O casamento de Aurélia: “Senhora” de José de Alencar

11 06 2014

Gari_Melchers_Marriage1Casamento, 1893

Gari Melchers (EUA, 1860-1932)

óleo sobre tela, 82 x 60 cm

Minneapolis Institute of Arts

 

 

“Reunira-se na casa das Laranjeiras, a convite de Aurélia, uma sociedade escolhida e não muito numerosa para assistir ao casamento.

A moça não aceitou a idéia de dar um baile por esse motivo; mas entendeu que devia cercar o ato da solenidade precisa, para tornar bem notória a espontaneidade de sua escolha e o prazer que sentia com esse enlace.

Não faltaram amigos e conhecidos, que sugerissem a Aurélia a lembrança de fazer o casamento à moda européia, com o romantismo da viagem logo depois da cerimônia, a lua-de-mel campestre, e o baile de estrondo na volta à Corte.

Ela, porém, recusou todos esses alvitres; resolveu casar-se ao costume da terra, à noite, em oratório particular, na presença de algumas senhoras e cavalheiros, que lhe fariam, a ela órfã e só no mundo, as vezes da família que não tinha.
Celebrara-se a cerimônia às oito horas. Lemos conseguira um barão para servir de contrapeso ao Ribeiro e um monsenhor para oficiar.

Quanto à madrinha, Aurélia escolhera D. Margarida Ferreira, respeitável senhora, que lhe mostraradesinteressada amizade, desde a primeira vez que a encontrou na sociedade.

No momento de ajoelhar aos pés do celebrante, e de pronunciar o voto perpétuo que a ligava ao destino do homem por ela escolhido, Aurélia com o decoro que revestia seus menores gestos e movimentos, curvara a fronte, envolvendo-se pudicamente nas sombras diáfanas dos cândidos véus de noiva.

Mau grado seu, porém, o contentamento que lhe enchia o coração e estava a borbotar nos olhos cintilantes e nos lábios aljofrados de sorriso, erigia-lhe aquela fronte gentil, cingida nesse instante por uma auréola de júbilo.

No altivo realce da cabeça e no enlevo das feições cuja formosura se toucava de lumes esplêndidos, estava-se debuxando a soberba expressão do triunfo, que exalta a mulher quando consegue a realidade de um desejo férvido e longamente ansiado.
Os convidados, que antes lhe admiravam a graça peregrina, essa noite a achavam deslumbrante, e compreendiam que o amor tinha colorido com as tintas de sua palheta inimitável, a já tão feiticeira beleza, envolvendo-a de irresistível fascinação.

– Como ela é feliz! diziam os homens.

– E tem razão! acrescentaram as senhoras volvendo os olhos ao noivo.

Também a fisionomia de Seixas se iluminava com o sorriso da felicidade. O orgulho de ser o escolhido daquela encantadora mulher ainda mais lhe ornava o aspecto já de si nobre e gentil. Efetivamente, no marido de Aurélia podia-se apreciar essa fina flor da suprema distinção, que não se anda assoalhando nos gestos pretensiosos e nos ademanes artísticos; mas reverte do íntimo com uma fragrância que a modéstia busca recatar, e não obstante exala-se dos seios d’alma.

Depois da cerimônia começaram os parabéns que é de estilo dirigir aos noivos e a seus parentes. Só então reparou-se na presença de uma senhora de idade, que ali estava desde o princípio da noite.

Era D. Camila, mãe de Seixas, que saíra de sua obscuridade para assistir ao casamento do seu Fernando, e sentindo-se deslocada no meio daquela sociedade, retirou-se com as filhas logo depois de concluído o ato.

Para animar a reunião as moças improvisaram quadrilhas, no intervalo das quais um insigne pianista, que fora mestre de Aurélia, executava os melhores trechos de óperas então em voga.

Por volta das dez horas despediram-se as famílias convidadas.”

Em: Senhora, José de Alencar, originalmente publicado em Capítulo XII, páginas 35-36, versão PDF, Biblioteca Nacional. Em domínio público.





Imagem de leitura — Rachel Deacon

9 06 2014

 

 

 

Spellbound-36-x-28Spellbound by Rachel DeaconEncantada

Rachel Deacon (Inglaterra, contemporânea)

óleo sobre tela 90 x 70 cm

www.racheldeacon.com





Imagem de leitura — Angelo Batti

6 06 2014

 

 

622 Angelo Batti_Conciliada ao sono

Angelo Batti (Itália, 1933)

óleo sobre cartão telado, 33 x 22 cm





Imagem de leitura — David Farrant

6 06 2014

 

 

David_FarrantSem título

David Farrant (Inglaterra, 1938)

 





Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 2 — #PHpoemaday

3 06 2014

 

 

michael j downs (Canada)Leitura

Michael J. Downs (Canadá, contemporâneo)

www.michaeldowns.com

 

 

O Céu de Hoje

Ariadne Cavalcante

 

O céu de hoje
Tem cor de melancolia
Tem a cara do poeta
Tem nuvens repletas de poesia
E um sol tímido entre frestas.

 

Pelada na cama

 

Marina Lobo

 

De uma fresta do edredom, vejo a moça peladona da previsão do tempo sorrir ao dizer: “Hoje teremos a madrugada mais fria do ano!” Ela deve ter algum problema, claro. Só pinguins, piriguetes e donos de restaurantes de fondue sorriem com o frio. Olho pro céu cinza e espirro. De novo. Para enfrentar o inverno, é preciso mau-humor e um tanto de roupa! Tirar tudo isso e entrar no chuveiro é coisa pra macho! Lavar o cabelo comprido à noite, é só pra quem é corajoso ou feliz de mais! Trocar o pijama e sair pra trabalhar, é atestado de coragem insana profunda. Eu sigo aqui nada pelada, equipada com três casacos, uma rinite, meia gripe e muitas saudades do cara que grita “Olha o mate!” no verão pelado de Ipanema.

 





Imagem de leitura — William Herbert Dunton

2 06 2014

 

 

William Herbert Dunton (EUA 1878-1936)Retrato de Vivian E.Dunton com livro, c. 1920

William Herbert Dunton (EUA, 1878-1936)

óleo sobre placa

 





Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 1 — #PHpoemaday

2 06 2014

 

 

Uli Fritz(Alemanha, 1958), gü liest, 40x80 cm, acryl auf leinwand.www.ulrike-fritz.deBoa leitura

Uli Fritz (Alemanha, 1958)

acrílica sobre tela, 49 x 80 cm

www.ulrike-fritz.de

 

Autorretrato

Victória Albuquerque

 

Sou uma forma nominal,
Não aceito conjunção,
Mas aceito a condição
De manter os pés no chão
Se depois
Puder voar.
Sou forma nominal
Mas não tenho forma
Nem cor, ou traço
Sou nominal,
Mas não sou nome,
Tampouco.
Sou gesto, sou voz,
Sou mente.
Substantivo abstrato,
Inconsequente.
Nem forma, nem nominal,
Transparente.

 

Falso Enigma

Vinicius E. C. Dias

 

Ao reabrir meus olhos,
Levanto-me ainda um pouco ontem.
Dirijo-me ao mesmo banheiro,
Ao mesmo espelho,
Mas me encontro outrem
Hoje.
Espero algum tempo,
Pois se ele não traz compreensão,
Ao menos diminui a tensão
De saber-se desconhecido.
Sorrio então ironicamente.
O espelho retribui:
Mente.
Eu sou meu autorretrato.

 

Auto retrato

Juliane Gamboa

 

Eu temporal

de todas as multidões
de todas as gerações
de todas as rebeliões
de todo caos natural
e de todo equilíbrio consequente:

eu.

eu indeterminada
eu intermediária
eu atrasada
eu encharcada

a vida vem me pedindo
e o tempo vem me podando

é ele que venta na espreita
que faz de mim voo e me ajeita
que me canta, me acerta, me enfeita
e me prepara pra outra estação





Imagem de leitura — Sidney Edward Dickinson

1 06 2014

 

 

Sidney Edward DickinsonMulher lendo, 1936

Sidney Edward Dickinson (EUA, 1890-1980)

óleo sobre tela,  51 x 41 cm

Em leilão em 2008

 





Imagem de leitura — Ellen De Groot

31 05 2014

 

 

Hanna en Dante (2006), Ellen de Groot (Holanda, 1959)Hanna lendo Dante, 2006

Elllen de Groot (Holanda, 1959 )

www.helenadegroot.com





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos

28 05 2014

Daltro Borowski, natureza morta com maçãs,  oil on canvas, 35x45, 2008, daltro_borowskiSem Título, [Maçãs], 2008

Daltro Borowski (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 35 x 45 cm

d-borowski.com