
Praça XV de novembro, 1925
Garcia Bento (Brasil, 1897-1929)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm

Praça XV de novembro, 1925
Garcia Bento (Brasil, 1897-1929)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Felisberto Ranzini (Brasil, 1881-1976)
Aquarela sobre papel, 33 x 50 cm
“UMA COISA FABULOSA que fiquei devendo ao noivado de minha prima foi a excursão que fizemos ao Pão de Açúcar nos bondinhos aéreos inaugurados em 1912 e 1913. Tinham quatro para cinco anos e eram uma novidade que o Joaquim Antônio queria comparar com os que vira na Europa. Combinou-se o passeio e ele próprio me incluiu no grupo dizendo que “mestre Pedro vai conosco”. Éramos ele, eu, a noiva, tia Candoca e a Mercedes Albano. Para essa coisa meio esportiva que era a ascensão que ia ser feita, vesti meu terno número um, o Joaquim Antônio colarinho duro de pontas viradas, a Maria e a Mercedes grandes chapéus e vestidos escuros, a futura sogra sedas, veludos pretos e uma toque alta de pluma póstero-lateral. Exatamente, pois possuo os retratos tirados nesse dia inesquecível. Lanchamos na Urca — chá, torradas, sanduíches, mineral e para mim, tudo isso e o céu também — gasosa! Subimos depois do por do sol e o acender das luzes da cidade nas alturas do Pão de Açúcar dos ventos uivantes. Não sei dos outros. No cocuruto eu desci um pouco no declive que dá para o maralto, sentei no granito e olhei. Jamais reencontrei coisa igual senão quando, em Capri, subi à casa de Axel Münthe e no dia em que sobrevoei Creta para descer em Heraclion. Estavam presentes todas as cores e cambiantes que vão do verde e do glauco aos confins do espetro, ao violeta, ao roxo. Azul. Marazul. Azurescências, azurinos, azuis de todos os tons e entrando por todos os sentidos. Azuis doce como o mascavo, como o vinho do Porto, secos como o lápis-lazúli, a lazulite e o vinho da Madeira, azul gustativo e saboroso como o dos frutos cianocarpos. Duro como o da ardósia e mole como os dos agáricos. Tinha-se a sensação de estar preso numa Grotta Azzurra mas gigantesca ou dentro do cheiro de flores imensas íris desmesuradas nuvens de miosótis hortênsias — só que tudo rescendendo ao cravo — flor que tem de cerúleo o perfume musical de Sonata ao Luar. Malva-rosa quando vira rosazul. Aos nossos pés junto à areia de prata das reentrâncias do Cara-de-Cão, ou do cinábrio da Praia Vermelha, o mar profundo abria as asas do azulão de Ovale e clivava chapas da safira que era ver as águas das costas da Bahia. Escuro como o anilíndigo do pano da roupa que me humilhava nos tempos do Anglo-Mineiro. Mas olhava-se para os lados de Copacabana e das orlas fronteiras além de Santa-Cruz e o meitleno marinho se adoçava azul Picasso, genciana, vinca-pervinca. As ilhas surgiam com cintilações tornassóis e viviam em azuis fosforescentes e animais como o da cauda seabrindo pavão, do rabo-do-peixe barbo, dos alerões das borboletas capitão-do-mato da Floresta da Tijuca. Olhos para longe, mais lonjainda — e horizontes agora Portinari, virando num natiê quase cinza, brando, quase branco se rebatendo para as mais altas das alturas celestes azul celeste azur só possível devido a um sol de bebedeira derretendo os contornos as formas e virando tudo no desmaio turquesa e ouro e laranja dos mais alucinados Monets Degas Manets Sisleys Pissarros. Mas súbito veio o negro da noite acabando a tarde impressionista. As luzes se acenderam em toda a cidade mais vivas na fímbria orlando o oceano furioso. Eu nem me lembro como vim rolando Pão de Açúcar abaixo aos trancos e barrancos daquele dia vinho branco…”
Em: Chão de Ferro: memórias 3, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:1976, 2ª edição, pp. 129-30.
Paisagem, da rua do Porto, Piracicaba, 1974
Álvaro Sega, (Brasil, 1917-1991)
óleo sobre tela, 32 x 40 cm
Paisagem com rio Piabanha, 1948
Walter Feder (Brasil, 1909- 1957)
óleo sobre tela, 65 x 41 cm
Mulher com chapéu azul
Manoel Santiago (Brasil, 1897-1987)
óleo sobre tela, 41 x 33 cm
Mulher, 1907
Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867-1939)
óleo sobre tela, 51 x 41 cm
Mulher de vestido azul, 1968
Chanina Luwisz Szejnbejn (Polônia/Brasil 1927 – 2012)
óleo sobre tela, 73 x 50 cm
Retrato de moça, 1891
Décio Villares (Brasil, 1851 — 1931)
óleo sobre tela
Mulher com flor na mão, década de 1940
Gastão Worms (Brasil, 1905-1967)
óleo sobre tela colada em madeira, 65 x 54 cm
Mulher com lenço, 1950
Tadashi Kaminagai (Japão/França, 1899- 1982)
óleo sobre tela, 55 x 46 cm
Repouso (filha do artista), 2006
Virgílio Dias (Brasil, 1956)
óleo sobre tela, 160 x 120 cm
Retrato de jovem com brinco
Carlos Chambelland (Brasil, 1884-1950)
óleo sobre tela, 40 x 32 cm
Africana, 2014
Douglas Okada (Brasil, 1984)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
Figura feminina
Henrique Bernardelli (Chile/Brasil, 1857-1936)
óleo sobre tela, 105 x 95 cm
Figura de mulher, 1987
Humberto da Costa (Brasil, 1948)
óleo sobre tela, 27 x 22 cm
Figura feminina, 1978
José Maria Ribairo (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 48 x 40 cm
Mulher
Wladimir Krivoutz (Rússia/Brasil, 1904-1971)
óleo sobre tela, 55 x 46 cm
Mulher com rosa vermelha
Severino Ramos (Brasil, 1963)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Jovem com rosa
Ernesto Sérgio Silva Quissak Júnior (Brasil, 1935-2001)
óleo sobre tela, 30 x 40 cm
Figura, 1960
Lydio Bandeira de Mello (Brasil, 1929)
óleo sobre tela, 92 x 45 cm

Retrato de senhora, 1817
Antônio Joaquim Franco Velasco (Brasil, 1780-1833
Pintura a óleo
Retrato feminino, 1958
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
óleo sobre tela, 61 x 50 cm
Figura feminina, 1978
Grover Chapman (EUA/Brasil, 1924-2000)
óleo sobre eucatex, 40 x 30 cm
Dedé, 1944
Dimitri Ismailovich (Rússia/Brasil, 1892-1976)
óleo sobre tela, 81 x 65 cm
A visita de Louise, 1928
Eliseu Visconti (Itália/Brasil, 1866-1944)
óleo sobre tela, 81 x 65 cm
Marina Montini, 1971
Emiliano Di Cavalcanti (Brasil, 1897 – 1976)
óleo sobre tela, 80 x 60 cm
Moça com chapéu de palha
Luís Cláudio Morgilli (Brasil, 1955)
óleo sobre tela
Leitura
Vicente Romero (Espanha, 1956)
Pastel, 69 x 80 cm
Julián Fuks em A resistência, São Paulo, Companhia das Letras:2015, página 9, primeiro capítulo, primeira página.

O bibliófilo Haunt ou a Livraria Creech
William Fettes Douglas (Escócia, 1822-1891)
óleo
Câmara de Vereadores da Cidade de Edinburgh
Um dia, o escritor e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, nas suas inúmeras perambulações pela cidade, encontrou nas prateleiras de um sebo um de seus próprios livros que ele havia dedicado a uma pessoa de grande estima. Shaw não teve dúvidas: comprou o livro e o devolveu ao dono original com a seguinte dedicatória: “Com estima renovada, George Bernard Shaw.”
Em: Ex Libris: confessions of common reader, Anne Fadiman, Nova York, Farrar, Straus e Giroux: 2000.

Natureza morta com cumbuca chinesa, 1983
Evilásio Lopes (Brasil, 1917-2013)
óleo sobre tela, 18 x 27 cm
Menino com Máscara, 1973
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 46 x 38 cm
Nós todos temos favoritos: escritores, pintores, poetas, compositores. Sou eclética na leitura e por força da minha profissão sou eclética sobre meus artistas plásticos favoritos. Conhecimento, tenho certeza, leva ao entendimento e muitas vezes à preferência por um artista.

Menino mascarado, 2008
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 70 x 50 cm
O pernambucano Reynaldo Fonseca está entre os meus pintores favoritos. Há calma em suas telas. Há mistério. Mesmo quando pinta personagens sem máscara. Suas imagens são explicitas, claras, não deixam dúvidas sobre o que é retratado. Mesmo assim há mistério. Seus quadros nos convidam a resolver uma charada cujos paradigmas não conhecemos. Ou será que estamos frente a uma parábola? Quem frequenta este blog já conheceu muitas obras de Reynaldo Fonseca. Hoje, por estarmos no meio do Carnaval, concentrei-me naquelas em que a máscara aumenta o enigma.

Mascaradas com gato, 2003
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Reynaldo Fonseca foi aos onze/doze anos aluno ouvinte na Escola de Belas Artes de Pernambuco, em 1936. Depois, por um breve período, foi aluno de Portinari, tendo estudado anteriormente com Lula Cardoso Ayres. Eventualmente, aos vinte e três anos, em 1948, vai à Europa.

Mulher de vestido vermelho com máscara, 1973
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela 46 x 38 cm
Seu conhecimento da arte ocidental pode ser sentido. Há um nítido aceno à arte da Renascença Italiana, sobretudo aos pintores do século XV, tais como Antonello da Messina, Giovanni Bellini, Boltraffio, Domenico Ghirlandaio, Filippino Lippi entre outros retratistas, florentinos em sua maioria, trabalhando antes de 1500. Outro detalhe aproxima essas telas da pintura renascentista é a maneira como Reynaldo Fonseca assina seus trabalhos: muitas vezes com monograma com suas iniciais, ou com o nome escrito em grandes maiúsculas como Dürer fazia, bem no centro da tela, ou ainda, numa etiquetas pintada na tela, num rótulo. Desde cedo ele tem a intenção de deixar a sua marca.

Mascarado, 2007
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Mas o conhecimento dos mestres que o precederam não fica por aí. Seus quadros têm a força dos ícones bizantinos, com segundos planos simples, muitas vezes divididos em duas cores como na tela acima, espremendo visualmente as figuras entre o plano visual do espectador e a parede perceptível mais atrás que não deixa o olhar fugir para outro plano mais distante. As figuras, o que é representado, então, toma característica de importância e nos obriga a dialogar com o que vemos.

Mulheres de máscaras e leque, 2006
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 80 x 60 cm
Mesmo quando há uma janela ou uma porta no segundo plano como na tela acima, ela ou é fechada por uma parede mais além ou é em grande parte ocupada por um personagem olhando para dentro, ou retorna o nosso olhar, olho no olho. Além do pequeno campo de visão atingido através dessa maneira icônica de pintar, a palheta reduzida a tons de terra, e dourados, com o uso de branco, vermelho ou negro, em cores sólidas, para contraste, auxiliam na lembrança dos ícones bizantinos.

Família, 2000
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela
Poucas são as telas com muitos personagens como acima. Elas aparecem com maior frequência nas últimas décadas dessa longa carreira do artista e em geral representam uma família ou membros de uma família. Mesmo nesse caso continuamos a sentir sua impenetrabilidade. As pessoas parecem não se comunicar, ou fazê-lo de maneira comedida, silenciosa, circunspecta, como se participassem de um ritual sacramentário que nos elude.

Flautista mascarado, 1970
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 73 x 50 cm
Mesmo os muitos personagem retratados sós, como o flautista mascarado acima, nos parecem impenetráveis ainda que façam algo que conheçamos, como tocar um instrumento musical, brincar com um pássaro; ou uma criança brincar com um velocípede, correr pela rua com um aro, fazer o dever de casa, caderno na mesa e lápis em punho. Essas cenas que poderiam facilmente serem chamadas de pintura de gênero, ganham peso e importância, pela solenidade com que são apresentadas. E pela solidez, massa mesmo, de seus personagens.
Menina flautista, 1996
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre placa de madeira industrializada, 55 x 33 cm
A forma dos corpos retratados por Reynaldo Fonseca parece baseada em alguma equação matemática, em princípios geométricos que nos escapam. Essa técnica lembra a dedicação que Piero della Francesca tinha à geometria, lá nos idos do século XV. Enquanto que a solidez das formas cilíndricas, dos círculos e meios círculos, tem precedência na arte brasileira de outro pernambucano, Vicente do Rego Monteiro, o grande pintor cubista brasileiro.

Menino com máscara, 1971
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 73 x 50 cm
A tendência de reduzir formas naturais a geométricas convive bem com outros tipos de abstração na arte contemporânea. Temos pintores como Inos Corradin que levaram essa maneira a um extremo, passando antes por Aldemir Martins entre outros. Fora do Brasil, também contemporâneo há o pintor colombiano Botero.

O pequeno mascarado, 1976
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre placa, 22 x 16 cm
O retrato de seus personagens-esfinge vem desde o final dos anos 60 em suas obras, mas nessas primeiras décadas, ainda havia um jardim ao fundo, vegetação e céus azuis como nos primeiros retratos renascentistas, como no retrato do menino mascarado acima de 1976, ou no que abriu esta postagem, do menino de 1973. A perda de espaço visual entre a superfície da tela e o fundo, tornando cada tela num verdadeiro ícone, foi sendo estabelecida aos poucos ´durante a década de 1970.
Caminhantes, 1969
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela
Coleção Gilberto Chateaubriand
A obra de Reynaldo Fonseca merece um estudo detalhado. Ele é um dos nossos grandes pintores do século XX. Não se deixou influenciar por modismos. Traçou seu caminho e não se desviou. Criou uma linguagem própria e seu próprio espaço. Tem muitos discípulos que aos poucos trabalham seus próprios caminhos. Sua influência é clara e tenho certeza que será marcante no futuro. Obras como as dele não morrem. Estão sempre refletindo nossos próprios segredos, elas nos lembram daquilo que não conseguimos entender mas sabemos existir. Reynaldo Fonseca nos presenteia com um misto de metafísica e surrealismo, numa linguagem autêntica, própria a ele mesmo e nos toca porque sabemos que ele também perscruta o universo à procura das respostas do mundo que lhe fogem.

Figura com máscara e cachorrinho, 1970
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
.óleo sobre tela, 100 x 73 cm
Mulher com máscara e leque, 2009
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 80 x 60 cm

Figura feminina com máscara, 2002
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
pastel sobre papel, 70 x 50 cm

Mulher com máscara
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre papel, 70 x 50 cm

Homem mascarado, 1972
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre placa de madeira industrializada, 16 x 22 cm

Mãe e filha mascarada com espelho, 1997
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 101 x 82 cm