Na infância, festa de cores,
tudo era encanto e magia
e eu via muito mais flores
além das tantas que havia.
(Pedro Ornellas)
Na infância, festa de cores,
tudo era encanto e magia
e eu via muito mais flores
além das tantas que havia.
(Pedro Ornellas)
Soldados
John Singer Sargent (EUA, 1856-1925)
aquarela
Se a guerra foi declarada
e é poderoso o oponente,
faze da astúcia aliada,
que astúcia é força da mente!
(Élbea Priscila de Souza e Silva)
Armando Braga
Numa gaiola, toda azul e ouro,
De raro estilo e singular beleza,
Tinha um canário, a pálida Princesa:
— Seu bem-amado e seu maior tesouro…
Às vezes presa de infundado agouro,
Vivia instantes de mortal tristeza;
E então ficava, debruçada à mesa,
a ouvir cantar o seu Caruso louro…
Mas certo dia de um destino vário,
Chora a Princesa a morte do canário
Que fora a vida de seus sonhos ledos!
Como eu te invejo, ó Príncipe Encantado,
Que mais pudesse com cantar teu fado,
Do que eu com a lira a me gemer nos dedos!
Em: Poetas nas Bandas do Mar: uma antologia, ed. João do Prado Maia e outros marinheiros poetas, ed. José Nazar, Rio de Janeiro, Companhia de Freud: 2007, pp: 75-6.
Armando Braga (1883-1969), engenheiro, geógrafo, poeta, músico, escultor, pianista e compositor, teve suas obras (poesia e prosa) publicadas nas revistas Careta, O Malho, entre outras.
Jacqueline lendo
Albert André (França, 1869-1954)
óleo sobre tela
Olavo Bilac, Poema V, Via Láctea.
Faria Neto
Minha enxadinha
trabalha bem;
corta matinhos
num vai-e-vem.
Minha enxadinha
vai descansar
para amanhã
recomeçar.
Adeus, rocinha!
Adeus, trabalho!
A vós, plantinhas
o doce orvalho.
Nelson Tangerini
Quando Ela passa, de sombrinha clara,
essa da Moda, esplendorosa Estrela,
para o automóvel, para o bonde, para
o mundo inteiro: todos querem vê-la..
E todo mundo, estático, escancara
os olhos grandes, que se aumentam pela
vontade de envolver-lhe a forma rara
num desejo malvado de comê-la…
E a deusa passa… E passa – indiferente,
sem medo de que o mundo se desabe…
bailando as curvas, desmanchando a gente…
E a gente fica a interrogar-se, à-toa,
como, em dois dedos de vestido, cabe
uma porção de tanta coisa boa!…
Leitura na varanda, c. 1890
Benjamim Parlagrecco (Itália, 1856- Brasil, 1902)
óleo sobre cartão – 24 x 19 cm
Júlia da Costa (1844-1911)
Outrora, outrora eu amava a vida
Meiga, florida na estação das flores!
Amava o mundo e trajava as galas
Dos matutinos, virginais amores.
Que sol, que vida, que alvoradas belas
Por entre murtas eu sonhava então,
Quando ao perfume do rosal florido
Da lua eu via o divinal clarão!
Hoje debalde no rumor das festas
Procuro crenças que só tive um dia!
Minh’alma chora e se retrai sozinha,
O pó das lousas a fitar sombria!
Embalde, embalde, o bafejo amado
Da morna brisa minhas faces beija!
Meu peito é frio, como é fria a nuvem
Que em noites claras pelo céu adeja!
Embalde, embalde, no ruído insano
Das doidas festas eu procuro a vida!
Meu corpo verga… meu alento foge…
Sou como a rosa do tufão batida.
Em: Poesia, de Júlia da Costa, Org. Zahide Lupinacci Muzart. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2001, p. 270
Passarinho, o teu encanto
é teu canto de alegria;
ai de mim que quando canto,
canto só por nostalgia…
(Izo Goldman)