“Minha nossa é o carro deles!… Pare, por favor… eu desço”, Tintin o detetive belga, por Hergé.
Todo “barbeiro” sustenta
que a batida foi assim:
– Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!…
(Izo Goldman)
Todo “barbeiro” sustenta
que a batida foi assim:
– Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!…
(Izo Goldman)
Mulher sentada ao espelho
Alberto Micheli (Itália, 1863-1952)
óleo sobre tela, 85 x 57 cm
Adalgisa Nery
Lembro-me desse rosto.
Era risonho mas envolvido numa sombra triste,
Sua voz era clara mas sua língua era tímida,
Voz de criança que suga o peito materno,
Língua de mulher após duros fracassos.
Sua fonte era larga e seus cabelos dourados,
Fronte vigiada pelas grandes insônias.
Seus olhos eram vagos,
Vagos em beleza e em fixação.
Tinham nas pupilas o embaciado de que nasceram mortos.
Seu andar era firme e duro
Contrário a toda a fragilidade de seu corpo
Era como o andar do condenado
Subindo para a morte os degraus da guilhotina.
Sua boca era igual
Igual a tantas bocas de mulher,
Apenas depois de seus sorrisos tristes
Notava-se nos lábios um rito de amargor.
Suas mãos eram
Mãos grandes, secas e vividas,
Mãos que afagaram em silêncio
Muitos corpos amados horas esquecidas.
Suas mãos eram como bocas, como olhos,
Como vozes, com vida independente
Antes do corpo ser adolescente.
Eram mãos velhas e tristes
Eram como olhos vividos em pranto.
Às vezes com um movimento de inocência
E logo depois tomavam atitude de degradação.
Eram mãos que usavam alma emprestada
De dedos longos e inquietos
Como inesperados movimentos de serpente
E mudavam-se às vezes num suave tremor de seios de virgem
Tonteada em amor.
Sobre a vida do corpo desse rosto não direi mais nada
Não sei se era boa ou má
Se era maldita ou abençoada
Porque talvez essas formas destacadas que meus olhos viram
Fossem um sonho ou outra visão qualquer
Ou possivelmente seja meu
O retrato dessa mulher.
(1948)
Em: Mundos oscilantes: poesias completas, Adalgisa Nery, Rio de Janeiro, José Olympio: 1962
Sou jardineiro imperfeito,
pois, no jardim da amizade,
quando planto um amor-perfeito,
nasce sempre uma saudade…
(Adelmar Tavares)
Professores são abelhas
distribuindo, em seu afã,
os polens que são centelhas
das flores de um amanhã!
(João Paulo Ouverney)
Nos meus tempos de menino
tinha na palma da mão
a fieira do destino
nas voltas do meu pião!
(Antonio Claret Marques)
Quando criança eu queria
crescer dez anos num mês
e, agora, o que não daria
pra ser criança outra vez!…
(Elton Carvalho)
Casario
Antonio Ferrigno (Itália-Brasil, 1863 – 1940)
óleo sobre madeira. 35 x 27 cm
Adélia Prado
Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!
Brincadeira de roda
Paulina Kaz (Brasil, 1915-2001)
óleo sobre tela, 59 x 81 cm
Com crianças tagarelas,
em meu rancho alegre e lindo,
até portas e janelas
vivem cantando e sorrindo!
(Orlando Brito)
A brisa afasta a cortina,
e uma nesga de luar,
fugindo à fria neblina,
vem aos meus pés se abrigar.
(Dorothy Jansson Moretti)
Menina lendo
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela, 65 x 90 cm
“Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma
É chuva – que faz o mar.”
Castro Alves
Nota: Esse é um sexteto do longo poema O Livro e a América