Palavras para lembrar — Charles Simic

21 12 2012

Jose van Gool, Lesend Vrouw, 2000, 70x60, ost

Moça lendo, 2000

José van Gool (Bélgica, 1945 )

óleo sobre tela, 60 x 70 cm

“Um poema é um segredo dividido entre duas pessoas que nunca se encontraram”.

Charles Simic

 





Rondó do capitão, poesia de Manuel Bandeira

19 11 2012

Soldadinho de chumbo, s/d

Marysia Portinari ( Brasil, 1937)

óleo sobre tela, 30 x 20 cm

Rondó do capitão

Manuel Bandeira

Bão balalão,

Senhor capitão.

Tirai este peso

Do meu coração.

Não é de tristeza,

Não é de aflição:

É só de esperança,

Senhor capitão!

A leve esperança,

A aérea esperança…

Aérea, pois não!

Peso mais pesado

Não existe não.

Ah, livrai-me dele,

Senhor capitão!

8 de outubro de 1940

Em: Manuel Bandeira Antologia Poética, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio:1978, 10ª edição





O cabrito, poema de José Paulo Moreira da Fonseca

23 10 2012

Cabrito, gravura antiga.

O cabrito

José Paulo Moreira da Fonseca

Povoaste a paisagem grega

————–guardas um timbre clássico algo de conciso

ágil e jovem — quem negaria? — basta ver-te sobre os abismos

sem receio ou vertigem

—————como a vida

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968





Noturno, poema de Jayme Quartin

7 06 2012

Paisagem com lua, 1925

Max Beckmann (Alemanha,1884-1950)

óleo sobre tela

Noturno

Jayme Quartin

Noturno de coruja

vagalume e grilo

noturno das vacas

silentes mastigantes

pensamentos brotam

do capim gordura

destacam-se das

sombras

os silêncios profundos

como lontras emergentes

do rio

pescando delineadas

lâminas em prata

que os antigos

chamavam

de peixe.

Noturno dos piados

esquisitos no alto

da mangueira

e o cajado

do fantasma

batendo no chão.

Noturno de brisas.

Noturno de

odores

multifaceiro

veloz e a

cores.

Nas asas misteriosas

da noite

o vôo do bacuráu!

Em: Ray-ban, de Jayme Quartin, 1995.





Abriu em versos o seu coração, poema de Zalina Rolim, homenagem ao Dia das Mães

5 05 2012

Mãe e filhos no jardim, 1928

René Brimstead

Para House & Garden, Julho de 1928.

Abriu em versos o seu coração

Zalina Rolim

Venha do céu o melindroso Anjinho

— Maravilha de graça e de inocência

De nosso lar a flor e da existência

O rescendente laço de carinho.

Venha do céu na doce refulgência

De um sorriso de Deus ao nosso ninho…

Criatura gentil, meigo entezinho,

Do eterno Bem a misteriosa essência.

Venha… e com ele o resplendor da graça

Que — avezinha ideal — passa e perpassa

E acende em nosso olhar doce lampejo…

Venha… e com ele a vaga de ternura

Que o coração dos pais funde e mistura

Na deliciosa música do beijo.

Em: 232 Poetas Paulistas, antologia de Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





Pralapracá, poesia de Cassiano Ricardo, uso escolar

30 03 2012

Desconheço a autoria dessa ilustração.

Pralapracá

Cassiano Ricardo

E começa a longa história

do navio que ia e vinha

pela estrada azul do Atlântico:

Ia, levando pau-brasil

e homens cor da manhã, filhos do mato,

cheios de sol e de inocência;

vinha trazendo delegados…

Ia, levando uma esperança;

vinha trazendo foragidos de outras pátrias

para a ilha da Bem-aventurança.

Ia levando um grito de surpresa;

————- da terra criança;

e vinha abarrotado de saudade

————–portuguesa…

Em: Martim Cererê de Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974

Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974) foi um jornalista, poeta e ensaísta brasileiro.

Obras:

Dentro da noite, poesia, 1915

A flauta de Pã, poesia, 1917

Jardim das Hespérides, poesia, 1920

Atalanta, poesia, 1923

A mentirosa de olhos verdes, poesia, 1924

Borrões de verde e amarelo, poesia, 1925

Vamos caçar papagaios, 1926

Martim Cererê, poesia, 1928

Canções da minha ternura, poesia, 1930

Deixa estar, jacaré, poesia, 1931

O Brasil no original,  crítica, teoria e história literárias, 1937

O Negro na Bandeira, crítica, teoria e história literárias, 1938

Pedro Luís: visto pelos modernos, crítica, teoria e história literárias, 1939

Academia e a poesia moderna, crítica, teoria e história literárias, 1939

Marcha para Oeste, crítica, teoria e história literárias, 1942  

O sangue das horas, poesia, 1943

Paulo Setúbal, o poeta,  crítica, teoria e história literárias,  1943

A academia e a língua brasileira, crítica, teoria e história literárias, 1943

Um dia depois do outro (1944-1946),  poesia 1947

Poemas murais, 1947-1948, poesia, 1950

A face perdida, poesia, 1950

Vinte e cinco sonetos, poesia, 1952

Poesia na técnica do romance, crítica, teoria e história literárias, 1953

O Tratado de Petrópolis, crítica, teoria e história literárias, 1954

Meu caminho até ontem, poesia, 1955

O arranha-céu de vidro, poesia, 1956

João Torto e a fábula : 1951-1953, poesia 1956

Pequeno Ensaio de Bandeirologia, crítica, teoria e história literárias, 1956

Poesias completas, poesias,  1957

Poesia, poesia,  1959

Martins Fontes, 1959

Homem Cordial, crítica, teoria e história literárias,  1959

Montanha russa, poesia, 1960

A difícil manhã, poesia, 1960

O Indianismo de Gonçalves Dias, 1964

A floresta e a agricultura, crítica, teoria e história literárias, 1964

Algumas Reflexôes Sobre Poética de Vanguarda, 1964

Poesia praxis e 22, crítica, teoria e história literárias, 1966

Jeremias sem-chorar (1964)

Viagem no tempo e no espaço (Memórias) poesia, 1970

Serenata sintética, poesia XX

Sobreviventes, mais um poema Circunstancial , poesia, 1971

Seleta em Prosa e Verso, miscelânea, 1972

Sabiá e sintaxe, crítica, teoria e história literárias,  1974

Invenção de Orfeu (e outros pequenos estudos sobre poesia), poesia, 1974





Café, poesia para crianças de Ribeiro Couto

11 03 2012

Ilustração Stewart Sherwood.

Café

Ribeiro Couto

Sabor de antigamente, sabor de família.

Café que foi torrado em casa,

Que foi feito no fogão de casa, com lenha do mato de casa.

Café para as visitas de cerimônia,

Café para as visitas de intimidade,

Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada,

para toda gente.

Café para de manhã, para de tardinha, para de noite,

Café para todas as horas do riso ou da pena,

Café para as mãos leais e os corações abertos,

Café da franqueza inefável,

Riqueza de todos os lares pobres,

Na luz hospitaleira do Brasil.

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro:1961.

Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, foi um jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro.  Foi membro da Academia Brasileira de Letras desde 28 de março de 1934 (ocupando a vaga de Constâncio Alves na cadeira 26), até sua morte.

Obra

Poesia

O jardim das confidências (1921)

Poemetos de ternura e de melancolia (1924)

Um homem na multidão (1926)

Canções de amor (1930)

Noroeste e alguns poemas do Brasil (1932)

Noroeste e outros poemas do Brasil (1933)

Correspondência de família (1933)

Província (1934)

Cancioneiro de Dom Afonso (1939)

Cancioneiro do ausente (1943)

Dia longo (1944)

Arc en ciel (1949)

Mal du pays (1949)

Rive etrangère (1951)

Entre mar e rio (1952)

Jeux de L’apprenti Animalier. Dessins de L’auteur. (1955)

Le jour est long, choix de poèmes traduits par l’auter (1958)

Poesias reunidas (1960)

Longe (1961)

 

Prosa

A casa do gato cinzento, contos (1922)

O crime do estudante Batista, contos (1922)

A cidade do vício e da graça, crônicas (1924)

Baianinha e outras mulheres, contos (1927)

Cabocla, romance (1931);

Espírito de São Paulo, crônicas (1932)

Clube das esposas enganadas, contos (1933)

Presença de Santa Teresinha, ensaio (1934)

Chão de França, viagem (1935)

Conversa inocente, crônicas (1935)

Prima Belinha, romance (1940)

Largo da matriz e outras histórias, contos (1940)

Isaura (1944)

Uma noite de chuva e outros contos (1944)

Barro do município, crônicas (1956)

Dois retratos de Manuel Bandeira (1960)

Sentimento lusitano, ensaio (1961)





Herança, poema de Gualter Cruz

6 03 2012

Natureza Morta com livros

Judith Gibson ( Reino Unido, comtemporânea)

Herança

Gualter Cruz

A Marcos Portugal

Quando eu morrer te deixarei, irmão,

Os livros todos que eu em vida amei,

Livros que ao lê-los eu sorri, chorei,

Sentindo-me pulsar o coração!

Queira guardar, irmão, este tesouro

Porque era tudo que na vida eu tinha,

O bem e o mal querer da minha vida,

A minha arca a transbordar de ouro!

São folhas gastas, lidas e relidas,

Que sempre me falaram bem à alma

E me trouxeram, pouco a pouco, a calma,

Páginas belas, ricas, coloridas!

Em cada autor eu tive um grande amigo,

Emoções belas, sentimentos novos.

Senti bater o coração dos povos

Como a este coração que está comigo!

Quando eu morrer, irmão, tu nunca os venda,

Embora não os queira como eu quero,

Pois são no mundo aquilo que eu venero,

A mais formosa, a mais ditosa prenda!

Tem pois, por eles, paternal cuidado,

E de uma mãe puríssima afeição;

Cuida bem deles, meu querido irmão,

Pois eles são o meu tesouro amado!

Em cada livro ficará meu ser,

Com um suspiro eterno de saudade,

Que cortará sentido a eternidade

Quando eu deixar na terra de sofrer!

E cada folha que rasgada for,

Qual um punhal o peito me ferindo,

Para minh’alma sofrimento infindo,

Reavivará no espaço a minha dor!

Tem mui cuidado! Ó, não os rasgues, irmão!

E nem sequer os vendas , por favor!

Seria por demais a minha dor

Vê-los correr ao léu, de mão em mão!

Quando leres, um dia, com carinho,

As mesmas linhas que eu em vida lia,

Grande no espaço, então, minha alegria,

E bem mais claro, pois, o meu caminho!

Quero levar daqui mil esperanças!

Quero deixar nos livros que te dei,

Nas páginas que em vida tanto amei,

A mais rica, talvez, dentre as heranças!

Em: Poesias completas, Gualter Cruz, Petrópolis, Editora do autor: 1983.

Gualter Germano Chaves da Cruz (Petrópolis, RJ, 1921, Rio de Janeiro, RJ 1978)





O espaço, poema de Henrique Simas

9 02 2012

O espaço

Henrique Simas

O vento soprou depois de alguma espera

E foram expulsos de dentro todos os fantasmas

Os restos de sombra o sol desfez.

A chuva terminou de apagar as últimas letras,

Arrancando da terra as raízes inúteis.

E nada mais sobrou além do espaço

Pronto a ser ocupado pelos novos donos,

Obstinados cultivadores de esperança.

Em: Horizonte Vertical: poemas, Henrique Simas,prefácio de Alceu Amoroso Lima, Rio de Janeiro, Olímpica: 1967, p. 78.





O mosquito escreve, poesia infantil de Cecília Meireles

17 01 2012

Mosquito, ilustração Maurício de Sousa.

O mosquito escreve

Cecília Meireles

O mosquito pernilongo

trança as pernas, faz um M,

depois treme, treme, treme,

faz um O bastante oblongo,

faz um S.

O mosquito sobe e desce.

Com artes que ninguém vê,

faz um Q,

faz um U, e faz um I.

Este mosquito esquisito

cruza as patas, faz um T.

E aí,

se arredonda e faz outro O,

mais bonito.

Oh!

Já não é analfabeto,

esse inseto,

pois sabe escrever seu nome.

Mas depois vai procurar

alguém que possa picar,

pois escrever cansa,

não é, criança?

E ele está com muita fome.

Em: Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 2002.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (RJ 1901 – RJ 1964) poeta brasileira, professora e jornalista brasileira.

Obras:

Espectros, 1919

Criança, meu amor, 1923

Nunca mais…, 1924

Poema dos Poemas, 1923

Baladas para El-Rei, 1925

O Espírito Vitorioso, 1935

Viagem, 1939

Vaga Música, 1942

Poetas Novos de Portugal, 1944

Mar Absoluto, 1945

Rute e Alberto, 1945

Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1948

Retrato Natural, 1949

Problemas de Literatura Infantil, 1950

Amor em Leonoreta, 1952

12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952

Romanceiro da Inconfidência, 1953

Poemas Escritos na Índia, 1953

Batuque, 1953

Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955

Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955

Panorama Folclórico de Açores, 1955

Canções, 1956

Giroflê, Giroflá, 1956

Romance de Santa Cecília, 1957

A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957

A Rosa, 1957

Obra Poética,1958

Metal Rosicler, 1960

Antologia Poética, 1963

História de bem-te-vis, 1963

Solombra, 1963

Ou Isto ou Aquilo, 1964

Escolha o Seu Sonho, 1964

Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965

O Menino Atrasado, 1966

Poésie (versão francesa), 1967

Obra em Prosa – 6 Volumes – Rio de Janeiro, 1998

Inscrição na areia

Doze noturnos de holanda e o aeronauta 1952

Motivo

Canção

1º motivo da rosa