Gato pensa? — poesia de Ferreira Gullar

13 10 2018

 

 

gatinho travessoDesconheço a autoria dessa ilustração.

 

 

 

Gato pensa?

 

Ferreira Gullar

 

Dizem que gato não pensa

mas é difícil de crer.

Já que ele também não fala

como é que se vai saber?

 

A verdade é que o Gatinho

quando mija na almofada

vai depressa se esconder:

sabe que fez coisa errada.

 

E se a comida está quente,

ele, antes de comer,

muito calculadamente

toca com a pata pra ver.

 

Só quando a temperatura

da comida está normal

vem ele e come afinal.

 

E você pode explicar

como é que ele sabia

que ela ia esfriar?

 

 





Lágrima, poesia de Vera Siqueira de Mello

9 10 2018

 

 

 

Bernard BOUTET de MONVEL (1881-1949) Elegante dans les jardins de VersaillesBernard Boutet de Monvel (1881-1949) Elegante nos jardins de Versailles.

 

 

Lágrima

 

Vera Siqueira de Mello

 

Bendita seja a lágrima que rola

Pela face de alguém, que triste está,

Pois é ela, na vida que consola,

Que na aflição, maior alívio dá.

 

Sendo este mundo a verdadeira escola,

Onde aprendemos as lições da vida,

Devemos bendizer tão santa esmola,

Aos tristes e infelizes, concedida.

 

Vós, que seguis na vida, caminhando,

Ao fitardes a estrada percorrida

E fordes as tristezas recordando,

 

Não lastimeis a lágrima perdida,

Pois, feliz é aquele que, chorando,

Consegue aliviar uma ferida!

 

Em: Conflitos interiores, Vera Siqueira de Mello, 1938.

 

 

 

 





Trova da morte

6 09 2018

 

 

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Sem resposta que conforte,

dúvida imensa me corta:

Qual o segredo da morte?

Fim? Partida? Porto? Porta?

 

(Alonso Rocha)





Trova das garças

28 07 2018

 

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Em bando sutil, as garças,

pontilhando o lamaçal,

são quais pérolas esparsas,

adornando o pantanal.

 

(Dorothy Jansson Moretti)





“No convento”, poesia de Lucilo Antônio da Cunha Bueno

23 07 2018

 

 

EMIDIO MAGALHÃES (1905-1990) Portão de convento em Salvador - BA,ost,38 X 48Portão de convento em Salvador – BA

Emídio Magalhães (Brasil, 1905-1990)

óleo sobre tela, 38 X 48 cm

 

 

No convento

 

Lucilo Antônio da Cunha Bueno (1886-1938)

 

Alta noite o mar batendo frio

Nas paredes do longo Monastério,

Junta ao perfil tão pálido e sombrio

A sombra ideal e vaga do Mistério.

 

Passa horas mortas — devagar — esguio,

Rondando a calma desse cemitério,

O olhar da Monja, desolado e frio

Como aquelas paredes do Ascetério.

 

Naquele paredão encanecido,

Soluça em vão o tétrico gemido

Das almas que padecem satisfeitas.

 

Nada penetra na Solidão, e quando

Vem o Sol o horizonte arroxeando,

Choram em coro, as ilusões desfeitas.

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 243.

 

Vocabulário:

Ascetério — lugar próprio para a meditação e para a vida ascética; convento, mosteiro.

Encanecer — envelhecer, ficar com os cabelos brancos

 

 





“O pranto da inocência”, poesia de José Joaquim Cândido de Macedo Júnior

2 07 2018

 

 

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O pranto da inocência

 

José Joaquim Cândido de Macedo Júnior (1842 – 1860)

 

Quando cismas, donzela, no teu rosto

Que linda per’la suspirando corre!

— Pranto dourado que não diz desgosto,

Que num sorriso no teu seio morre!

 

Mimo dos anjos que tua alma prende

Aos céus ridentes nesse doce encanto,

Lágrimas d’ouro que teu peito incende,

Que o amor celeste se traduz num pranto!

 

E a gota pura vem cantar um hino

Que os anjos n’alma te murmuram rindo,

Pérola branda diz um som divino

Que o peito entoa em murmurejo infindo!

 

Bela — do altar do teu virgíneo seio

Deixa esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse brando enleio,

Ai! vai por ele nos teus pés morrer!

 

Chora! a inocência te sorri no choro,

São risos virgens de infantis amores,

São doces hinos de um celeste coro,

Dizem — enleios — mas não dizem dores.

 

Teu pranto puro beberão os anjos

Num doce anseio de inocente medo,

Teu sol — ó virgem — só serão arcanjos

— Teu lábio os beije no infantil segredo.

 

Chora, donzela, de teu níveo seio

Deve esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse doce enleio,

Vai por teu pranto nos teus pés morrer!

 

 

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 2,  11 de setembro de 1859, p.12. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 32.





Trova da árvore florida

5 06 2018

 

 

The Pied Piper of Hamelin by Kate Greenaway (1910)Ilustração de Kate Greenaway, 1910, para o Flautista de Hamelin

 

 

 

Para dar cor aos matizes

da mais bela floração,

humildemente, as raízes

vivem ocultas no chão !

 

 

(Cipriano Ferreira Gomes)





Convite, poema de Alfredo de Souza

12 05 2018

 

 

 

joseph_caraud_a2889_the_love_birdsDois pombinhos, 1897

Joseph Caraud (França, 1821-1905)

óleo sobre tela, 60 x 45 cm

 

 

 

Convite

 

Alfredo de Souza

 

Vem, sem demora, ver estes pombinhos

Que se beijam tão ternos, venturosos,

Deixando muito tempo os seus biquinhos

Colados em transportes amorosos;

 

Vem — mirar como fazem seus carinhos;

Ora arrulando em cantos maviosos,

Ora as asas batendo para os ninhos

— Ninhos plenos de odor, ninhos ditosos.

 

E já que tu sentiste quanto é bela

Essa cena que vimos, dando ensejo

De imitá-la por dentro da janela…

 

Resta apenas dizer-te, ó minha flor,

Que colemos os lábios, num só beijo,

Fingindo de pombinhos, meu amor!

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 232.

 

Alfredo de Souza  (Rio de Janeiro, 1880 — ??) — Foi jornalista e funcionário público.

Bibliografia

Aurora, sem data

 





Oceano, poema de Manuel Bandeira

2 04 2018

 

 

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Oceano

 

Manuel Bandeira

 

Olho a praia. A treva é densa.

Ulula o mar, que não vejo,

Naquela voz sem consolo,

Naquela tristeza imensa

Que há na voz do meu desejo.

 

E nesse tom sem consolo

Ouço a voz do meu destino:

Má sina que desconheço,

Vem vindo desde eu menino,

Cresce quanto em anos cresço.

 

– Voz de oceano que não vejo

Da praia do meu desejo…

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 30.





Trova da fotografia

18 02 2018

 

 

 

fotografop-iaa3_Mort_EngelIlustração de Mort Engel.

 

 

 

Teu retrato, enraivecida,

eu rasguei, sem embaraços…

mas a saudade, atrevida,

juntou de novo os pedaços!…

 

(Marilúcia Rezende)