Trova da esperança

23 10 2023

Neste mundo que nos cansa

tanta maldade se vê,

que a gente tem esperança

mas já nem sabe de quê…

 

(José Maria Machado de Araújo)

 

 





Trova da felicidade

17 10 2023
Ilustração Leyendecker.

 

 

 

Procurei a felicidade

por este mundo sem fim,

sem saber que na verdade

estava dentro de mim.

 

 

(José Carlos Dutra do Carmo)





Trova da primavera

18 09 2023

Após fitar várias flores,
eu pergunto com surpresa:
– Como cabem tantas cores
no pincel da Natureza?

 

(Hildemar de Araújo Costa)





India, poesia de Michel Klejnberg

10 08 2023

Menina do Rio Negro

Elon Brasil (Brasil, 1957)

óleo sobre lona e saco de café, 100 x100 cm

 

 

 

India

 

Michel Klejnberg

 

entre os cachos

sobre a orelha

vermelha

 

contra a pele

chocolate,

escarlate

 

dois sorrisos

lado a lado,

encarnado

 

uma rosa lhe brotou no gramado do cabelo

ou foi a flor que deu uma menina no caule?

 

 

Em: Confissuras, Michel Klenjnberg, Rio de Janeiro, Sete Letras: 2010. p. 40

 





Trova da estrada

1 08 2023
Ilustração Jodi Pratt

 

 

Foste embora e por maldade

deixaste a troco de nada,                                         

rastros da tua saudade

em cada curva da estrada!…

 

(Marilúcia Resende)





Clara, poesia de Casimiro de Abreu

27 07 2023

Moça sentada na rede

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 70 x 54 cm

 

 

Clara

 

Casimiro de Abreu (1839-1860)

Não sabes, Clara, que pena
Eu teria se – morena
Tu fosses em vez de clara!
Talvez… Quem sabe?… não digo…
Mas refletindo comigo
Talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
Brilha mais da face a rosa,
Tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
És clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
Assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
Mas a morena é da terra
Enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
Prende o amante demente
Nos fios do seu cabelo;
– A clara é sempre mais fria,
Mas dá-me licença um dia
Que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
Mas nada, nada te imita
Nem mesmo sequer de leve.
– O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
És clara da cor da neve!





“Duas luas”, poesia de Ricardo Kubrusly

20 07 2023
 
 
 
Duas luas

 

Ricardo Kubrusly

 

há uma lua em são paulo outra no rio

duas iguais, mesma substância

uma no mar, outra entre rios

refletida na lama das marginais

 

 

uma se espreita nos arcos, se alonga

devora o passeio, se atira

nas águas. duas iguais criaturas

escalam o horizonte, eu: voo entreluas

 

 

 

Em: Acordanoite, Ricardo Kubrusly, Rio de Janeiro, Editora Seis: 1993, p.48





Trova do luar

19 07 2023
Ilustração, Frances Tipton Hunter, 1935

 

 

Quando criança, eu ficava
olhando o céu a cismar:
– quem, tão alto, a luz ligava
para acender o luar!

 

(Lisete Johnson)





“Leque aberto” de Raquel Naveira

18 07 2023

Delicioso livro de ensaios, crônicas, uma ou outra poesia, páginas que como um leque se abrem aos nossos olhos e encantam.  Não há assunto que não possa ser abordado e a variedade é grande.  Vamos abrindo esse leque de considerações sobre a adolescência, por exemplo, engatilhada pela visão da ativista Greta Thunberg em Nova York; vamos do prazer de um bom banho ao quadro As Banhistas de Paul Cézanne e aos de Monet.  De ciganos e uma breve estadia no hospital por um fêmur quebrado, somos guiados a considerações sobre enfermagem, Ana Néri ou ao livro Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë, não sem antes, ela nos levar à ópera Carmen de Bizet.  Cada uma de suas divagações e considerações enriquece o leitor.  Verdadeiro presente, flanar com Raquel Naveira pelos labirintos da cultura;  um passeio que liga o que somos ao mundo exterior e ao imaginário.

 

Até ler este livro, só conhecia Raquel Naveira por suas poesias.  Casa e Castelo foi o primeiro de seus livros que li, e me encantou, depois veio Casa de Tecla e mais tarde Abadia. Raquel tem voz própria na poesia e um encantamento adicional para mim: é amante das artes plásticas. Muitos de seus poemas e outros escritos mencionam obras de arte que a impactaram.  Sua escrita é acessível e rica.  Seus temas variados seduzem o leitor.  Recomendo a leitura sem restrições.





Clara gema, poesia de Luís Pimentel

14 07 2023

Figura feminina, 1971

Augusto Rodrigues (Brasil, 1903-1993)

técnica mista sobre papel, 29 x 25 cm

 

 

 

Clara gema

 

P/ Teresinha

 

 

A menina dos meus sonhos

é assim, como um poema:

às vezes leveza clara,

às vezes pureza gema.

 

Está presente em meus sonhos,

sem saber nada de mim.

às vezes fura meu peito

com esporas de cetim.

 

A menina dos meus sonhos

me acorda nas madrugadas,

para acender seus caprichos

mantendo a luz apagada.

 

Mas quando o dia amanhece

a luz invade a retina,

o despertador faz preces

afugentando a menina.

 

Em: As miudezas da velha, Luís Pimentel, 2ª edição, Rio de Janeiro, Myrrha, 2003, p. 57