Tymon Niesiolowski (Polônia, 1882-1965)
óleo sobre tela, 56 x 62 cm
A longa jornada da noite, ilustração de Christie Henry.
Nasci no Bailundo, você não conhece, o Bailundo é um segredo no mapa da nação. O céu: clara imensidade! O azul de um azul que não existe em mais lugar nenhum. O azul do céu no Bailundo — costumava dizer-nos o padre Cotovia — é o mesmo do princípio do mundo. Às vezes sonho com o céu do Bailundo, brilhante e molhado, e então me transformo em pássaro e voo. Acordo e canto como um pássaro. Fico igual a Pintada. Nessas alturas consigo falar com ela em passarês do mato. Tem muito verde lá, paus de toda a espécie, os nomes eu nem sei, mas sempre sons bem doces porque o umbundo é a língua que os anjos usam para namorar — também era o padre Cotovia quem falava isso, deve ser verdade. Luanda, mal comparada com o Bailundo, é tipo um peixe seco junto a um peixe vivo. No Bailundo a vida é muito cheia de brilhos, veste roupa de carnaval, espelhinhos, miçangas ao pescoço, chocalhos no calcanhar, e sempre seja noite ou dia, sempre a dançar. Mas eu não tive sorte. A mamã pisou uma mina, não dessas de explodir e mutilar, arranca pé, arranca perna, não, paizinho, não dessas, uma mina de feitiço, ouviu falar?, nunca?!, são uma arte nossa, armas tradicionais, a mamã pisou a mina quando estava grávida, e a mina me atingiu foi a mim no silêncio macio da barriga dela. Não sou feiticeira, espero que você entenda, sou enfeitiçada, mas isso só soubemos depois, quando eu não cresci. Você duvida? Lá em Portugal não tem feitiço? Em todo o lado tem. …”
Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.273.
Georges Croegaert (França, 1848-1923)
óleo sobre painel de madeira, 27 x 22 cm
Há dias, soube que crianças expostas a barbáries têm problemas de memória, coisa que acontece como consequência de violência doméstica, pobreza, fome, guerra. Crianças refugiadas frequentemente apresentam esse trauma. Sei também que a memória, mesmo que a pessoa não tenha sido exposta aos horrores descritos acima, consegue ser seletiva. Muitas vezes a memória esconde o que não se quer saber. Isso, às vezes, é o que acontece com pessoas que consideramos ingênuas. Seus mecanismos de sobrevivência não as deixam ver por trás da cortina de fumaça que o cérebro desenvolveu para viver em paz. Foi por esse ângulo que interpretei a incrível ingenuidade de Odran Yates, padre irlandês, protagonista de Uma história de solidão.
Esta é uma história sobre a construção da nossa própria história, da nossa imagem. O que escolhemos esquecer ou lembrar ao construirmos a nossa biografia? Odran Yates foi levado ao sacerdócio por sua mãe. Até o passado recente não fugia ao normal que famílias católicas dedicassem um de seus filhos — sem considerar as propensões individuais — à Igreja. Mas Odran Yates não vê um problema nisso. Depois de testemunhar um ato de violência em sua própria família, acaba por se convencer de que a vida sacerdotal lhe caía bem. Tornou-se padre da igreja católica, na Irlanda, cheio de esperança e ambição. Gostava de ser professor no Terenure College, e de cuidar com esmero da biblioteca do local. A vida era confortável, mas melhor ainda, ele se sentia útil. A narrativa cobre desde sua chegada ao seminário na década de 1970 ao ano de 2013. Tudo começa a mudar quando Odran Yates se depara com a força brutal do colapso da igreja católica irlandesa, quando casos de abuso sexual são revelados.
Quando é mandado para uma paróquia onde o amigo e colega seminarista, Tom Cardle, havia sido padre e começa a perceber que o mundo idealizado que ele criara para si, não existia. Quanto ele havia ignorado propositadamente para manter seu próprio conforto emocional? Confrontado com o passado, reconhece eventualmente sua participação nos crimes de seu amigo, porque não tomou a atitude correta, por ter sido permissivo com seu silêncio e vontade de não ver problemas onde eles existiam. Quarenta anos depois de sua entrada no seminário, Odran Yates, um padre honrado, vê seu amigo e companheiro seminarista ser julgado, seus colegas mandados à prisão e a vida de muitos de seus paroquianos destruída pelas revelações de abuso sexual pelo clero.
John Boyne
Este foi meu primeiro livro de John Boyne. Fiquei feliz de encontrar nele um escritor sério, cuja voz narrativa segura o leitor através do texto. Sua escrita é cuidada. Usa a sutileza de maneira incisiva para tratar de assuntos difíceis e desagradáveis. Ocasionalmente seu texto é repetitivo, principalmente aquele que lança a isca para acontecimentos futuros. Mas no todo, esta é uma excelente leitura.
Retrato de Paulina Viola de Boer, 1944
Hans van Meegeren (Holanda, 1889 -1947)
óleo sobre tela, 115 x 117 cm
Mark Twain