Viver, soneto de Waldir Neves

5 01 2026

Homem escrevendo, 1890

Heinrich Breling (Alemanha, 1849-1914)

óleo sobre madeira, 13 x 17 cm

 

Viver

 

Waldir Neves

 

 

Vamos, querida, pelo mundo afora,

mirar os lírios brancos dos caminhos…

Vamos beber a luz pura da aurora,

embalados nos cânticos dos ninhos.

 

Vamos de perto ver a flor que chora,

pela fonte levada em torvelinhos…

Vamos colher as rosas, sem demora,

antes que murchem — sem ligar a espinhos.

 

Vamos buscar o belo onde ele exista,

sempre a sonhar, sonhando noite e dia,

que é com sonhos que o belo se conquista.

 

Vamos criar a mística de crer

que a vida é bela… é amor… é fantasia…

e há que sonhar e amar… para viver!…





Eu sou tal qual o Parnaíba, soneto de Da Costa e Silva

8 12 2025

Paisagem com rio

Antenor Finatti (Brasil, 1923)

óleo sobre tela,  64 x 83 cm

 

 

 

Eu sou tal qual o Parnaíba

 

Da Costa e Silva

 

Eu sou tal qual o Parnaíba: existe

Dentro em meu ser uma tristeza inata,

Igual, talvez, à que no rio assiste

Ao refletir as árvores, na mata…

 

O seu destino em retratar consiste,

Porém o rio tudo o que retrata,

De alegre que era, vai tornando triste,

No fluido espelho móvel de ouro e prata…

 

Parece até que o rio tem saudade

Como eu, que também sou desta maneira.

Saudoso e triste em plena mocidade.

 

Dá-se em mim o fenômeno sombrio

Da refração das árvores da beira

Na superfície trêmula do rio…





O homem e sua morte, poesia de Sávio Soares de Sousa

1 12 2025
Ilustração de Yan Nascimbene.

 

 

O homem e sua morte

 

Sávio Soares de Sousa

 

Foi minha morte que nasceu comigo.

Trago-a em mim, circulando nas artérias,

latente em cada célula, no fundo

tranquilo de minha alma resignada.

 

Em verdade, nasceu com a minha sombra,

ou é, talvez, a própria sombra incôngrua,

com que diuturnamente me confundo,

ao meio-dia, sobre o chão da estrada.

 

Sou igual aos demais, de igual destino.

Pouco me importa o prazo destas férias,

nem me inquieta a imutável companhia,

 

que de mim nunca mais se apartará:

no instante em que, sem luz, se suma a sombra,

comigo a minha morte morrerá.





Vida besta, Carlos Drummond de Andrade

29 11 2025
Ilustração de Igor Medvedev. 

 

 

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

 


Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia





Soneto de Zalkind Piatigórsky

11 11 2025

Cores da natureza, 2010

Amrita (Brasil, 1961)

óleo sobre madeira, 50 x 61 cm

 

 

Ciclo do amor (IV)

 

 

Zalkind Piatigórsky

 

Vieram, com a primavera, as novas flores

e o bando de amistosos passarinhos.

E houve a festa do sol jogando cores

nas sombras preguiçosas dos caminhos.

 

E a meiga alacridade e os sons vizinhos

das folhas balouçadas nos verdores…

E o riso tagarela e a voz sem dores

talvez de igarapés e ribeirinhos.

 

O céu tornou-se azul. E de repente,

com ele a natureza e toda gente

tornou-se mais afável, mais cortês.

 

Tudo cantava. Terminara o inverno.

Somente o coração, num gelo eterno,

chorava ainda por ti mais uma vez.





Trova do ciúme

4 11 2025
Ilustraçao: Anúncio da marca Cashmere Bouquet, 1950.

 

 

Tenho ciúme até das rosas

abertas no teu jardim,

pois sei que ao vê-las, formosas,

te esqueces logo de mim.

 

(Heitor Stockler) 





Trova do mar

2 11 2025
Xilogravura poli-cromada japonesa. Ignoro a autoria. 

 

 

Morro de inveja do mar,

felizardo, vagabundo,

que não se cansa em beijar

as praias de todo o mundo!

 

(Cesídio Ambroggi)





Trova do acidente

25 10 2025
“Minha nossa é o carro deles!… Pare, por favor… eu desço”, Tintin o detetive belga, por Hergé.

 

 

Todo “barbeiro” sustenta

que a batida foi assim:

– Veio um poste a mais de oitenta,

na contra-mão, contra mim!…

(Izo Goldman)





Retrato, poesia de Adalgisa Nery

20 10 2025

Mulher sentada ao espelho

Alberto Micheli (Itália, 1863-1952)

óleo sobre tela, 85 x 57 cm 

 

 

 

 

Retrato

 

Adalgisa Nery

 

Lembro-me desse rosto.

Era risonho mas envolvido numa sombra triste,

Sua voz era clara mas sua língua era tímida, 

Voz de criança que suga o peito materno,

Língua de mulher após duros fracassos.

Sua fonte era larga e seus cabelos dourados, 

Fronte vigiada pelas grandes insônias.

Seus olhos eram vagos,

Vagos em beleza e em fixação.

Tinham nas pupilas o embaciado de que nasceram mortos.

Seu andar era firme e duro

Contrário a toda a fragilidade de seu corpo

Era como o andar do condenado

Subindo para a morte os degraus da guilhotina.

Sua boca era igual

Igual a tantas bocas de mulher,

Apenas depois de seus sorrisos tristes

Notava-se nos lábios um rito de amargor. 

Suas mãos eram

Mãos grandes, secas e vividas, 

Mãos que afagaram em silêncio

Muitos corpos amados horas esquecidas.

Suas mãos eram como bocas, como olhos, 

Como vozes, com vida independente

Antes do corpo ser adolescente.

Eram mãos velhas e tristes

Eram como olhos vividos em pranto.

Às vezes com um movimento de inocência

E logo depois tomavam atitude de degradação.

Eram mãos que usavam alma emprestada

De dedos longos e inquietos

Como inesperados movimentos de serpente

E mudavam-se às vezes num suave tremor de seios de virgem

Tonteada em amor.

Sobre a vida do corpo desse rosto não direi mais nada

Não sei se era boa ou má

Se era maldita ou abençoada

Porque talvez essas formas destacadas que meus olhos viram

Fossem  um sonho ou outra visão qualquer

Ou possivelmente seja meu

O retrato dessa mulher.

 

(1948)

 

Em: Mundos oscilantes: poesias completas, Adalgisa Nery, Rio de Janeiro, José Olympio: 1962





Trova do jardineiro

19 10 2025
O jardim, ilustração de Pierre Brissaud,1926, para a revista House & Garden, mês de outubro.

 

 

 

Sou jardineiro imperfeito,

pois, no jardim da amizade,

quando planto um amor-perfeito,

nasce sempre uma saudade…

 

 

(Adelmar Tavares)