenais, mas esse foge dessa experiência, por completo.
Ler um livro em que chego ao final sem saber: 1) quem está narrando, 2) é um homem? 3) é uma mulher? Não sei. E de repente achar que foram mais de um narradores… não faz sentido. O livro não tem inicio nem fim claros. Sei que deve ser um tipo realidade distópica. Mas distópico ficou o meu cérebro querendo saber exatamente por que? Por que estava lendo esse texto? Um livro pequeno que pareceu interminável.
E ganhou prêmios! E há resenhistas dando 5 estrelas! Meu palpite: não leram Dizer como a editora diz: uma literatura semelhante a do escritor checo Franz Kafka, mas atual e do Japão, é intencionalmente apontar para farsa. Tenho certeza de que se possível Kafka está revoltado em seu túmulo com essa comparação. Não gastem o seu dinheiro com esse livro. Li porque foi o livro escolhido por votação no meu grupo de leitura. Todos os participantes não gostaram inclusive aqueles que, como eu, chegaram até o fim. Porque a maioria abandonou no caminho.
O que ganhei com esse livro? Aprendi sobre um rodente sul-americano: núria. Acho que poderia ter vivido o resto de minha vida sem conhecê-lo. NOTA ZERO
Línguas, de Domenico Starnone, com tradução de Maurício Santana Dias, foi o terceiro livro do autor que li. Posso dizer que gostei de sua escrita desde que o encontrei em Assombrações(2018) e Laços(2017). Gosto imensamente de sua voz narrativa: calma, nostálgica, reflexiva. Sua escrita é de nuances. Ele não precisa abrir o jogo, contar tudo, tintim por tintim. Ele nos deixa espaço para imaginar e sonhar; ar para respirar e tempo para absorver o lugar, os sons, as memórias do autor que se imiscuem com as nossas.
Línguasé um pouco diferente dos outros que li. Menos fluido. Tem breque. É uma obra em dois tempos. Primeiro vemos o delicioso despertar do primeiro amor de um menino de oito ou nove anos, em Nápoles. Ele se apaixona por uma menina do edifício em frente ao dele. Ela é bem mais arrojada que ele, flerta com a morte, dançando no peitoril da varanda. Ela é diferente. Diferente de tudo que ele conhece. Ela não é como ele, do sul da Itália. Vem do norte e por isso, para surpresa do apaixonado garoto, ela fala com outro sotaque, usa vocabulário diverso, demonstra maneira de se expressar inesperada. A paixão dele, só aumenta. É o fascínio do outro, do desconhecido. Mas, para atrapalhar, no horizonte, há Lello, um amigo, que também se apaixona pela milanesa. Com o triângulo amoroso formado, a briga pela atenção da menina se desenvolve. Irão às vias de fato? Deixo isso para descoberta do leitor… Depois… temos a segunda parte dessa história. Os dois, que em criança haviam sido apaixonados por Emanuela, se encontram, são jovens adultos. Continuam a não se gostar e nesse encontro, e só então, Lello, o rapaz que sabe tudo de tudo, revela o verdadeiro destino da jovem bailarina de Milão.
Além da fascinante arte narrativa de Starnone, aprecio as diversas referências à literatura clássica em suas obras. Da mera alusão à mitologia greco-romana, aos contos medievais, vamos nos informando, circundando assuntos cujas menções ecoam e enriquecem o texto. Em Línguas, a própria abertura, o primeiro parágrafo ele já se refere ao trágico mito grego de Orfeu e Eurídice. A leitura atenta, já vislumbra, nas primeiras frases que abrem o texto, por causa dessa referência, um desfecho trágico, uma morte, quem sabe?
“Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos. Tinha acabado de aprender nas aulas de italiano da escola a fábula de Orfeu e Eurídice debaixo da terra, onde ela havia ido parar por causa de uma picada de cobra. Eu planejava fazer o mesmo com uma menina que infelizmente não era minha namorada, mas que poderia vir a ser caso eu conseguisse tirá-la das profundezas da terra, enfeitiçando baratas, gambás, ratos e musaranhos.” [7]
Domenico Starnone
Línguas apresenta reflexões sobre dois temas constantemente ligados na literatura e no nosso emocional: amor e morte. Desde da Grécia antiga, e até antes disso, a relação entre essas duas profundas experiências fascinou poetas, escritores e filósofos. Por isso, não é surpresa que Starnone os considere, mesmo ao falar do primeiro amor — aquela paixão emocional que nasce na infância dos personagens, vista pelos olhos de quando eram crianças. Mas o texto é mais rico ainda, como complemento há contrastes entre juventude e velhice, línguas faladas tão próximas umas das outras e ainda assim estranhas. A riqueza do texto encanta e seduz.
Esse é um livro que aflora a sensibilidade do leitor. Não é repleto de fortes emoções ou de diálogos arrebatadores. Starnone é mais fino, dedica-se a tênues paralelos. As observações desse menino de nove anos são curiosas, engraçadas, trazem um leve humor para o texto, mas nem por isso deixam de ser perspicazes, deixam de elaborar complexos argumentos. Boa leitura. Dessas que adicionam. Recomendo sem restrições.
Este é o quarto livro de Chimamanda Ngozi Adichie que leio. Como outros leitores que gostam de sua escrita esperei dez anos para essa nova produção. Finalmente A contagem dos sonhos veio, trabalho pós pandemia, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Júlia Romeu. É óbvio que não há falta de assunto para a autora, nunca houve, por tudo que já li dela, Chimamanda continua loquaz na sua escrita.
A sensação que tive é que após alguns anos sem publicar, a autora tinha muito, muito mesmo, a dizer sobre mulheres e seus sonhos. O livro é extenso. Sinto que poderia ser dividido em dois excelentes romances com diferentes diretrizes. Isso porque ele relata desejos, sonhos e o cotidiano de quatro mulheres que lutam para se realizar economicamente, profissionalmente, além de preencherem seus destinos de esposas, amantes, mães e filhas. Não é um conjunto fácil de tarefas a concretizar. Essa luta, a persistência na busca, a procura do preenchimento do sonho é a coluna dorsal da obra. Ela trata das expectativas frustradas, dos obstáculos do dia a dia, e mostra a quase impossível ideia de casar sonho com realidade.
Não falta vontade, perseverança, educação ou dinheiro a três dessas mulheres: Chiamaka, Zicora e Omelogor, as três nigerianas. O caso de Kadiatou já é diferente desde de seu nascimento. Outra obra deveria ser escrita para ela. Originária da Guiné ela se faz adulta dentro dos ditames da educação muçulmana. Traz consigo os limites de seu papel social que diferem daqueles das outras três personagens, quando emigra, acaba sofrendo consequências traumáticas pelas quais não é responsável.
As quatro mulheres são apresentadas em sequência, e têm suas vidas levemente entrelaçadas. Chiamaka abre a narrativa. Ela é escritora-jornalista especializada em escrever colunas para revistas de viagem, vem de família rica, emigra para os EUA, não tem problemas financeiros e é apoiada pelos pais, mas não consegue encontrar um parceiro de vida adequado. Zikora, a segunda que conhecemos, é amiga de Chiamaka e pode até ter sido apresentada ao leitor anteriormente, já que sua história apareceu como um conto independente, em 2020, Zikora, pela Amazon Original Stories. Lá, é personagem principal. Aqui, a mesma história: advogada de sucesso em Washington DC, que se vê igualmente lograda na escolha de um companheiro de vida. Quando engravida é deixada de lado pelo homem que ama. Foi durante o parto e nos dias subsequentes que conseguiu perceber as dificuldades que sua mãe teve, e consegue reconciliar seu desejo com o que sua mãe imagina para ela e o neto. Omelogor, é prima de Chiamaka, mas as duas não poderiam ser mais diferentes. Ela também se muda para os Estados Unidos para estudar. Tem muito sucesso no campo das finanças. Mostra também seu lado de defensora das mulheres quando dá conselhos para homens, incentivando-os a agir de maneira mais ‘civilizada’ em seu blog. Entra em controvérsias, mas é autêntica. Das três nigerianas, ela é a personagem mais tridimensional, suas faltas, pecados, erros de julgamento a fazem uma pessoa completa. Talvez seja a mais interessante das nigerianas.
Chimamanda Ngozi Adichie
Finalmente, na sequência, temos a história de Kadiatou, comovente, triste, de grande poder dramático. Sua relação com as outras mulheres retratadas é que ela foi empregada de Chiamaka, e vai para os EUA, asilada, procurando uma vida melhor para sua filha. Essa história, completamente diferente das outras, até mesmo no tom, lembra um caso real que chegou às manchetes dos jornais por volta de 2011, quando de uma camareira de hotel foi abusada por um homem de negócios de alto nível, em Nova York. Para mim, essa história deveria ser um livro à parte. Principalmente porque na seção final quando voltamos a saber de Chiamaka — cujo relato fecha o livro — percebemos ainda com maior precisão a diferença de tom usado nas três primeiras narrativas, e a dela. E também os problemas que afetam Kadiatou serem de muito maior grandeza do que os enfrentados pelas outras.
O que as une é a constante procura do amor e da felicidade. Todas acabam frustradas pelos homens que escolhem, pelas escolhas que fazem ou pelas pressões sociais. Com esse perfil fica óbvio que Chimamanda Ngozi Adichie continua dando voz às frustrações das mulheres que lutam contra o machismo, o racismo e desigualdades sociais. Tudo dentro do tradicional perfil de suas obras, que conquistaram, a cada publicação, milhares de leitores devotos. Mas neste livro acredito que ela poderia ter sido mais sucinta. O livro é longo. E se arrasta em algumas passagens. Para mim, sua melhor obra até hoje, mais redonda, mais completa, é Meio Sol Amarelo, narrativa de grande impacto. Se você nunca leu Chimamanda Ngozi Adichie, recomendo que comece com Hibisco Roxo, o mais leve e mais direto de seus romances. Mas recomendo A contagem dos sonhos com as restrições mencionadas acima.
De cinco estrelas, no máximo eu lhe daria entre três e quatro. Mas não há meios pontos nesse jogo. Fico com quatro, em admiração por todo trabalho dessa escritora.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Museo d’Arte Moderna e Contemporanea di Trento e Rovereto
A carteira, de Francesca Giannone, traduzido para o português por Roberta Sartori [Editora LVM: 2024] , é o primeiro romance da autora, chamada por alguns como uma “segunda Elena Ferrante“. Esse livro foi vencedor do Prêmio Bancarella de 2023. A comparação com Ferrante talvez seja uma das razões de seu grande sucesso – mais de 625.000 livros vendidos em 2023. Só a localização italiana, acompanhando a narrativa sobre uma mulher e sua família, amigos e parentes, no entanto, não é suficiente para transformá-la em uma segunda autora com potencial de ser universalmente aclamada. Falta-lhe a riqueza nos detalhes relevantes, e o desenvolvimento psicológico dos personagens esboçados para que a comparação se justifique.
Uma história com ingredientes interessantes que se perde, nas quatrocentas e mais páginas: detalhes desimportantes, com laudas facilmente subtraíveis, sobretudo no último terço, sobre a construção da Casa da Mulher. A sinopse parecia boa: uma mulher do norte da Itália se casa com um italiano do sul e vai morar com ele na Puglia, onde ele se encarrega de desenvolver uma vinícola, nas terras que herdou. Anna o acompanha. Dona de um espírito independente, culta, leitora, acaba trabalhando como carteira da cidade, após concurso, quando quebra as expectativas de todos, familiares e habitantes locais, por trabalhar numa posição até então ocupada por homens. Considerada uma estranha no ninho, por seus hábitos e linguagem de outra região, ela teria a oportunidade de conhecer e interagir com os habitantes de Lizanello, [Lecce] entregando cartas e telegramas para toda a população.
No entanto, essa troca entre habitantes e Anna não é explorada pela autora, ainda que seja sugerida na sinopse. O livro se arrasta cobrindo algumas décadas da vida da carteira, enquanto a trama se perde no núcleo familiar de Anna, seu marido Carlo e filho Roberto; na atração que Antonio, irmão de Carlo, tem por Ana, no passado de Carlo, familiares, filhos legítimos ou não, e um ou outro personagem como Giovanna vítima de um relacionamento abusivo com um padre. Mas se espremermos o conteúdo temos uma novela televisiva, em que intrigas e amores proibidos são alimento para um longo volume que merecia bom editor, para cortar cenas inúteis, diálogos que não levam a nada e enchem o leitor de informação espúria para a trama.
Terminei o livro com a sensação de tempo perdido. É superficial. É adolescente. Não é livro para leitor maduro. Francesca Giannone poderia e deveria entregar mais. Percebi nela algumas características que costumo ver nos escritores de primeira viagem. Sua obra poderia ser melhorada com a assistência de um bom editor. Pergunto-me : para que um prólogo? Em que ele ajudou nessa narrativa? Outros detalhes de primeiros romances: muitos personagens nomeados que aparecem uma única vez e não participam mais do resto da trama. Uma das primeiras regras de uma boa edição: personagens com nomes devem ser sempre aqueles que o leitor precisa gravar para entender o enredo. Enfim, há espaço para melhorias na escrita. Mas é preciso que a autora e que seus editores queiram que isso aconteça, e que não se deitem no sucesso da primeira obra, porque pode ser que não se sustente. Francesca Giannone toca em assuntos queridos na atualidade: emancipação feminina, mulheres trabalhando, votando, mulheres em profissões fora do esperado, mudança em preconceitos sociais. Mas não se aprofunda em nenhum desses aspectos. Tudo não passa de conversa fiada, de um aceno ao espírito da época.
Francesca Giannone
Uma palavra sobre a edição brasileira: deveria ter tido mais rigor na revisão. Aponto aqui alguns problemas que saltaram aos olhos: duas maneiras de escrever o nome Agata ou Agatha. Ambos aparecem no texto. Há frases inteiras que não fazem sentido, mostro algumas mas há mais. Imagino serem resultado de uma revisão final pela inteligência artificial que não distingue homônimos ou que deixa passar a palavra correta na ordem errada. 1) “Ela havia ficara em recuperação.” [169]; “ele cresceu de forma surpreendentemente” [228]; “No final, ele dará há algo para ele também” [350] “A dela mãe a expulsou de casa” [433].
Não recomendo. Preferiria dar uma estrela negativa, mas não posso. Fica uma estrela pelo esforço da escritora, pela tradução e alguns pontos a menos pela revisão editorial. Não conheço essa editora. Não começamos com o pé direito. Espero que melhorem no futuro. Não pretendo colocar o Prêmio Bancarella entre aqueles cujos vencedores farão parte da minha lista de futuras leituras. Ver que esse prêmio existe há setenta e dois anos e que teve como vencedores Ernest Hemingway (1953), Boris Pasternak (1958), Oriana Fallacci (1970); Umberto Eco (1989) entre outros conhecidos nomes da literatura mundial é surpreendente. Não sei o que houve em 2023.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Acabo de ler O colibri do escritor italiano Sandro Veronesi, tradução de Karina Jannini [Editora Autêntica Contemporânea: 2024] obra que recebeu o Prêmio Strega (Itália), em 2020. O autor já havia recebido o Strega em 2006 pelo livro Caos calmo publicado no Brasil em 2007. Trata-se da história de vida de Marco Carrera: seus sucessos, atribulações, amigos, amores, filha, neta, uma narrativa que cobre o período de vida adulta do protagonista. Costumo gostar de ficção que se metamorfoseia em biografia de um personagem fictício, gente comum. Duas obras que considero excelentes nesse gênero são: Os diários de pedra, da escritora canadense Carol Shields, que recebeu os prêmios Pulitzer e National Book Critics Circle, 1995 e As aventuras de um coração humano, do escritor britânico William Boyd. Dois livros que me emocionaram quando seus protagonistas chegaram ao final da vida. Essas narrativas demonstram algo que o próprio Sandro Veronesi diz desejar retratar: “o heroísmo da vida comum”. O propósito é que o leitor consiga se ver ali, como pessoa comum, como sua própria vida também é repleta de aventuras, obstáculos que parecem intransponíveis, requerendo decisões hercúleas. Demonstrar como a vida não é linear, mas tecida de vai vens, de erros e acertos. Veronesi consegue transmitir isso, consegue mostrar como a vida de Marco Carrera também é heroica. No entanto, por mais que eu simpatizasse com seus enfoques, problemas, empecilhos e me surpreendesse com as reviravoltas daquela vida, esse médico oftalmologista, não me emocionou nem durante, nem ao fim de sua jornada. Vamos então ao que me foi problemático. Tudo se resume a uma questão de estilo.
A maior restrição que tive a essa obra, e não é a única, foi o exagero de informação transmitida ao leitor. A verbosidade de Veronesi [rara de encontrar na literatura atual] faz a prosa pesada, tediosa. Um bom editor teria aconselhado o escritor a cortar vários excessos. Vejamos: um email entre irmãos sobre os móveis herdados dos pais, mostra um interminável rol de poltronas e sofás que jamais terão importância no texto.
“2 sofás dois lugares Le Bambole, metal, couro cinza, poliuretano, Mario Bellini para B&B, 1972 (20.000 €) 4 poltronas Amanta,* fibra de vidro e couro preto, Mario Bellini para B&B, 1966 (4.400 €) 1 poltrona Zelda, madeira tingida em tom jacarandá e couro em cor natural, Sergio Asti, Sergio Favre para Poltronova, 1962 (2.200 €) 1 poltrona Soriana, aço e couro anilina marrom, Tobia e Afra Scarpa para Cassina, 1970 (4.000 €) 1 poltrona Sacco,* poliestireno e couro marrom, Gatti, Paolini e Teodoro para Zanotta, 1969 (450 €) 1 poltrona Woodline, madeira curvada a quente e couro preto, Marco Zanuso para Arflex, 1965 (1.000 €) 1 mesinha de café Amanta, fibra de vidro preta, Mario Bellini para B&B, 1966 (450 €) 1 mesinha baixa 748, teca marrom, Ico Parisi para Cassina, 1961 (1.100 €) 1 mesinha baixa Demetrio 70, plástico laranja, Vico Magistretti para Artemide, 1966 (150 €) 1 mesa La Rotonda, cerejeira natural e cristal, Mario Bellini para Cassina, 1976 (4.000 €) 1 estante modular Dodona 300, plástico preto, Ernesto Gismondi para Artemide, 1970 (4.500 €) 2 estantes modulares Sergesto, plástico branco, Sergio Mazza para Artemide, 1973 (1.500 €)“
Informação que não leva a lugar nenhum. Não leva a NADA! É prosa auto condescendente, discurso empolado, que se repete adiante na lista de livros de ficção científica também da mesma herança. Teria o objetivo de encantar o leitor com a raridade dos livros encontrados? Se foi essa a intenção, não funcionou. Seria o caso de o autor precisar mostrar conhecimento nesse campo, para quê? E para quem? Ocorre, então, a ideia do intelectual demonstrando pesquisa sobre uma era. Necessidade de mostrar conhecimento. Mas o romance não é uma tese de mestrado ou documento de pós graduação. Para quem ele está exibindo esse conhecimento?
Outro aspecto da verbosidade é o detalhismo com que descreve locais. Concordo que a Itália tem alguns dos mais deliciosos e sedutores espaços, praças, recantos de todo mundo; mas a proposta dessas descrições não parece ser só a caracterização do carinho que Marco Carrera tem pelos locais por onde perambula.
“De fato, um dos lugares mais bonitos do mundo, isto é, o chamado Granarone2 do Palazzo Caffarelli (bonito não pelas intrínsecas qualidades arquitetônicas, que não tem, mas por sua posição, que domina todo o lado sudoeste da colina do Campidoglio até o rio Tibre, ou seja, a área em que se encontram as ruínas dos templos de Jano, de Juno Sóspita, da Esperança, de Apolo Sosiano, de Santo Homobono e do Pórtico Republicano no Fórum Holitório, além da basílica de São Nicolau em Cárcere e da Rocha Tarpeia em sua totalidade e de três quartos do Teatro de Marcelo; na Idade das Trevas, tornara-se pasto para cabras, e por isso foi rebatizada de “Monte Caprino”; no final do século XVI, foi requalificada pela construção, justamente em seu ponto mais alto, do Palazzo Caffarelli no Campidoglio, por parte da antiga e homônima família da nobreza municipal romana; em meados do século XIX, foi adquirida, com palácio e tudo, pelos prussianos, e por eles enriquecida com outros edifícios mais simples, entre os quais o mencionado Granarone, para onde foi transferido o Instituto Germânico de Arqueologia; depois, em 1918, após a derrota do Império Prussiano, inteiramente readquirida pela municipalidade de Roma), além de servir como sede da Advocacia Capitolina, naqueles anos abrigava o departamento da Casa Comunal,onde os atos judiciários são conservados e notificados aos interessados. Em outras palavras, as pessoas que eram objeto de alguma queixa, denúncia ou de ações judiciárias tinham de retirá-las ali, no Granarone.“
Essas observações todas nos são dadas ainda nas primeiras cinquenta páginas do livro. É um problema que quase pede uma leitura dinâmica. Mas não é só. A narrativa se torna tão conturbada quanto a vida de Marco, pela forma não linear da exposição. Saltitamos do passado recente ao presente ao passado longínquo. E todos os possíveis meios de comunicação são utilizados, de e-mails a mensagens nos celulares e depoimentos. É um leque imenso que se abre de diferentes estilos de prosa. De novo, fica a sensação do autor querer demonstrar suas habilidades. O que não deveria ser necessário, não é marinheiro de primeira viagem. Já é altamente reconhecido.
Sandro Veronesi consegue, ao final, seu objetivo: reconhecermos que a vida de uma pessoa comum, pode ser heroica; e provavelmente é. A vida de qualquer um de nós pode ser essa vida heroica. Só a partir do meio do livro, a leitura parece mais amigável. Os olhos correm com maior facilidade sobre o texto. Mas no final, antes de fechar o livro, voltei a ter essa sensação de que o autor precisava demonstrar o subtexto da obra, as origens do que o levara a escrever, no capítulo chamado Dívidas: um capítulo inteiro de notas e explicações, de onde veio essa ideia, que conto o autor leu que o inspirou para qual capítulo e o máximo da auto condescendência, quando cita a si mesmo! Como é mesmo que ele faz? Vejam:
“No capítulo “Urania”, a escrita a lápis no frontispício do romance de ficção científica é algo verdadeiro, referente a mim mesmo, e foi adaptado para a obra. Na realidade, foi meu pai, enquanto eu nascia não me lembro mais em qual hospital, em Florença, que escreveu estas palavras no frontispício do romance da coleção Urania que estava lendo…“
Não gostei. Estou surpresa que tenha recebido o maior prêmio de literatura da Itália. Das cinco estrelas, máximo de pontos que dou aos livros neste blog, dei duas. Conheço leitores que deram quatro estrelas e alguns que gostariam de ter subtraído uma ou duas estrelas abaixo de zero. Esse não é um livro para um leitor iniciante. Estou surpresa de ver tantas resenhas enaltecendo O colibri. Não recomendo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Minha amiga Regina Porto do blog Livro Errante indicou Nas pegadas da alemoa, de Ilko Minev [Buzz Editora: 2021] para leitura. Marcamos de conversar sobre o livro no último dia do mês, mas já vou colocar aqui minhas impressões. Foi uma ótima surpresa. Gostei da leitura principalmente porque aprendi muito sobre o norte do Brasil, sobre a Amazônia, sobre o Amapá. É uma região do Brasil que não conheço, mas que atrai o olhar do mundo todo, que está nas manchetes há anos e que nós brasileiros aqui do sudeste em geral não conhecemos bem.
Eu classificaria essa obra como aventura, com informações históricas, tratadas com objetividade jornalística, detalhando riquezas e perigos no meio ambiente, tudo isso com um leve toque de romance para suavizar a narrativa e não considerá-la exclusivamente texto instrutivo. O autor não escreveu esse romance para competir com Dostoiévski ou Gabriel Garcia Marquez. Sua intenção é informar e divertir. E consegue. Dois de seus livros já se tornaram best-sellers no Brasil. Este, que ficou cinco semanas consecutivas na lista dos mais vendidos no país em 2022, e Na sombra do mundo perdido, que ainda não li, entre os mais vendidos em 2018. Ilko Minev tem uma história pessoal interessante que o deixa ao mesmo tempo narrar como observador de fora e mostrar a vida amazônica no seu âmago. Naturalizado brasileiro, nasceu na Bulgária, de onde emigrou, graças às restrições políticas do governo comunista na época. Eventualmente veio para o Brasil, depois de uma parada na Bélgica. Formado em economia, era para ter ficado por seis meses trabalhando no setor eletrônico, em 1972, mas foi ficando. E ficou, para nossa alegria, orgulho e enriquecimento. Tornou-se um empreendedor de sucesso no Amazonas, fazendo parte da comunidade judaica de Manaus. Quando se aposentou, dedicou-se a escrever histórias da Amazônia.
O livro começa contando algo surpreendente: a Alemanha, antes da Segunda Guerra Mundial havia mandado uma expedição para exploração do território brasileiro, no Amapá. Vieram com muito material. Estavam ciumentos da França, da Inglaterra e da Holanda terem aqueles territórios ricos das guianas (que ainda não eram países independentes) e queriam explorar o Amapá para terem também sua “guiana”… Eu nunca tinha ouvido falar disso e fiquei surpresa.
“… em 1935, ainda antes da Segunda Guerra Mundial, realmente houve uma bem organizada e bastante sofisticada expedição alemã, munida de hidroavião e de outros recursos avançados para a época, que, com a ajuda do governo Vargas, passou um ano e sete meses conhecendo e mapeando aquela remota e completamente desconhecida região na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Pelo que pesquisei, os alemães colheram amostras, catalogaram boa parte da flora e da fauna e estabeleceram contato com as tribos indígenas antes mesmo de o Brasil marcar presença naquelas bandas.”
Ilko Minev
Assim como esse fato histórico é apresentado, detalhes da vida cotidiana no norte do país são apresentados com riqueza suficiente para deixar curiosidade e gosto de quero mais. Não só detalhes históricos do passado, descrições de pequenas cidades na Amazônia ou testemunhos do trabalho das ONGs ou até mesmo políticas do governo francês em relação à Guiana, mas também descrições das cachoeiras e plantas da região seduzem o leitor. Mas esse é o relato de uma aventura que deixa o leitor torcendo pelo sucesso da excursão planejada para procurar uma pessoa, conhecida como Alemoa, fruto de um casamento da época do expedição alemã ao Amapá. Mas sabendo de todo o planejamento que foi feito, torcemos com mais gosto ainda para um final feliz
Gostei muito do livro e recomendo a todos que queiram fazer um giro pelo norte do Brasil de hoje. A linguagem é clara, narrativa direta, um tantinho de romance para ligar a trama do início ao fim e muito, muito conhecimento generosamente oferecido.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Nos últimos tempos, o grupo de leitura Ao Pé da Letra tem votado um maior número de obras de literatura brasileira contemporânea para leitura mensal, sem, no entanto, se limitar ao nicho. A escolha de março foi Antonio da escritora paulista Beatriz Bracher [Editora 34: 2010 — minha edição foi eletrônica, kindle]. Essa foi uma obra intrigante, que deixou os leitores do grupo, anotando nomes de personagens, fazendo árvores genealógicas, passando-as para o WhatsApp do grupo, escrevendo suas dúvidas sobre o que liam — quem é quem? — à medida que a história era construída. Por que? Trata-se de narrativa indireta de um segredo de família, sem que o leitor saiba de antemão quem ocupa qual papel no emaranhado das relações familiares.
Três gerações são abordadas, para que a quarta possa saber de onde vem e estar, eventualmente, ciente dos segredos mantidos por essa tradicional família brasileira. Somos tragados no emaranhado de feitos e desfeitos de diferentes gerações, em capítulos narrados por alguns personagens, que só entendemos quem são com muita atenção ao texto. Como em toda família há pessoas que demonstram comportamentos esdrúxulos, fora de série, inusitados, ainda que tenham por base, a época em que vivem e suas razões. A história da família é o tema da obra, contada por três diferentes pontos de vista. Cada um deles como se estivéssemos em sua presença, numa tarde, num dia não especificado, contando causos. A narrativa é não linear com linguagem casual, imitando a maneira de falar comum. Por isso mesmo, os textos são cheios de idas e vindas nos detalhes trazendo um efeito circular na contação.
O resultado é uma escrita perfeitamente inteligível, registrada como falamos. Cada capítulo é um imenso monólogo, dando a aparência de ter sido registrado ipsis verbis. Mas para dar esse efeito tão natural, certamente a escritora submeteu o texto a inúmeras edições para, finalmente chegar a registro tão semelhante à língua falada. Parabéns para ela. Realmente, cada um dos capítulos parece um relato de alguém sentado no sofá à nossa frente.
Mas essa maneira de contar uma história se torna um jogo de gato e rato em que a escritora, com todo poder nas mãos, brinca com o leitor. É um quebra-cabeças para quem lê, que se vê em um labirinto tal qual os labirintos de jardins do século XVIII, que nos dão ânsias para descobrir a saída, mergulhando, a caminho da solução, numa espiral descendente até o fim. A forma enigmática do livro Antonio trouxe à mente o livro As iniciaisde Bernardo Carvalho que assim como esse precisa ser desvendado, ainda que de maneira totalmente diferente.
Beatriz Bracher
Antonio foi a obra colocada em segundo lugar no Prêmio Portugal Telecom de Literatura e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. em 2009. Recomendo? Com restrições. Não sei até agora, e já li esse livro há duas semanas, se o final, se a resolução do enigma, vale o esforço e as horas de dedicação do leitor. Mas, como tenho facilidade de deixar de lado livros por diversos motivos, não importa se grandes ou pequenas obras, de autores conhecidos ou não, ver que Antonio me fez ir até o fim e que a trama, me levou a apreciar o poderoso domínio narrativo de Beatriz Bracher tem que ser levado em consideração. Há equilíbrio entre forma e conteúdo. Esse foi o primeiro livro da autora que leio. Três estrelas de cinco.
NOTA1: tenho muitos leitores portugueses que certamente observarão algo diferente: Antonio aparece sem acento circunflexo através da obra.
NOTA2: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Mais uma excelente escolha do grupo de leitura Papalivros neste ano — O barman do Ritz de Parisdo escritor francês Philippe Collin [Record: 2025, minha edição: Kindle] com tradução de Yvone Benedetti — conta a história de Frank Meier, famoso barman daquele hotel. Baseado nas próprias lembranças do personagem principal, acompanhamos a tomada do Ritz pelos oficiais alemães desde de o início da ocupação alemã da França, no que é conhecido como governo Vichy até a liberação de Paris, no final da guerra.
São inúmeros os livros de ficção que cobrem a Segunda Guerra Mundial, mas há relativamente poucos tratando do dia a dia da França ocupada, ou seja no governo Vichy. Lembro-me bem da popular série publicada nos anos oitenta, da escritora Regine Deforges, cujo primeiro volume de três chamava-se A bicicleta azul, e se concentrava no período da França ocupada, mas não na área de ocupação necessariamente. Um dos livros que li, que me deu outra visão desse período foi o de anotações de um diário do escritor inglês Somerset Maugham, Assunto Pessoal. Bem mais recente, houve a publicação do best-seller Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr, mas mesmo esse não se detém no cotidiano da guerra na ocupação alemã da França. Isso tem aparecido mais em filmes. De qualquer jeito, O barman do Ritz de Paris, vem para preencher esse pequeno hiato. E fazer muito mais, porque o Hotel Ritz havia sido escolhido como local preferido do comando do exército alemão em Paris.
Essa é uma narrativa ágil, cheia de viradas na trama que não foram inventadas, ou feitas para manter a atenção do leitor. Trata-se de um relato de quem assistiu, vivenciou e colocou sua vida em perigo, vivendo com os nazistas, sendo ele mesmo um judeu austríaco, protegendo outros judeus à sua volta, mas trabalhando em Paris, servindo a todos os militares alemães.
Para o leitor há ainda o prazer de ver circularem personagens famosos e históricos que encontram no Ritz alívio para o período da ocupação alemã. Conhecido por sua habilidade de compor deliciosos drinques, já com fama internacional desde que chegara a Paris depois do sucesso que tivera como barman em Nova York, Frank Meier diariamente, durante toda a ocupação, se preocupa com os dois mundos que o circundam no Ritz, desde o domínio alemão sobre a capital da França. De Ernst Hemingway a Coco Chanel, somos expostos pelos olhos de Frank Meier, aos segredos daquela sociedade e seus truques para sobrevivência. Nem sempre os generais famosos, escritores ou no caso de Chanel, saem dessa narrativa com o brilho que hoje lhes damos, o que torna a narrativa ainda mais interessante.
Philippe Collin
O autor, Philippe Collin, jornalista, escritor, radialista escreveu um livro agradável de ler, coordenou com eficácia as partes do diário de Frank Meier e a narrativa histórica. Ficamos familiarizados com a história do Ritz, que sobreviveu muito bem e até hoje é um marco na paisagem urbana de Paris, mas também percebemos que a sobrevivência naquelas circunstâncias exigia muita flexibilidade em atitudes, sem comprometer os princípios de cada um. Essa é uma narrativa que nos faz lembrar que somos humanos e cada um sobrevive de maneira diferente.
Recomendo a leitura, rica em detalhes, em ação, vivaz, mas que deixa espaço para entendermos a complexidade dos sentimentos dos que sobreviveram à guerra.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.